Teus Olhos Meus
28 XXVII — Conforto.
Notas iniciais
ANTÔNIO
Tudo em que eu conseguia pensar neste momento é em uma alternativa para cancelar esse jantar. Com o eu apresentaria Marcos nessas circunstâncias para minha mãe? Ela com toda certeza do mundo perceberia um desconforto anormal, você sabe, mãe é mãe. O maior problema é que o jantar é em poucas horas e mal consegui falar com meu namorado depois do restaurante.
E foi assim que passei o resto da manhã: dando aula desconcentrado por estar extremamente ansioso com a situação.
Como minha última aula era um horário antes a que a do Marcos, fiquei sentado de frente para o Restaurante Universitário. O prédio ficava do outro lado do nosso bloco, o Instituto de Ciências Exatas e da Terra. Ficar esperando ali me permitiria vê-lo ao sair.
Quando notei que a fila do R.U. começou a encher, levantei-me e tirei os óculos. Fiquei tentando localizar meu namorado, mas fora em vão. Retirei o celular do bolso e comecei digitar uma mensagem de texto.
Distraído fui surpreendido por algum objeto metálico encostando em minha cintura. Faltou-me o ar para respirar.
— Quanto você está disposto a pagar para continuar vivendo? — disse a pessoa que me enconchava.
Não consegui dizer nada.
Apreensivo, tentei dar um passo para frente, não obstante fui impedido por uma mão que me segurava pelo braço.
— Passa o celular e a carteira — eu acho que aquilo foi uma ordem.
Mas havia algo de estranho naquela voz, era forçada.
Dei uma cotovelada em sua costela e consegui me soltar. Me afastei rogando aos meus orixás que eu não levasse um tiro nas costas e logo me virei. Pelo menos o tiro vai ser na cara.
MAS QUE PORRA É ESSA?
— Vocês?! — bradei confuso. — Alguém pode me dizer o que está acontecendo aqui?
— O professor estava ai todo distraído, não podíamos perder a oportunidade — explicou Caio.
— Quanta intimidade — tentei me recompor.
— Agora somos da mesma família, esqueceu? — ele retrucou.
— Impossível esquecer — infortunadamente.
Cruzei os braços e comecei a encarar meu namorado esperando que tivesse alguma reação. Nós três ficamos nos entreolhando por algum instante, mas ninguém disse nada. Eu tinha mais a fazer.
— Tchau Caio.
Comecei a andar em direção ao meu carro sem me importar se estava sendo seguido ou não por Marcos.
Joguei minhas coisas no banco de trás, conectei o celular ao ao painel do carro e selecionei a playlist “músicas para ouvir quando a vontade de morrer aparecer.”. Meu aluno me olhou assustado e depois de antigripal hesitar três vezes a fala, me questionou.
— Está tudo bem?
— Por que não estaria? — ele não respondeu, então, insisti. — Tem algum motivo?
— Não.
[...]
Em meu apartamento, disse pra ficar à vontade, como sempre e fui pra piscina esfriar a cabeça, mesmo com o frio que estava a fazer naquele momento. Aquilo realmente iria me fazer melhor. Estar sobre a água era como ganhar um ingresso grátis para o parque de diversão novo da cidade.
Não sei por quanto tempo fiquei ali em introspecção, só reparei que ainda tinha uma via quando notei Marcos aproximando lentamente da borda da piscina.
— Acho melhor você entrar e tomar um banho quente — ele apontou com dedo em direção pra dentro de casa. — E um antigripal também.
— E por que eu deveria fazer isso? — questionei sem sair da posição em que me encontrava.
— Porque eu me preocupo com você, essa água deve estar prestes a congelar.
— Emagrece — caçoei.
— Gosto do seu corpo exatamente do jeito que ele é.
— Mas quem tem que gostar dele sou eu.
— Olha, quer saber, não sou obrigado a ficar aqui sendo tratado desse jeito — ele se virou. — Diga pra sua família que eu morri.
Ao vê-lo caminhando em direção a porta, saí da piscina o mais rápido que eu pude e o agarrei pela cintura.
Como era bom sentir o calor do seu corpo.
— Me perdoa, não deveria ter agido assim.
— Não mesmo.
— Eu só estava incerto e… com medo.
— Medo do Caio? Can che abbaia non morde.
— Fala italiano desde quando? — a vida ´r uma caixinha de surpresas.
— Minha nonna veio de Florença ainda pequena, pode imaginar como foi a nossa criação. — Ele soltou-se do meu abraço e me conduziu até dentro do banheiro e falou pra eu me aquecer.
Entrei embaixo da água quente e ele continuou a falar,
— Amor, se você soubesse as coisas que o Caio me disse quando consegui isso aqui — Marcos esticou a mão e notei os hematomas.
— O que aconteceu?
— Não importa.
— Importa sim, e muito, ainda mais se for por minha causa.
— Se insiste… Foi por raiva de você sim — senti meu coração gelar ao ouvir aquilo.
Fechei o registro, peguei um robe e sentamos na cama para continuar o assunto.
— Você foi muito duro comigo.
— Reconheço que talvez eu tenha exagerado um pouquinho — Ele revirou os olhos. — Ok, talvez eu tenha exagerado um pouco demais.
— Fui embora extremamente chateado e descontei a raiva no espelho do banheiro.
— Promete que nunca mais vai ferir a você mesmo? E que se tiver chateado com algo em relação a mim vai me contar o mais breve em que puder?
— Contanto que faça o mesmo — ele abaixou os olhos.
Coloquei uma das mãos em seu rosto e acariciei. Levantei seu queixo e seus olhos encontraram os meus. Dando-me um sorriso, ele me beijou. Pressionou minha cintura com uma força que eu não sabia que ele possuía. Meus dedos foram entre os fios finos de seu cabelo. Marcos desceu as mãos à minha nádega. Retirei o robe e ele desceu a mão até conseguir me tocar. Tremi.
Tirei sua blusa e o deitei na cama. Minha mão começou a passear pelo seu tronco, até que então, comecei a desce-la lentamente até o cós de sua bermuda. Minha mão brincava pelos limites de seu membro que estava visivelmente pulsante. O encarei e ele me beijou, outra vez. Minha mão introduziu sua cueca e passei a mão pelos seus pelos aparados até chegar em seu membro.
Tomando em mãos, o retirei das vestes que ainda o cobria e notei sua lubrificação. Peguei o primeiro preservativo que vi no criado mudo e coloquei em meu namorado. Ele se ajeitou na cama e me posicionei em cima de seu corpo naturalmente quente. Senti seu membro me penetrar e comecei a fazer movimentos circulares com o quadril. Ele pegou uma das minhas mãos e levou até sua boca. Enquanto eu gemia sentindo a dor se transformar em prazer ele mordiscava meu dedo. Belisquei seu mamilo com a outra mão e ele revirou os olhos de prazer. Marcos colocou a mão em meu pescoço e eu sabia o que estava prestes a acontecer. Intensifiquei o movimento com o quadril. Troquei os movimentos circulares por um movimento acelerado pra cima e para baixo e… Ele sentou na cama sem sair de dentro de mim, me beijou e logo em seguida me derrubou na cama. Ajoelhou-se perante a mim, tirou o preservativo e começou a se tocar até eu sentir jatos quentes tocarem a minha barriga.
Ele continuou tocando meu membro até que eu também pudesse chegar em êxtase e assim que aconteceu ele me abraçou e descansou a cabeça em meu ombro.
Ficamos ali recuperando o fôlego até que Vênus, a minha gata, pulou na cama nos assustando.
Meow.
Olhei para o relógio, era hora de sua ração. Catei meu celular que estava jogado no chão, abri o aplicativo da alimentadora eletrônica e despejei mais um pouco de ração. Ela ao ouvir o barulho, saiu desfilando com a cauda levantada.
— Essa gata alimenta melhor a que eu.
— O sol sempre brilha no mundo dos ricos — debochei,
Sem responder mais nada, ele beijou-me mais uma vez, mas o afastei.
— Me desculpa?
— Claro.
Agora foi u que aproximou nossos lábios.
— Mas espero que não ficamos fazendo esses sexo de reconciliação, é péssimo para o relacionamento.
— É, por mais que seja bom descontar a tensão no sexo… Não podemos ficar relacionando esse momento prazeroso com motivos pra passar um pano em tudo.
— Que briguemos menos e transemos mais.
Ele entendeu o recado e começamos a transar novamente.
Durante nossa relação, meu celular começou a vibrar em cima da cama.
— Olhe, pode ser importante — sugeriu Marcos.
Era minha irmã, atendi tentando manter a respiração normal.
“Alô?”
“Tony, estamos chegando na cidade, quer que passe no mercado pra comprar alguma coisa?”
“Acho que não vai precisar, tenho tudo aqui.”
“Já já estaremos ai.”
“Te vejo daqui a pouco.”
Desliguei, conferi as horas e tirei meu namorado de cima de mim.
— É melhor nos banharmos, já está ficando tarde — o beijei. — Preciso começar a cozinhar.
Fomos para o banheiro juntos e, pela primeira vez, conseguimos tomar banhos juntos sem uma ereção surgir.
Quando já estávamos prontos, perguntei ao meu namorado se ele queria ajudar, mas ele insistiu em só assistir. “Sou um desastre na cozinha”, ele disse e eu não insisti.
O ruim de receber visita em casa quando se é vegetariano é que você fica sem jeito, não sabe o que fazer, já que cada um tem um paladar diferente. Mas dessa vez a visita eram meus familiares mais próximos, eu já sabia muito bem o que não os agradavam. Surpresa seria pra mim ver Marcos comendo uma lasanha de hambúrguer de legumes vengana.
Com prática na cozinha, cozinhava sem pressa.
— Amor? — o chamei.
— Será que pode pelo menos montar a mesa pra mim?
— Eu não sei montar, mas posso tentar.
— Eu te auxílio se quiser.
Expliquei a posição dos talheres, dos copos e dos pratos e ele fez com capricho.
Assim que ajeitou o último guardanapo, ouvimos o interfone tocar.
— Chegaram — disse.
— Minha barriga percebeu, acho que vou correr para o banheiro.
— Deixa de besteira, eles vão te amar.
Fui os buscar na portaria, ri o caminho inteiro tentando imaginar o que se passava na cabeça de meu aluno neste exato momento.
Os abracei, peguei as malas que estavam nos braços de minha mãe, perguntei se haviam feito uma boa viagem e os conduzi até o elevador. Ao chegar na porta de casa, minha mãe me questionou.
— Ele vai demorar muito pra chegar?
A ignorei e abri a porta do apartamento.
— Ele já está aqui — apontei.
E lá estava Marcos, mais branco a que quando demos nosso primeiro beijo. Trêmulo.
Fechei a porta e fui colocar as malas junto da minha irmã no quarto de hóspedes.
— Que feitiço vocês fez pra amarrar esse deus grego? — ela questionou.
— Foi essa bunda aqui que o amarrou — ri.
— SEU RIDÍCULO — ela fez uma expressão de nojo.
— Se viu no espelho querida? — Retruquei.
— Acho melhor voltarmos pra sala.
Concordei.
Ela pulou em minhas costas e a carreguei até lá, a despejando no sofá.
Fui para a cozinha pra ver se já estava no ponto, mas ainda faltava um pouco.
— Mãe! Vai com calma com seu interrogatório, não vai matar o pobre do garoto.
— Eu só estava…
— Está tudo bem… amor. — Ele me olhou corado, tentando ver se estava tudo bem ele me chamar assim na frente de minha mãe. — Ela não estava perguntando nada demais.
— Imagino, conheço a peça — sentei ao seu lado e peguei suas mãos.
Ficamos sentados ali conversando. O papo fluía e eu conseguia ver que Marcos estava se sentindo confortável.
Quando o celular vibrou em meu bolso, eu sabia que era o despertador avisando que havia dado o tempo de cozimento. Pedi licença e fui até a cozinha conferir. Estava pronto. Os chamei para jantar enquanto trazia as panelas para a mesa.
Durante todo o jantar, eles não paravam de conversar e eu, observa aquilo orgulhoso. Emocionado.
Ao acabar de comer, perguntei se queriam sobremesa e todos disseram que sim.
Fui buscar o manjar de coco com ameixas e deixei bem claro.
— Amor, já que não ajudou a cozinhar a louça suja é sua.
— Tudo bem — ele concordou com um sorriso.
— Deixa de ser cruel meu filho, você tem uma lavadora elétrica.
— Deixa Maria, estou acostumado com esses maus tratos — ele fitou-me os olhos.
— Ai de Antônio se o deixar encostar em uma bucha.
Gargalhei em desdem.
Enquanto saboreávamos o doce, minha irmã contava sobre seu intercâmbio na Alemanha. Ao comentar que queria montar uma família lá, minha mãe resolveu usar da cota de indiscrição que toda mãe tem, mas não deveria ter.
— E seus pais Marcos, por que não vieram jantar conosco? Parecem ser ótimas pessoas, para terem o criado tão bem assim.
— Esse não é um bom assunto mãe — intervi.
— Eles faleceram? — questionou minha mãe.
— Não, mas parece que pra eles eu estou morto — ele deu um gole na água. — Saí de casa recentemente.
— Mas isso tem a ver com o relacionamento de vocês? — minha irmã indagou.
— Não — ele disse. — Talvez indiretamente sim, mas foram outras coisas também.
— Olha meu querido, se quiser que eu converse com sua mãe sobre ela te aceitar, eu farei isso com toda boa vontade do mundo.
— Não é preciso, mas, acho muito difícil que ela te dê ouvidos.
— Não custa tentar.
— Acho melhor eu os encarar primeiro.
— Ótimo.
Coloquei minha mãe sobre a sua, tentando o dar conforto.
— Mas você é assumido? — Minha irmã, indiscreta como sempre… Virginianos.
— Não, pelo menos ainda não.
— Eu acho que chega de… — fui interrompido.
— Se um dia for contar, diga a ela que não foi culpa dela, nem de ninguém. Ela com certeza te deu a melhor criação que pode. E que você não mudou por gostar de homens. Você continua sendo o filho dela. O mesmo. Com os mesmos valores e defeitos. Não há nada de errado com você, meu querido. Você só está sendo quem você é, e é feliz assim. Você deve imaginar que não deve ser fácil pra nenhuma mãe ouvir isso porque, infelizmente, ainda temos a mentalidade de esperar que nosso filho vai casar em uma igreja, nos dar vários netos e tudo mais… — ela fez uma pausa pra reorganizar as ideias. — Conte a ela que você cresceu, que você que toma as rédeas da sua vida agora. Diga a ela que é graças a ELA que você é quem você é hoje e se orgulha muito disso.
Minha mãe colocou as mãos em cima da de nós dois.
— Antes de qualquer opção, me desculpe, de qualquer condição sexual, vocês são pessoas maravilhosas e merecem ser respeitados pelo simples fato de existirem.
— Maria, eu não sei nem o que dizer — Marcos gaguejou ao dizer, em meio ao choro. — Eu sei que ela nunca quis que eu fosse gay, assim como ela queria que eu fosse pra faculdade assim que formasse o ensino médio. Ela nunca quis que eu bebesse, nunca quis que eu morasse fora de casa antes de casar... Como nunca gostou do estilo do corte d meu cabelo... Mas ela poderia ver no que eu me tornei. Por mais que pareça irônico eu ter me tornado tudo aquilo que ela não desejou pra mim, eu acredito em mim dessa forma, me sinto bem assim, me sinto Homem ao lado de Marcos. Me sinto forte suficiente pra vencer toda essa muralha de desafios que eu tenho pela frente.
Agora eu também havia começado a chorar. Ele me deu um beijo no rosto e continuou.
— Mas graças ao extremismo religioso cultivado pelos meus pais, eu jamais serei aceito.
— Da pra ver o quão vocês se ama, e Marcos, tente não se importar muito com o fato de não ter coragem de contar para seus pais por saber que eles não aceitariam — minha irmã limpou a lágrima que escorria pelo rosto do cunhado. — Marcos, é uma pena que alguns ainda não consigam admirar o amor em todas as suas formas. Mas saiba que você será muito acolhido em nossa família.
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