Teus Olhos Meus
14 XIII — Como Pode Ser Gostar de Alguém e Esse Tal Alguém Não Ser Seu?
Notas iniciais
Que prova foi essa que o Antônio aplicou?
Puta que pariu!
Quer me foder, me beija caralho!
PERA.
Não faz isso não, deixa pra lá.
Fazer o que né? Não podia esperar menos daquele bastardo.
Enfim, tudo que eu quero após essa prova é tomar vários gole de uma loira.
Eu estava prestes a pegar o celular quando o senti vibrar. Olhei apressadamente para o visor e o atendi.
— Fala seu veado. — Respondi.
— Já deu esse seu rabo hoje?
— Saí fora, seu merda. — Você está louco? Jamais! — O que está pegando que você me ligou? — Questionei.
— Estou indo pro bar lá da esquina com o povo da arquitetura, bora tomar uma?
— Bora! Já estou descendo pra lá.
Agora vai!
Esse dia vai ser TOP!!!
Não demorou muito e eu já estava tirando o gosto da cerveja com fígado de boi e jiló.
Tem coisa melhor a que tomar uma cerveja trincada observando essas universitárias usando vestidinho de malha justo que deixa bem marcado os peitos e a bunda, com o cabelo jogado para o lado e baita de um batom vermelho? NÃO TEM MANO, NÃO TEM.
Cara, que visão do paraíso que eu estou tendo.
Essa mina vai ser minha pelo menos por dez minutos.
Eu que já não estava prestando atenção na conversa de Caio e seus amigos dei um gole na bebida, levantei ajustando a calça que havia descido ao meu sentar e caminhei em direção à moça escorada no balcão tomando refrigerante de citrus com rum – pelo menos era o que eu supus –.
— Boa tarde. — Sorri.
— Boa. — Ela se afastou dando de ombros.
— Está tudo bem? — Indaguei.
— Já estive melhor. — Ela sugou a bebida pelo canudinho preto.
— Por que está usando canudinho se não está com batom? — Questionei.
— Estou usando sim. — Ela franziu o cenho sem entender.
— Não consigo ver! — Me aproximei fixando o olhar em seus lábios. — Me da um beijo, se ficar marcado é porque você está com batom.
— Engraçadinho igual um balde. — Ela revirou os olhos.
— Não mereço nem um beijinho? — Fiz beiço.
— Merece o quão eu mereço ir para o céu.
— Então mereço vários, você é um anjo.
— Ah moleque, vai-te a merda. — ela balançou a cabeça dando mais um gole. — Espero que você pare de me dirigir a palavra antes que eu tenha que chamar um segurança.
— Está bem, está bem. — Mesmo envergonhado, ainda procurava uma maneira de beijar aquela boca.
Fiquei ali parado em silêncio, afinal, ela não podia exigir que eu saísse do balcão.
Hoje deve haver algum clássico entre Cruzeiro e Atlético. Não é possível. Essa é a única justificativa para este bar encher tão rápido.
Não sou muito de misturar, então pedi a um dos funcionários responsáveis pelo atendimento no balcão mais uma cerveja.
Olhei em direção da dona da boca que estava louco pra beijar e me deparei com um rapaz de cabelos extremamente negros e curtos de costas pra mim.
— Desculpa, mas eu cheguei primeiro. — O cutuquei encostando em sua regata branca.
— Perdão? — O suposto homem se virou revelando uma linda mulher asiática.
— Opa! Tudo bem? — Dei um enorme sorriso.
Se não vai com A, tenho problema nenhum de ir com B.
Cê acha que eu sou besta?
— Estou ótima! — Ela respondeu com uma voz suave. — Mas estaria muito melhor se não tivesse nenhum macho dando em cima da minha namorada.
— Oi? — Sorri sem graça.
— Ah, então quer dizer que agora você não sabe de nada meu camarada? — Ela me fitou com os olhos.
Eu não ia ser intimidado por aquela caminhoneira xing ling.
— É que eu achei que estava faltando alguma coisa. — Ri.
— Como é que é? — A moça franziu o cenho.
— Não falta nada não? — Disse alto e devagar, para que ela pudesse ouvir.
O bar estava cada vez mais movimentado.
— Entendi. — Ela fez uma pausa. — É claro que sentimos falta. Falta de um mundo onde babacas que façam esse tipo de comentário não exista.
— Qual é, estou falando sério meu amor.
— Você não entende nada de sexo, não é possível. — Ela debochou.
— Quer que eu te prove?
— Não, muito obrigada. Até mesmo porque se você fosse pelo menos razoável no sexo saberia que uma porcentagem considerável das mulheres sente mais prazer com as preliminares a que com a penetração em si.
— Vocês não sabem o que estão perdendo. — Respondi dando um gole na cerveja que já começara a esquentar.
— Por que você diz isso, já experimentou um homem pra saber se é bom? É por isso que você é hétero, né? Experimentou um pau e não gostou...
Fiquei tão perdido nos pensamentos que peguei a latinha que havia comprado há pouco e saí daquele bar sem ao menos me despedir de Caio.
Meu mundo caiu.
Por que ela disse isso?
Será que Antônio andou espalhando alguma coisa?
Ele não tem como provar nada, então, é só desmentir.
Sem rumo, fui andando até uma praça há algumas quadras da minha casa e comprei mais uma lata com um vendedor ambulante. E mais uma. E mais uma. E mais uma...
Não sei exatamente quanto tempo fiquei ali sentado tentando entender tudo que se passava pela minha mente.
Por impulso peguei meu celular e digitei um número que sabia de cor.
Não hesitei em apertar no discar.
Também não hesitei no desligar.
Que diabos eu estava fazendo?!
E agora? O que você vai fazer que essa merda está retornando a ligação?
Ignorar vai ser pior.
Ajoelhou, agora reza.
— Alô. — Esforçando-me ao máximo para manter a voz firme, mesmo com a quantidade de álcool ingerida, disse.
— Aconteceu... — Antônio murmurou, mas meu pensamento estava distante. Não prestei muito atenção no que ele disse.
— Que? — franzi o cenho tentando entender.
— Foi você que me ligou do nada. — Ele debochou. — Aconteceu alguma coisa?
— Preciso conversar com você. — Minha voz tremeu um pouco. Talvez muito.
— É sobre alguma matéria? Se for acho melhor esperar até o próximo dia em que estarei na universidade. — Antônio parecia estar convicto do que estava falando.
— Se fosse isso eu teria usado a biblioteca. Ou o Google, provavelmente. — Disse tentando parecer engraçado, mas pelo suspiro que Antônio dera tive a certeza que se teve uma coisa que eu não fui, essa coisa era engraçado. — É sério. Preciso falar com você.
— Então fale. — Ele sugeriu.
— Teria que ser pessoalmente.
— Eu não estou entendendo onde você quer chegar.
— Pode vir a Praça Nossa Senhora das Dores?
— Todas as praças com nomes religiosos foram trocados, esqueceu? Vivemos em um país laico. Faço mínima ideia de onde você está falando.
— É a que tem uma cascata com alguns patos. — Expliquei.
— Estarei lá, ou aí, sei lá, em alguns minutos.
— Obrigado.
— Espero que valha a pena. Tchau.
Não preciso nem dizer que estou extremamente irritado por ter feito este convite, não é mesmo?
Enquanto eu esperava meu professor chegar, fazia vários discursos mentalmente o acusando pra ver se ele assumia a culpa.
Quem nunca jogou verde pra ver se colhia maduro, não é mesmo?
Assim que vi Antônio a estacionar seu carro preto senti uma queimação na garganta.
Sem demonstrar nenhuma feição — como ele sempre fazia -, meu professor caminhou em minha direção. Naquele momento eu já estava tão bêbado que não conseguia dizer a sua velocidade, muito menos quanto tempo que ele levou pra chegar até o banco onde eu estava sentado.
— Boa tarde. — Ele esboçou um sorriso que não demorara muito pra sumir.
— Boa noite. — Ainda não havia dado seis da tarde, mas no nervosismo que eu me encontrava naquele instante, isso pouco importou.
— O que aconteceu? Está tudo bem com você? — Ele se mantinha indiferente.
— Eu sumo, te trato mal pra caramba, fico fazendo cara de nojo quando te vejo e você ainda me trata com toda essa educação? — solucei.
— Quieto. Isso pouco importa! Só quero saber porque me ligou afirmando que precisava conversar pessoalmente.
— Quero que diga olhando nos meus olhos que não foi você que espalhou por aí aquilo. — pestanejei na hora de me explicar. — Eu não acredito que você teve coragem de fazer isso.
— Olha, não me arrasa não! — Ele franziu o cenho, pensativo. — Eu não faço a mínima ideia do que você está falando.
— Você está falando sério? — Questionei.
— Já menti pra você?
Dei de ombros e não me preocupei em responder.
Fui dar mais um gole em minha cerveja e ele me impediu. Essa atitude me fez ficar vermelho de ódio. Porra! Deixa eu beber em paz.
— Antes de continuar enchendo a cara me diz tudo que o motivou a achar que eu saí por ai beijando meu aluno no carro.
Enquanto ele falava, eu não resisti em manter o olhar fixo em seus lábios grossos e carnudos. O movimento sincronizados que eles faziam era tão hipnotizante que mal pude conter a...
ESPERA!
EU ESTOU ARREPIADO POR CAUSA DE ANTÔNIO?!
Não acredito nisso.
Se me perguntarem por aí vou dizer que é apenas uma brisa que passou pelo meu pescoço.
Quando percebi que ele esperava uma resposta, mudei o ponto onde estava a fixar o meu olhar e contei tudo que aconteceu desde o momento que saí da sala de aula até o momento que resolvi ligar.
Ele ouvia interessado, mas às vezes parecia querer me bater.
Eu sabia disso porque ele sempre mordia a língua e contraía os lábios quando estava com desejo de falar algo, mas sabia que era melhor continuar calado.
Ao acabar de por todas as cartas sobre a mesa ele passou uma das mãos na testa e bocejou. Não resistiu a dar uma gargalhada e bater uma palma no final se conter.
— Eu daria tudo pra ver a moça te dando essa tirada.
— Não mexa com as lésbicas, perigosas. — Eu ri.
— Vai trouxa! Continua nesse discurso babaca seu que vai apodrecer na cadeia. Homofobia e assedio não tem fiança, esqueceu?
— Eu faço engenharia, não advocacia. — Expliquei.
— Você faz parte de uma geração que deveria muito saber dos seus deveres, uma vez que tanto lutou tanto pelos direitos. — Ele me fitou os olhos me deixando constrangido.
— Por que você não vai se foder? — Indaguei.
— Você já está fazendo isso com a minha mente desde o primeiro momento em que te vi. — Ele sussurrou, mesmo assim consegui entender.
Deixei pra lá. Não queria me sentir culpado. Mesmo já estar me sentindo.
— Eu te chamo aqui pra conversar sério e tu vens falar de política? — Dei de ombros.
Ele fez o mesmo e me ignorou.
— Se o que você quer saber é se fui eu quem supostamente espalhei, não foi. — Ele se levantou. — No mais, estou indo embora e espero que não me procure mais pra conversar.
— Por quê? — Perguntei aflito.
— Acho melhor mantermos a relação apenas aluno e professor. — Ele fez uma pausa parecendo buscar palavras. — Vivemos em mundos diferentes e você não está pronto pra vivermos no mesmo.
Ele começou a andar.
Depois de ele dar uns três passos, fui atrás trocando as pernas e o puxei pela cintura.
— Não me faças imaginar um mundo onde eu não possa ser presenteado com o seu sorriso. — SIM! Eu amo o sorriso que Antônio tem, mesmo quando ele está a tirar sarro de mim sua risada me leva para o paraíso.
Antônio me olhou aflito sem saber o que dizer.
Sem me preocupar com o fato de estarmos em lugar público, muito menos se havia pessoas nos olhando o puxei cada vez mais perto do meu corpo. Naquele instante eu já podia sentir o calor de sua respiração e seu cheiro de café que eu tanto gosto.
Percebi o espanto em seus olhos e tive certeza que ele não seria capaz de tomar nenhuma atitude naquele momento.
Inclinei minha cabeça para frente levando minha boca em direção da de meu professor e senti o incrível sabor de seus lábios. Ele não resistiu e logo retribuiu. Minhas mãos em sua cintura contraiu seu corpo contra os meus, me deixando cada vez com mais desejo de sua boca.
Quando finalmente perdemos o fôlego não me contive.
— Eu quis te culpar por um desejo meu. — Fui sincero, mesmo sabendo que provavelmente me arrependeria disso depois de sobreo.
— Então agora você assume? — Antônio não esboçou nenhuma expressão.
— Você podia me perdoar. Dar-me outra chance. — Quase implorei.
— Eu não quero mais ser vilipendiado por uma alma sebosa como você, maldito.
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