Tetris

9 Talvez fosse a dança.


O mundo parou.

Tudo ao redor sumiu.

O que existia era apenas aqueles braços em volta de mim.

Esqueci que meus problemas existiam. Esqueci quem eu era. Esqueci qualquer coisa que fosse esquecível.

Eu passava a mão no cabelo curto dele, indo do topo da cabeça à nuca, enquanto ele me puxava contra o corpo dele.

Nossas línguas se acariciavam enquanto nossos lábios se esfregavam de um lado para o outro. Eu sentia a respiração dele na minha pele enquanto nossas cabeças trocavam de lado num beijo cheio de tesão.

Meu corpo se esticava involuntariamente nos braços dele. Eu estava beijando com a boca, mas a sensação corria pelo corpo todo! Sentia nos braços, nas pernas, nas pontas dos dedos, na barriga, nos mamilos, nas costas e, principalmente, no pau.

Meu pinto nunca havia ficado tão duro. Eu achei que ia explodir! Fiquei até com medo de nunca mais descer de novo...

O perfume do cara era muito bom e só melhorava o clima. Coloquei minhas mãos nas costas dele, por baixo dos braços dele e passei alisei aquele corpo perfeito.

Boatos dizem que eu fiquei apenas alguns minutos ali, enroscado com aquele deus grego, mas, para mim, foram décadas. Cada segundo parecia despertar uma nova sensação, mais maravilhosa e indescritível que a anterior.

Depois que "cansamos" de nos beijar (isso é, se é possível cansar daquilo!), afastamos os lábios, mas não muito.

– Lindo. — Ele disse.

Eu senti o ar saindo da boca dele quando ele disse isso e fiquei com mais tesão ainda. Não me segurei. Meti a língua na boca dele de novo e lá se foram mais alguns milênios...

Depois, paramos de nos beijar e ficamos com os narizes encostados, de olhos fechados. Ele tirou as mãos da minha bunda e, esfregando-as pela minha cintura, segurou minhas mãos, na altura de nossas coxas. Terminamos a "conversa" enquanto ele me dava alguns selinhos.

– Como você se chama? — Ele perguntou. Selinho.

– Rafael... — Selinho. — E você?

– Fábio. — Selinho. — Você está sozinho?

– Não. — Selinho. — Vim com amigos.

– Ah, beleza...

Ele me deu mais um beijo, mas esse foi rápido mesmo.

– Gostei de você. — Ele falou, sorrindo.

Ele se afastou e, ainda sorrindo com aqueles dentes impecáveis, passou a mão nos meus cabelos, atrás da minha cabeça e se despediu:

– Boa diversão. A noite só está começando.

Me deu mais um selinho, pegou o copo dele e saiu do bar, em meio à multidão.

Eu fiquei ali, parado. Não sei exatamente por quê.

Era uma mistura de sensações que corriam dentro de mim ao mesmo tempo.

Era o tesão animalesco que eu não sabia que era humanamente possível de sentir. Era a felicidade por ter conseguido ficar com um cara maravilhoso. Era a alegria de ter tido um primeiro beijo perfeito. Era a segurança de ter expressado minha verdadeira sexualidade, pela primeira vez, em um ato sexual com outra pessoa. Era a sensação de se sentir desejado. Era o orgulho de ter tido coragem de ir à Tetris com desconhecidos.

Era tudo isso junto e mais um pouco que eu não conseguia definir. Tudo o que eu consegui fazer foi pegar o meu copo e levar à boca.

Bebi o drink como se fosse água no deserto. Nem senti o sabor, apenas percebi que o copo estava vazio na minha mão em questão de segundos.

Aos poucos, fui saindo do estado de choque em que eu estava e voltando à realidade.

Luzes amarelas. Pessoas. Bar. Pessoas. Música alta. Pessoas. Álcool. Pessoas.

Eu estava me sentindo outra pessoa. De verdade. Como se, pela primeira vez, todas aquelas inseguranças que eu sempre tive houvessem simplesmente desaparecido. Sentia que podia ser eu mesmo. Sentia que podia ser amigo de qualquer uma daquelas pessoas. Sentia que podia pegar qualquer cara daquele lugar. Senti que qualquer cara daquele lugar iria querer me pegar. Senti que podia ter o emprego que quisesse e que seria o melhor nele. Senti que eu era foda e, de fato, sabia que eu era.

Comecei a andar pelo local procurando pelos meninos. Meu pau estava totalmente duro ainda e, acada vez que eu via dois homens se pegando, ele subia mais ainda.

Eu ficava até feliz em ver dois garotos de quinze anos se afogando um na boca do outro. Sem medo de serem gays, sem medo de serem jovens, sem medo de nada. Ali era o local deles e eles estavam vivendo ao máximo as suas vidas.

Me senti grato por existirem locais como aquele que abrigavam LGBTs e, mesmo que num espaço restrito, se tornava um universo no qual as pessoas podiam ser elas mesmas. Tirar as máscaras sobre as quais vivam escondidas todas as horas de todos os dias.

De repente, pegaram no meu braço.

– Vamos, Rafa, o show já vai começar!!!

Era o Léo, que me achou perdido no meio da galera. Junto com ele estavam os outros meninos e nós cinco fomos andando de mãos dadas entre as pessoas. Não demorou para chegarmos perto de um palco com uma passarela na frente. Eu não havia percebido esse palco antes. Ele ficava um pouco abaixo da mesa onde estava o DJ.

– E aí? — O Léo perguntou.

– E aí o quê?

Eu respondi olhando o palco, que estava enfeitado com muito brilho. Quando olhei para o Léo, percebi que os quatro estavam com a atenção voltada para mim.

– O quê?! O Dani falou pra gente!!!

Senti o sangue subindo na cara. Eu devia estar mais vermelho que a purpurina do palco.

– Eu tive até que sair de lá porque percebi que eu ia sobrar! — O Dani comentou.

Todos riram e, antes que terminassem suas risadas, o Vitor apontou para mim e falou:

– Ele está morrendo de vergonha!!!

A gargalhada dos quatro só aumentou. Proporcionalmente, minha vontade de me enfiar num buraco na terra e nunca mais sair também.

– Que bom que você pegou um cara. Quem sabe assim você não se solta mais? — O Léo comentou. — Mas e então, ele era bonito?

Eu queria dizer que ele era lindo, tesudo, gostoso, maravilhoso, tudo de bom, incrível, um deus grego, um macho alfa, o amor da minha vida. Mas tudo o que consegui dizer foi:

– Ah, era bonitinho...

A vergonha não me deixou falar nada além disso.

– Bonitinho?!!! — O Dani se surpreendeu com a resposta. — Bonitinho sou eu, querido, naquele ali eu caía de boca sem pensar duas vezes!

– Era gato? — O Henrique perguntou ao Dani.

– Gato?! Isso é quase um insulto! O boy era tudo!!!

– Arrasou! — O Henrique falou pra mim, me deixando ainda mais com vergonha.

Do nada, as luzes cor-de-rosa e azuis do local diminuíram. A galera gritou, animada. Apenas um rastro de luz definia os contornos das cabeças das pessoas.

TARAN!!!

Uma luz se acendeu à esquerda do palco.

TARAN!

Uma luz se acendeu à direita do palco.

TAN-TAN-TAN-TAN!

Quatro letras brilhantes em vermelho dominaram o palco. No ritmo das batidas, as letras anunciaram a artista que viria.

As luzes cor-de-rosa se acenderam novamente, junto com um borrão de glitter que começou a subir do chão do palco. Tudo o que eu consegui distinguir era uma pluma branca na cabeça. As pessoas gritavam e iam ao delírio, elogiando com palavras como "diva", "poderosa", "rainha"...

Uma luz branca mais forte se acendeu e consegui ver melhor. Era a drag queen que faria show naquela noite: Zuzu.

Ela estava com um vestido longo cheio de lantejoulas vermelhas, combinando com o letreiro que levava seu nome. A pena branca da cabeça combinava com as luvas brancas que cobriam seis oitavos do braço.

O salto dela era absurdamente grande. Os cabelos escuros e cacheados se misturavam com um pompom gigante, branco, que ela trazia no pescoço. A maquiagem não tinha um borrão sequer e era muito expressiva. Com sobrancelha desenhada, cílios gigantescos, batom bem vivo e pele impecável.

Ela começou a cantar uma música que eu não conhecia, fazendo a alegria dos viados que estavam ali. A canção era lenta no começo, então ela não se movia muito. Até que, em certo ponto, a música ficava agitada e ela começava a dançar.

Entraram dançarinos no palco três de cada lado, para acompanhá-la. Eles vestiam calças jeans rasgadas, apenas. Eram homens lindos e musculosos que estavam acompanhando a rainha da noite.

Os quatro meninos deliravam junto com a platéia. Eu não conhecia a Zuzu, muito menos a música, mas não podia deixar de reconhecer que todo aquele espetáculo era muito bem feito.

As cores das luzes eram muito bem pensadas e combinavam bem (sou designer, reparo nisso fácil). Os dançarinos faziam uma coreografia complicadíssima em perfeita sincronia entre eles e a Zuzu. Ela, além de cantar e fazer a coreografia com aquele salto gigantesco, ainda sorria e jogava pedaços de papel brilhante ao público.

Depois que a primeira música terminou, ela agradeceu ao pessoal. Fez algumas piadas, falou sobre algum pastor de igreja que havia falado merda sobre homossexualidade naquela semana e engatou outra performance.

Os meninos saíram de perto do palco porque já haviam visto um pouco do que queriam e eu fui junto. Paramos no centro da pista de dança, onde estava menos apertado (a galera se espremia pra ver a Zuzu lá no palco).

Ficamos dançando e fazendo nada. Os meninos bebendo e trocando olhares com outros caras.

Eu olhava para um lado e via duas meninas se beijando. Olhava para outro canto e via um grupo de travestis rindo de casos da vida. Olhava para outra direção e via um casal de héteros que não deviam ter mais dezessete anos dançando coladinho, de mãos dadas. Olhava para o palco e via a Zuzu, toda empenhada na performance.

Me senti confortável naquele ambiente. Me senti aceito, incluído. Ali não havia "amor certo" e "amor errado". Havia apenas tolerância a aceitação. E drag queen. E álcool. E tesão. E música alta. Mas, acima de tudo, tolerância.

Olhando ao redor, vi um garoto mais novo que eu dançando com uns dois amigos. Ele devia ter a idade do Léo ou do Dani. Estava dançando como se o mundo fosse acabar naquele dia e não se importava com mais nada. Estava de olhos fechados, rebolando o corpo todo com um sorriso lindo no rosto.

Ele estava com uma camisa regata branca, bem justa no corpo e calças escuras também apertadas. O cabelo dele parecia ser claro, cacheado. Era raspado dos lado e maior em cima. Um brilho no queixo dele me informou que ele tinha um piercing ali.

Ele com certeza me chamou atenção. Percebi que parei de olhar em volta e fiquei olhando para ele. A dança dele estava me hipnotizando, principalmente quando ele mexia a cintura sem medo de ser feliz.

Olhei para os meninos que estavam comigo. Estavam na deles, curtindo a música e o drink.

Quando voltei a olhar para o garoto, ele estava olhando para mim. Dessa vez, não fiquei com vergonha nem medo. Simplesmente retribui o olhar. Ele sorriu, fechou os olhos e continuou rebolando livremente.

Continuei olhando. O corpo dele era lindo e ficava melhor ainda dançando daquele jeito. A roupa apertada deixava tudo muito mais sexy. Meu pau já estava duro e estava latejando ao ver aquele garoto.

Ele abriu os olhos e olhou para mim de novo. Dessa vez, já abriu os olhos sorrindo. Virou o corpo na minha direção e continuou dançando.

Eu pensei, mas não sabia se teria coragem. Não saberia como reagir. Olhei de novo para o menino. Ele era muito lindo, mas do que os outros caras que estavam ali. Sei lá, ele tinha alguma coisa que me fazia olhar pra ele. Talvez fosse a dança.

Sabia que não tinha experiência em ficar com caras. Poxa, eu havia perdido meu "bv gay" há pouco mais de meia hora. Não saberia como reagir, ou o que fazer. Eu não tinha drinks na mão como o Fábio e não daria para ir pegar no bar.

Mas, apesar disso, algo em mim me dizia "vá em frente". Sim, eu sabia que essa voz era fruto da minha alta autoestima por ter ficado com um cara pela primeira vez. Eu sabia que estava me achando mais do que eu era. Mesmo assim, havia algo, como uma intuição, me dizendo para fazer aquilo.

Deixei os meninos onde estavam e simplesmente fui em direção ao garoto do piercing. Fui desviando das pessoas que estavam em nosso caminho sem tirar os olhos do rapaz.

Eu não sabia como reagir ou o que dizer, mas minha intuição estava me dizendo que era para fazer aquilo.

Me aproximei dele e, vendo aquele corpo de perto, um sorriso se abriu em meu rosto. Eu não tinha a menor ideia de como começar uma conversa com aquele garoto, mas cheguei bem perto do ouvido dele e falei:

– Gostei do seu piercing.

Não sei de onde veio isso, mas saiu e eu não senti que foi a pior coisa que eu poderia dizer.

– Achou bonito? O gosto é melhor ainda.

Ele respondeu e, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ele agarrou meu rosto e, quando me dei conta, já estava com os braços em volta daquele menino.

A língua dele corria dentro da minha boca enquanto eu passava as mãos nas costas dele. Ele era muito gato e sabia disso. Ele sabia usar isso a seu favor.

Mais uma vez aquele tesão descontrolado voltou... Caramba... Aquilo era a melhor coisa do mundo!!!!

Notas finais
E ai, lindos?? O que acharam? Beijos mil!!!