Tetris

10 A questão é: você gostou?


Mais uma vez, perdi a noção do tempo. Aquele menino era bem mais novo que eu, mas, assim como o Dani, já tinha muita experiência no que estava fazendo. Ele sabia conduzir o beijo enquanto rebolava a cintura nos meus braços. A pele dele estava colando por causa do suor e isso só aumentava o tesão.

Quando terminamos, ele voltou a dançar livremente enquanto eu me dirigi até o grupo dos meninos. Eu mal conseguia acreditar que aquilo havia acontecido. Em menos de uma hora eu havia pegado dois caras, sendo que em um dos casos eu é quem havia chegado nele.

Minha confiança nunca esteve tão alta. Eu sentia que podia tudo. Voltei para onde os garotos estavam e eles ficaram olhando para mim, com um sorriso de surpresa por eu ter ido até aquele menino. Desta vez, não fiquei com vergonha. Apenas dei um sorriso, fechei os olhos e comecei a dançar também. Sem me importar com o que iriam pensar de mim. Não só os garotos, mas qualquer um ali!

Ouvi o Léo dizendo algo como "Agora ninguém segura ele", mas ignorei. Eu só queria dançar. Como uma comemoração pessoal por estar me sentindo tão bem daquele jeito. Os meninos continuaram dançando também.

"Agora ninguém segura ele". Era exatamente assim que eu me sentia. Ninguém iria me dizer o que eu podia e não podia fazer. Ninguém iria me fazer chorar. Eu não iria mais ficar me fazendo de vítimas nos meus lençóis. Eu não iria mais ficar chorando por aí por nada. Eu era interessante, divertido, inteligente, bonito, jovem e a noite estava apenas começando. Ninguém podia me segurar!

Pela primeira vez naquela noite, me soltei de verdade. Dancei livremente como nunca havia feito na vida. Eu não conhecia a maioria daquelas músicas, mas isso não importava. Em algumas, várias pessoas faziam a mesma coreografia. Devia ser do clipe, sei lá. Mas eu simplesmente não ligava por não saber. Dançava do meu jeito e sabia que estava bom.

Bateram no meu braço duas vezes seguidas e eu abri os olhos. Era o Dani em oferecendo um copo. Peguei sem pensar duas vezes e bebi. Estava melhor que os drinks que eu havia bebido antes, mas, ainda sim, com muito álcool. Eu não era acostumado a beber assim. Tinha que me controlar pra não acabar igual do Dani no dia em que nos conhecemos.

Depois de um tempo dançando, voltamos para perto do palco onde estava a Zuzu. Ficamos dançando por lá enquanto ela apresentava seu show. Senti uma mão na minha cintura e, logo depois, uma cintura na minha bunda. Abri os olhos, virei o pescoço e vi que era um cara barbudo, que parecia ter a minha idade, que estava me encoxando. Ele mexia os quadris junto comigo enquanto dançávamos ao som da Zuzu.

Aos poucos, fui virando e agarrando ele. Ele estava com gosto de cigarro na boca. Se não fosse o fato de ele ser lindo, o beijo teria sido horrível. Bem, só não teria como ser pior do que o cara que eu peguei depois dele. Era um magrelo que não tinha jeito pra coisa. Pra compensar, peguei um garoto mais novo que eu logo depois dele e o menino era tão cheiroso que eu esqueci do magricelo. Depois peguei outro cara e dancei mais um pouco. Depois bebi mais um copo de voltei a dançar. Ri com os meninos de alguma coisa e peguei outro cara. Dancei mais um pouco e fui em atrás de outro cara. Peguei esse também. Dancei, bebi e fui atrás de outro. Levei um fora, mas não me importei com isso. Apenas virei outro copo e continuei curtindo minha noite. Eu só queria que aquele momento durasse para sempre!!!

Nem tinha notado que a Tetris já estava começando a esvaziar quando os meninos me chamaram para ir embora. Eu já estava com as pernas doendo de tanto dançar, a boca seca de tanto beijar e o estômago revirando de tanto beber.

Eles falaram alguma coisa comigo mas eu não entendi. Fiquei olhando e eles apenas riram. Eu já devia estar com sono, porque minha visão estava meio embaçada. O Vitor e o Dani me puxaram pelas mãos até a saída. Ou seria o Léo e o Dani? Sei lá.

Quando saímos, quase fiquei cego. O dia já estava claro. Olhei no relógio, mas os números estavam zoados, não consegui ver que horas eram. Perguntei para os meninos e eles me falaram várias coisas. Só entendi que eram seis e meia da manhã. O resto, não compreendi e eles riam olhando para minha cara.

Seis e meia!

Eu tinha que estar no trabalho às sete! No Máximo sete e quinze!

– Nossa, eu tenho que ir pro trabalho logo!

Comentei e eles começaram a rir, olhando para mim enquanto andávamos na calçada.

– O quê? — Perguntaram, em meio a gargalhadas?

– Eu tenho que ir trabalhar! — Repeti.

Eles apenas riam mais. Não estavam me levando a sério.

Só então percebi que o Vitor estava me segurando pelos ombros. Tirei as mão dele de mim e apertei o passo em direção ao carro. Senti uma dor de cabeça e as coisas começaram a girar. Escorreguei em alguma coisa e caí. Ou quase caí, não sei. Lembro que alguém me segurou. Minha cabeça começou a doer muito. Eu já não conseguia identificar o rosto de nenhum dos quatro. Os sons que eu ouvia eram todos distorcidos e eu não sabia dizer se eram dos carros na rua, dos meninos falando ou do meu coração batendo. A dor de cabeça foi aumentando e aumentando cada vez mais. De repente, me veio um sono que eu não sentia há muito tempo e me entreguei a ele.

///

Ouvi alguns barulhos de metal batendo em metal. Abri os olhos devagar e estava tudo embaçado. A única coisa que eu sabia distinguir era a cor do que eu via. Um grande amarelo-amarronzado. Meio ocre. Aos poucos, minha visão foi focando e pude perceber mais detalhes.

Era um piso de madeira. Vários tacos colocados no chão de modo que formavam um padrão de diagonais. Estavam bem encerados, porque refletiam a luz que entrava pela janela.

Só então percebi que estava deitado, de bruços, em algum lugar. Tirei meu rosto da cama e percebi que ela estava marrom escura. Não, não estava. Era marrom mesmo. E não era uma cama, era um sofá.

Me sentei e olhei em volta. Na janela quadrada haviam cortinas que deviam ser originalmente brancas, mas estavam esverdeadas por serem velhas. Na minha frente havia uma mesa de madeira grande com as mais diversas tranqueiras em cima: celular, copo, mochila, vaso de planta, pano de prato, caneta, tesoura, controle de videogame e tudo mais o que você imaginar.

Só então percebi que meus sapatos estavam ao lado do sofá marrom de três lugares em que eu estava sentado. Olhei para a esquerda de onde estava e vi de onde vinha o som dos metais.

Havia uma cozinha ali, embutida com aquela sala. A unica coisa que as separava era um balcão que estava cheio de mais tranqueiras. Era tipo aquelas cozinhas americanas, sabe?

Ali na pia, de costas para mim, estava o Léo. Ele estava lavando a louça.

Havia muito sol entrando pela janela.

O celular dele estava ao lado dele, na pia e, a cada cinco segundos, ele secava a mão e olhava a tela. Mais mexia no aparelho do que lavava a louça.

Virei a cabeça para o teto e vi que não havia luminária. Apenas uma lâmpada pendurada por fios. Nas paredes haviam alguns quadros de paisagens, nada muito profissional.

Na cozinha, ao lado da pia, havia uma geladeira branca pequena. Na porta estavam colados diversos papeis cheios de palavras.

– Bom dia, boneca! — Gritaram.

Olhei para frente e, um pouco ao lado da mesa de madeira, havia um corredor. Eu não tinha percebido isso. Ali estava parado o Dani, com as mãos na cintura, olhando para mim. Ele estava com a mesma camiseta que havia ido na Tetris, mas estava com uma bermuda bem larga, diferente da calça que estava usando na balada.

Com o anúncio dele, o Léo se virou e comentou:

– Nossa, nem tinha visto que você havia acordado!

Minha cabeça estava pesada. Não doendo, mas pesada, como se tivesse um saco de cimento em cima dela.

– Você está melhor?

O Dani perguntou, rindo, enquanto sentava-se do meu lado.

– Estou... Não sei...

– Você quer uma água? — O Léo perguntou.

– Não, obrigado.

Ele virou-se e continuou a lavar a louça. O Dani pegou um controle remoto e ligou uma televisão que havia num criado mudo que estava entre a mesa de madeira e a parede com a janela. Aquele móvel e aquela TV não estavam ali antes.

– Que lugar é esse? — Perguntei.

– É meu cantinho! — O Léo respondeu, sem tirar a atenção de sua tarefa.

– Seu can... Seu apartamento?

– Sim! Gostou?!

– É...

Não sabia o que dizer. Mal estava conseguindo pensar.

– Nossa, até que demorou, né! — O Dani comentou. — Já são quase onze horas!

– Onze horas...? — Questionei.

– É, olha lá, dez e cinquenta e dois. — O Dani respondeu, apontando, com o controle, o relógio da televisão.

– ONZE HORAS?! — Me espantei. — HOJE É SEXTA!!! EU TINHA QUE ESTAR NO TRABALHO!!!

Levantei do sofá num pulo. Assim que terminei esta manobra, tudo começou a girar e, sem conseguir me equilibrar, caí no lugar onde estava.

Os dois riram e depois o Dani falou:

– Calma aí, filho. Você não vai conseguir ir ao trabalho hoje. Não do jeito que você está!

– Relaxa aí que a ressaca passa mais rápido. — O Léo avisou.

– Eu não acredito que perdi a hora! — Falei. — Eu devia ter sido mais responsável!

– Não fica se culpando. — O Dani respondeu. — É só um dia. E, mesmo que não tivesse perdido a hora, você não teria condições de ir trabalhar.

– Por que? — Perguntei.

Os dois começaram a rir.

– Cara, você mal conseguiu ficar em pé depois que saímos da Tetris! — O Léo falou, terminando de lavar o último talher.

– O quê? Eu fiquei bêbado?

– Bêbado?! — O Dani respondeu. — Bêbado fiquei eu! Você estava em outro mundo!

O Léo se sentou numa cadeira que estava junto à mesa de madeira e completou:

– Você estava falando várias coisas e a gente mal conseguia entender!

– Você quase caiu três vezes. Sorte que o Vitor ficou esperto e te segurou em todas. — O Dani explicou.

– Nossa, que merda... — Coloquei as mãos no rosto de tanta vergonha.

– Relaxa, acontece com todo mundo. — O Léo falou. — Não é, Dani? — Ele deu risada enquanto o Dani se defendeu:

– Mas fó só naquele dia que eu dei PT!

– É, olhando pelo lado bom, você não deu PT. — O Léo voltou-se para mim.

– PT? — Perguntei. — O que é isso.

– Perda Total. É quando você bebe tanto que fica muito bêbado, vomita e desmaia. — Dani explicou.

– É, tipo o Dani no sába...

– Ok, ele já entendeu! — O Dani cortou o Léo.

– Eu desmaiei?

– Não! Você só dormiu, normal. — O loiro respondeu.

– A gente tentou te colocar na cama. — O Dani explicou. — Mas você não quis e ficou falando alguma coisa. Não entendemos nada. Aí você deitou ai no sofá mesmo. Perguntamos se você iria dormir aí e você balançou a cabeça dizendo que sim.

A cada palavra que ele dizia, eu tinha mais vontade de mudar de nome, mudar de rosto e me mudar para um país bem longe. Eu estava MORRENDO de vergonha!

– Fiquei é com dó do Vitor, coitado. Quem manda ele ser o mais forte de nós? — O Léo falou. — Ele teve que te carregar pelas escadas até aqui. Eu dei uma ajuda, mas ele é quem estava carregando a maior parte do peso.

– Mano, que droga... — Eu só me lamentava. — Falando nisso, onde estão eles?

– O Henrique foi pra faculdade e o Vitor foi pro estágio dele. — Respondeu o garoto com cabelo de Justin.

– Mas eles estavam bem? Tipo... Só eu fiquei assim?

– Nós quatro estávamos meio bêbados. — O Léo disse. — Mas nós estamos acostumados. Sabemos quando estamos começando a ficar doidões e paramos. Você não.

– Afe! — Resmunguei.

– Relaxa, Rafa. — O Dani deu uns tapinhas nas minhas costas. — Ninguém aqui vai te julgar, não. Até porque já passamos por isso.

– Sem falar que isso não é nada comparado ao quanto você aproveitou a noite! — O Léo falou.

Pronto. Estava só esperando. Sabia que iam tocar nesse assunto mais cedo ou mais tarde.

– NOOOOOOSSSSAAA!!! SIIIIMMM!!! — O Dani animou-se. — Você se revelou lá! Achei que você era todo tímido, todo virgem e ia ficar encolhido num canto a noite toda!!!

O Léo riu e eu quis sumir do planeta Terra.

– Você estava demais! Pegou vários boys, dançou Nicki Minaj, Shakira, LaRoux, bebeu todas sem medo! Hahaha! É assim que tem que ser! — O Dani elogiou.

– Verdade, se você me dissesse que era assim quando te conhecemos, eu diria que você estaria mentindo! — O Léo falou.

– Mas eu não sou assim... — Comentei. — Nunca havia ido em balada, nunca havia bebido tanto, nunca havia beijado homem, nunca havia dançado a noite toda, nunca havia faltado no trabalho...

– Nossa. Foi uma noite de várias "primeiras vezes" então! — O Dani riu.

– Mas você está mal por isso? — O Léo perguntou, num tom mais solidário.

– Não sei... É que... Eu não sei o que pensar... Eu gostei, mas não sei se eu estava fazendo aquilo porque estava bêbado ou porque queria mesmo... E eu nunca fui tão extrovertido assim... Será que eu sempre fui daquele jeito e me segurava ou eu assumi alguma outra personalidade, inconscientemente?

Eu estava muito confuso. Minha cabeça estava pesada e eu não conseguia pensar direito. Por um lado, eu havia gostado daquela sensação de confiança e boa autoestima. Havia gostado de dançar sem medo de me julgarem e de beijar vários homens. Por outro lado, estava achando estranho aquele comportamento em mim. Eu nunca fui de festas, nunca fui de beber, nunca fui pegador. Parecia outra pessoa. Eu não sabia se eu havia agido daquele jeito porque eu era assim ou porque eu estava reprimindo estas vontades há tanto tempo que elas saíram todas de uma vez só.

Como se estivesse lendo meus pensamentos, o Dani virou-se para mim e perguntou:

– Rafa, a questão é: você gostou?

Olhei nos olhos dele e, em questão de segundos, aquela noite passou na minha cabeça. Desde o momento em que encontrei os meninos até ter acordado ali. Lembrei-me da sensação de beijar um homem pela primeira vez. Era muito melhor que qualquer fantasia sexual que eu poderia imaginar. O tesão que eu senti ia muito além de todas as vezes em que me masturbei. O sentimento de se sentir lindo, gostos e atraente era algo completamente novo para mim. Nunca havia me sentido assim na vida. Poder dançar sem ficar com medo de que os outros iriam me olhar e sussurrar um "boiola" com o amigo do lado também me alegrava. Sem falar que a estrutura do lugar, a qualidade do show da Zuzu e a quantidade de bebida fizeram o dinheiro valer a pena. Eu podia até ter ficado bêbado no final, mas, na maior parte da noite, eu estava me divertindo. Me divertindo de verdade, pela primeira vez na vida. Fazendo este rápido balanço na minha cabeça, enchi o peito e pude responder sem medo e com um sorriso no rosto:

– Sim, gostei. Gostei muito!

Notas finais
E ai, lindoooos?! O que acharam desta "noite de primeiras vezes" do Rafa? Obrigada por acompanhar! Beijão!