A bateria do aparelho celular não iria durar muito tempo. O sol estava dando lugar à lua. O nervosismo somente aumentava.

– Meu celular tem sinal. Acho melhor chamar a polícia. — comentou Amanda.

– E o que você vai dizer à eles? Que invadimos a casa de um casal assassino e agora estamos presos aqui dentro?

– Se ficarmos calados, podemos ser acusados de cumplicidade.

– Não temos nada haver com esta situação. Nós vamos sair e esquecer o que aconteceu aqui dentro.

– E qual é o seu plano?

– Vamos esperar todo mundo dormir.

– Eles vão acabar voltando para terminar o que começaram com este corpo! Não temos tempo. Eu vou ligar pra polícia, vai ser mais fácil.

– Se você ligar eu vou ficar muito furioso contigo! — alertou Tony.

– Pelo amor de Deus, seja racional só por um momento! Nós chamamos a polícia e quando eles chegarem aqui na casa, saímos correndo e gritando por socorro.

– Eles só podem entrar na casa com um mandato e com certeza, vão achar que nossa ligação é um trote.

– Minha mãe é uma das melhores corretoras da cidade. Basta eu dizer que sou filha dela e tudo ficará bem.

– Não Amanda, não é tão fácil assim; chamar a polícia vai nos entregar de bandeja para essa família maluca!

– Então me diz outra opção, porque eu não vejo mais nenhuma!

– Vamos esperar todos dormirem e sairemos normalmente.

– Você esqueceu que eu deixei a chave no closet? As portas estão trancadas, não temos como sair.

Um barulho forte no teto foi ouvido por eles. Era repetido. Alguém estava descendo as escadas.

– Droga, estão vindo... — sussurrou Amanda.

– Aquele armário ali no canto, entra nele. — avisou Tony.

– Mas e você?

– Eu vou ficar embaixo daquela mesa hospitalar, vai, entra rápido!

– Ele vai acabar te vendo ali.

– O lençol em cima da mesa vai me proteger, corre!

A porta se abriu. O homem desceu as escadas com cuidado e ligou o interruptor da luz que ficava na lateral esquerda da parede.

– Mas que bagunça. — comentou o senhor Baker para si mesmo.

Ele pegou o cadáver envolvido num grande saco preto e o colocou em cima daquela mesa hospitalar. Ao lado havia uma bandeja com vários utensílios cirúrgicos. Baker pegou por um bisturi e cortou o saco na vertical. O corpo ali presente era de um homem de aproximadamente trinta anos.

Embaixo da mesa, Tony tampava a própria boca com as mãos. Estava assustado e ofegante.

Baker cortou lentamente o estômago do cadáver e retirou um pequeno embrulho branco:

– Olá, queridinha. – disse ele sadicamente a deixando cair no chão.

Tony olhou o pequeno pacote no chão. As mãos do senhor Baker o pegaram. Por um momento Tony achou que seria visto e que sua vida terminaria ali mesmo.

Dentro do armário do outro lado do cômodo, Amanda observava tudo pela porta entreaberta. Um pequeno feixe de luz refletia a cena em seus olhos.

Baker costurou o estômago do homem e o deixou ali mesmo. Apagou a luz no interruptor e subiu as escadas. Ao fechar a porta tudo voltou a ficar escuro no porão.

– Tony... Tony! – chamou Amanda em sussurros, saindo do armário e se aproximando da mesa hospitalar, não suportando olhar para o cadáver ali em cima. Seu celular ainda era sua fonte de luz.

– Me ajuda aqui! – disse Tony tentando sair pelo outro lado.

Ambos ficam de pé ao lado da mesa:

– Você viu aquilo? Ele tirou um pacote de drogas do estômago deste homem.

– Nós temos que chamar a polícia, não podemos ficar esperando!

O braço esquerdo do suposto cadáver se esticou para fora da mesa e agarrou fortemente na blusa de Amanda. Tony percebeu que a namorada gritaria no susto e rapidamente, tampou sua boca. O homem ensanguentado na mesa murmurou por socorro.

Amanda deixou o celular cair no chão e o mesmo se quebrou, deixando de iluminar o local, ficando todo escuro.

– Tira essa mão de mim, ai meu Deus! – resmungou Amanda tomando coragem para segurar no braço da vítima e empurrá-lo para longe. Ela se afastou da mesa ao lado de Tony, que esbarrou em algo pontiagudo sobre uma segunda mesa ao lado, cortando a palma esquerda de sua mão.

A vítima recém “operada” começou a gritar por socorro. Sua aparência enferma não escondia seu sofrimento.

O barulho na escada se tornou mais forte. O senhor Baker estava voltando aflito com os gritos vindo do porão. Ele desceu as escadas portando uma pistola, ascendeu a luz e não hesitou em atirar na cabeça do homem.

– Mas que merda! – reclamou Baker incrédulo – Como ele resistiu por tanto tempo?

Mesmo espremidos, Tony e Amanda conseguiram se esconder dentro do armário. Baker deixou o porão às escuras com a sensação de que o dever estava cumprido.

O casal saiu do armário.

– Isso não pode estar acontecendo! – sussurrou Tony – É loucura, é insanidade...

– Eu vi algum tipo de lampião sobre a mesa, me ajude a procurar.

– Tenha cuidado, alguma coisa cortou minha mão quando fui me apoiar na mesa.

– Aqui, achei.

Amanda pressionou um botão e ascendeu por um lampião elétrico. Ergueu o mesmo na direção do teto. Precisava ter ciência do espaço que ocupava. Estava nervosa buscando por uma saída.

– Amanda, ilumine aqui, por favor. Quero ver meu ferimento.

Amanda seguiu o pedido de Tony, que procurou sobre a mesa o objeto que havia lhe causado tal dano.

– Veja isso! – disse Amanda – É um crucifixo sujo de sangue. O seu sangue.

– Tudo bem, eu não sei onde está meu celular, cadê o seu?

– Ali, bem no canto da mesa.

Tony pegou pelo aparelho que não funcionava.

– Tony, o que vamos fazer?

– Vamos achar o meu celular e chamar a polícia!

– Agora você quer chamar a polícia?

– Algum problema?

– Não, claro que não!

Os dois começaram a procurar pelo aparelho. Mas ele parecia ter desaparecido.

Quando Baker entrou no quarto, viu a esposa deitada na cama lendo um livro de romance.

– O que houve lá embaixo? – perguntou a senhora Baker.

– O palhaço ainda estava vivo. E olha só o que eu achei no chão. O celular dele. Mas está bloqueado com senha.

– Entregue para o Marcus que ele entende tudo de celular. Nosso filho é um prodígio nessa parte. Quem sabe ele não diz a verdadeira identidade daquele homem.

– Gostei da ideia. Vou fazer isso.

Notas finais
Parte 2 online. Espero que tenham gostado, porque eu estou aflito pela parte final. Deixem sua opinião, ela será sempre muito bem-vinda.