O silêncio era único. Amanda e Tony subiram as escadas lentamente. Abriram a porta para dar uma leve espiadela no lado de fora.

– Como vamos sair daqui? — sussurrou Amanda.

– Vamos tentar a porta da sala. É nossa única saída.

– Mas ela está trancada!

– Não temos outra opção senão arrombar.

Os dois seguiram para a cozinha logo à direita, buscando por algo útil nas várias gavetas. Mas nenhum dos objetos iria servir para aquela escapada.

Amanda tentou abrir as janelas e percebeu que as travas eram eletrônicas. O lugar que deveria ser amplamente familiar, era na verdade uma prisão.

– Que família é essa? — sussurrou a jovem confusa.

– Ouviu isso? — perguntou Tony, focando o olhar na sala, cômodo ao lado.

– Não, o que foi?

– Ali. Parece que tem alguém parado bem ao lado da escada.

A silhueta de um homem foi motivo suficiente para os dois ficarem paralisados. Amanda sentiu-se fria. Sua pressão estava baixa. O medo lhe causou arrepios.

– Vocês não deveriam estar aqui. — disse aquela voz rouca. O filho do senhor Baker carregava algo em mãos.

– Foi tudo um grande mal entendido, nós podemos explicar. — disse Tony, tomando a frente de Amanda.

As luzes da sala se ascenderam. Os pais do jovem apareceram de pé atrás dele.

– Sinto de longe o cheiro do medo. — falou a senhora Baker com um olhar sombrio.

Seu filho carregava uma machadinha.

– Ninguém sabe que estamos aqui, então não há porque tentar agir com violência. — falou Amanda tremula.

Tony olhou incrédulo para Amanda e com um tom sarcástico disse:

– Não brinca, é sério?

– Já que não sabem que vocês entraram, então não irão dar nenhuma falta caso não saiam. — disse o senhor Baker.

A troca de olhares foi violenta. Ambos os lados hesitaram em se mover, porém, a família Baker, estava ansiosa pelo primeiro passo. Mas gostavam de fazer uma espécie de jogo psicológico antes de finalizarem suas vítimas.

Amanda notou que atrás dela havia um fogão. Ela girou os seis botões e começou a liberar gás.

– O que você está fazendo? — perguntou Marcus ficando surpreso, causando a mesma reação nos pais dele.

– Se temos que morrer, acho melhor irmos todos juntos. — respondeu Amanda.

– Eu quero a garota! — disse a senhora Baker correndo na direção do casal.

Marcus lançou a machadinha na direção de Tony, que desviou rapidamente, sobrevivendo ao violento ataque.

Amanda agarrou nos cabelos da senhora Baker, que iniciou uma sequencia de socos na costela da jovem.

Tony puxou uma faca de um faqueiro vermelho em cima da pia e apunhalou a senhora Baker nas costas, o senhor Baker correu em fúria contra o rapaz e o jogou no chão, caindo em cima dele.

– Maldito! Moleque maldito! — gritava a mulher afastando-se de Amanda, com a faca apunhalada em suas costas.

Marcus pegou duas toalhas brancas para auxiliar na retirada da faca das costas de sua mãe.

Amanda correu para a sala e subiu as escadas principais até o quarto do casal.

– A garota, pegue a garota! — gritou a mulher nervosa, dando a ordem para seu filho, que a seguiu sem hesitar.

Ao entrar no quarto, Amanda correu em direção ao closet. Ao abri-lo foi puxada pelos cabelos, sendo jogada no chão.

– Acha mesmo que pode entrar na minha casa e colocar uma faca nas costas da minha mãe? — gritou Marcus nervoso, agarrando Amanda pela blusa e a jogando fortemente contra a parede.

Enquanto isso, Tony tentava se proteger dos socos do senhor Baker. A mulher gritava tirando a própria faca das costas. O sangue espirrou no armário branco e no chão cujo carpete era azul marinho.

Amanda tentou se levantar mas estava fraca. Marcus a pegou novamente pela blusa e a jogou contra a parede do outro lado do quarto. Amanda bateu de costas num quadro cuja pintura era de uma ilha paradisíaca, sujando a tela com seu próprio sangue.

– Vocês entraram na casa errada. — avisou Marcus ficando com a voz rouca.

Cansado de lutar na defensiva, Tony agarrou o pescoço de Baker e lhe bateu com a testa duas vezes no nariz do agressor, que se jogou para o lado devido a grande dor. Seu nariz sangrou assustadoramente.

Quando Tony se levantou foi apunhalado nas costas pela mulher, que berrou:

– É assim que se faz!

Tony berrou de dor mas revidou rapidamente, acertando o nariz dela com seu cotovelo direito, também causando um forte sangramento nasal.

– O gás! Desligue o gás! — gritou Baker para a esposa, que seguiu na direção do fogão.

Tony puxou um isqueiro do bolso de sua calça jeans e disse parado na porta da cozinha:

– Vocês todos vão para o inferno!

– Não!! — berrou a mulher em pânico, não percebendo que era tarde demais.

Ele provocou a chama, jogou o objeto contra eles e pulou para a sala, sendo coberto pelos destroços da grande explosão, que destruiu toda a cozinha.

No andar de cima, o tremor foi tão grande, que trincou as paredes do quarto. Marcus perdeu o equilíbrio e caiu de rosto no chão.

Amanda se levantou rapidamente e foi surpreendida pela poeira dos destroços e a fumaça do incêndio que tomava a cozinha.

– Tony! — gritou Amanda no corredor — Tony, cadê você!?

O rapaz se ergueu dos destroços na sala rapidamente. A faca ainda estava em suas costas.

– Eu vou te ajudar, aguente firme! — disse Amanda, sendo novamente agarrada pelos cabelos e puxada para trás, batendo as costas no chão.

– Vocês acham mesmo que as coisas vai terminar com essa facilidade? — avisou Marcus com a voz rouca e os olhos totalmente dilatados.

Quando Tony se levantou sentiu algo estranho. Olhou para trás e do meio das chamas, o senhor e a senhora Baker andavam em sua direção.

– Não pode ser!

Marcus agarrou Amanda pelo pescoço e a colocou em pé. Olhou nos olhos da jovem sendo sufocada e perguntou:

– O que você tem a dizer?

Com um leve sorriso, Amanda profanou:

– Exorciso igitur te, creatura aeris, per Pentagrammaton et in nomine Tetragrammaton.

Tony berrou com a voz ainda mais rouca e teu maxilar se abriu além do normal.

O casal ouviu as palavras da jovem e tamparam os ouvidos, berrando e ficando de joelhos no chão.

Tony puxou a faca de suas costas e a manteve firme na mão. Olhou para Amanda no corredor do andar de cima e gritou:

– Continua!

A garota sentiu o aperto em seu pescoço ser ainda maior, mas não desistiu e continuou:

– Caput mortuum imperet tibi Dominus per Adam lotchavah.

O berro foi ainda maior. As veias pelo corpo de Marcus ficaram acentuadas.

– Aquila errans, imperet tibi Dominus tetragrammaton per Angelum et leonem!

Marcus soltou Amanda, que respirou profundamente quase sem ar. Ele parecia atormentado e se debatia com os braços para os lados. Em alguns momentos ele batia no próprio rosto com tapas cada vez mais fortes.

A garota desceu as escadas e se aproximou de Tony, o ajudando a se levantar.

– Temos que sair daqui, agora!

– A parede da cozinha caiu! É nossa única rota de fuga! — disse Tony apavorado.

O senhor e a senhora Baker estavam com as roupas rasgadas, mas a forma física estava intacta.

– Vocês não foram os primeiros. — disse a mulher — E também não serão os últimos. Suas palavras de exorcismo não podem salvar suas vidas agora.

Tony olhou para Amanda e perguntou:

– Como descobriu sobre eles?

– Quando você se cortou naquele crucifixo em cima da mesa, tudo ficou claro pra mim.

– E desde quando você sabe falar em latim?

Amanda estendeu a mão direita para Tony e revelou:

– Eu também me cortei em alguma coisa.

A mulher gargalhou e surpresa disse:

– Não pode ser verdade. Além de invadir a minha casa, eles ainda roubam a força oculta que carregam meus objetos.

Um rugido ensurdecedor assustou a todos. Marcus estavam passando por um processo violento de transformação. Seus dedos estavam se esticando. Seus olhos estavam ficando vermelhos. Sua pele estava cinza e fria.

– O que está acontecendo com ele? — questionou Tony horrorizado.

– Essa cretina despertou o demônio dentro do meu filho. E agora irá servir de alimento pra ele. — falou a mulher indo em direção de Amanda, defendida por Tony, que iniciou um combate corpo a corpo contra a senhora Baker.

O senhor Baker tentou proteger a mulher mas foi atacado por Amanda, conseguindo jogá-lo no chão e correr para fora da casa através do buraco que a explosão causou na parede da cozinha.

As chamas se espalharam por toda a casa, que ficou tomada pelo fogo. Os vizinhos que haviam chamado os bombeiros no momento da explosão, estavam na calçada assistindo a terrível tragédia.

Na manhã seguinte a notícia se espalhou por toda a cidade. Não se soube ao certo o que aconteceu naquela noite; apenas se deu o fato de que quatro corpos foram identificados. Três na sala e um no porão.

Marcus Baker foi dado como desaparecido, assim como Amanda. Ele possuído por uma entidade diabólica, enquanto ela, tomada por uma poderosa força celestial. Ambos fugitivos de uma sociedade que jamais entenderiam a origem de suas forças. Forças que nos cercam e nos transformam a cada dia.

Forças que operam por todos os lados, e em todas as direções. Forças ocultas que te fazem acreditar e ver o que ninguém mais pode.

E agora, testemunha desta verdade, você acaba de possuir uma força oculta bem ao seu lado. Apenas tenha cuidado quando olhar. E lembre-se: A Casa Maldita, pode ser o seu novo lar.

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