Terrible Love
23 A vida
Notas iniciais
A rotina de um hospital consiste em basicamente alguns momentos de calmaria para uma agitação que não tem hora para terminar. Eu tinha cumprido dez horas de plantão que tinham começado as oito da manhã e estava fisicamente e emocionalmente exausta. Tivemos dois acidentes graves em duas rodovias importantes, vários casos de fraturas expostas e duas crianças em estado grave. Fiquei mais de duas horas tentando estabilizar o quadro de um com Vitória antes dela se submeter a uma cirurgia que poderia dar a ela uma qualidade de vida melhor, ela tinha perdido uma perna no acidente.
– Como você está? – Vitória me ofereceu um corpo de café e eu recusei gentilmente. Ela sentou do meu lado tomando o outro café na mão dela.
– Bem, um dia difícil.
– Esse foi somente um dia. Amanhã poderemos estar sentadas sem nada para fazer ou atendendo queimaduras superficiais de alguém que colocou a mão onde não deveria. Ano passado eu atendi uma senhora que ela e o marido chegaram com lesões pelo corpo todo, o filho e a nora batiam neles e assim que conseguimos chamar uma assistente social eles se livraram dos dois marginais. Pegamos de tudo todos os dias. Hoje foi só um dia Isabella.
Sim, foi só um dia. Eu entendia isso, não entendia como não pudemos fazer mais. Eu queria ter feito mais, ajudado de outra forma, ter usado uma outra técnica. Eu dei o meu melhor para salvas essas pessoas? Isso estava me incomodando demais.
– Vá para casa e pare de se torturar, muitas vezes a vida decide quem sobrevive e quem não consegue nem chegar a porta do hospital. – ela parecia ler cada pensando e dúvida minha. Eu estava gostando e trabalhar com ela. – E posso dar um conselho?
– Claro.
– Esqueça tudo. Saia com seu marido, jantem juntos e transem como se não houvesse amanhã. Tome um café maravilhoso e só volte depois que dormir pelo menos oito horas.
– Temos uma cirurgia marcada...
– Isso foi adiado, o hospital está com as salas sendo usados e outros procedimentos foram marcados para atender aos pacientes que chegaram hoje, o pessoal está com as mãos cheias.
– Não tínhamos que estar...
– Não Isabella, temos médicos, enfermeiros e anestesistas que estavam em casa descansando para atender eles. Não somos feitos de ferro e óleo.
– Tudo bem...
– Viva, assim que sair por aquela porta viva.
Ela se levantou elegantemente e foi embora. Eu troquei minha roupa, tomei um banho na sala dos residentes e fui em direção a entrada do hospital vendo uma ambulância se aproximar e vários médicos a postos. Parei para ver e vi uma mulher grávida, tinha um pouco de sangue em sua roupa e suas mãos estavam enfaixadas. Respirei fundo pensando que eu precisava viver um pouco, não vi George em lugar nenhum e lembrei que ele me trouxe pela manhã. Conferi a hora, ele nunca se atrasada.
– Vamos?
Edward estava com uma flor branca nas mãos e sorri indo em sua direção. Eu podia ouvir os gritos da grávida atrás de mim, mas meus olhos estavam grudados naquele verde incrível e caloroso.
– Que bom te ver aqui.
– Vamos comer alguma coisa? George disse que você não parou para comer.
– Muito movimento.
Ele me entregou a rosa e assim que a peguei cheirei sentindo seu cheiro maravilhoso.
– Obrigada. Eu estava precisando.
– Vamos.
Ele pegou minha mão e fomos andando calmamente falando cada um como foi seu dia, ele parecia interessado pelo meu dia fazendo várias perguntas e sempre atento aos detalhes. Chegamos num pequeno bistrô e sentamos no fundo em uma mesa que parecia já estar reservada. Pedimos algo leve.
– Não imaginava que gostava que de lugares tão íntimos.
Edward pareceu um pouco desconsertado.
– O que foi?
– Seu pai me disse que você nunca foi dada ao luxo e exagero, toda vez que saio com você eu tento achar um lugar como este.
Sorri sentindo o cuidado dele comigo.
– Obrigada...
– Sabe eu nunca teria conhecido o prazer das coisas mais simples se não fosse você. Nesse lugar, por exemplo, não é tão refinado, mas podemos ficar mais a vontade e falar um pouco mais alto por causa da música ao fundo. – olhamos ao redor e vimos um casal desajeitado tentando dançar no meio entre as cadeiras. Rimos da cena – Isso é algo que só aconteceria aqui e é bom, realmente bom.
– Eu não gosto de ambientes impessoais. Minha casa nunca foi a maior de Forks e nem a mais bonita apesar de todos os vizinhos disputarem entre si esse título, eu e meu pai éramos pessoas calmas e serenas. Tinha uma comunicação não-verbal tão grande entre nós que ... era assim, simples e direto. Nossa vida era simples e direta. Tudo que tínhamos a dizer dizíamos com ou sem palavras.
– Seus olhos... tantos os seus como os dele... são tão sinceros e profundos... fico sempre me perguntando o que mais eles guardam...
– Muitas coisas..
Quando a comida chegou nós começamos com outro assunto e estávamos aproveitando a companhia um do outro, ele me contou do seu dia e que almoçou com Emmett e que estava feliz por poder ajudar ele mesmo que não trabalhasse com ele, Rose também queria me ver e ele disse que ia ver minhas escalas. Falei que Victória tinha dito para não voltar antes de oito horas de sono e ele aprovou falando que achava muitas horas de trabalho para um trabalho como o meu. Tinha uma preocupação real naquilo, mas avisei que vida de médico era assim mesmo e ele sorriu.
Edward pagou a conta e pegamos nossos casacos. Enquanto esperávamos o carro ele pegou mais uma vez na minha mão. Eu precisava dizer que isso valia mais do o triplo que tínhamos em nossas contas, sorri tímida e o vi sorrir para mim. Quando o carro chegou Edward abriu a porta para mim e no banco tinha uma caixa grande embrulhada com um papel fino rosa e um laço azul.
– Não abra antes de eu entrar.
Eu peguei a caixa e via que era um pouco pesada e sentei colocando ela no meu colo avaliando. O que tinha ali? Edward entrou dando partida no carro e fiquei olhando curiosa a caixa.
– Posso abrir? – perguntei animada.
– Rapidinho, eu quero ver sua reação, espero que goste.
Não tinha como não gostar. Eu já amava aquilo sem ao menos ter aberto. Ele dirigia rápido e chegamos a um parque bem iluminado, tinha alguns seguranças nos esperando. Imaginei que ele tinha programado aquilo muito bem e internamente dava pulos de alegria, era esse Edward que eu sempre soube que existia, um homem romântico e muito dedicado, atento a cada detalhe. Ele desligou o carro e abriu a porta para mim.
– Deixa que eu seguro. Acha que consegue carregar isso com facilidade?
– Não sei...
Ele pareceu um pouco inseguro e fechou o carro. Fomos até uma área que tinha bancos espalhados, as famílias pela manhã deveriam ir fazer piqueniques ali e curtir um pouco de sol. Namorados deveriam se encontrar e várias famílias ao redor aproveitavam esse momento. Com a caixa entre nós sentamos.
– Abra.
Tirei o papel de presente que envolvia a caixa e ao abrir eu me emocionei. Tirei de dentro o conteúdo e percebi que tinha motivos de sobra para estar completamente apaixonada por ele.
– Isso é...
– Abra.
A maleta médica rosa era de um tamanho perfeito. Tinha abertura de zíper e vários compartimentos. Estava já com tudo que um dia eu poderia pensar em precisar. Dois estetoscópios, vários receituários, uma caneta metálica rosa com meu nome e outra preta com meu nome também, ampolas para emergências, seringas e vários outros remédios para febre, dor de cabeça, dores musculares, ataduras, gazes, um pequeno aparelho de pressão no modelo relógio e vários outras coisas que eu estava simplesmente encantada. Edward sorrindo satisfeito.
– Como... conseguiu...
– Um amigo meu é médico, eu administro a rede de clínicas dele e ele me disse o que colocar dentro.
Olhei de novo para a maleta vendo meu nome bordado na parte interna num tom de rosa lindo. Era bem feminina e eu amava isso.
– Obrigada Edward isso é lindo. Perfeito.
– Tem tudo que um dia pode vir a precisar?
– Claro e muito mais.
– Eu fico feliz que tenha feito isso direito. – ele parecia tímido e inseguro. – Eu não fazia ideia do que colocar e queria mesmo que você tivesse isso.
– Está perfeito. Obrigada.
Ficamos nos olhando algum tempo. Aquele gesto tinha muitos significados.
– Eu admiro muito a sua profissão sabe. Vocês realmente fazem algo significativo. Cada pessoa que passa por vocês, mesmo que seja num momento ruim, é uma vida que vocês transformam.
– Eu dei dois atestados de óbitos hoje. – falei pensativa.
– Mas nem sempre a notícia é boa, nem sempre vencemos. No entanto, aquela pessoa teve uma chance e isso que importa. Ela teve o seu melhor, o que aconteceu não foi culpa sua ou de mais ninguém. A vida Isabella é assim, nós temos que aceitar que esse momento também faz parte dela.
Verdade. Ele perdeu Kate e eu meu pai. Isso de maneira nenhuma nos fez piores, faz parte da vida, apesar de ser triste e eternamente doloroso em algum nível.
– Você sente falta dela?
Edward ficou surpreso com a pergunta, mas não hesitou em responder.
– É uma parte linda e perfeita da minha vida. Ela sempre será alguém especial em meu coração. Acho que ela me amou e nunca quis me ver parado e apático. Eu tive meu tempo de aceitar a morte dela. Hoje eu sei que poderíamos ter sido muito felizes, mas não aconteceu. – ele pareceu perceber a dor em meus olhos – Eles poderiam ter morrido no parto e isso não ter nada haver com você, eu poderia estar dirigindo e ter perdido o controle do carro e eles ter partido do mesmo jeito. A vida iria encontrar uma maneira de levar eles.
– Essa sua resposta me surpreende.
Confessei e ele sorriu.
– Está ficando tarde para suas oito horas de sono.
Edward fechou a maleta comigo e voltamos para o carro e eu ainda percebi a movimentação dos seguranças. Chegamos rápido em casa apesar de não estarmos tão perto quando antes.
– Obrigada. – agradeci antes de entrar no meu quarto.
– Eu espero ainda surpreender muito você. Da melhor forma possível.
Meu coração acelerou e ele se aproximou de mim e fechei os olhos sentindo meu coração acelerar como uma adolescente. Edward beijou o canto da minha boca e o calor invadiu meu corpo.
– Boa noite.
Sussurrou em meu ouvido. Entrei ainda tonta fechando a porta e ficando ali estática. Ele quase me beijou.
"O beijo é uma forma de diálogo." – George Sand
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