Terras Gélidas: Conto de um Sobrevivente
5 Além do passado
Notas iniciais
Enquanto eu atravessava a porta, uma luz se acendeu e um suave aroma de lavanda preencheu a sala. Essa sala era diferente dos corredores e da sala em que estávamos, as paredes dessa sala não pareciam estar muito enferrujadas. A sala era bem pequena, em seu interior havia uma mesa e duas cadeiras, cada uma posicionada em uma extremidade da mesa. A mesa era retangular e tinha por volta de 80 centímetros de comprimento por 60 centímetros de largura, sua altura era em volta de 75 centímetros. As cadeiras tinham aproximadamente 45 centímetros de altura. Após observar todos esses detalhes do local e comigo dentro da sala, andei um pouco para o lado direito para dar espaço para Luci entrar. Rapidamente, Luci entrou e fechou a porta.
— Por favor, sente-se. – Disse Luci apontando para a cadeira à direita da porta que estava mais próxima de mim.
Rapidamente caminhei até a cadeira que ele havia mostrado para eu me sentar. A puxei um pouco para trás e me sentei. Logo em seguida, Luci também se sentou na cadeira em minha frente. Com ambos sentados, nossos olhares se cruzaram e vi em seu rosto um olhar preocupado.
— Você se lembra de algo ou o porquê de estar aqui? – Perguntou Luci olhando atentamente para meu rosto.
— Infelizmente não, as únicas lembranças são de pouco tempo antes de lhe encontrar e também de quando eu estava dentro de uma cápsula e tentava sair dela. – Respondi.
— Entendi, como estamos sem tempo vou resumir brevemente onde estamos e o que aconteceu. Primeiro devo dizer que o que irá escutar poderá lhe chocar, além de ser possível fazer você ter alguma lembrança de volta. Nós estamos na Base A21, uma das 52 bases criadas ao redor do mundo para a sobrevivência da raça humana.
— Como assim sobrevivência da raça humana? – Perguntei.
— Espere um pouco, deixe-me continuar. Há algumas décadas antes do início do Programa P.A.Z, cientistas do mundo todo se reuniram para discutir um fenômeno inesperado: o início de uma nova era do gelo. A descoberta foi feita no ano de 2039. Anos atrás, o mundo tinha acabado de passar por uma pandemia, para ser preciso, 4 anos antes, resultando na morte de 60% da população mundial. Devido à falta de alimentos e ao pânico, restou pouco mais de 20% da população mundial. O mundo já não era mais o mesmo, e nessa época vários países entraram em guerra pelos recursos que restavam. Até que houve essa descoberta que eu contei anteriormente. Graças a isso, a humanidade se reuniu para tentar sobreviver a esse rigoroso frio que estava por vir. E por volta de 2046, deu início ao Programa P.A.Z.
— Ainda está entendendo? – Ele me perguntou.
Eu, incrédulo com o que ele havia me contado, não conseguia compreender a gravidade da situação em que estávamos.
— Isso é inacreditável! O pior é eu não ter nenhuma memória sobre isso. – Respondi chocado.
— Imaginei que essa seria a sua reação. Até mesmo nós ainda temos dificuldade de acreditar que tudo isso aconteceu, mas diferente de você, nós vimos com nossos próprios olhos a queda da humanidade. Diferente de você, já que infelizmente não se lembra disso.
— Nós? Existem outros além de nós dois? – Questionei.
— Sim. Além desse abrigo, existem outros 25 iguais a esse. Cada um pode ser habitado por aproximadamente 25 mil pessoas. — Ele disse.
— Mas... Como começou essa era do gelo? O que foi a causa? E o que fizeram quando descobriram isso? – Perguntei ainda tentando compreender o que estava acontecendo.
— Em resposta à primeira e segunda perguntas, não tenho certeza do que exatamente causou essa era do gelo. Sei apenas que havia vários fatores para ocorrer isso. Já para a terceira, onde estamos é o resultado da resposta da humanidade para combater a própria extinção. O Programa P.A.Z. Mas para isso, nos colocaram em animação suspensa por pouco mais de quinhentos anos.
— Quinhentos anos? – Questionei quase gritando.
A nossa conversa não tinha durado nem dez minutos e eu já estava exausto, começando a ter dificuldade de entender tanta informação.
Um alto som de batidas na porta interromperam meus pensamentos.
— Luci, você está aí?
Surge inesperadamente uma voz do outro lado da porta que parecia ser feminina, mas eu não tinha certeza.
Eu rapidamente virei meu corpo em direção à porta e Luci fez o mesmo. Logo em seguida, a porta foi aberta, uma mulher aparece e vejo o rosto dela. O curto cabelo liso e preto junto à sua pele branca brilhava perante a luz do local onde estávamos, enquanto seus olhos azuis se fixavam em meu rosto. Um pouco mais abaixo, ela usava uma camiseta regata branca, que cobria seu pequeno busto, mas deixava levemente à mostra sua barriga malhada. Na cintura, vestia uma calça jeans curta, que cobria até os joelhos. Ela tinha aproximadamente 1,68 m de altura. Em seus pés, usava um sapato preto, igual ao meu e ao de Luci.
— Luci, é ele mesmo? – Perguntou a moça, ainda focando o olhar em meu rosto.
— Sim, a espera acabou irmã. – Disse Luci enquanto olha para mim.
Irmã? Se o Luci dizia ser meu filho, ela também era? Em questão de segundos, essa dúvida veio em minha mente.
Rapidamente, a moça veio em minha direção e me deu um forte abraço. O que estava acontecendo, pensei naquele instante.
— Quem é você? – Questionei para a moça.
Tinha quase certeza de que a resposta dela seria que também era minha filha, já que ela chamou anteriormente Luci de irmão e Luci também a havia chamado de irmã. Após ainda perguntei, ela ficou em pé e deu alguns passos para trás, ficando bem ao meio de mim e de Luci, quase encostada na porta.
— Ele não se lembra de nada? – Perguntou a moça para Luci.
— Não... Nem mesmo sobre Programa P.A.Z. – Respondeu Luci.
— Nem mesmo sobre nós, nem que ele é nosso tio? – Insistiu a moça querendo uma resposta diferente da anterior.
Tio? Como assim tio? Luci havia me chamado de pai, mas então como eu poderia ser seu tio? E essa moça, quem ela realmente era? Essas perguntas transbordavam em meus pensamentos enquanto havia breves segundos de silêncio entre nós três.
— Pai, o senhor é nosso tio e nosso pai. – Disse Luci.
— Irmão, não o confunda. – Falou a moça para Luci.
O silêncio voltou-se por mais alguns segundos. Eu não estava conseguindo pensar com clareza, e o cansaço estava começando a vir, tanto em meu corpo quanto na minha mente.
— Tio, então deixe-me contar quem nós somos. – Disse a moça.
— Irmã, deixe-o descansar primeiro. Já contei a ele sobre o Programa P.A.Z e a crise de 2035. Ou você prefere saber sobre nós primeiro? – Disse Luci preocupado com a minha saúde.
— Prefiro descansar antes. – Falei para ambos.
— Realmente seria bem melhor explicar para você o que está acontecendo quando você estiver descansado. – Disse a moça.
— Só uma pergunta antes, qual é seu nome ou como posso lhe chamar? – Perguntei para a moça.
— Eu sou a Beca, pode me chamar assim. – Ela respondeu.
— Beca? Então seu nome é Rebeca? – Perguntei a ela.
— Não, meu nome realmente é Beca. – Respondeu enquanto dava uma fraca risada, seguida de um leve sorriso enquanto mostrava brevemente os dentes.
— Entendo, onde posso descansar? – Perguntei olhando para Luci.
— Que tal eu levá-lo até o seu quarto? – Perguntou Beca para Luci.
— Se você puder fazer isso, eu ficarei um pouco menos preocupado se você estiver com ele. – Disse Luci.
— Eu vou ficar no quarto do Luci? – Perguntei a Beca.
— Isso mesmo, ou prefere o meu? Eu vou estar ocupada então pode dormir lá. – Disse Beca enquanto sorria levemente.
— Deixe-o no meu quarto, é mais perto daqui. E também, leve algo para ele comer se conseguir. – Disse Luci.
— Não irá atrapalhar eu dormir no seu quarto? – Perguntei a Luci.
— Não, vou estar ocupado até de manhã, então pode descansar. Qualquer coisa, eu descanso no meu escritório. – Respondeu Luci enquanto levantava.
Rapidamente fiz o mesmo e levantei, enquanto Beca abria a porta com a mão direita.
— Vamos. – Disse Beca para mim.
— Até Luci. Quando eu acordar, me digam quem são vocês, por favor. – Eu disse para Luci enquanto andava em direção à porta.
— Sim, não precisa nem pedir. Isso é o mínimo que eu poderia fazer, já que em certa parte, nós temos culpa por você estar sem memória. – Disse Luci com uma voz triste e uma expressão em seu rosto de culpa.
— Depois ele explica também, mas por enquanto vá descansar. – Disse Beca enquanto atravessava a porta e parava no corredor.
Fiz o mesmo e atravessei a porta. Luci continuou parado do lado de dentro da sala, e enquanto fechava a porta acenava para mim como sinal de até breve.
Com a porta totalmente fechada, Beca começou a andar para a mesma direção de onde Luci e eu havíamos vindo. Em silêncio, comecei a segui-la. Os passos dela eram curtos devido à sua média estatura.
Continuamos andando em linha reta até chegarmos na bifurcação que havia a porta bloqueando o outro caminho. Viramos para o lado da porta e Beca parou em sua frente. Ela empurrou a porta com ambas as mãos enquanto eu ficava atrás dela. Ela fez uma leve força para empurrar a porta e facilmente a abriu. Ela a atravessou e segurou a porta para eu atravessá-la. Ao atravessar, senti uma leve brisa em meu rosto. O leve ar gelado mudou a temperatura rapidamente do meu corpo, me dando um leve arrepio na pele.
Após eu ter passado, Beca soltou rapidamente a porta e ela lentamente foi se fechando sem fazer barulho ao encostar no batente. Olhei para a frente do corredor que dava diretamente em uma porta de cor vermelha. Andamos mais um pouco em direção a essa porta. Quando chegamos na porta, Beca parou em sua frente. Na direita da porta havia a mesma placa de metal que havia na parte de fora da porta da sala em que eu estava com Luci e Beca. Aquilo parecia ser uma espécie de fechadura, eu pensei.
— Espere um pouco. – Disse Beca enquanto levantava a mão direita e colocava o pulso na placa de metal, sendo possível ver o mesmo bracelete que estava junto à minha peça de roupa.
Apenas fiquei em silêncio e concordei balançando a cabeça enquanto a porta se abria. Com a porta aberta, senti o mesmo aroma de lavanda que senti na sala em que conversei com Luci e Beca.
— Entra, só não repara na bagunça que Luci deixou. – Disse Beca enquanto entrava no quarto.
Sem cerimônia, passei pela porta e entrei no quarto. A claridade era fraca, a lâmpada emitia uma luz um pouco amarelada. O quarto estava um pouco bagunçado, havia papéis em cima de uma cama de casal. A cama era de metal e ficava do lado esquerdo da porta. O quarto não era muito grande, havia apenas um armário de no máximo 2 metros de altura, dois criados, um em cada lado da cama e a cama.
Após eu passar pela porta, Beca imediatamente andou em direção à cama e começou a retirar os papéis que estavam em cima da cama. Enquanto isso, fiquei em pé, esperando ela terminar de retirar os papéis da cama. Em poucos segundos, a cama estava sem nenhum papel, e Beca segurava-os em um monte, apoiando-os no braço direito. Ela deu pequenas batidas na cama com a palma de sua mão direita, para retirar pequenos resquícios de sujeira do papel na cama.
— Venha. Disse Beca enquanto deixava de bater na cama.
Dei poucos passos em direção à cama e olhei para os olhos de Beca. Fiquei um pouco próximo a ela e finalmente consegui ter uma noção de qual era a minha altura. Eu devia ter por volta de 1,73 m.
— Por favor, deite-se e durma. Em algumas horas, eu venho ver como você está. – Beca moveu-se um pouco para o lado para eu me deitar enquanto ela falava.
Escutei o seu pedido e assim fiz. Sentei-me na cama e curvei minhas costas em direção a meus pés. Retirei ambos os meus sapatos dos meus pés e logo após me deitei com a barriga virada para cima. Beca se ajoelhou quase encostando os joelhos no chão, ela estava na minha direita.
O colchão era macio, igual ao da sala em que acordei após sair da cápsula. O travesseiro era meio duro, mas estranhamente confortável. Parecia que meu corpo estava acostumado a essa sensação do travesseiro. A cama cheirava a lavanda, parecia que o lençol e a fronha haviam sido trocados recentemente.
— Tio, estou indo. Se precisar de algo, é só clicar naquele botão ali. – Disse Beca enquanto apontava para a porta.
Virei lentamente minha cabeça na direção que Beca apontava e logo notei o botão que ela havia me dito. Era um botão azul redondo que tinha aproximadamente 5 centímetros e havia uma pequena cavidade em volta destacando o botão.
Beca se levantou e começou lentamente a andar em direção à porta. Eu voltei com a cabeça para cima e comecei a olhar para o teto, tentando esvaziar minha mente para poder dormir.
— Até, tio. – Ouço Beca dizendo enquanto atravessava a porta e saía do quarto.
Beca fechou lentamente a porta e aos poucos ela foi saindo da minha visão.
Agora, em completo silêncio e novamente sozinho, fecho os meus olhos. Várias perguntas vêm em minha cabeça, as mesmas perguntas se repetiam várias vezes. Estava difícil me concentrar para dormir. Fiquei me mexendo de um lado para o outro da cama até achar uma posição confortável. Até que virei para o lado direito, fiquei de costas para a parede e de barriga para a porta. Estive parado por alguns segundos enquanto meu corpo se acalmava com a maciez do colchão. O aroma da lavanda veio em meu nariz e começou a acalmar minha mente. A sensação de leveza do colchão junto ao agradável aroma de lavanda fizeram a canseira começar a bater. O sono estava começando a aparecer. A luz não atrapalhava na minha tentativa de pegar no sono, ao contrário, era uma luz tão confortável que gostaria de ser acordado por ela todas as manhãs. O sono lentamente ficava mais forte, minha cabeça começou a se esvaziar de pensamentos e lentamente fui perdendo a consciência, e finalmente adormeci.
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