Inesperadamente minha cabeça começou a doer, e me fez acordar. Abri meus olhos e fiquei assustado por conta da dor. A dor era uma sensação de pontada, era forte, me segurava para não gritar. A dor começava, durava alguns segundos, parava, e logo retornava. Ela durou por volta de dois minutos. Por conta da dor, coloquei minha mão esquerda na minha cabeça, com o pulso em meu nariz, e a palma entre os olhos. Os dedos um pouco esticados, apoiados na testa, e encostando levemente em meu cabelo. Meu rosto estava gelado.
Alguns minutos se passam e decido abrir meus olhos, mas havia esquecido que minha mão bloqueava parte da minha visão. Ainda com a mão no rosto e com dor, alguns segundos se passam. E eu ainda estava sonolento por acordar de repente. Senti uma leve tontura. A tontura rapidamente parou, mas a dor na cabeça permaneceu, fiquei assim por mais poucos minutos, não conseguia raciocinar completamente por conta da dor. Com dor constante, decidi arrumar me na cama, e procurar uma posição melhor para deitar, só nesse momento percebi que um lençol branco cobria meu corpo. Eu notei que ainda estava com as roupas que coloquei antes de dormir, mas por conta do lençol, o ambiente em minha volta não me fez sentir tanto frio, o lençol era fino, mas aquecia consideravelmente.
Tirei a mão da cabeça, e no instante em que tirei, a primeira coisa que vi foi uma parede. Estranhei de estar olhando para uma parede, pois eu estava anteriormente virado de costas para ela. Com o coração acelerado por conta da dor, virei me para o outro lado, ficando com as costas para a parede novamente. Enquanto me virava, doeram as minhas costas. Já virado, notei que a porta por de onde eu vim estar aberta. No total silêncio, sons de passos vinham do corredor, pareciam passos apressados. Alguns segundos se passam e os passos estavam mais próximos. A dor não me permitiu sair da cama, então apenas fiquei sentado enquanto os passos se aproximavam. Uma sombra foi refletida no chão. A pessoa apareceu na beirada da porta, apoiando-se no batente. Era um homem alto, sua idade deveria ser por volta dos 30 anos, branco e corpulento, mas não excessivamente. Seu rosto era meio arredondado, mostrava uma expressão cansada. Tinha uma barba arredondada que circulava pelo rosto até quase encostar ao cabelo. A barba e o cabelo eram de um tom meio ruivo, meio loiro. Seus cabelos eram curtos, mas bagunçados. Vestia uma jaqueta buffer e calça jeans, ambas as peças pretas, calçava um tênis marrom-claro, que parecia um pouco desgastado por conta do uso contínuo.
O homem começou a se aproximar de mim lentamente. Enquanto ele andava, imediatamente senti um forte cheiro de álcool vindo dele. Enquanto se aproximava de mim colocou a mão no bolso direito da calça, tirou um cantil, levou a mão à tampa e o abriu. Ao abri-lo, um cheiro ainda mais forte de álcool saiu do cantil. O cheiro era tão forte que estava me dando uma leve tontura. O homem chegou mais perto da cama, a distância entre nós era menos de 2 metros.
Ele olhou fixamente nos meus olhos, e esticou a mão que estava com o cantil em direção ao meu peito.
— Beba um pouco. – Disse o homem.
Sua voz era marcante, alta e grossa, mas um pouco enrolada devido à leve embriaguez.
Eu estava curioso com esse homem, pois, pela sua voz eu sentia que já o havia conhecido antes.
— Não, obrigado. – Respondi calmamente ao homem enquanto levantava minha mão esquerda e a balançava de um lado para o outro. Minha voz estava um pouco fraca, e ligeiramente rouca, então falei com um pequeno desconforto.
O homem fez uma leve expressão de insatisfação. Ele se aproximou da cama, andou para o lado direito e sentou-se aos pés dela, quase em cima dos meus pés. Retirei-os imediatamente antes de ele se sentar, e os coloquei um pouco mais para o lado, dando-lhe espaço.
— Já estava na hora de acordar, três anos a mais de sono não te fizeram bem. – Disse o homem enquanto sorria e ria altamente.
Três anos a mais? O que ele queria dizer com isso me perguntei. Eu só acordei há poucas horas, como eu dormi três anos a mais.
Um silêncio ficou entre nós, enquanto eu pensava por alguns segundos no que esse homem estava tentando me dizer.
A procura de resposta perguntei ao homem:
— Quem é você e como você me conhece? Eu... Não me lembro de nada. O que quis dizer com três anos a mais dormindo?
A expressão no rosto do homem havia mudado, a felicidade enquanto falava comigo rapidamente virou tristeza, parecia que a informação que eu não me lembrava de nada havia o deixado abalado.
Ele fica brevemente em silêncio, e logo em seguida solta um leve suspiro.
— Ah, eles haviam realmente dito que algo poderia acontecer. – Ele diz com uma notável tristeza em suas palavras.
O homem levanta o cantil que ainda segurava com as mãos e o coloca na boca, tomando vários goles rapidamente. Enquanto bebia levantou-se da cama, e logo após retirou o cantil da boca, virou-se na minha direção e estendeu a mão contrária da que segurava a bebida.
— Você costumava me chamar de Max, espero que continue assim. – Disse ele esticando a mão para me cumprimentar.
Sem eu perceber, alguém veio no quarto pelo corredor, e ficou parado na porta. Eu não havia escutado passos vindo do lado de fora, por conta do som alto da voz de Max. Virei um pouco para o lado, tentando ver de relance a pessoa que estava atrás de Max.
— Tio, o que o Maxxel esta fazendo aqui? – Diz Beca falando em um tom um pouco alto e irritada.
Beca rapidamente entra completamente no quarto e fica ao lado de Max, olhando fixamente para seu rosto. Beca vestia a mesma roupa que estava antes de me trazer até esse quarto.
— Beca, há algo de errado em ele ter vindo até aqui? E qual a relação entre vocês? Vocês já se conheciam? – Perguntei apenas para confirmar, mas era provável que eles já se conheciam, pois Beca havia dito que o nome do Max era Maxwell.
— Não faça isso irmã, não grite perto dele. – Diz Max olhando para Beca enquanto dá um leva sorriso.
Irmã? Ele também é meu sobrinho? Pensei. Eu havia ficado confuso com o que acabava de ouvir. Além de Luci e Beca, o Max também era meu sobrinho?
— Tio? Ele também é meu sobrinho? Perguntei ainda em choque.
— Não Tio, ele está apenas brincando com você. – Disse Beca tentando esclarecer a minha pergunta e o que Max havia dito.
— Deixasse eu brincar com ele mais um pouco. A reação dele foi ótima. – Dizia Max, e logo em seguida soltou uma alta gargalhada.
— Vou deixar vocês sozinhos, até mais, titio. – Disse Max enquanto deixava a sala ainda dando gargalhadas.
Ao sair da porta o som das suas gargalhadas pararam. Imaginei que elas eram forçadas. Pois antes dele sair completamente olhei rapidamente em seus olhos, e percebi que ele estava com um olhar triste. O fato de Beca ter atrapalhado nossa conversa havia o incomodado, gostaria de ter conversado um pouco mais com ele pensei.
— Você está bem tio? – Diz Beca me fazendo voltar dos meus pensamentos.
— Estou com uma leve dor de cabeça, estava pior na hora que acordei.
— Venha. Vou levá-lo para comer algo. Desculpa não vir antes, as pessoas não paravam de perguntar sobre você.
Enquanto Beca virava-se em direção à porta, eu a parei.
— Espere. O Max havia falado algo que eu não entendi. Ele disse que eu dormi três anos a mais. O que ele quis dizer com isso? – Perguntei com um tom sério.
O rosto de Beca fica surpreso, ela tenta esconder o nervosismo, mas não consegue.
— Eu preciso saber sobre mim. Vocês não me contaram nada sobre meu passado. Quem eu sou e o que estou fazendo aqui? – Eu disse quase gritando.
Beca respira alto e fundo. Ela parecia estar tentando se acalmar.
Beca veio em minha direção e sentou-se na beirada da cama, ela estava ao meu lado, a poucos centímetros de mim. Beca virou o rosto e olhou fixamente em meus olhos.
— Você está pronto para saber o seu passado? – Perguntou Beca com um olhar frio.
Beca havia dito de um modo tão frio que havia me assustado. Meu passado era algo tão perturbador? Eu pensei. Mas não podia desistir, tinha que aceitar quem eu era. Mesmo que eu não me lembrasse, esse passado era parte de mim.
— Sim. Estou, diga-me. – Respondi determinado.
Beca rapidamente sorriu enquanto se levantava da cama. Me surpreendi, pois há pouco ela estava com uma expressão séria e fria. O que havia mudado o seu humor de repente?
— Você ficou órfão. Seus pais biológicos morreram em um acidente. O carro havia caído em um rio, apenas você sobreviveu. Você tinha apenas três anos quando foi levado ao orfanato — disse Beca com uma voz triste, fazendo uma breve pausa.
— Mas, se você tinha apenas três anos, como Meu irmão e eu seríamos seus sobrinhos? É isso que você deve estar se perguntando, não é, tio? — Questionou Beca.
— Sim — Respondi. O que ela disse não tinha passado pela minha cabeça, mas apenas concordei.
— Depois do acidente um ano havia se passado. Você estava com quatro anos quando foi adotado pelos meus avós. Eles eram amigos dos seus pais e já tinham uma filha, nossa mãe. O acidente aconteceu na mesma noite em que você e ela se conheceram. Sua família estava voltando de uma festa quando aconteceu. Na época, nossa mãe tinha quase dez anos quando você foi adotado.
A verdade foi chocante. Naquele momento, compreendi o motivo pelo qual Beca havia perguntado se eu estava preparado para saber sobre meu passado. Eu não sabia o que deveria dizer e nem como reagir. Apenas fiquei em silêncio, pensando sobre meu passado. Coloquei a mão na cabeça, entrelaçando o cabelo nos dedos e voltei pensar. Como eu havia perdido essas memórias, tinha alguma conexão ao que Maxxel havia dito sobre os 3 anos dormindo? Não sabia se pensava sobre meu passado, ou sobre a perda de memória.
— Tio. Você está bem? – Perguntou Beca para mim.
— Sim. Estou apenas pensando – respondi com uma voz um pouco rouca e trêmula.
— Meu irmão me disse para não contar do passado, apenas quando você estivesse mentalmente pronto. Deveria tê-lo escutado.
— Não. Eu estou bem. O que mais me incomoda é o fato de eu não lembrar de nada. Poderia me dizer algo sobre minha falta de memória?
— Meu irmão conseguiria explicar melhor. Não sei muito sobre sua condição e nem o que levou a sua perda de memória. Infelizmente não posso ajudar, mas se ainda tiver perguntas responderei. Desde que não o deixe pressionado.
— Ainda tenho, mas podemos ir até Luci então?
— Antes devemos ir ao refeitório. Você deve estar com fome. Não consegui trazer uma refeição para você.
— Sim, claro. – Respondi mesmo sem estar com fome.
Algumas horas já haviam se passado desde que eu saí da cápsula. Eu me perguntava como e porque eu não sentia fome até aquele momento. Outras perguntas surgiram em minha cabeça. Como consegui me mexer normalmente após dormir por mais de 500 anos. Meus músculos deveriam estar atrofiados, a ciência havia avançado ao ponto de não ter nenhum efeito colateral após a hibernação? Beca me disse que Luci responderia minhas perguntas, mas ele teria as respostas?

Me levanto da cama e sigo Beca, enquanto saímos pela porta e andavamos no corredor.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.