Terra Cinza
1 Prólogo
Notas iniciais
O país entregue a corrupção.
A família? Uma instituição falida.
As leis? Quem as leva em consideração?
Viver se tornou um ato egoísta.
Maria tem uma flor.
Rosa gosta da flor de Maria.
Rosa mata Maria.
Rosa fica com a flor de Maria.
João tem um barco.
Pedro quer o barco de João.
João é mais forte que Pedro.
Pedro afunda o barco de João e ambos ficam sem barcos.
Não há mais comida,
Não há mais casas,
Não há mais cidades,
Cada um por si e ninguém por todos,
Essa é a nova lei da sobrevivência.
Viver em um mundo sem humanidade era a realidade atual.
H. U. M. A. N. I. D. A. D. E. Quem poderia descrever o que é isso? Há muito tempo já não se ouve usar todas essas dez letras juntas nessa ordem. Depois de um grande período em que todos viviam a hipocrisia dessa palavra, veio a evolução e modificou o significado de se viver. Nessa nova ordem não havia mais cooperação, mutualidade, companheirismo, amor, fé em qualquer coisa que estivesse além dos nossos olhos e sobretudo o respeito. Não existiam mais sociedades formadas. Viver em grupo era impossível, era cada um por si e ninguém por todos! O mundo havia se tornado um lugar cinza, frio e solitário. As grandes cidades, construções simples ou monumentais que foram erguidas pelos antepassados, agora não eram mais que escombros ou entulhos de concreto. As florestas, você deve estar se perguntando, o que aconteceu com elas? Se eu rir na sua cara vai ficar deselegante? Mas também quem se importa? Não existem mais qualquer tipo de vegetação em lugar nenhum. Tudo morreu, tudo sucumbiu com a transformação do homem, tudo agora se resume a nada.
E como sobrevivo nesse novo mundo?
Não sobrevivo! Já estou prestes a morrer. Fazem exatamente dezoito dias que não encontro nenhum resto mortal de outro ser humano ou qualquer coisa que eu possa usar para saciar a ânsia de comer do meu corpo. O que ainda me mantém vivo é a água ácida da chuva que armazenei em um latão no último temporal que destruiu o antigo lugar que ficava.
O que foi bom nisso tudo? Provavelmente quando essa nova ordem estourou. Todos tinham acesso a qualquer coisa. Fachadas de lojas com o nome do proprietário não significava nada, se ainda estava no mostruário, na prateleira ou no estoque não era de ninguém! Começou com pequenos furtos, depois a coisa foi se expandindo, a população civilizada das cidades se tornavam saqueadoras e o caos começava.
A falta de comida veio com o tempo.
Como ninguém se importava com ninguém, para que continuar produzindo para outras pessoas consumirem? Se águem quisesse eles que trabalhassem para fazer.
Mas quem empurrou a primeira peça para causar esse efeito dominó destrutivo? Quem foi o responsável por isso tudo?
Quem vai saber?!
Você assumiria a culpa se fosse você?
Creio que não! Não há como apontar os culpados, se deixarmos de hipocrisias podemos apontar os dedos, sim todos os dez dedos das mãos, em nossa direção. Cada um teve sua parcela de culpa para transformar o mundo no que é hoje.
Então, se você estiver aí caído no chão morrendo de fome e esperando que aconteça um milagre para te salvar, esqueça! Eu já estou contando os segundos para que minha alma deixe meu corpo para que eu não precise mais viver nessa droga de mundo pós-apocalíptico. Vou fechar meus olhos, contar até onde for possível e enfim me entregar a morte. Ao doce encanto da morte que por muitas vezes eu resisti, lutei e me esforcei para continuar vivo, mas agora isso não tinha mais sentido. A minha esperança já estava no limite e somente a morte seria minha solução.
...358, 359, 360, 361... 584, 585, 586... 927, 928... Sim um clarão. Minha contagem chegara ao fim.
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