Terra Cinza
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Notas iniciais
Dois passos.
Minha boca estava seca.
Onde eu estava?
– Acordou donzela? – perguntou uma voz desconhecida atrás de mim.
Forcei meus olhos para ver quem era, mas a silhueta estava borrada.
– Parece que está com sede, abra a boca.
Antes de obedecer ao seu comando, senti algo pressionar sobre meus lábios e depois o frescor. Sentir o frescor da água tirando o ressecamento de meus lábios e minha boca era algo inexplicável, talvez a melhor sensação do mundo.
– Sente-se melhor?
– Um pouco – consegui dizer, com dificuldades.
Aos poucos meus sentidos foram voltando e, surpreso, vi que quem me ajudara era uma mulher que não tinha uma aparência muito amigável.
– Obrigado – falei me recostando sobre o muro que estava atrás de mim.
– Você me custou 200ml de água – disse ela brava.
– Desculpa.
Ela se virou e saiu, sem dizer qualquer coisa ou se apresentar. Não sabia se ficava agradecido por ela ter me ajudado, me livrando da morte ou por não ter me matado para comer. Ou se ficava com raiva por não ter deixado meu sofrimento acabar.
Mesmo tendo recuperado um pouco das forças com aquele pouco de água, ainda não me sentia bem para andar. Meu estômago reclamava de fome e tudo o que tinha a minha volta eram pedras e montes de lixos da civilização anterior que não prestava mais para nada.
Então fecho os meus olhos e as lembranças voltam à tona.
Há uma turma de crianças em minha frente. Olho para os lados tentando reconhecer aquele lugar e me lembro que estou de volta à minha antiga sala de aula. No quadro negro havia os deveres de matemática que eu acabava de passar:
Maria tem um buquê de rosas com 25 flores, Rosa não tem nenhuma flor. Maria fica com pena de Rosa e lhe dá 13 flores de seu buquê. Com quantas rosas Maria ficará?
Se as crianças fossem espertas diriam nenhuma, porque Rosa matará Maria para ficar com todas, mas não, elas não irão responder isso. Afinal elas ainda estavam vivendo a inocência da idade.
– Doze — responde a minha aluna mais aplicada que acabara de fazer o cálculo mental.
– Isso mesmo, querida — falo dando um dos meus maiores sorrisos para incentivá-la. — Para acharmos o resultado é só subtrairmos 13 de 25 e acharemos a resposta da nossa coleguinha Anne: 12 rosas.
– Professor, — Lucas levanta a mão para falar — porque Maria deu uma flor a mais para Rosa e ficou com menos?
Essa é uma boa pergunta. Se ele tivesse perguntado: por que Maria não matou Rosa por causa da inveja de suas flores, seria mais fácil responder. Não, eles ainda vivem na inocência.
– Porque Rosa é amiga de Maria e ela queria o melhor para ela. Ela compartilhou suas flores e deu uma a mais para mostrar como ela era importante. É assim que devemos agir com as pessoas que nós gostamos, com os nossos amiguinhos...
Mentira! Se alguém quiser alguma coisa sua você o mata! Isso era o que nós deveríamos ter ensinado nossas crianças desde a pré-escola: a sobrevivência. Se eles soubessem desde cedo que só os mais fortes sobrevivem poderiam ter alguma esperança para sobreviver nessa nova realidade, mas aprendendo a doar, compartilhar e ser bonzinho só fará com que sejam presas fáceis para os mais espertos.
O sinal toca. Todos pegam suas mochilas e saem cheios de energia pelos corredores que em segundos ficam vazios.
Só que as coisas fugiram do controle.
Minha casa provavelmente está lá em algum lugar destruída. De que valeu meu esforço para erguer meu castelo? De que me valia todas as coisas de marcas legais que comprava só para impressionar meus vizinhos e meus colegas de trabalho? Amigos mesmo eu não tinha. Era rodeado de interesseiros, talvez por isso me sinta tão adaptado agora. Tudo, tudo o que eu tinha se resumia unicamente a nada.
Senti minha cabeça bater em alguma superfície dura e acordei assustado.
No primeiro instante a luz do sol me cegou. Era horrível essa sensação. Não conseguir ver nada, nem que fosse somente por alguns segundos, poderia representar a morte. Mas e daí, eu não estava mesmo me preparando para isso? Então repousei minha cabeça no chão e fechei meus olhos esperando o momento que algo me penetrasse arrancando meu coração ou os órgãos de dentro do meu corpo para me limparem para comer.
Nada aconteceu.
Esperei mais alguns minutos, porque provavelmente a pessoa estava preparando a arma para me matar e não queria causar nenhum desconforto para ela ao ver que sua presa o estava encarando.
Nada aconteceu novamente.
Que estranho, pensei. Eu podia ouvir a movimentação de alguém perto de mim então com toda minha certeza eu tinha sido capturado por alguém que me encontrara desacordado. Acabe logo com isso, implorava em pensamento. Relutante abri meus olhos.
A claridade ainda irritava meus olhos, mas conseguia enxergar alguns vultos em minha frente.
Havia uma árvore. Sim, com certeza aquilo era uma árvore, ou pelo menos o tronco seco do que um dia fora uma frondosa árvore. Vários amontoados de concreto, isso queria dizer que a pessoa me trouxera de volta para a cidade, ou o que restara dela. E bem próximo a mim estava um vulto mais suntuoso com uma silhueta frágil.
Era uma garota! Uma bem diferente da noite anterior.
Desde que eu começara a vagar em busca de sobrevivência, eram rara as vezes que encontrava alguma mulher. Elas eram alvos fáceis. No começo, muitas delas eram raptadas, estupradas e mortas depois. Com o tempo elas passaram a ser o prato principal no cardápio da sobrevivência. Por um lado isso era até bom, pois dessa forma não existiria mais como dar continuidade a raça humana, não existindo mais procriadoras seria impossível procriar.
Mas aqui estava uma. Bem na minha frente. Minha visão se adaptava a claridade e pude perceber maiores detalhes sobre essa mulher.
Mulher não seria o termo correto para usar. Por sua feição jovem eu daria sem medo de arriscar uns 17 ou 18 anos. O cabelo preto contrastava com a alvura de sua pele. Seus olhos tinham um brilho esperto, e seu corpo era esguio.
Quando ela viu que eu tinha acordado me olhou nos olhos. Outra sensação estranha.
– Ainda bem que acordou. Estava com medo que já estivesse morto.
Sua voz era firme, mas apresentava certa delicadeza. Quem era essa garota?
– Sim, estou bem. Como vim parar aqui? Onde estamos?
– Nossa, quantas perguntas para alguém que acabou de acordar depois de passar três dias dormindo — disse ela esboçando um sorriso.
– Três dias? Como assim? Eu vi você ontem a noite e...
– Mais perguntas? Por que não descansa um pouco, come isso aqui e depois conversamos?
Ela me entregou um objeto que lembrava um prato com uma mistura cinza dentro dele e esperou que eu comesse.
– Argh — grunhi quando coloquei um pouco daquela gosma informe na boca. — Que porcaria é essa?
Ela riu. — É ruim mesmo, mas é o que temos para hoje. Com o tempo você se acostuma com o gosto e nem sente mais, mas é bom você se alimentar. Parece estar faminto.
E estava mesmo.
Depois da primeira porção, fui levando a gororoba com a mão até a boca e engolindo sem mastigar e até que na última mãozada eu já não sentia mais o gosto. Ela abriu uma mochila que trazia consigo e de dentro tirou um copo e uma garrafinha com água.
– Bebe, vai te ajudar na digestão — disse me entregando o copo pela metade.
Joguei o líquido de uma só vez goela abaixo e cuspi instantaneamente ao sentir o gosto forte da cachaça que queimou minha boca.
– Isso não é água.
– Claro que não. Você acha que só água ajudará seu estômago a digerir isso aqui?
Ela pegou o copo de minha mão e encheu novamente me entregando em seguida. Tomei devagar sentindo o líquido descer queimando minha garganta.
Ficamos em silêncio.
Eu a olhava.
Ela olhava o horizonte.
Seus olhos castanhos mantinham-se fixo olhando para o sul.
– O que espera ver lá? — pergunto tirando-a de seus pensamentos.
– Você acha que o mundo inteiro está desolado assim? — ela ainda não me olhava.
– Já se passaram o que? 12 anos? Sim, acho que o mundo inteiro está assim.
– Eu ainda não consigo entender como tudo aconteceu, foi tão rápido. Eu ainda era uma criança.
Meu coração disparou. A mudança nas pessoas começou a acontecer gradativamente há uns 15 anos atrás. Há 6 anos as coisas pioraram e cada um vivia conforme suas próprias leis. Cada um fazia o que achava certo. Pais abandonavam filhos, famílias eram destruídas, pessoas matavam pessoas sem serem punidas, os presídios liberavam seus presos, empregados largavam seus empregos, fora uma loucura. E se eu estivesse certo e ela tivesse dezoito anos, quando tudo começou ela tinha apenas três anos de idade. Como ela conseguira sobreviver todo esse tempo?
– Qual seu nome? — perguntei a ela.
– Lucia — disse ela. — E o seu?
Há tanto tempo eu não uso meu nome. Não há mais necessidade de nomes. Eu poderia ser quem eu quisesse, poderia falar que meu nome era Marcos, Rui, Washignton, Gervásio, Obama e quem poderia dizer que não era? Todas as pessoas que eu conhecia da minha antiga vida estavam mortas ou estavam matando, documentos não tinham valor algum. Identidade, passaporte, carteira de trabalho, tudo havia sido consumido pelo tempo ou perdidos nas fugas ou simplesmente descartados. Eu poderia dizer que sou Deus, mas não me senti a vontade em mentir para ela, não naquele momento onde ela parecia estar sendo sincera comigo.
– Gabriel — respondo enfim.
– Prazer em te conhecer, Gabriel — ela diz estendendo sua mão direita para mim.
Apesar da falta de prática meu movimento é quase involuntário quando estendo minha mão e dou um aperto firme, cumprimentando-a.
– Prazer.
Nossas mãos ficam por um tempo juntas e durante alguns segundos eu esqueço que há três dias atrás eu estava disposto a morrer por não acreditar mais no mundo, mas aquele aperto de mão fez algo dentro de mim pulsar mais rápido me fazendo lembrar como era sentir o toque de outra pessoa.
E isso poderia representar o meu fim.
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