Notas iniciais
Novos acontecimentos fazem lembranças invadirem a mente de Gabriel, e algo que ele pensou não existir mais dentro de si reaparece de uma forma estranha. Agora caberá saber se permiti-los será uma boa ideia ou apenas o maior erro de sua vida que poderá custar sua segurança. Leiam, comentem e me digam o que achou... em breve posto mais :)

– Por que você me salvou? — essa era a pergunta que não saía da minha mente.

Ela não respondeu de imediato. Parecia estar escolhendo as palavras que utilizaria para falar.

Não a apressei.

Os dias haviam se tornado mais longo. O grau de poluição estava elevadíssimo. Era difícil respirar, difícil suportar o calor por causa da camada de ozônio mais frágil e difícil ficar muito tempo num ambiente livre sem sofrer alguma queimadura de segundo grau por causa dos raios solares. Nós estávamos debaixo de um pedaço de viaduto que mantinha se em pé escorado por uma cabine de carreta. Ainda não sabia com precisão nossa localidade e muito menos como ela me trouxera até ali. Essas seriam as próximas perguntas que faria.

– Não existe um motivo certo.

Esperei que ela desse prosseguimento na resposta, mas ela parou ali.

– Então você me encontrou desacordado, me carregou até aqui, me deu da sua comida e não teve nenhum motivo para fazer isso? Qualquer pessoa em seu lugar teria me matado para comer minha carne.

– Não como carne humana — ele rebateu secamente. — Apenas te salvei por que achei que seria o certo a fazer.

As palavras soaram como um soco na boca do meu estômago. Ouvir “certo” e “fazer” na mesma frase era algo que não acontecia há muito tempo.

– Desculpe estar sendo cético com suas motivações, mas veja bem, nós estamos vivendo em um mundo onde não existe mais o certo e o errado. O que fizer está feito e nenhuma ação será julgada.

– Você não acredita nisso — falou continuando com o tom seco.

– Por que diz isso? – perguntei curioso.

– Você não me atacou. Essa seria sua primeira reação se pensasse dessa forma. Atacar, matar e comer. Você simplesmente está aí tentando entender meus atos para saber se vou usar você para algo. Mas pode ficar tranquilo, eu não vou. Só queria ajudar.

– Eu não te atacaria, você me salvou.

– E isso vale de que? Você mesmo disse "não existe mais o certo e o errado" – concluiu com um sorriso no rosto. Ela não parava de me surpreender.

– E se eu tivesse te atacado?

– Te mataria – respondeu sem titubear.

Ri.

– Está duvidando de mim? Você acha que sobrevivi até agora como? Sorte?

– Não, mas você não acabou de dizer que não come carne humana?

– E não como mesmo. Matar alguém não quer dizer que eu precise comer sua carne.

– Você tem razão.

Silêncio.

Ela lembrava meu passado. Sua presença, suas respostas e atitudes me faziam confrontar com meus conhecimentos. Nesses seis anos tive que desaprender muitas coisas e aprender outras novas. Cumprimentar alguém que passava por mim na rua tinha sido substituído por me esconder caso notasse a presença de outra pessoa perto. Tratar pessoas com cordialidade fora substituído por perguntar depois de atacar. Tornamo-nos seres humanos sub-racionais, com uma mentalidade acima dos animais, mas inferior a racionalidade do que fomos um dia. Um regresso na evolução das espécies.

Já retrocedemos. Voltamos para a idade da pedra. Com tacapes de madeira, a linguagem inutilizada, a sociedade destruída e...

– Vou para o sul — disse ela interrompendo minhas divagações mentais.

– Como? — pergunto saindo do meu torpor.

– Disse que estou indo para o sul.

Seu olhar voltou para a o sul e apontou um de seus dedos na direção.

– Meu pai sempre falou que o sul do país era bem desenvolvido, parecia ser um outro país dentro do Brasil. A educação lá era a melhor de todos os estados, as pessoas respeitavam as leis e também uns aos outros, o modo de vida deles eram saudáveis para a sociedade e também quero conhecer o mar.

– Mas isso foi há muito tempo — digo me sentindo como uma pessoa que fala a uma criança que o Papai Noel não existe. – Agora imagino que lá seja como em todos os outros lugares: inabitado, destruído, perigoso.

– Pode até estar decaído, mas com certeza deve ter alguém que ainda acredite em comunidade — diz ela numa voz triste.

– É nisso que você quer acreditar?

Ela responde que sim com a cabeça.

– Você está me saindo uma bela sonhadora romântica — digo esboçando um pequeno sorriso.

– E não é pra ser? Que graça teria estar vivendo em um mundo como esse se não nos apegássemos a pequenos sonhos, pequenas esperanças ou algo que nos motivasse a encontrar um futuro melhor?

Que graça teria? Não tem graça!, respondo em minha mente. O mundo perdeu a graça a muito tempo. Sonhar era perda de tempo. Esperar algo para o futuro é uma amarga ilusão. Não há mais no que ter esperança, é uma pena que uma pessoa tão jovem tenha que descobrir isso de uma forma tão ruim. Viver não é fácil, não agora, onde tudo o que existe para se ter esperança se resume a nada.

Anoitece.

Lucia prepara mais um pouco da comida cinza. Quando ela me serve, lembro-me da última vez que fui ao restaurante em frente a escola.

O sinal havia soado às 11:30 encerrando o período letivo. O ano estava acabando e agora só precisaria voltar ali para aplicar as provas da recuperação final. Estava feliz. Era um dia quente de verão e o sol se mantinha vivo, intenso e revigorante bem no meio do céu. O cheiro da comida invadiu minhas narinas e meu estômago deu um pequeno sinal para alertar minha fome.

A garçonete que me atendera usava um perfume floral refrescante. Atendeu-me com um de seus melhores sorrisos e anotou o pedido: macarronada, feijão bife, arroz branco, batata e uma porção pequena de salada. Enquanto estava sendo preparado me servi de refrigerante e instante depois saboreava a comida.

Com as lembranças eu podia sentir o gosto do alho e da cebola em minha boca. Isso minimizava o gosto ruim causado por aquela comida cinza.

– Não tenho nenhuma lembrança de como o mundo era antes de tudo isso acontecer — suas palavras pareciam um pensamento em voz alta. — Você se lembra de alguma coisa?

– Somente do trivial — respondo ingerindo a ultima mãozada da comida cinza. — Lembro que todos os humanos viviam em sociedade, tinham amigos, famílias, empregos, cada um cuidava do outro, mas mesmo antes disso tudo acontecer para chegarmos a esse estado critico, as coisas já não estavam indo tão bem. Faltava apenas uma gota para transbordar todo o copo para conhecermos a verdadeira essência da raça humana.

– O que você fazia?

– Eu era professor. Trabalhava com uma turma de terceiro ano.

– Você tinha família?

– Não — minha mente se volta para o momento em que pedia a mão da minha namorada em casamento e ela recusara por estar tendo um caso com seu primo. — Não cheguei a casar ou ter filhos, ainda bem. E meus pais morreram quando eu tinha catorze anos. Desde cedo eu aprendera a me virar sozinho.

– Entendo.

– E você? Onde estão seus pais?

– Minha mãe falecera quando eu nasci. Foi um parto difícil e o médico pediu meu pai para escolher: salvar a mulher ou a criança. A escolha dele me fez tornar a culpada pela morte da minha mãe. Passamos minha infância morando em uma cidade do interior de Minas Gerais e quando tudo começou nós começamos uma jornada para chegar ao sul do país. Ele sempre me contava como era bom viver lá quando era criança. Meu pai morreu há uns dois anos.

– Sinto muito.

– Não, não sinta. A culpa foi minha. Eu não deveria ter saído para caçar, mas naquela manhã nós havíamos discutido e com raiva peguei minha bainha de facas e saí sem dizer para onde ia. Ele ficou igual a um louco me procurando, fazendo-o ficar desatento aos perigos. Fora uma presa fácil para um grupo de humanos que espreitava o nosso acampamento há alguns dias. Quando voltei, vi uma movimentação estranha e me escondi atrás de uma pilastra de concreto. Cuidadosamente tentei ver o que acontecia lá embaixo quando ouvi um urro de dor saindo da boca do meu pai, sem pensar corri para ver o que estava acontecendo e vi dois homens segurando os seus braços enquanto um terceiro passava a faca pela barriga do meu pai fazendo todos os órgãos saltarem de dentro dele. Meus olhos se encheram de lágrimas, minha visão embaçou por causa disso, mas consegui ver claramente o olhar que meu pai me lançará e o movimento quase sem força dos lábios dele dizendo para fugir. Desde então tenho vagado sozinha rumo ao sul.

Não sabia o que falar. Viver uma dor tão grande como essa desestabilizaria qualquer um. Talvez tenha sido por isso que nós tenhamos escolhido viver por nós mesmos não nos importando com ninguém. Assim não havia como sentir culpa, medo, preocupação ou amor por outra pessoa. Todas as memórias sobre as pessoas do meu passado não passavam de borrões em minha mente. Não lembro quais eram seus nomes, não lembro o que faziam e isso não faz a menor diferença para mim. Não me importo mais. Se encontrasse com alguém do meu passado existiria cem por cento de chances que eu não o reconheceria.

– Não consigo entender. Nesses últimos seis anos eu vivi com medo de qualquer um por causa do que havíamos nos tornado. Nunca encontrei alguém que se importasse com os outros. Eu pensei que era o último ser do mundo que ainda tinha um resquício de humanidade, mas aí quando decido que quero morrer aparece você e me confronta com a realidade. Será que existem outros como a gente?

– Quero acreditar que sim — sua voz é sincera. — Ainda tenho grandes dificuldades em acreditar que o homem perdeu a sua essência, que ele deixou se tornar um ser irracional vivendo só por instintos para saciar suas necessidades e prazer.

– Mas você não viveu o passado da humanidade. Como pode saber que as coisas já não eram assim há muito tempo?

– Meu pai me ensinou — respondeu rispidamente. — Meu pai era um grande romântico. Acreditava no melhor das pessoas sempre. Ele me educou com esses princípios, mas também me ensinou a sobreviver.

– Seu pai deve ter sido um grande homem.

– E era. Ele preenchia todo o espaço vago que faltava para completar a falta da minha mãe, de amigos, de uma vida normal — ela riu. — Normal. Eu nem sei o que essa palavra quer dizer, mas era o que sempre me prometia todas as noites antes de me colocar para dormir: "Papai fará de tudo para que você viva uma vida normal". Depois me beijava a testa e eu pegava no sono.

Lágrimas escorriam por seu rosto.

– Sinto muito — falei novamente tomando para mim suas dores.

– Não sinta — respondeu ela num tom frio. — Não é isso que todos fazem? Não sentir usando como desculpa o jargão "sentimentos enfraquece o homem".

– Na verdade não — falei me surpreendendo com minha resposta.

Notas finais
Leiam, comentem e me digam o que achou... em breve posto mais :)