Era tarde de quarta feira. O brilho do outono desenhava as nuvens naquele imenso céu azul trazendo uma grande felicidade. Ruth estava sentada debaixo de um enorme carvalho saboreando uma maçã suculenta enquanto sorria para mim. Seu sorriso irradiava mais luz que a do sol que me fazia encolher os olhos até chegar debaixo da sombra da árvore.

Eu tinha 23 anos naquela época. Estava começando minha carreira como professor e acabava de sair da escola para encontrá-la. Nossos encontros eram quase como uma maravilhosa obrigação diária a se cumprir.

A brisa fresca brincava com os longos cabelos dourados de Ruth tornando aquela cena em uma tela viva pintada por Deus. Meu coração se enchia de alegria só por vê-la feliz. Aquilo me dava forças me revigorando cada vez mais, fazendo-me um homem melhor.

Isso durou apenas três estações.

Naquele dia ela não havia me ligado para marcarmos nosso encontro.

Naquele dia um dos pais de um aluno foi até minha sala para termos uma conversa sobre seu filho.

Naquele dia eu discuti com o pai do aluno.

Naquele dia eu peguei a vadia transando com o meu melhor amigo em cima do sofá da minha sala.

Minha casa ficava a três quarteirões da escola e eu sempre ia e voltava caminhando. O ar puro diluia um pouco da minha raiva, mas não fora suficiente para me segurar de encher a cara do meu amigo de porradas.

Antes de abrir a porta notei um barulho estranho vindo da sala de estar e num instinto procurei alguma coisa do lado de fora para usar como arma caso me deparasse com algum ladrão ali dentro. Encontrei um cabo de vassoura quebrado. Não era o ideal, mas serviria. Lentamente destranquei a porta e a abri saltando para dentro num movimento rápido. Ruth deu um grito abafado e Leonardo a empurrou de cima dele jogando-a no chão por causa do susto. Seu membro ainda estava ereto e durou cerca de dez segundos para os dois processarem as informações e procurarem alguma coisa para se cobrir.

Senti o chão sob meus pés se abrindo e só me dei conta do que estava fazendo quando gotas de sangue que escorriam no rosto de Leonardo voaram até meus lábios enquanto dava socos repetitivos em sua cara. Ruth tentava me parar, mas eu era bem mais forte que os dois juntos, então era inútil as tentativas dela.

Deixei-o desacordado.

Ela sabia que estava tudo acabado e nem tentou se explicar. Esperou que Leonardo recobrasse a consciência e ambos saíram sem dizer uma palavra. Naquela noite eu esgotei todo o estoque de bebidas da minha casa.

No dia seguinte não fui trabalhar e nem me dei ao trabalho de ligar para a escola para avisar o motivo.

No outro também não. Não encontrava forças para levantar da minha cama.

Assim foi durante toda a semana.

Durante o mês.

Durante um bom tempo.

Tinha entrado num estágio de deploração.

Nessa época a televisão já começava a mostrar alguns movimentos contra a corrupção no Brasil, protestos com manifestantes lutando por direitos e melhoria de vida, indignação e as lutas por um país melhor. Eu não dava a mínima para isso.

Com o tempo as notícias foram mudando. O povo foi se acostumando com a situação e aos poucos as lutas forma cessando.

Isso aconteceu no Brasil.

Nos outros países eram noticiadas guerras por territórios e água, destruição de cidades inteiras, bombas nucleares sendo construídas e também usadas.

O terror começava.

Mas ainda era bem sútil, ninguém imaginava o que estava por vir.

Um ano depois fora declarado a Terceira Guerra Mundial. Foi um caos total para o mundo. Todos os países se protegeram da maneira que podia, os maiores atacavam, e os menores se uniam às grandes potências. O Brasil foi um dos que se aliou aos Estados Unidos, assim como os outros países do continente americano e o continente asiático que guerrearia contra a Europa e a África. O mundo tinha virado um grande campo de batalha. Aos poucos o mundo foi se autodestruindo e os sinais da guerra estavam presentes em todos os lugares.

Haviam poucos lugares habitáveis. O ar se tornou seco e poluído pela quantidade de produtos tóxicos e radioativos espalhados pelas bombas. A água, em sua maioria, fora contaminada também, deixando-a intragável e consequentemente toda a vegetação morreu.

Eu vi o mundo passar de local civilizado a um circo de horrores. Incertezas geraram atitudes desesperadas. O ser humano não estava preparado para ver toda a fonte de alimento acabar assim diante de seus olhos. Os governantes não se pronunciavam, a população ficou no escuro. A população ficou com medo. A população agiu sem pensar.

Os humanos que sobreviveram aos ataques procuravam lugares remotos para viverem, bem longe das antigas cidades e civilizações.

Esse fora o primeiro passo para o individualismo.

Depois o isolamento.

E como reação a tudo que estava acontecendo o instinto de sobrevivência falou mais alto, e uma das leis mais antigas no mundo voltava a comandar, somente o mais forte sobreviveria.

Eu não sei como cheguei até aqui.

Ж

Ela continuava me olhando.

Devo ter passado um bom tempo perdido em meus pensamentos. A comida de nossos pratos improvisados havia acabado e meus olhos começavam a pesar.

Lúcia respeitou meu momento.

Como já estava escurecendo, ela tirou um pedaço de pano de dentro da mochila que trazia consigo, ao qual eu só reparara naquele momento, e arrumou perto de uma parede que ainda lutava para se manter em pé.

– Deite aqui — disse ela. — Você precisa descansar.

Abri e fechei a boca e abri novamente, mas não encontrei nada para falar. Então fiz o que ela havia dito e me deitei sobre aquele pedaço de pano. Não sabia que estava cansado, mas assim que minha cabeça pousou sobre o chão duro senti o peso dos dias sozinho e rapidamente me entreguei ao sono.

Não sonhei.

Acordei quando o dia estava clareando e percebi que ela havia montado guarda a noite inteira.

– Não precisava fazer isso – disse com uma voz de sono.

Qualquer um teria me deixado ali para ser presa fácil. Qualquer um teria me deixado morrer no dia anterior. Qualquer um me veria apenas como o jantar. Mas eu estava descobrindo que Lúcia não era qualquer uma. Talvez ela fosse aquela pontinha de esperança que eu mantinha viva dentro de mim. Ou então aparecesse um herói e mudaria a história do mundo fazendo voltarmos à civilidade, ética, respeito e humanidade.

E talvez eu ainda estivesse dormindo e sonhando.

– Cale a boca — gritou com uma voz cansada. — Você achou que eu te deixaria aqui para morrer?

– Seria o que qualquer um faria.

– Você faria isso se fosse o contrário, se fosse eu que estivesse precisando de cuidados? Novamente você vem me questionando sobre fazer o certo... Se eu não quisesse te ajudar, teria deixado morrer lá atrás – falou ela indignada.

Senti um nó na garganta.

Droga! Por que diabos ela está me ajudando?”, pensei. Não fazia sentido algum isso.

Dei de ombros.

– Estou de partida — disse ela recolhendo as coisas. — Vou continuar minha jornada.

Fiquei sentado olhando o horizonte.

– Se quiser vir comigo, tudo bem.

Sua voz não transparecia emoção, súplica ou pelo menos um pedido amigável. Ela parecia dizer por dizer, como uma obrigação em que ambas as partes sabia que haveria uma recusa.

– Por quê? — forço-me a perguntar.

Ela pensou por alguns segundos e vi seu semblante mudar de impessoal para uma tristeza aguda. Uma lágrima correu por sua face.

– Caramba! — disse ela enxugando a lágrima. — Você é a primeira pessoa que encontro em anos que parece existir ainda um pouco de humanidade. Só pensei que...

– Tudo bem — interrompi-a.

Ela me lançou um olhar agradecido.

– Pode parecer insano, mas onde há sanidade no mundo que vivemos hoje. Vou te acompanhar nessa jornada e quem sabe eu não reencontre o que perdi há muito tempo?

Ela sorriu.

Eu temi por seu sorriso. Talvez ainda estivesse muito cedo para qualquer demonstração de felicidade. Talvez ainda estivesse muito cedo para tomar uma decisão como essa, mas que chance eu teria ficar ali sozinho?

O fato era que eu estava envelhecendo. Quanto tempo eu ainda tinha de vigor para conseguir alimento e lutar pela sobrevivência? Segui-la era a única certeza sobre minhas incertezas que tinha para hoje. Então me recompus e me coloquei de pé caminhando em sua direção.

– Para que lado fica o sul?

Notas finais
Não esqueçam de deixar seus comentários... eles são muito úteis para o encaminhamento da história ;)