Notas iniciais
Sejam bem vindos de volta ao desolado sabor de Terra Cinza. Não é algo que condiz com a história, mas fico feliz ao ver a assiduidade de The Crow e Milla Winchester lendo e participando ativamente da minha história... vcs são quase humanos... kkkkk. Dessa vez vamos acompanhar mais um pouco a trajetória de nossa dupla por esse mundo caótico e descobriremos um pouco mais sobre a essência do nosso personagem principal. Boa leitura e não esqueçam de comentar... . Um prato de comida cinza a todos :v

Quando era criança e morava com meus pais, lembro-me de um caso de violência familiar que passara em um telejornal noticiando o assassinato de uma criança de oito anos cometido por um estranho. Aquilo teve uma repercussão nacional e mexeu muito comigo. Por noites não consegui dormi, meu relacionamento com meu pai se tornou estritamente mecânico, eu o temia mesmo sabendo que nunca faria uma coisa daquelas comigo.

Hoje, quando penso nesse assunto dou risadas da minha cara.

Depois que passei a viver por mim mesmo e as coisas estavam criticas, ouvia pessoas passando por mim falando sobre situações parecidas como se fosse algo trivial do dia-a-dia. Na farmácia em frente onde eu ficava, um morador conhecido, bem de vida até, enfiou uma caneta que trazia no bolso no olho de um adolescente só porque ele passou correndo pelos corredores trombando de frente com esse senhor fazendo derrubar as sacolas que trazia.

Primeiro os mais fracos foram atacados: crianças e idosos.

Assim que percebi que a alma humana havia mudado, que todos estavam perdendo sua racionalidade se deixando levar por emoções irracionais tornando-se pessoas com instintos bestiais procurei um lugar para me esconder.

A antiga escola em que trabalhava tinha um porão onde ficavam guardado os arquivos antigos e materiais de limpeza. Somente o zelador ia naquele local. Vivi um bom tempo ali.

Quando cheguei ao local, a escola ainda funcionava normalmente e precisava me esconder com frequência ocultando minha presença ali, mas com o tempo as idas do zelador ali embaixo foram se tornando esporádicas até cessarem por completo. Foi quando a crise afetara também a educação e a escola fora fechada. Era estranho ver o lugar onde você foi educado e posteriormente tornara seu local de trabalho acabar assim, abandonado. Era como se o castelo de cartas que estávamos construindo ao longo de nossas vidas ruísse tornando somente um amontoado de papel. Eu lembro que uma lágrima escorreu por meu rosto.

Fiquei pouco tempo ali depois disso.

A comida havia acabado, eu precisaria migrar para outro lugar para conseguir o que comer e então descobri que as coisas haviam fugido do controle. Foi quando perigosamente fui para uma das grandes capitais do Brasil, Belo Horizonte.

Na primeira noite fora da escola fui atacado. Eu havia montado um acampamento improvisado debaixo de uma ponte onde ficava a saída de esgoto da cidade, na rodovia principal, e me cobria com um pedaço de papelão que carregara comigo para me proteger do frio. Já tinha prática em como sobreviver nas ruas e por um momento me senti feliz por saber o que fazer nessa situação tão precária.

Os carros não circulavam mais pelas ruas e estradas. As fontes de petróleo foram extintas e dessa forma vários combustíveis saíram de circulação. Lembro que no começo, bem antes de tudo acontecer, começava uma corrida pela fabricação de combustíveis a base de produtos orgânicos, mas com o desmatamento em alta escala e a grande procura por combustíveis, os fabricantes não conseguiram dar conta e o projeto fora abandonado.

Então não havia o risco de ser atropelado por estar dormindo no meio da estrada. E como eu não encontrara ninguém pelo caminho achei que estivesse seguro. Estava enganado.

O sol se pôs rapidamente e a escuridão silenciosa dominou o lugar. Estava cansado por caminhar, já fazia um bom tempo que não me exercitava daquela forma, e não foi difícil dormir.

Mas meu sono fora perturbado.

Fui pego desprevenido e levado à força para um refúgio de uma família. Pai, mãe, filho, filha e recém nascido. O local era iluminado por uma fogueira e não dava para ver muita coisa, mas conseguir ver claramente o brilho nos olhares que se acenderam quando viram o pai e o filho chegar com a "caça do dia".

Eu ainda não sabia disso.

Não sabia que eu seria o jantar daquela família aquela noite.

Não sabia que essa era a dieta atual do mundo.

Não sabia que até o recém nascido era alimentado com tiras de carne humana que sua mãe assava numa churrasqueira improvisada construída pelo seu marido para a preparação dos alimentos.

Claro que eu não sabia disso. Se há muito tempo eu parei de me importar com o mundo, porque eu saberia que o mundo havia mudado?

Primeiro tentei descobrir o que estava acontecendo. Apresentei-me, falei sobre mim, perguntei quem eram eles, porque tinham me trazido para ficar ali e porque o meu raptor amolava um facão numa pedra enquanto a mulher alimentava o fogo com madeira seca. Levei um soco na boca do estômago por falar demais. Poderia ter reagido, afinal, fora o filho quem me golpeara e a julgar pelo seu tamanho e fisionomia não aparentava ter mais de treze anos, mas minhas mãos estavam atadas, literalmente. Então me calei.

Fiquei observando. Meus olhos se adaptaram a parca iluminação do local. Consegui ver uma barraca de camping armada próximo a um tronco seco. Havia também muitas pedras ao redor do local. Era um bom esconderijo. Havia também mais alguma coisa ali que meus olhos não conseguiram captar instantaneamente. Alguma coisa que não fazia parte do local, que estava errada, mas não conseguia identificar o que era. Passo a observar a família.

Não consigo entender o que eles dizem.

A mãe continua atiçando o fogo. O pai amolando o facão. A filha mais velha cuida do bebe. O filho continua me vigiando, agora com um pedaço de pau na mão. Só quando o pai acaba de amolar o facão é que consigo captar um fragmento de sua conversa.

–... pegue a vasilha para guardamos o sangue para aproveitarmos depois — ele diz a sua mulher enquanto guarda o esmeril dentro da barraca.

Engulo em seco e olho novamente para todos os membros da família.

Percebo o que está errado.

Todos estão magros demais. Desnutridos demais. E famintos demais.

Todas se excitaram ao me ver, pois sabiam que estava chegando comida.

Eu era a comida.

Tentando não revelar meu pavor dou uma olhada em volta à procura de uma rota de fuga, mas está muito escuro. A fogueira ilumina somente uma parte do acampamento e além do que vira antes, meus olhos se atentam para um amontoado de ossos ao lado da barraca e isso aumenta meu pavor. Eram ossos humanos. Eu não era a primeira pessoa que era trazida ali como caça. Quem sabe quantos já serviram de alimentos para esse grupo? O medo consegue me dominar por alguns segundos e tento me controlar para achar uma forma para escapar dessa enrascada, mas não consigo pensar em nada.

O menino continua com seus olhos sobre mim. Cada momento que passo preso ali sinto minha morte próxima e estou incapaz de fazer qualquer coisa.

Espero pelo pior.

Espero pela minha morte.

Espero o facão ser cravado em minhas entranhas para finalmente eu ser liberto desse mundo e quem sabe encontrar alguma coisa maior após minha morte nos cosmos, no céu ou seja lá o que existir depois que a vida acabar aqui na terra.

Mas sou acometido por uma dose de adrenalina que não consigo explicar de onde tenha vindo. Talvez um instinto enterrado no mais profundo do meu ser pela sobrevivência. Então, quando o homem chega para me atacar com o facão me levanto atirando todo o peso do meu corpo contra ele e ambos caímos no chão. O facão voa longe. Tento me recuperar da queda e me coloco de pé novamente com alguma dificuldade e espero pelo novo ataque... que não acontece imediatamente. Isso me dá tempo para correr até onde o facão caíra e consigo cortar a corda que prendia minhas mãos.

Espero em posição de ataque que se levante para infringir um golpe fatal contra ele, mas ele continua lá deitado no chão. Imóvel. A ficha demora a cair e somente quando consigo ver a poça de sangue formando sob sua cabeça é que percebo que acabara de matar um homem.

Eu acabara de matar um homem que queria me matar.

Isso justifica meu ato?

Não era hora para pensar nisso.

Assim que a família percebe o que aconteceu e passa o choque inicial pela morte daquele homem o menino corre em minha direção ensandecido com o pedaço de pau em sua mão golpeando meu braço esquerdo. A dor é instantânea. Ele se prepara para um novo golpe, mas antes que ele consiga me acertar novamente ajo rápido e mesmo com a dor insuportável no meu braço consigo enfiar o facão no peito do menino. O sangue quente escorre pelo facão e o sinto em minha mão. A mãe do garoto solta um grito desesperado e a menina tenta acalmar o bebê que começara a chorar por causa do grito da mãe.

Estou assustado pelo que acabei de fazer. Tento me desculpar, mas a mulher continua chorando e gritando desesperadamente como se o mundo estivesse prestes a acabar. Que ironia. Solto o facão sujo de sangue no chão e começo a correr.

Por um tempo corro desorientado pensando no que eu acabara de fazer. As pedras no caminho machucam meus pés e sou obrigado a parar. Meu braço ainda dói e quando levanto a manga da camisa vejo uma mancha roxa que se formara por causa do golpe.

Se o garoto fosse esperto ele teria atingido a mão que eu segurava o facão. Assim ele ainda poderia estar vivo... e eu morto, penso sentindo um arrepio subir por minha espinha. Eles mereciam isso, afinal eles queriam em matar. Foram eles que me capturaram e me levaram para aquele lugar. Foram eles quem pediu por isso. Eu não tenho culpa disso.

Então me lembrei daquele caso de quando era criança e me coloquei no lugar do assassino. Eu sempre o julguei como culpado mesmo não sabendo quais foram os motivos que o levaram a fazer aquilo. Ele nunca fora pego e o caso foi arquivado por não encontrarem o assassino. Então nunca ninguém soube o que o levou a matar a criança: problemas mentais, desvio de caráter, sadismo ou simples defesa.

Hoje eu matara duas pessoas. Mesmo sendo por defesa eu me igualava aquele assassino. Eu era um assassino e, em dias normais, as pessoas me veriam como o assassino daquela criança. Eu seria julgado pelas pessoas como mal caráter, como louco, como uma pessoa que não merecia viver livremente na sociedade. Eu seria levado a julgamento e condenado à prisão por muitos anos. Senti asco de mim mesmo e vomitei.

As sensações brincavam dentro de mim se intercalando entre a vergonha, a culpa, o alívio e por último o prazer. Eu não os matara porque quis, fora necessário fazer aquilo e eu simplesmente fiz. Não tenho com o que me culpar, afinal autodefesa é aceitável pela sociedade. Não há então com o que se preocupar, tenho a consciência tranquila.

Só que dizer e pensar era bem mais fácil do que fazer.

Durante muitos dias fui invadido pela culpa da morte daquelas duas pessoas, de ter deixado mãe e filhos à mercê da sorte, de ter destruído uma família.

Esse foi meu primeiro assassinato.

Esse fora o segundo estágio que eu passara para começar a perder a humanidade, o primeiro já havia acontecido há muito tempo quando decidi trocar minha vida estabilizada pela incerteza de morar na rua. Sem saber estava me tornando numa pessoa fria e me acostumando com as abominações humanas a ponto de achar aquele meu ato normal e quase louvável. Compreendi que naquela noite eram eles ou eu. E mesmo fingindo não dar valor a minha vida, meu instinto de autopreservação estava aflorado em minha pele.

Ж

Minha mente voltou ao presente.

Meus olhos ardiam por causa da forte claridade do sol e eu andava com eles quase fechados. Lúcia tinha um óculos de sol que conseguira nas suas andanças e isso facilitava sua caminhada durante o dia me fazendo parecer um peso morto. Na noite anterior decidimos que levantaríamos acampamento pela manhã e partiríamos rumo ao sul.

Eu ainda estava receoso com essa sua obsessão por encontrar qualquer sinal de civilização no que há anos atrás era conhecido como a região Sul do Brasil compostas por três estados colonizados por italianos, alemães e outros povos que fizeram do lugar um exemplo de respeito, civilidade e qualidade de vida. Mas isso fora há muito tempo. Isso foi antes das guerras começarem, antes do mundo ser devastado e as pessoas trocarem sua sanidade por sua sobrevivência.

Meu pai lia muito para mim quando era criança, e um dos livros que ele leu havia um fragmento de Jalal-uddin Rumi que dizia: " Se você nunca viu o diabo, olhe para si mesmo." Mesmo ainda sendo criança ele me explicou o significado daquelas palavras. O homem é o seu próprio diabo, dizia ele enquanto acariciava minha cabeça. E essas palavras me acompanharam por vários momentos de minha vida, onde fui descobrindo aos poucos o quão mascarados é essa raça de seres que se diziam superiores aos animais, mas que em momentos de crise como esse se entregam aos meios mais fáceis.

Talvez fosse estranho eu ter feito faculdade para pedagogia. Eu não acreditava que as crianças seriam o futuro da humanidade. Eu gostava tanto de crianças quanto gosto de uma pereba purulenta. Mas sempre fui um ótimo profissional. Eu aprendi a me mascarar. Em noites de amargura eu me olhava no espelho e não me reconhecia. Quem era aquela pessoa que vivia uma vida comum, com uma namorada comum, um emprego comum e suas falsidades comum?

E agora, olhando para Lúcia e vendo suas esperanças, expectativas e sonhos, me sinto golpeado brutalmente por esses questionamentos do passado. Por que mesmo ela parecendo querer me ajudar eu me visto com uma máscara mostrando para ela uma coisa que não sou.

E o pior de tudo: ela não sabe quem eu sou. Ela não sabe se sou capaz de atacá-la a qualquer momento para poder me alimentar de sua carne ou somente para aproveitá-la sexualmente, afinal o mundo está em caos, mas os desejos sexuais ainda estão vivos em nossos corpos. Ela não sabe que assassinei pai e filho, mesmo que para me proteger, mas sentindo-me satisfeito por isso. Ela não me questiona sobre meu passado. Ela não quer saber quem eu sou. Apenas me dá o benefício da dúvida e confia em mim.

Só que eu mesmo não confio em mim.

Meus pensamentos são maus.

Eu me tornei uma pessoa má.

Mas ela não pode saber de uma coisa dessas, porque ela não está nem aí.

E o cordeiro caminha com o lobo.

Como ela não queria saber nada sobre mim e eu não me sentia à vontade para perguntar mais sobre o seu passado, nossas primeiras horas de caminhada foi em silêncio.

À medida que o dia ganhava vida, a intensidade da luz solar e o calor aumentavam sobremaneira dificultando as coisas para mim. Não conseguiria continuar naquelas condições. Normalmente eu passava meus dias escondidos em algum lugar escuro e saia para caçar à noite. Outra coisa que me dificultava muito era não estar em forma para longas caminhadas.

– Vamos parar um pouco — disse ela notando meu estado deplorável. — Talvez não tenha sido uma boa ideia caminharmos de dia.

Assenti e procuramos um lugar com sombra para nos abrigarmos. O local parecia uma velha mercearia abandonada, a fachada estava completamente destruída, não havia mais porta no local, as prateleiras que ainda mantinham-se em pé estavam vazias e o sinal de vida humana ali era zero. Caminhamos juntos até os fundos, onde ficava o estoque e ao abrir a porta foram surpreendidos com um cheiro forte de podridão vindo de um corpo que estava em decomposição e sendo comido por ratos. O rosto de Lúcia se fechou e levando a mão à boca fechou a porta rapidamente deixando uma lágrima órfã escorrer por seu rosto deixando o local imediatamente.

Eu saio correndo atrás dela.

– Nós temos que voltar lá dentro — digo após a sensação de ânsia passar.

– O que? Você ficou doido?

– Claro que não. Você não viu que perto do corpo tinha uma prateleira com algumas latas, parece comida.

Ela me olhou em dúvida. — Como você conseguiu ver alguma coisa lá dentro?

– Eu não fiquei prestando atenção somente no corpo em decomposição — disse soando irônico, aquilo já era comum para mim.

– Tudo bem — respondeu ela. — Então você vai lá sozinho.

Balancei a cabeça e puxei um pano que pendia de sua mochila. Ela ameaçou falar alguma coisa, mas se conteve ao ver que passava o pano ao redor do meu rosto tampando meu nariz.

– Fique aqui — disse com uma voz abafada por causa do pano.

Mesmo com o pano o cheiro ainda mantinha-se forte no local e tive dificuldades em respirar. Esperei pacientemente até meus olhos se acostumarem com a pouca luz na sala e assim que conseguia ver as coisas com facilidade caminhei em direção ao corpo. A face do homem já estava toda corroída por roedores impossibilitando saber quem era aquele senhor ou quantos anos tinham, dava para ver somente o osso de seu crânio e uma gelatina esverdeada misturada com um tom de vermelho amarronzado pelos orifícios do local onde ficavam as órbitas oculares e pelo nariz. Passei por cima do corpo, me abaixei perto do local onde vira um enlatado e ao levar a mão até a lata fui surpreendido por um rato raivoso. Procurei algo por perto para atacá-lo, mas não havia nada. Então usei meu pé para afastá-lo do local com um chute certeiro. Ele bateu contra a parede e caiu meio desnorteado ralhando irritado e fugiu por uma fresta na parede.

Voltei minha atenção para a prateleira novamente e olhei antes para ver se não havia outro rato antes de pegar a lata. Por sorte não havia, e junto descobri mais três latinhas semelhantes à primeira. Peguei, empilhando-as em minha mão e me levantei para sair. Quando comecei a caminhar, tropecei no corpo fazendo sua perna se desprender do corpo liberando um liquido viscoso e mal cheiroso, e escondido sobre a perna vi um objeto metálico bastante familiar que não hesitei em pegar e esconder embaixo de minha camisa.

– Está tudo bem aí dentro — ouvi Lúcia gritar.

– Já estou saindo — gritei em resposta.

Peguei as latas que haviam se espalhado no chão e saí me deliciando com o ar livre da putrefação daquela sala.

– O que você conseguiu? — perguntou ela curiosa ao perceber minhas mãos ocupadas.

– Encontrei essas quatro latas de feijoada e um rato muito raivoso que queria guardar tudo para ele — falei deixando escapar um sorriso.

Ela sorri também.

– Pelo visto a família do senhor rato vai ficar sem comer feijoada hoje.

– E nós poderemos abrir mão da comida cinza por uns dias – disse, me sentindo feliz com aquela frase.

Sento entregando as latas a ela e antes que o sorriso desvanecesse do seu rosto, dou uma boa olhada admirando o efeito que ele dá à beleza oculta dela. Não é certo eu estar fazendo isso com ela. Até aqui ela me provou que está disposta a ajudar e tudo o que ela consegue em troca são atitudes mascaradas para proteger minha verdadeira essência. Não sei até quando eu vou conseguir levar esse teatro. Não sei até quando vou deixar que ela pense que eu sou um homem bom e ainda resta um pouco de humanidade dentro de mim. Quem é ela para pensar que pode me salvar da morte e me tentar me fazer acreditar que nesse mundo ainda existe alguma coisa boa? Eu sei que dentro de mim já não há mais nada que possa ser salvo e meus demônios foram libertos assim que eu matei aquele pai e filho há sete meses.

Não sei até quando vou resistir caminhar com ela antes de matá-la para saciar meu corpo com sua carne. Ou então resistir não atacá-la para satisfazer meus desejos luxuriosos. Posso até mesmo imaginar quanto tempo irá durar esse meu teatro de ser um bom homem para aproveitar ao máximo de sua boa vontade.

Pode ser por um bom tempo, mas não tenho certeza. Só de sentir a frieza metálica do revólver que encontrei carregado com cinco balas ouço meus pensamentos dizendo para acertar um tiro bem no meio dos olhos daquela cretina. Mas dentro de minha própria cabeça também ouço uma voz dizendo que eu devo esperar.

Nesse conflito de pensamentos adormeço.

Não há vozes.

Não há sonhos.

Notas finais
E aí, o que acharam do capítulo? Deixem seus comentários e até a próxima o/