Notas iniciais
Oi pessoas... Depois de um tempinho em off, sugado pelos dias cinzas sem inspiração, estou trazendo mais um pedacinho dessa história por estar com uma arma apontada na cabeça de alguém que não vou dizer quem, não é mesmo Milla Winchester? Aqui vamos descobrir um pouco mais sobre as intenções de Gabriel e talvez algo comece a mudar. Espero que curtam, deixem seus comentários e chame os amigos para ler também. Um bom prato de comida cinza para vocês o/

Lúcia parece uma fortaleza de rochas. Quando acordo ela já está de pé acendendo uma fogueira para esquentar a comida. Ela não diz nada.

Não pergunto nada.

Sinto meu corpo dolorido pelo mal jeito que dormir e me levanto esticando os ossos para me recuperar. Percebo que já está escuro lá fora e uma suave brisa misturado ao calor das solitárias chamas deixe o lugar agradável.

– Vamos comer para podermos continuar. Perdemos muito tempo aqui — diz ela com uma voz dura e sinto que algo está errado. – O cardápio, bem, graças a você hoje temos um pouco de feijão.

Talvez isso melhorasse um pouco da gosma cinza.

Prefiro não falar nada.

Ela abre duas latas com um canivete que tirou de sua mochila e por um tempo fico pensando no que mais haveria dentro dela. Bolsas de mulheres sempre me assustaram, porque nunca dava para saber o que poderíamos encontrar dentro delas. Lúcia dispõe as duas latinhas sobre a fogueira e esperamos calados até que o fogo aqueça a comida. É difícil comer alguma coisa quente sem o auxílio de um talher. Como sempre ela estava preparada e tirou de dentro da mochila uma colher improvisada, onde a parte que se comia era de uma colher verdadeira e o cabo de madeira. Bem engenhoso. Mas só tinha uma. E após ela terminar de comer não me ofereceu para usá-la. Ela estava estranha.

Precisei esperar a feijoada esfriar para tomá-la virando a lata em minha boca como se fosse refrigerante. O sabor do feijão misturado com os pedacinhos de carne brincaram com o meu paladar me fazendo suspirar. Há anos que eu não comia uma coisa tão gostosa como aquela. O feijão se desfazia em minha boca fazendo-me sentir mais uma vez saciado. Estava grato por ter encontrado essas latinhas de comida, mas ao mesmo tempo triste por saber que só comeria mais uma vez depois daquela. Sobraram duas latinhas. Uma para ela e uma para mim.

Duas latinhas. Uma para ela e uma para mim.

Uma para ela e uma para mim.

Sinto o peso da arma em minha cintura. Eu poderia ter comida para mais dois dias, era só eu sacar a arma de minha cintura e acertar um tiro no meio da testa de Lúcia. Seria rápido e fácil. Eu quero fazer isso. Eu quero me livrar dela para conseguir me alimentar decentemente por mais um dia. Eu quero as duas latinhas de feijoada só para mim. Mas não consigo fazer nada. Apenas termino de comer a feijoada em silêncio e olhando-a em seu estado de torpor ignorando minha existência ali.

Meus pensamentos mudaram de rumo em um estalo.

Por que ela estava assim? Por que ela estava me ignorando desde que acordei?

Sinto meus pensamentos como estilhaços de vidro se remexendo em minha cabeça e ferindo-a de dentro para fora. Uma dor insuportável que me faz querer gritar e sair correndo até ela se aliviar. Mas não faço nada. Eu nunca faço nada. Eu poderia muito bem sacar a arma gelada de minha cintura e disparar um tiro contra minha própria cabeça e estaria tudo acabado. Game over for me! Eu descansaria, conseguiria meu sono dos eternos. Mas nem isso eu tinha coragem de fazer.

Ela me lança um olhar. Tenho esperança que diga alguma coisa, mas seus lábios fazem um pequeno movimento e se congela antes de sair qualquer som. Tento lembrar de sua voz e sinto-me perturbado ao perceber que não consigo ouvi-la em minha cabeça. Por que ela está agindo assim?

A latinha ainda pende em minha mão. Arremesso-a para longe e me levanto.

– Acho que deveríamos começar a caminhar — consigo dizer.

Ela me ignora.

Não sei o que fazer. Tomei a iniciativa, puxei conversa a fim de conseguir quebrar ou pelo menos fazer uma rachadura na muralha de gelo que se formou entre nós, mas minha tentativa foi falha. Volto a sentar e encaro-a emudecido. Seu olhar está perdido.

– Por que não me contou? — ela diz depois de um longo tempo.

Minha reação a princípio é de surpresa que rapidamente se transforma em dúvida.

– Não te contei o que? — pergunto sinceramente.

Ela me olha com olhos tristes. Sei que está prestes a chorar.

– Você irá usá-la contra mim quando tiver oportunidade?

Sinto uma flecha transpassar meu coração e o meu corpo sendo triturado por um rolo compressor. Não era mais preciso a explicação de sua atitude, ela sabia da arma e conseguia ler minhas intenções em minha mente. Eu não consigo acreditar nisso, estraguei tudo. Mas isso não é melhor?

– Você irá sozinha a partir daqui? — pergunto retomando minha voz.

Uma lágrima foge de seus olhos.

– Como pôde fazer isso?

Não tenho resposta.

Outra lágrima escorre por seu rosto e instantes depois ela não consegue mais controlar o choro.

Não posso consolá-la. Não posso dizer que não queria matá-la. Não posso nem dizer que por alguns momentos eu cogitei a ideia de querê-la viva ao meu lado. Querer seu sorriso, seu corpo, os divertidos olhos amendoados me encarando. Eu a queria. Queria possuir seu corpo, sua alma.

Ruth.

Sua imagem vem em minha memória.

Que diabos eu estou fazendo?

Não quero lembrar de Ruth!

Não quero estar com Lúcia!

Saio correndo deixando uma expressão de espanto no rosto de Lúcia.

Não posso ficar ali.

Não posso ficar com ela.

Eu quero estar com ela.

Corro para o mais longe que consigo. A brisa noturna me fere o rosto com o seu frescor. O silêncio sepulcral do mundo grita em meus ouvidos ensurdecendo meus pensamentos. Lágrimas também escorre por meu rosto. Sinto que uma parte se desprende de mim e foge para longe junto com as pequenas gotas salgadas que pingam no chão.

Eu paro.

Paro e grito soltando tudo o que está preso dentro de mim.

Eu grito liberando a dor aprisionada em meu peito por dezesseis anos.

Eu grito para me livrar da dor causada pela traição de Ruth.

Eu grito somente para ouvir algum som que não fosse o do silêncio.

E paro.

Uma mão toca meu ombro e quando olho, vejo Lúcia com seus olhos brilhando a luz do luar com a pele de seu rosto ainda úmida pelas lágrimas. Sua mão sobe e vai até meu rosto e enxuga a última lágrima que cessa como se a torneira lacrimal dentro de mim tivesse sido fechada. Seu toque transforma-se em um leve acariciar. Sua mão é macia. Sua mão força minha cabeça contra a sua. Sua mão me agarra bem forte para me prender a ela fazendo-me esquecer do mundo caótico a nossa volta. Sua mão me dá a segurança e me mostra o caminho para encontrar algo há muito tempo perdido dentro de mim.

Nos beijamos por segundos que transformam-se em minutos que transformam-se em horas que transforma-se em eternidade.

Nosso beijo dura apenas o tempo necessário para que algo dentro de mim grite bem alto para que eu consiga acordar para a realidade.

Então me afasto e vejo o sorriso formar em seus lábios.

– Eu não queria isso — falo ainda com uma voz sonhadora.

– Eu sei — ela responde levando sua mão novamente ao meu rosto. — Você não é quem pensa que é. O ser humano não desaprende o que aprendeu. Mesmo que a nossa natureza seja má, nós aprendemos por muito tempo a viver em sociedade, a compartilhar nossas vidas com estranhos e a amar uns aos outros. Nunca acreditei que o homem tivesse regredido ao seu estado pré-histórico.

– Você pode até estar certa, o ser humano não desaprendeu o que foi ensinado há séculos, mas o mundo mudou. A necessidade fez com que nos tornássemos individualista querendo somente o nosso próprio bem. Eu me adaptei a esse novo mundo, conforme era preciso. Lutei para me manter vivo pagando o preço que era cobrado e no caminho me perdi. Quando você me encontrou eu já não tinha qualquer esperança de sobreviver a mais um dia. Por um lado eu estava até feliz por saber que isso acabaria e enfim eu poderia descansar. Então você me encontrou.

– E o resto da história eu já conheço — diz ela abrindo um sorriso.

Meu rosto se contrai.

– Não. Você ainda não sabe quem eu sou. Eu matei outras pessoas. Eu me alimentei de outros humanos. Eu me transformei em um monstro ao longo desses anos. Eu queria te matar para me alimentar de sua carne. Eu não sei se você ainda pode confiar em mim. Nem eu mesmo confio em mim.

– Quantos pronomes pessoais em uma frase só. Para um professor você sofre muito com vícios de linguagem — seu sorriso se amplia em seu rosto. — Sei que posso confiar em você. Se quisesse me matar já teria feito, como muitos que encontrei ao longo dessa jornada. Também não sou santa, já matei pessoas para sobreviver, mas nunca me alimentei de sua carne. Meu pai nunca aprovaria. Então não se culpe por isso.

Nos deitamos ao relento da noite. O céu não era mais o mesmo. Havia alguns pontos luminosos salpicando o espaço sideral, mas uma névoa cinzenta cobria boa parte do céu. Ela se aconchegou em meus braços e conversamos por um bom tempo. Nossas palavras se desvaneceram e pegamos no sono ali, desprotegidos, mas desfrutando da segurança um do braço do outro.

Notas finais
Por hoje é só... Chegou até aqui, deixa seu comentário :) HUGS!!!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.