Tequila Com Limão

37 Siga em frente


Capítulo 35 – Siga em frente

Daniel desceu lentamente do palco e terminou de ajeitar suas coisas, seu peito doía, doía tanto que parecia sangrar, ele cantou tudo aquilo que estava sentindo no momento, por um instante, após terminar a primeira música, tinha decidido não desistir de Carolina, mas depois de mais de uma vez ver que Eduardo a fazia sorrir ele percebeu que o mais importante era vê-la sorrir, ele sairia de seu caminho, mas deus, como doía. Respirou fundo por alguns segundos quando percebeu que seus olhos estavam queimando, fechou-os e se concentrou por alguns instantes, depois guardou o violão na pasta e o jogou sobre o ombro indo em direção a porta, seus olhos se levantaram e encontraram os dela e Carolina pode ver toda sua angústia ali refletida.

Ele saiu para o ar fresco da noite e atravessou a rua indo direto para a praia, enquanto isso Carolina deu uma desculpa qualquer para os amigos e saiu do bar atrás dele. Ela não teve a intenção de fazer isso, simplesmente fez, quando os olhos dele encontraram os dela lá dentro ela ficou paralisada por uns instantes então foi atrás dele, não sabia exatamente o porquê, só que tinha que fazê-lo, assim, saindo para a noite escura atravessou a rua e gritou seu nome correndo até ele na areia da praia.

—Daniel! — Daniel ouviu a voz de Carolina em suas costas e parou virando em seguida, ela parou também deixando alguns metros entre eles.

Por alguns segundos nenhum dos dois disse nada, ficaram se encarando sob o céu estrelado e a brisa que soprava do oceano, então ele caminhou na direção de Carolina e segurou seu rosto entre as mãos, ela podia sentir a respiração dele em seus lábios quando ele falou.

—Eu amo você, amo tanto que dói — uma lágrima escorreu pelo seu rosto — e por te amar tanto que eu vou fazer o que você me pediu.

Ele a soltou e se virou para ir embora, Carolina abriu a boca no mesmo instante em que Daniel voltou a virar-se e segurar o rosto dela nas mãos, então ele a beijou, seu beijo foi intenso, tudo instantaneamente desapareceu, Carolina só podia sentir os lábios dele quentes de encontro aos seus e as lágrimas de ambos se misturaram em suas bochechas, ele a beijou com sofreguidão, com tanto amor contido, com tanta saudade, ele a beijou lembrando da primeira vez que a viu e de como gradativamente se apaixonou por sua doce menina, ele a beijou se lembrando dos seus sorrisos e das suas lágrimas, das suas brincadeiras bobas e de como era senti-la em seus braços, lembrando de como era estar deitado sob a luz das estrelas com ela sentindo o vento em sua pele, sentindo-a se aconchegar mais ao seu corpo, sentindo o cheiro dos seus cabelos, o som da sua voz... Ele a beijou com todo o seu amor e a beijou lhe dando adeus.

Quando finalmente a soltou esperou que ela dissesse algo, mas Carolina só conseguiu olhar para ele, queria gritar que também o amava, que queria que ele ficasse, queria gritar o mais alto possível, mas nenhuma voz saiu. Outra vez estava paralisada, ela estava lutando internamente para se libertar, com todas as suas forças, queria tanto dizer que o amava, que estava pronta para seguir em frente, mas sua voz não saiu.

Daniel beijou sua testa e suspirou sentindo o calor de sua pele e o cheiro de seus cabelos. Carolina não estava pronta, ele não poderia insistir mais. Lentamente se afastou.

—Você vai voltar? — Carolina sussurrou.

Daniel parou de andar por um instante e concordou com a cabeça, de costas para ela.

—Você está me deixando?

—Eu prometi que nunca a deixaria. Só estou lhe dando o tempo que você precisa.

Então ele se afastou de vez pela praia, indo para seu apartamento, a meia-noite estava se aproximando, e quando Daniel entrou em casa os fogos começaram a brilhar no céu escuro. Ele se encostou na janela e ficou vendo as luzes explodirem no céu, desejando que Carolina estivesse ao seu lado.

Carolina se afastou pela praia, várias pessoas estavam fora do bar agora, na areia festejando a virada do ano, ela caminhou para longe assim que Daniel foi embora, sozinha, sentou na areia e enterrou os pés fundo, então silenciosamente olhou para o céu e deixou as lágrimas caírem. Seu coração estava em pedaços, e ela era a única culpada. Seu medo a impedira de dizer para ele que também o amava. Em silêncio rezou pela primeira vez para seus pais. Ela queria seguir em frente, junto com Daniel.

O sábado passou triste para Daniel e Carolina, enquanto ele terminava de arrumar as coisas que levaria consigo para o Canadá, Carolina se embalava lentamente no balanço atrás da casa de sua tia. O céu estava nublado, logo começaria a chover. Anne pediu que Carolina entrasse em casa, já estava escurecendo. A tia olhou para a sobrinha e lhe abraçou antes dela subir as escadas para o quarto. Em seu apartamento, Amanda e Daniel se preparavam para pegar o táxi para o aeroporto, Amanda enviou uma mensagem para Ethan, e antes de desligar o telefone pegou o celular de Daniel e o número de Carolina, então enviou uma mensagem para ela também e guardou o celular na mochila.

Uma chuva grossa começou a cair assim que eles saíram do apartamento e entraram no veículo. Em seu quarto, Carolina deitou na cama e puxou os joelhos até o peito.

—Querida. —Anne disse se aproximando da cama. — Seu celular tocou lá embaixo. Acho que recebeu uma mensagem. — Anne estendeu o telefone para ela e saiu.

Carolina pegou o celular e não reconheceu o número, mas abriu a mensagem mesmo assim:

“Dê o primeiro passo.”

Era tudo o que dizia. Amanda. Carolina sabia que aquela mensagem só poderia ter vindo de Amanda. E por mais banal que pudesse parecer, aquele foi o “click” que sua mente precisava. Ela não poderia deixar Daniel ir embora. Ela tinha que lutar por eles. Ela queria seguir em frente. Pensou em seus pais por um instante, eles não a reconheceriam. Ela não era aquela garota triste. Seus pais haviam lhe dado todo o amor do mundo e a ensinado a viver, eles a ensinaram a amar, ela não podia simplesmente desistir. Eles não a ensinaram a desistir.

Carolina levantou da cama e discou o número de Daniel, o telefone chamou algumas vezes até cair na caixa de mensagens, então ela tentou de novo e nada. Depois tentou o telefone de Amanda, através do número da mensagem, a mesma coisa aconteceu, chamou e chamou e ninguém atendeu.

—Atenda. — Ela disse para si mesma tentando novamente o celular de Daniel. — Por favor, atenda.

Suas tentativas foram frustradas e então ela sentou na cama sem acreditar. Eles haviam embarcado. Era tarde de mais.

Carolina sentou em sua cama e ficou fitando a parede por alguns instantes. Era tarde de mais. Ele já havia partido. Do nada seu celular começou a tocar e ela olhou com esperança para o visor, mas era apenas Nathália. Ela deixou o telefone de lado.

Novamente o celular começou a tocar, outra vez sua amiga, então ela atendeu com um suspiro.

—Alô.

—Carol! — Nathália disse rápido. — Precisamos ir, meu deus, eu não acredito. — eu vou passar aí. Precisamos correr. — Ela estava frenética, desesperada.

—O que aconteceu? Você está bem?

—Daniel e Amanda, eles... eles... ó meu deus, eles sofreram um acidente.

—O quê?! — Carolina sentiu seu coração disparar. — Quando? Como? Onde eles estão? Eles estão bem? Daniel está bem?

—Eu estou chegando, vamos para o hospital, saia de casa, estamos chegando aí na frente.

Carolina correu escada abaixo e gritou para a tia que algo tinha acontecido com Daniel, então sem dar explicações correu para fora e entrou no carro de Marcus que acabava de chegar com Nathália.

—Onde eles estão? Cadê o Daniel? — Carolina perguntou com as lágrimas escorrendo. — O que aconteceu?

—Eles estavam indo para o aeroporto, o pai de Marcus é paramédico, ele o reconheceu, houve um acidente na rodovia envolvendo um caminhão que derrapou na pista, o carro deles foi jogado longe da estrada. Não temos mais notícias.

Carolina sentiu sua respiração presa, um flashback horrível tomou conta de sua mente. Estava chovendo, a pista estava molhada, um caminhão... e todo aquele sangue em volta de seus pais.

—Não... não... — ela sussurrou entrando em transe. — Não pode ser...