Tequila Com Limão
38 Adeus, meu amor
Capítulo 36 — Adeus, meu amor
Daniel ajudou o taxista a guardar rapidamente as malas no porta-malas, já estava dentro do carro quando percebeu que deixou o celular dentro da mochila assim como Amanda. A chuva batia forte contra o teto do veículo e ele decidiu ficar sem o celular mesmo. Enquanto se dirigiam para o aeroporto a chuva ficou ainda mais intensa, os limpadores de para-brisa não davam conta de toda a água e o táxi precisou reduzir a velocidade, apesar de a rodovia não estar muito movimentada estava bastante escura e pouco se via a frente do carro.
De repente o motorista virou a direção bruscamente e Daniel e Amanda viram as luzes ofuscantes de um caminhão vindo em sua direção, pelo lado direito do veículo, onde Daniel estava sentado, em segundos a escuridão tomou conta de tudo.
Dizem que quando se está prestes a morrer sua vida inteira passa diante dos seus olhos naqueles breves segundos antes da escuridão chegar. Daniel só viu uma coisa: Carolina chegando na praia com o semblante triste sem sequer notar a presença dele; Carolina erguendo os olhos para o mar a sua frente, no final da tarde, e o brilho tomando conta do seu rosto enquanto ela sussurrava um “uau” para si mesma. Aquele final de tarde realmente estava fantástico, ele se lembrou, mas naquele dia, o seu melhor momento não foi o pôr do sol na praia, naquele dia Daniel escolheu ela como o seu melhor momento, ele escolheu o modo como seus olhos brilharam e a luz que envolvia seu cabelo naquele final de tarde, ele a escolheu, porque se algo havia valido a pena naquele dia, tinha sido ver o olhar no rosto dela, na primeira vez em que a viu. Um “eu amo você” saiu fraco dos lábios dele quando a escuridão tomou conta da sua alma apagando o brilho de suas lembranças e do olhar de sua doce menina.
Marcus, Nathália e Carolina entraram correndo no hospital para o qual o pai de Marcus avisou que estavam levando Daniel, Amanda e o motorista do táxi, a enfermeira da recepção ergueu o rosto ao ver o alvoroço enquanto os amigos perturbados perguntavam ao mesmo tempo por Daniel e Amanda.
—Como ele está? Daniel está vivo?
—Amanda está bem?
—Eles vão ficar bem?
—Acalmem-se, por favor. — A mulher pediu tentando entender o que diziam
—Meu deus, ele está morto não está? Não, por favor, por favor, não! — Carolina começou a chorar desesperada, seus joelhos sem suportar seu peso enquanto ela caía no chão frio daquele hospital. — Por favor, por favor. — Ela sussurrava.
No mesmo instante a enfermeira saiu de seu posto e foi ajudá-la. Nathália e Marcus estavam completamente confusos, aquilo não podia estar acontecendo. Nathália se abaixou no chão e abraçou a amiga.
—Por favor... — Carolina em transe sussurrava e chorava.
—Vocês precisam se acalmar, não consigo entendê-los! — A mulher pediu olhando para Marcus. — Você pode me dizer quem estão procurando?
—Meu amigo. Daniel. E sua irmã, Amanda, eles sofreram um acidente, meu pai os trouxe para cá, sou filho do André. — Marcus falou tentando se acalmar. — Eles sofreram uma acidente, meu pai e Joana estavam de plantão... ele disse...
—Marcus! — Seu pai gritou vindo em sua direção e o abraçando.
A enfermeira reconheceu o paramédico e começou a entender a situação, eles estavam ali por causa dos jovens envolvendo o táxi e o caminhão. Aquela noite estava bastante agitada. Ela suspirou e voltou ao seu lugar após ajudar Carolina e a amiga a ficarem em pé.
—Se acalmem, vocês. Por favor. — Pediu mais uma vez. — Não tenho muitas notícias sobre seus amigos, o garoto entrou em cirurgia assim que chegou e a garota também. Assim que o médico der notícias eu os avisarei. — A enfermeira completou olhando para André. — Acomode-os na sala de espera, André.
O paramédico concordou com a cabeça e levou os três adolescentes para a sala ao lado, abraçou Nathália por conhecê-la e saber que seu filho estava envolvido com ela e depois olhou para a outra garota que estava desolada, em transe na verdade, seu olhar estava perdido no piso frio e ela sequer piscava.
—Vocês precisam se acalmar. — Ele disse olhando para o filho, tinha aprendido a não fazer promessas naquele tipo de situação.
—Você não tem mais informações, pai?
—Não. Eles chegaram e os levaram direto para as salas de cirurgia. Sinto muito filho. Amanda estava acordada quando a tiramos do veículo, ela sofreu menos ferimentos por estar do lado esquerdo... quando o motorista viu o caminhão vindo para cima deles por instinto virou a direção de modo que o lado de Daniel tomou todo o impacto. Graças a deus ele estava de cinto.
Carolina começou a soluçar, antes suas lágrimas apenas escorriam mas ao ouvir o nome de Daniel seu coração se partiu em mil pedaços, o restante das palavras ela não distinguiu, apenas o nome dele, e então como se não pudesse aguentar mais os soluços se tornaram mais altos e a dor ficou insuportável.
—Por favor. Por favor. — Ela começou a sussurrar então puxou os pés para cima do banco do hospital e os encostou ao peito na tentativa de se manter inteira. Seu corpo estava se despedaçando, cada parte era arrancada de si como se tivessem tirando sua carne, apesar do entorpecimento de sua mente a dor psicológica tornou-se física. Estavam arrancando pedaços do seu coração e tudo que ela podia fazer para tentar se manter inteira era recolher os joelhos até o peito, como se assim os cacos não alcançariam o chão.
—Ele vai sair dessa, Carol. Ele vai conseguir. — Nathália abraçou a amiga chorando.
Carolina não sentiu. Estava em transe intenso. Um médico saiu do centro cirúrgico e reconheceu André com os adolescentes, que imediatamente ficaram em pé, menos Carolina, seu olhar ainda estava perdido no piso branco do hospital. De repente aquele cheiro de remédios e antissépticos começou a tomar conta de sua mente, fazendo com que ela quisesse vomitar.
—Vocês são parentes dos adolescentes? — O médico perguntou.
—Somos os mais próximos disso. — Marcus respondeu. — Eles perderam os pais quando eram mais jovens, são só os dois.
O médico acenou com a cabeça, olhou para André, Marcus e Nathália, então percebeu Carolina se balançando para frente e para trás com o olhar vago, ele reconheceu o choque dela e o transe no qual ela estava.
—Sou o doutor Nelson. Eu estou atendendo a garota.
—Amanda. — Nathália disse imediatamente.
—Isso. — Ele confirmou. — Ela vai se recuperar, os ferimentos foram graves, mas não atingiram nenhum órgão vital. Consegui estabilizá-la agora e vamos transferi-la para o centro de tratamento intensivo.
—E Daniel? — Nathália perguntou.
O médico suspirou.
—Desculpe. Não tenho informações sobre ele. Ele está em cirurgia com o doutor Antoine, em outra sala. Vou ir para lá assim que transferir Amanda, para ajudar, mas não tenho nada para informar ainda.
O médico voltou para o centro cirúrgico para se juntar aos demais profissionais, ele sabia que o caso do garoto era extremamente grave, ele havia sofrido múltiplas perfurações no corpo devido a colisão. Estavam todos fazendo o possível, estavam fazendo mais do que isso na verdade, ele reconheceu ao entrar na sala de cirurgia.
—Vamos, não podemos perdê-lo! De novo! Carregar! Afastem-se! — O Doutor Antoine gritou.
E então o zumbido do choque elétrico de reanimação envolveu o ambiente.
—De novo! Carregar! Afastem-se!
Doutor Nelson se aproximou vendo o que poderia fazer para ajudar, enquanto doutor Antoine se preparava para mais um choque.
—Reaja garoto. Vamos. Carregar! Afastem-se! — E mais uma vez a descargar elétrica percorreu o corpo inerte de Daniel.
O médico respirou fundo apoiando as mãos na cama e olhando o monitor cardíaco. Um sinal fraco surgiu. Um bip, seguido de outro e o coração de Daniel voltou a bater.
—É isso aí. Ao trabalho todos vocês. — Antoine falou preparando novamente os equipamentos para continuar suturando os ferimentos abertos dentro do corpo do adolescente a sua frente. Ele estava determinado a não perdê-lo.
Durante sete horas Antoine e Nelson, juntamente com os auxiliares trabalharam para salvar a vida de Daniel, quando conseguiram estabilizar a maior parte dos ferimentos internos Daniel voltou a ter uma recaída, mas conseguiram estabilizá-lo outra vez. Ele precisava lutar mais.
Antoine saiu do centro cirúrgico para a sala de espera do hospital e imediatamente reconheceu a garota sentada com os joelhos junto ao peito. Era a menina que em agosto do ano passado havia perdido os pais no acidente de carro e que ele comparara com a própria filha. Por um instante ficou se perguntando o que ela fazia ali, então percebeu que ela conhecia os adolescentes que haviam sofrido o acidente, imediatamente sentiu por ela.
Antoine se aproximou lentamente do grupo, Nathália estava de olhos fechados com a cabeça encostada em Marcus, André já não estava mais ali, precisava continuar trabalhando. Marcus estava com os olhos fechados e a cabeça apoiada na parede. Carolina permanecera na mesma posição durante as sete horas que se passaram, com os joelhos abraçados junto ao peito e o olhar perdido no piso branco.
Lentamente ela ergueu o olhar para o médico e um vislumbre de reconhecimento passou pelos seus olhos, então ela começou novamente a chorar. Nathália e Marcus acordaram naquele momento e viram o médico se aproximar de Carolina enquanto sentava ao lado dela.
—Ele morreu? — Ela perguntou baixinho. — Por favor, não minta para mim. Ele morreu?
—Não.
—Ele vai sobreviver?
O médico suspirou.
—Fizemos todo o possível, eu preciso que ele lute agora. As próximas horas são cruciais. Daniel teve uma parada cardíaca, mas conseguimos trazê-lo de volta. Vou transferi-lo para o centro de tratamento intensivo agora, e esperar que ele responda nas próximas horas. Ele está em coma.
—Não. Não... — Carolina começou a chorar. — Por favor, não deixe ele ir. Por favor. — Ela pediu chorando e olhou para o médico. — Por favor, eu não posso perdê-lo. Por favor.
—Querida... — O médico abraçou Carolina pensando em toda a dor que ela deveria estar sentindo, menos de meio ano ele vira essa mesma garota entrar em choque com a perda dos pais, e agora a vida lhe trazia isso. — Eu prometo que vou fazer tudo o que puder para salvar seu amigo.
Ela olhou para ele.
—Eu o amo. Ele se tornou... tudo. Quando estou com ele eu esqueço a dor. Quando estou com ele eu consigo sorrir de novo, ele me fez querer continuar vivendo... Eu não vou suportar perdê-lo. — Ela disse baixinho sem olhar para o médico. — Ele me salvou de todas as maneiras e eu o afastei porque senti tanto medo de perdê-lo. Eu o afastei porque pensei que assim eu não sofreria se algo acontecesse ou se ele simplesmente não gostasse de mim, eu o afastei porque tive tanto medo de me amá-lo e perdê-lo e agora... agora... — Ela começou a chorar novamente.
O médico fez algum sinal para a enfermeira e ela entendeu que ele precisava de um calmante para a garota. Ela estranhou aquela interação do doutor com um familiar de uma vítima, mas nada disse, alguns médicos criavam laços com seus pacientes, mesmo que não devessem fazer isso.
Nathália e Marcus acompanharam tudo que foi dito sem se manifestar, pelo menos Daniel ainda estava vivo. Mesmo assim, Nathália pensou para si mesma, ele precisava lutar, ele não poderia fazer aquilo com Carolina, então silenciosamente ela fez uma oração, algo que nunca fazia e rezou para sua mãe, para os pais de Carolina e para os pais de Daniel pedindo que o protegessem.
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