Tequila Com Limão
8 Daniel
Notas iniciais
Após algum tempo sentada no quintal da casa, Carolina decide que é hora de mudar. Chega de sorrisos para todos a sua volta, chega de ser a boa menina, culta e educada de sempre. Chega de abaixar a cabeça. Pela primeira vez desde que aquela viagem começara ela vê algo de bom. Uma chance de mudar. Na verdade, esta era só a oportunidade, nada de bom havia realmente naquilo, ela só queria um motivo para finalmente escapar do mundo, de todos. Ela só precisava disso, de paz.
–Estou fechando as portas para qualquer um que tente se aproximar. Chega de perder pessoas que amo. – ela jurou a si mesma.
Carolina voltou para dentro da casa de cabeça erguida e rosto seco, não havia mais razões para lágrimas.
–Tudo bem, querida? – Sua tia perguntou com um sorriso discreto.
–Tudo. Será que posso dar uma volta pelo bairro?
–Sente-se bem já?
–Sim, acho que preciso andar um pouco.
–Tudo bem então, quer que eu vá com você?
–Não, prefiro ficar sozinha.
–Tudo bem, querida, mas não vá longe e não demore. Logo vai escurecer.
Carolina sobe até o quarto e pega um tênis, coloca-o e depois desce as escadas.
–Carolina, vai sair? – Martin pergunta sentado ao sofá.
–Sim, vou andar um pouco. – ela responde, e sem mais, sai da casa.
Aquele bairro realmente parecia calmo de mais. Era agosto e ainda fazia frio, ela agradeceu mentalmente ter posto a blusa cinza de mangas compridas e a calça jeans. Tudo bem que Carolina havia decidido se exilar do mundo e das pessoas ao seu redor, mas também decidiu que tentaria viver em paz com sua tia e o tio, afinal, eles estava sendo a única coisa boa em sua vida naquele momento. E com certeza, a tia não merecia que ela fosse alguém completamente fria e distante.
Ela andou duas quadras para frente e depois dobrou para a esquerda, seus pensamentos estavam longe e ela nem prestava atenção no caminho que fazia, mais algumas quadras foram caminhadas e de repente ela se viu andando sobre a areia. Estava na praia.
–Uau! – exclamou ao ver a imensidão azul a sua frente. De algum jeito Carolina havia subido uma duna de areia sem nem perceber e ao chegar lá em cima só viu a sua frente o enorme mar azul e o sol que já começava a se pôr.
–Nossa, nunca viu o mar não? – Carolina ouviu uma risada, olhou na direção da voz e viu a sua direita um garoto de cabelos escuros e bagunçados com um cigarro na mão fitando-a.
Há um tempo atrás ela provavelmente daria um sorriso e conversaria com o garoto, mas não agora. Ela olhou para ele e o ignorou, continuou apreciando a vista.
–Ei, você não fala? – o garoto insistiu após dar uma tragada no cigarro e soltar a fumaça.
Outra vez ela o ignorou.
–Nossa, valeu hein. – ele riu vendo que a garota não falaria com ele e voltou a olhar o mar tragando seu cigarro.
Carolina continuou com os olhos fixos no mar, a boca fechada em linha reta, expressão séria.
–Hm... quer um cigarro? – ele ofereceu dando de ombros, sabia que ela não se renderia.
Carolina olhou para a mão do garoto que segurava uma caixinha branca com emblemas vermelhos e depois o encarou. Surpreendendo ao garoto e até a si mesma suas pernas se moveram até ele.
–Quero. – disse.
–Sério? – ele riu. – tem certeza que já fumou antes? Eu posso estar te oferecendo algum tipo de droga para depois que você dormir usar seu corpo.
Por um momento Carolina se assustou, mas o sorriso nos lábios do cara a fez perceber que era brincadeira, sua feição não mudou.
–Vai me dar ou não? – ela disse ainda o encarando.
–Calma. – ele riu do mau humor dela. – Senta ai.
Carolina sentou-se ao lado do garoto e percebeu o quão misterioso ele parecia. Como ela não o havia notado ali? Se bem que nem ela notara que subira aquela duna.
Ele estendeu o cigarro a ela já acesso.
–Realmente já fez isso antes?
–Qual o mistério em fumar? – disse ela.
–Nenhum, só que sei lá... você não parece o tipo de pessoa que gosta de cigarros. – ele deu de ombros.
–Que tipo de pessoa eu pareço? – ela o encarou.
–Por incrível que pareça, você parece doce. – ele sorriu de lado e a olhou.
–Me poupe. Você não me conhece. – ela disse sem demonstrar importância. – Porque acha isso? – afinal, ela havia sido fria o tempo todo, como ele podia achar algum resquício de doçura nela?
–Seu olhar te entregou. – ele sorriu outra vez.
–Que olhar? – os olhares dela para ele havia sido sem reação nenhuma, não havia nada comparável com doçura neles.
–Seu olhar para o mar. Quando chegou aqui.
Droga. Ela nunca deixaria de se encantar vendo o mar. Era lindo, imenso e livre.
–Você não sabe de nada. – ela retrucou e levou o cigarro até a boca.
A primeira sensação da tragada foi estranha e ela sentiu vontade de tossir, mas se controlou, o garoto ao seu lado começou a rir.
–Pare de rir, idiota! – ela disse brava.
–Eu disse! Você nunca fez isso. – o garoto mexia a cabeça negativamente rindo dela.
–Foda-se. – ela foi se levantar mas o garoto puxou seu braço.
–Ei, calma. – ele a olhou sério, havia uma ponta de preocupação ali.
–Olha, quer saber, preciso ir embora. Adeus. – Dizendo isso, Carolina soltou-se da mão dele e desceu a duna rápido indo na direção pela qual chegara ali.
O céu já estava escuro, poucas pessoas ainda estavam pela praia vendo o final do sol cair.
–Ei, qual o seu nome? – ela ouviu a voz do garoto chamar de longe.
Carolina virou-se e viu ele descendo a duna.
–Ah, droga, ele vai me seguir agora. – ela praguejou o garoto e depois de olhar ele de longe virou-se e continuou andando.
–Ei! – a voz do garoto estava mais perto. – vai mais devagar!
Carolina apertou ainda mais o passo, aquela garoto estava afim de encher mesmo o saco dela?
–Ei, ei, ei! – o garoto disse parando na frente dela, respirando fundo. – Não posso saber nem seu nome?
–Pra que?
–Ah... sei lá... só saber. Eu meu chamo Daniel.
–Hm, bom pra você. Tenho que ir. – ela disse tentando passar pelo garoto.
–Você é difícil hein? Se me disser seu nome, prometo te deixar ir embora, do contrário vou te seguir até sua casa e jogar pedrinhas na sua janela a noite toda.
–Ótimo. Faça isso e eu lhe jogo um balde de água na cabeça. – Ela deu um sorriso irônico e passou pelo garoto seguindo em frente.
–Ei, estou falando sério, eu levo um guarda-chuva. – Daniel disse seguindo ao lado da garota.
–Vai cuidar da sua vida, vai? – ela disse sem olhá-lo.
–Se me disser seu nome... – ele a encarou.
–Júlia. Meu nome é Júlia. – ela disse mentindo e depois desviou o olhar.
–Você está mentindo. – ele riu.
Ah, qual é, esse garoto deu pra ler meus pensamentos agora? Carolina questionava-se.
–Você perguntou meu nome, eu respondi, agora me deixe em paz. – ela disse acabando o assunto.
O garoto parou de andar ao lado dela e ficou olhando-a ir embora, com um sorriso torto em seu rosto.
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