Tequila Com Limão
24 Quebrada
Notas iniciais
Capítulo 23 — Quebrada
Carolina abriu a porta de casa e se arrependeu por não ter dado notícias, sua tia estava sentada ao sofá com os olhos vermelhos, enquanto seu tio esfregava suas costas e tentava acalmá-la, ela ficou em pé assim que viu Carolina.
—Carolina, querida! — Disse indo em sua direção. — Estava tão preocupada!
—Está tudo bem, tia, desculpe não ter deixado um bilhete, estive na praia.
—Oh, meu bem! Eu pensei... pensei... Ah!
Ela abraçou Carolina.
—Nós não devíamos ter deixado você sozinha, desculpe!
—Está tudo bem, mesmo tia Anne. Me diverti, fui ao luau ontem com a Nathália, e fiquei na praia hoje com alguns amigos, está tudo bem. — Ela sorriu tranquilizando a tia.
—Ah, querida! — Anne sorriu genuinamente feliz agora. — Que bom, que bom!
Carolina olhou para o tio que sorriu para ela, ela não gostava de ver aqueles olhares preocupados, não queria tê-los deixado daquela forma, mas tinha sido um final de semana bom, o primeiro desde o acidente e realmente queria que eles acreditassem que estava feliz, mesmo que agora se sentisse novamente sozinha.
—Vou subir e tomar um banho. — Ela disse se afastando e indo para o quarto. Lá embaixo, na sala, sua tia olhou preocupada para o marido, ela não sabia como lidar com Carolina.
Carolina foi para o chuveiro e tirou a roupa, deixou que a água escorresse pelo seu corpo sentindo cada gota que molhava sua pele, um sorriso se formou em seus lábios enquanto ela lembrava da tarde com Daniel.
Depois, foi para a cama e deitou apagando a luz do abajur.
A semana passou de uma forma normal, ficou com Nathália durante as aulas e não viu Daniel. Na sexta-feira foram ao bar onde Daniel tocava e ele cantou novamente, sorrindo para Carolina e olhando em seus olhos. Durante o final de semana ficaram na praia e foram também ao apartamento dele outra vez. Ficaram juntos na cadeira, vendo o sol se pôr ao longe, ela nos braços dele, sentindo como se aquele fosse o melhor lugar do mundo.
Mais uma semana se passou e Carolina se sentia um pouco mais feliz, como se as coisas finalmente estivessem voltando ao lugar, como se sorrir finalmente fosse algo que ela pudesse voltar a fazer.
Era sexta-feira e Carolina não via a hora daquele dia terminar, não era mais a garota dedicada que um dia havia sido, suas notas giravam em torno da média e isso já era o suficiente, não se preocupava em parecer feliz nem em dar ouvidos ao que os outros falavam, se não queria falar com alguém simplesmente ignorava. Não ligava para o que fossem falar dela, não dava ouvidos. Mas naquele dia, durante o intervalo das aulas reparou em duas garotas sentadas perto dela e de Nathália no pátio que pareciam cochichar algo dela. Olhou feio para as duas quando ouviu mencioná-las o nome de Daniel.
—Sim, ele é demais, e cantou para mim na praia. — Uma das garotas disse. — Não sei porque ela está se iludindo com ele. Como se Dani fosse realmente namorar com ela ou algo assim. — A garota loira deu uma risadinha baixa e a amiga a seguiu.
—Ei, Carol, vamos sair mais cedo hoje? —Nathália perguntou, não tinha escutado as duas outras garotas. — Tenho umas coisas na praia...
—Você quer dizer pular o muro da escola? — Carolina ergueu uma sobrancelha.
—Isso mesmo, garota, você nunca fez isso?
—Não, não realmente. — Ela deu de ombros. — Vamos nessa.
—É disso que estou falando. Estava faltando você aqui nessa cidade, definitivamente. Nada como uma boa parceira de fuga que não tem medo de nada.
—Medo de que? Não é como se meus pais fossem me repreender e colocar de castigo. — Carolina disse fazendo uma careta irônica.
—Exatamente. — Nathália concordou. Isso era o que Carolina mais gostava na amiga, ela não tentava suavizar as coisas relacionadas a perda de Carolina, ela aceitava e lidava com isso como se não importasse, e era isso que Carolina queria. Que parecesse banal, a ideia de falar sobre aquilo como se fosse algo banal fazia parecer dessa forma.
Pegaram suas mochilas na sala de aula e se esgueiraram pela lateral da escola saltando o muro e logo em seguida correndo para a outra rua, quando pararam deram boas risadas, o coração de Carolina martelava no peito e ela se sentia viva. Aquela era a melhor sensação do mundo, sentir-se viva. A adrenalina a tinha deixado assim. Ela sorriu para Nathália como se tivesse feito a descoberta do ano. E ela tinha.
Foram para a praia, Nathália comprou bebidas com a identidade falsa que tinha sempre consigo, andando pelas dunas as duas se atiraram na areia fofa e deitaram de costas, era pouco mais de dez horas da manhã e elas estavam deitadas na areia, bebendo. O pensamento fez Carolina rir e olhar para a amiga.
—Não acredito que estamos bebendo as dez da manhã.
—É isso aí, baby. —Nathália puxou um maço de cigarros da mochila e acendeu um oferecendo a Carolina. Ela aceitou e acendeu o seu da mesma forma, tinha fumado outras vezes com Nathália, aquilo a acalmava.
Nathália soltou uma baforada e viu a fumaça se erguendo sobre suas cabeças.
—Marcus é um idiota. — Ela disse finalmente olhando para Carolina, depois voltou a virar o rosto para o céu.
—Marcus? O que houve? — Carolina perguntou confusa, não sabia do que Nathália estava falando, ela e Marcus haviam ficado no luau, mas depois daquilo não tinha visto os dois juntos outra vez.
—Quando você saiu com Daniel no sábado passado eu fiquei com Marcus novamente. Ele só... — Ela suspirou. — Eu... gosto dele, gostava dele desde pequena como ele disse aquele dia no luau, e ele é um idiota porque estragou tudo.
—Como estragou tudo? — Carolina perguntou, ainda estava surpresa pela confissão da amiga.
—Vi ele com outra garota no domingo, estava ficando com ela como se não estivesse comigo no sábado. Não somos namorados, não somos nada, eu só... — Nathália suspirou. —Que se dane.
—Você falou com ele depois disso?
—Claro que não. Ele me ligou depois, acho que viu que eu estava na praia, não atendi nem liguei de volta, depois de quatro chamadas e três mensagens que apaguei sem ler ele desistiu.
—Você não acha que devia falar com ele?
—Falar o que? Eu não posso cobrar nada dele, mas definitivamente não vou ficar com um cara que fica comigo num dia e no outro já está com outra garota. Isso só mostra que não significo nada para ele. — Ela deu de ombros. —Não sei porque ainda me importo. Bom, não me importo mais agora. Ele teve sua chance e jogou fora, é o que eu digo. —Nathália deu outra tragada no cigarro soltando a fumaça. — Que se dane. — Disse novamente.
—Ele é um idiota. — Carolina concordou com a amiga, ficaria sempre ao lado de Nath, e se Marcus tinha sido idiota o suficiente para ficar com outra garota, que se danasse mesmo.
—É isso aí. — Nath sorriu. — Um brinde a todos os idiotas que se acham os tais e vão morrer cornos por causa das vadias pelas quais nos trocam. — Nathália deu um gole na bebida.
Carolina riu alto, sua amiga era definitivamente louca e mandava tudo a merda como se não se importasse com nada, mesmo que no fundo Carolina soubesse que ela se importava, muito mais do que algumas pessoas que faziam juras e juras de amor mas na verdade não sentiam nada além de amor por si mesmos.
As vezes as pessoas que menos demonstram são as que mais sentem.
De tarde as duas foram para suas casas, Carolina foi logo para o quarto e tomou um banho, assim sua tia não sentiria tanto o cheiro da bebida. A noite Nathália passou na sua casa e as duas foram para o bar onde Daniel iria tocar, Carolina viu uma garota conversando com ele na parte de trás do palco, mas deu de ombros, afinal, não era como se ela fosse namorada dele. Imediatamente lembrou da conversa com Nathália e então o rosto da garota se aproximou do rosto de Daniel e eles se beijaram, Carolina ficou parada por um instante, foi como se seu coração se quebrasse novamente. Suas sobrancelhas se uniram demonstrando a dor que ela sentiu, como se tivesse sido fisicamente golpeada.
Daniel se afastou da garota que acabara de beijá-lo e olhou em volta do bar, ele sentiu os olhos de alguém sobre eles e não soube o que fazer quando seu olhar encontrou o de Carolina, ela parecia quebrada.
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