Tequila Com Limão
34 Paralisada
Notas iniciais
Capítulo 33 — Paralisada
And I know you need me in the next room over
But I am stuck in here all paralyzed.*
— THE AVETT BROTHERS, “TEN THOUSAND WORDS”
(Citação retirada de Slamed)
Já havia escurecido e Daniel voltou para a roda da fogueira, sentando perto de Marcus e Lucas, fazia tempo que os três não se reuniam mais, que não via Lucas fazia mais tempo ainda, ele tinha se afastado um pouco quando sua avó faleceu, dois meses atrás, mas agora estava melhor.
—Até quando Amanda vai ficar? — Marcus perguntou.
—Vamos depois do Ano Novo.
—Vamos? — Lucas perguntou enquanto trocava um olhar com Marcus que também franziu o cenho para a resposta do amigo.
—Sim, vou passar um tempo com a Amanda. Já pedi demissão. — Daniel deu de ombros.
—Você vai embora? Cara... você sabe que isso não adianta nada. Ela vai perceber que também gosta de você, qualquer pessoa que olha de fora vê que vocês se gostam.
Lucas estava um pouco confuso, mas sabia que havia algo entra Daniel e Carolina, não estava a par de toda a história, mas tinha presenciado alguns momentos junto com o grupo, no início.
Daniel não disse nada, apenas mexeu a areia com o dedo indicador, preferia que mudassem de assunto, deixá-la ir não era fácil, partir não era fácil mas ficar ali sentado a cinco metros dela e não poder tocá-la também não era fácil.
Lucas ficou sentado conversando com os amigos por mais algum tempo, depois decidiu ir comprar uma bebida, então levantou e deixou-os ali.
Naquele momento Nathália deu uma risada alta de alguma parte perto da fogueira, Marcus olhou imediatamente para onde ela estava e um pequeno sorriso surgiu em seu rosto, no mesmo momento Nathália ergueu o olhar e encontrou os olhos dele, então virou o rosto parando de sorrir. Marcus abaixou a cabeça e suspirou mexendo na areia como Daniel, ele sentia algo por aquela garota, ela o irritava e o deixava louco, e quando sorria, ah, quando ela sorria...
—Por que você não admite logo para ela que gosta dela? — Daniel perguntou vendo a reação do amigo.
—Porque ela não gosta de mim.
—Você está sendo idiota, é claro que ela gosta de você, ela não gosta quando você age como um babaca. — Daniel sorriu um pouco.
—Quando que eu agi como um babaca? — Marcus pergunta como se nunca tivesse feito absolutamente nada de errado.
—Sério? — Dessa vez Daniel balança a cabeça. — Cara, você fica com outras meninas na frente dela.
—Ela não liga pra mim, eu não sou santo.
—Marcus. — Daniel falou encarando o amigo. — A Nath sempre foi a fim de você, você sabe disso, sempre soube. A única coisa que impede ela de realmente dar uma chance a vocês é o fato de você agir como se ela não fosse importante o suficiente.
—Eu não...
—Você ficou com ela e no dia seguinte já ficou com outra garota, ela viu aquilo. — Daniel contou.
—Mas o que... quando?
—Depois do luau, no domingo, você ficou com outra garota e a Nath viu. Ela comentou algo sobre isso com a Amanda esses dias. Amanda me contou e inclusive acrescentou que ia chutar sua bunda se você não parasse de ser um babaca com a amiga dela. Acho que ela só não teve a oportunidade de te dar uma dura ainda.
Marcus fez uma careta.
—Droga, eu nem queria ficar com aquela garota, ela só estava por lá e sei lá, foi mais para ela largar do meu pé mesmo. É por isso que a Nath não voltou a falar comigo direito depois. — Ele balançou a cabeça. — Merda, eu sou um babaca.
—É o que eu sempre disse. — Daniel deu de ombros brincando com o amigo.
Já passava das dez horas da noite quando Amanda sentou ao lado de Carol na fogueira, ela trouxe consigo um copo de bebida a mais que ofereceu a Carol enquanto sentava e tomava um gole do seu.
—Nossa, senti falta disso aqui, desse calor, do cheiro do mar, da areia nos meus pés, das pessoas e da alegria da cidade... — Amanda comentou e sorriu para Carolina.
—É uma cidade bonita. — Carolina concordou.
As duas ficaram em silêncio por alguns instantes, Carolina cutucou a borda de seu copo enquanto suspirava.
—Ele sente sua falta. — Amanda disse sem olhar para ela. — Ele realmente gosta de você.
Carolina parou de mexer os dedos e ergueu a cabeça vendo Daniel do outro lado da fogueira.
—Eu sei. Eu também gosto dele. De verdade. Eu só...
—Eu entendo. É só que ele é meu irmão, ele é tudo que eu tenho. Ele foi tudo que eu tive depois que os meus pais se foram, e eu o amo, mais do que tudo. Eu não suporto vê-lo assim, ele está tão... — Amanda suspirou e desviou os olhos de Carolina. — Eu quero que ele seja feliz.
—Eu também quero que ele seja feliz, é exatamente por isso que eu me afastei, porque quero que ele seja feliz. Eu não estou inteira, os meus pedaços vão destruí-lo. Eu choro a noite, tenho pesadelos, e as vezes é tudo tão vívido, e então eu grito e acordo minha tia, e ela tenta me abraçar e me consolar, mas ela não é minha mãe. As vezes quando assisto a um filme algo me faz pensar neles, quando leio um livro, meu deus, as vezes quando eu como lembro da última vez em que jantei com meus pais, e eu simplesmente desmorono, eu... não poderia fazer isso com ele. — Carolina com os olhos cheios de lágrimas encara Amanda — Eu gosto tanto dele que chega a doer. — Confessa — Se eu desse uma chance a nós e ele não suportasse ficar comigo depois de um tempo?
—E se você desse uma chance e ele te mostrasse que você ainda pode ser feliz? — Amanda encarou Carolina.
—Eu não... eu não consigo. Eu tentei, eu quis lutar contra isso e ficar com ele, mas toda vez... alguma coisa dentro de mim parece lutar contra, como se não fosse certo, como se eu não merecesse isso, como se eu não merecesse ele.
—Carolina. — Amanda segurou a mão dela e a olhou nos olhos. — Eu entendo você, eu realmente entendo você, eu sei o que é chorar a noite até ser levada pelo sono, eu sei o que é acordar aos gritos tentando afastar os fantasmas. Eu sei. E Daniel também sabe. Ele afastou os fantasmas dele e afastou os meus. — Amanda sorriu levemente. — Ele me mostrou que eu posso sorrir de novo e que isso não é errado, era exatamente isso o que os meus pais iriam querer, e eu sei que os seus também.
—Eu não posso simplesmente forçá-lo a aguentar os meus demônios também. — Uma lágrima escorre pelo seu rosto. —Eu estou paralisada.
—Você não forçaria, porque é ele quem está dizendo que quer fazer isso. Porque ele ama você. Ele faria qualquer coisa por você. Você disse que queria um tempo e ele lhe deu, disse que queria que ele se afastasse e ele se afastou, mesmo que isso o matasse, ele fez, porque ele quer você bem. Ele quer estar ao seu lado, e você nunca precisaria pedir isso a ele, porque é o que ele quer, você só precisa ter coragem e dar o primeiro passo.
—Eu não consigo ainda. Eu queria, eu só... — Ela negou com a cabeça sem olhar para Amanda.
—Tudo bem. Eu só queria tanto que você ao menos tentasse, por você e por ele. Porque mais do que ninguém eu sei que Daniel merece ser feliz, e quando ele me ligou falando de uma garota que conheceu na praia, meu deus, ele parecia tão feliz, e a partir daí todas as vezes em que nos falamos depois disso ele mencionava você, e o quanto você era doce, e eu finalmente percebi que ela estava bem, realmente bem sabe? Que ele conseguiu se sentir feliz outra vez, que ele quis realmente estar vivo. E quando você o afastou ele desmoronou, ele... estava daquele jeito de novo, tentando me fazer sorrir e pensar que estava bem e que tudo ia ficar bem quando ele estava destruído por dentro.
—Eu nunca quis machucá-lo.
—Nós nunca queremos machucar quem nós amamos, Carolina, mas nós fazemos, e nos machucamos junto. Você acha que é melhor estar afastada dele porque tem medo do que sente, mas nesse processo vocês dois estão tão dilacerados quanto poderiam estar.
Carolina observa o fogo crepitando.
—Eu sei que você tem medo, só não deixe esse seu medo fazer com que você acredite que não pode realmente ser feliz de novo. Você pode. E mais do que isso, você deve isso aos seus pais. — Amanda completou fazendo com que Carolina a encarasse. — Se privar de amar faria os seus pais felizes? Se privar de sorrir, de ser feliz, faria eles felizes?
Carolina negou com a cabeça.
—Então, dê um passo, você só precisa dar o primeiro passo e os outros se tornarão cada vez mais fáceis. Não deixe que ele vá embora. — Amanda completa e então se levanta deixando Carolina a observá-la se afastar.
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