Tequila Com Limão
15 Escudos
Notas iniciais
Capítulo 14 – Escudos
Carolina desviou os olhos dos dele e levantou-se, deixou o dinheiro da coca-cola sobre a mesa e foi em direção a saída do bar, seu coração pulando dentro do peito. Em sua cabeça os pensamentos estava confusos ela não podia estar se apaixonando, tinha acabado de conhecê-lo, nem tinha querido conhecê-lo. Mas ele insistiu e foi atrás dela, e aquele sorriso, o jeito como virava a cabeça de lado e olhava para ela, as palavras doces que tinha e como se entregava quando tocava seu violão.
A expressão que ele tinha naquela noite no palco jamais sairia de sua cabeça ela pensou quando sentiu a brisa fria que vinha do mar. Segurou seus braços e se encostou na parede do prédio ao lado do bar respirando fundo.
–Carolina! – Ouviu Daniel chamar indo em sua direção.
Carolina apertou mais forte os braços na frente do peito percebendo o impacto que ele lhe causava.
–O que houve? Por saiu? – Perguntou olhando-a nos olhos.
–Eu... preciso ir para casa, já está tarde.
–Você não gostou da música?
–Não, não é isso, eu gostei, adoro Creedence. – Ela disse e sorriu um pouco – É só que... – Ela iria contar sobre seus pais, mas não queria que ele ficasse com pena dela, então respirou fundo. – Preciso ir.
–Posso levar você até a sua casa? Não é bom andar sozinha...
–Eu... não precisa, vou pegar um táxi.
–Eu faço questão, podemos caminhar um pouco pela praia. – Daniel disse na esperança de que aquilo ajudasse e ela reconsiderasse. O olhar que ela tinha em seu semblante o deixava entristecido. Se perguntou se sua música havia feito aquilo com ela já que ela havia dito que gostava de Creedence. – Eu vou pegar meu violão e acompanho você.
–Ok. – Carolina sussurrou e desviou o olhar. Daniel estava olhando profundamente dentro de seus olhos e por mais que ela não quisesse deixá-lo se aproximar, ele se aproximava cada vez mais. Em poucos minutos ele estava de volta com uma mochila nos ombros e o violão em uma pasta.
– Vamos.– Ele disse e ela começou a caminhar ao seu lado. Se dirigiram para as areias da praia.
– Sinto muito se lhe trouxe lembranças dolorosas com a música. – Ele falou baixo quando já estavam afastados o suficiente da rua e não se ouvia mais o barulho das outras pessoas.
–Não foram lembranças ruins. – Carolina disse. – Aprendi a gostar de Creedence com meu pai, ele sempre tocava na praia. Fazíamos fogueiras e cantávamos a noite toda. – Carolina revelou sem nem ao menos perceber.
–Então porque você saiu daquele jeito?
Ela parou de caminhar e suspirou olhando para o mar sem a mínima intenção de responder a pergunta dele.
–Entendo se não quiser falar sobre isso. Desculpe. – Ele disse. – Podemos sentar aqui um pouco e apenas ver as estrelas. – Ele convidou.
Carolina olhou para o céu e depois para Daniel, ele estava esperando que ela decidisse. Ela queria ir fugir, impedir que ele se aproximasse mais dela. Há pouco lhe revelara algo sobre sua família e nem percebera, era tão fácil conversar com ele, mas ela não podia se permitir isso, precisava manter seu coração afastado. Mal o conhecia e mesmo assim, não queria ir embora. Ela sentou-se e observou Daniel sentar ao seu lado e em seguida deitar na areia colocando um braço atrás da cabeça. Ficaram um bom tempo em silêncio até que ele o quebrou.
–As vezes eu queria poder voar. – Ele disse olhando o céu. – Ver como as coisas são lá de cima e planar, aproveitando cada momento. Mas como isso é impossível eu vou para o mar e deito na prancha, fico vendo as nuvens passarem até estar longe da costa, me traz paz.
Carolina virou o rosto para encará-lo.
–Acho a ideia de olhar as nuvens deitado em uma prancha no mar tão boa quanto a ideia de voar. – Carolina disse.
Daniel sorriu.
–Não há nada como o mar não é? – Ele disse virando o rosto para ela. – Eu também acho isso. É só que as vezes queria poder fazer coisas impossíveis. Você não?
Carolina pensou em seus pais no dia do acidente.
–É. Eu gostaria de poder fazer coisas impossíveis as vezes. Trazer pessoas de volta, impedir que se fossem para sempre. – Ela sussurrou.
–Muitas pessoas gostariam de poder fazer isso. – Ele disse e abriu sua mochila retirando de lá uma garrafa de bebida. Sentou-se novamente e tomou um gole do líquido, em seguida ofereceu a garrafa a ela.
Alguns meses atrás Carolina jamais estaria sentada ao lado de um cara em uma praia deserta aceitando bebida alcoólica, mas afinal, já havia conversado com Daniel e o conhecia um pouco pelo menos ao ponto de saber que ele não era nem um estuprador ou assassino, quer dizer, pelo menos ela achava que o conhecia a ponto de poder julgar isso, então bebeu um gole e sentiu sua garganta queimar. Daniel estava olhando para as estrelas e mais uma vez ouvindo ele falar ela sentiu como se ele a entendesse melhor do que ninguém, mas não queria se aproximar mais do que já havia se aproximado. Eles ficaram mais um bom tempo em silêncio simplesmente vendo as estrelas e dividindo a bebida. Carolina começou a se sentir tonta.
–Acho melhor eu ir para casa. – Ela disse ficando em pé um pouco atordoada. Daniel levantou em seguida.
Os dois recomeçaram a caminhar pela praia indo em direção a rua que levaria Carolina para casa. Daniel a acompanhou até chegar a calçada em frente a casa. Havia apenas a luz da varanda acessa.
–Obrigada por me acompanhar. – Ela disse se despedindo e dando as costas para ele em seguida.
–Carolina. – Daniel disse o nome dela de modo baixo e quente. – Espero vê-la novamente.
Ela virou as costas e seguiu em direção a casa. Naquela noite havia baixado seus escudos com ele, isso não deveria ter acontecido. Ela não podia voltar a vê-lo e correr o risco de deixar que ele se aproximasse mais, mesmo assim, era isso que no fundo queria. Queria Daniel abraçando seu corpo e fazendo carinho, queria sentir seus braços em volta dela, aquecendo-a. Ela parou de repente e pareceu congelar. Não. Ele não poderia se aproximar mais. Ela não suportaria perdê-lo. Então virou o corpo para vê-lo parado a alguns passos.
–Adeus. – Murmurou baixinho. Não sabia se ele tinha escutado seu sussurro, subiu os degraus e abriu a porta virando o corpo novamente, ele ainda estava parado na rua, com um olhar angustiado no rosto. Fechou a porta.
–Não vou deixá-la, Carolina. Não posso. – Ele sussurrou para si mesmo depois que ela fechou a porta. Não sabia o que estava sentindo por aquela garota, mas sabia que não a deixaria, jamais.
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