Teoria do Caos

1 Prólogo do Fim


Notas iniciais
Apresentações dos personagens que nos acompanharão por nossa jornada.

E quando os quatro pousarem sobre a Terra, a devastação reinará.

E sem chances de sobrevivência tenra, o ser humano gritará.

_Xeque-mate.

O lugar era escuro, mas as duas figuras, que se concentravam em um jogo semelhante ao xadrez sobre uma mesinha de pedra, brilhavam incessantemente, dando uma iluminação seca ao local. Uma exalava uma luz verde, pálida, mórbida. A outra, um brilho branco, pestilento. Seres parecidos com moscas a rodeavam sem parar. Ambas faziam com que a atmosfera no recinto ficasse gélido e desconfortável. Em questão de aparência, eram igualmente únicas. A esverdeada usava um manto negro o qual mais parecia um gás, que ondulava, mas não desaparecia. Sua face estava coberta por um capuz do mesmo material. Dois pontos verdes brilhantes e frios marcavam os olhos do bizarro ser.

Já a outra era deprimente. Usava apenas um pano ensanguentado que encobria sua genitália e nádegas. Seus membros eram excessivamente magros, mas o tronco era nem cheio nem seco, o que tornava aquela figura completamente desproporcional. Horrendos ferimentos cobriam seu corpo. Desde os pés, que vazavam sangue a todo instante, até a cabeça, que não tinha cabelo algum, e era a única parte lisa e sem quaisquer feridas. Ossos à mostra em certas partes, como no cotovelo direito, cuja articulação estava totalmente exposta. Carne viva em outras, como nas partes laterais do abdome, em que se dava para ver os órgãos internos, igualmente machucados, trabalhando lentamente. Seu olho direito era totalmente branco, o que denotava o fato de ser cega do mesmo. Tinha alguns dedos amputados, outros necrosados. Apenas o dedo indicador e o polegar da mão direita estavam perfeitos, presentes para que ela pudesse ao menos se divertir com o tal jogo. E parecia estar se divertindo, pois sorriu após ouvir as palavras do outro ser, revelando dentes amarelados. A maioria era buracos vazios ou dentes incrivelmente cariados, enquanto a gengiva escorria sangue diretamente para a garganta. Um processo sem fim.

_Ah, de novo? – Disse o ser de aura branca, e tossiu. Tossia a todo o momento. Quanto a sua voz, era arrastada e parecia borbulhar, por ter tanto sangue na boca. Mas não parecia agoniada. – Já estou cansada de jogar isso com você, Morte. Sempre ganhas.

_É uma questão de paciência, Irmã Pestilência. Temos infinitos tempos para isso. A única vicissitude de ter que jogar contigo são esses diminutos seres que te rodeiam. Como eu os odeio, som infernal que produzem! – Exclamou a Morte, e balançou sua mão encoberta pelo manto gasoso num gesto simples e gentil em direção à Pestilência. As moscas que a cercavam caíram instantaneamente, e novas brotaram das feridas do sofrido ser, com a mesma rapidez com que as outras morreram. – Ah, como odeio seres que não posso matar. Somente nós deveríamos ser eternas, não seres tão desprezíveis.

_Deixa isso de lado, Irmã, e me responda. Arrepende-te de ter me escolhido para jogar contigo? – Disse a Pestilência, e tossiu novamente.

_De maneira alguma. A Guerra é uma tresloucada. Quando perde, empunha aquele seu gigante machado e tenta me matar. Há! Matar a morte, mas que colossal paradoxo.

_Poupe a pobre coitada, querida Irmã. Sabes que dentre as quatro, a Guerra sempre foi a mais agitada e menos pensativa. A ela mais vale ameaçar matar um incêndio do que se dispor a apagá-lo.

_Pois sim. Mas pior é a Fome. Indubitavelmente a mais impossível de se jogar contra. Sempre que pega em algo, seus ossos se desmancham e reaparecem em seguida. Muito problemático, tenho que esperá-la assoprar as peças do jogo, com cuidado para que os dentes não se desfarelem e vão juntos. Ela fica melhor rondando por aí, sugando tudo que encontrar. Já a Guerra, deve estar confrontando todos os seres que encontra por essas redondezas. Só espero que ao sermos chamadas, ela esteja aqui, pois sabemos que é a segunda que deve ir montar em seu cavalo.

_Sim, é claro. O chamado, já havia esquecido. O tempo escorre e o momento se aproxima. Como primeira a ir, devo estar de prontidão quando ele chegar. A Terra está podre, os humanos também. A hora chegará em breve. Finalmente nos divertiremos.

_Falando nisso — Interrompeu a Morte — O que tu planejas fazer quando fores à Terra? Possuis alguma estratégia?

_Nenhuma. Irei apenas envolver os seres humanos com a praga mais horrível que a humanidade terá visto em toda a sua existência. Ela gritará clamando por ti, mas tal coisa demorará o suficiente para que eu me delicie com seus suplícios.

_Não subestimes os humanos, irmã. Sabes muito bem que um deles é como uma mosca se comparado conosco, — e a Morte fincou seus olhos nas moscas que rodeavam a Pestilência — mas aos montes... As coisas podem se complicar. — E balança novamente sua mão direita em direção aos diminutos seres, que mais uma vez brotam dos ferimentos da Pestilência, fazendo com que a Morte tenha uma expressão mais assustadora ainda, com seu capuz tremulando mais rapidamente.

_E o que sugeres, então, minha cara irmã maior? — Indaga a Pestilência, com a testa franzida.

_Perceba, minha cara, que o Apocalipse é como esse jogo com o qual nos divertimos no momento. Sabes bem dos nossos opostos que vivem no Éden. Para que nós vençamos, eles têm que sucumbir. E bem sabes que nosso embate não será direto. Nós somos como as peças desse jogos de tabuleiro que ficam por trás das peças menos raras e mais numerosas, e nossos opostos também o são. As peças mais numerosas são os humanos, os quais usaremos para o nosso embate verdadeiro. Só agiremos diretamente em casos extremos, quando uma visita nossa se fizer realmente necessária. Do contrário, seremos meras espectadoras, divertindo-nos à custa do sofrimento humano. Mas, como dito, não devemos subestimar os humanos, tampouco os nossos opostos. Lembre-se que quem define a vitória, no fim das contas, são os humanos; mas que estes somente vencerão se derem valor aos nossos opostos.

_Agora que dizes tal coisa, minha cara, percebo que é verdade. Mas devo admitir: mal vejo a hora de ver meu oposto se revelar a mim, pois eu o apodrecerei instantânea e prazerosamente.

_ A hora chegará, minha cara. Mas até lá, esperemos pacientemente. Estamos aqui desde o Início, o que são mais alguns milênios terrestres? Enquanto isso, joguemos novamente.

_Ah, perdoe-me irmã, mas já acho enfadonha tal atividade. Já estamos aqui há alguns meses terrenos, jogando sem parar. O que achas de irmos encontrarmos nossas outras irmãs? — Perguntou a Pestilência, com os olhos esperançosos, ou ao menos um dos olhos.

_Bem... Acho que estás certa. Vamos, elas não podem estar muito longe. — E então a Morte se ergueu da cadeira de um metal estranho na qual estava sentada. Em pé, ela mostrava os seus mais de três metros de altura. Seus ombros, que estavam antes encolhidos, tocando no peitoral para possibilitá-la de jogar com o tabuleiro bizarro, agora mostravam toda sua envergadura real, que somavam ao todo mais de dois metros. Sua roupa gasosa agora era mais visível. Era como que um vestido longo, que teoricamente deveria se arrastar pelo chão, porém tremia constantemente cerca de cinco centímetros acima do solo, revelando os pés surpreendentemente brancos daquela bizarra existência. Quando ela deu seu primeiro passo, o vestido negro a seguiu com um certo atraso, deixando um rastro sombrio para trás.

A figura da Pestilência não era menos assustadora. O seu andar coxo deixava para trás um caminho de sangue que dava a entender que uma batalha ferrenha e eterna se dera por onde ela passava. Suas moscas a seguiam, explodindo ao se aproximarem da Morte e sendo substituídas imediatamente pelas que surgiam do corpo de sua mestra.

Em pouco tempo, elas já estavam deveras longe, tendo deixado para trás o tabuleiro e suas peças. Aquelas equivalentes aos peões passavam uma ideia de medo das peças maiores, mas outrossim demonstravam coragem por permanecerem no tabuleiro mesmo com aqueles Titãs as rodeando. O medo e a coragem lutando entre si naquele tabuleiro rochoso. O vencedor seria o que perdurasse por mais tempo.

Notas finais
Próximo capítulo será outro prólogo, aguardem.