Tenten Hiden

3 Capítulo II


Ohana, com a resposta de sua prima, estava excitada para conhecer outros lugares na vila, além dos poucos já explorados. Caprichou em seu figurino, colocando uma blusa azul fraca e de estampa florida, com mangas longas que deixavam apenas um pouco dos antebraços e mãos à mostra, além de uma longa saia e, por fim, calçou um par de sapatilhas pretas. Era um traje simples, pois Ohana vinha de uma família com poucos recursos, bonito e que reforçavam seus traços tão meigos.

Já arrumada, ela foi até o quarto de Tenten, para ver se a prima encontrava-se pronta para sair. Ao entrar, viu que ela vestia a mesma roupa usada no treino, não havia se trocado. Ohana, já impaciente, disse:

— Tenten, o que você pensa que está fazendo? Essa não é a mesma roupa que você usou hoje para treinar?

— Sim – Tenten respondeu calmamente, sem notar a impaciência da prima.

— E você vai assim para o festival? – perguntou, apontando para a roupa de Tenten.

A kunochi, que se encontrava sentada na cama, levantou-se e foi em direção ao espelho. Ainda sem notar a impaciência da prima, falou:

— E qual é o problema? Eu sempre usei essa roupa mesmo, independente da ocasião. Não vejo nada de mais – respondeu, enquanto olhava seu reflexo no espelho.

Ohana, enfurecida, aproximou-se da prima, pegou o braço dela e o levantou. Seu nariz aproximou-se da roupa, bem na região das axilas, e fungou. Não era um cheiro agradável que emanava dali, constatou.

— ESTÁ FEDENDO – gritou.

— Como assim? – perguntou Tenten, perplexa com o grito de Ohana.

— Você passou o dia todo treinando, suou e suou. Era óbvio que sua roupa estaria fedendo agora. Você não notou isso? Ou por acaso não se incomoda em feder feito um gambá? – esbravejou a jovem.

Ohana tinha razão, constatou Tenten, aquela roupa realmente não estava cheirando bem. Apesar disso, a kunochi não era do tipo desleixada em relação a sua vaidade, sempre foi uma garota que se cuidava muito bem, entretanto, após ouvir que hoje seria o início do festival de Boas Vindas a Primavera, sua cabeça mergulhou em memórias passadas, de momentos saudosos ao lado dos amigos, o que acabou despertando a incomoda dor em seu peito e, assim, por alguns minutos, acabou desligando-se do mundo, arrumando-se sem perceber que sua roupa não estava mais apropriada para sair.

Ohana, observando a reação da prima, viu que ela estava um tanto aérea e resolveu se acalmar. Não podia brigar com Tenten e estragar aquela noite, ansiava muito por sair. Sendo assim, falou-lhe para ir novamente ao banho e ficou no quarto para encontrar algo que ela pudesse vestir.

Quando Tenten retornou ao quarto, já banhada, viu Ohana, com seu característico sorriso estampado no rosto, segurando um bonito cheongsam* amarelo de estampas floridas:

— Tenten, olha só esse vestido lindo que encontrei nas suas coisas – disse Ohana maravilhada — Onde você comprou?

— Comprei-o em uma missão há algum tempo. Havia me esquecido dele – respondeu com indiferença. Sentou em sua cama e completou – Nunca o usei.

— Pois bem, então, você irá estrear ele hoje – Ohana entregou-o a Tenten – Agora se vista.

Após se arrumarem e se despedirem de Meiying-san, a qual pediu para que não voltassem tarde e deu-lhes uma quantia em dinheiro para que pudessem se divertir, as duas saíram.

Caminhavam em direção ao festival, estavam alguns metros de lá, mas já podiam ver as luzes produzidas pelos balões que enfeitavam a rua onde acontecia a festa. Ohana, animada em presenciar o primeiro festival em sua vida em uma grande vila, imaginava o que poderia fazer, comprar, comer, as barracas que iria visitar e até mesmo as pessoas que iria olhar. Na sua aldeia, aconteciam alguns festivais ao longo do ano também, todavia, eram singelos e sem muita variedade de barracas para se divertir.

Enquanto esperava Tenten se aprontar, Meiying-san, sua tia, contou para ela como era os festivais em Konoha, desde a beleza dos enfeites e adereços que eram colocados nas ruas até as manifestações folclóricas que aconteciam. Com o pouco que ouvira, a garota ficou em êxtase e, a cada passo que dava, seu corpo parecia fervilhar de emoção.

Ao chegarem ao festival, Ohana teve a sensação que seus devaneios haviam se materializado. A extensa rua iluminada pelos balões, pendurados em cordas amarradas nos telhados das casas, era ladeada, de ambos os lados, por os mais diversos tipos de barracas e tinha seu corredor preenchido por pessoas, que transitavam calmamente, parando uma vez ou outra para desfrutar das atrações do festival. Era exatamente como sua tia havia descrito e como imaginara no decorrer do caminho. Para ela, ver tudo aquilo era mágico e preenchia sua alma de uma alegria imensurável.

Todo esse encantamento sentindo por Ohana pode parecer bobo para pessoas já acostumadas com esses festivais que ocorriam nas grandes vilas, todavia, aquela garota de cabelos curtos e pele avermelhada viu tão pouco da vida até agora, não usufruindo o necessário para começar a encarar o mundo de forma mais madura. Mas isso é algo natural, afinal, Ohana tinha apenas catorze anos e, ainda, um longo caminho para percorrer até o amadurecimento.

A sensação de encantamento ao ver tudo àquilo pela primeira vez a fez ficar parada observando cada detalhe por alguns segundo. Em seguida, Ohana pegou a mão de Tenten e correu, desviando habilmente das pessoas que caminhavam por ali, em direção à primeira barraca à sua frente. Era uma daquelas barracas "pesque e pague", muito costumeiras nos festivais. A garota virou-se para sua prima e, com os olhos brilhando, pediu:

— Prima, podemos tentar?

Tenten notara a alegria nos olhos de Ohana. Era a primeira vez dela em um festival daqueles, sendo assim, não poderia estragar aquela noite por conta da sua falta de ânimo, concluiu.

— Claro – respondeu com um sorriso.

Ver Ohana se divertindo ali, por alguns momentos, foi uma fuga daquela realidade tão acinzentada da qual Tenten estava vivendo. A melancolia e a indisposição eram duas companheiras leais da kunochi nos últimos meses, entretanto, com a chegada de Ohana, ela conseguia acalentar a sua alma por alguns instantes. A alegria da prima era como um bálsamo, que a aliviava um pouco das dores de seu espírito abatido.

Depois de duas tentativas frustradas em pescar peixinhos, Ohana decidiu ver outras barracas. Tenten apenas a acompanhava silenciosamente, sempre assentindo aos pedidos da prima.

— Você não quer tentar jogar alguma coisa? – indagou Ohana, virando sempre o rosto para os lados à procura de algo que a chamasse atenção.

— Não. Hoje a noite é sua – disfarçou Tenten que, embora se encanta-se com alegria da prima, não sentia vontade de tentar jogar algo.

Ohana, sempre puxando Tenten pelas mãos, seguiu brincando em mais duas barracas. Com êxito, em uma delas, conseguiu um pequeno urso como prêmio e, se dando por satisfeita, resolveu parar os jogos.

As duas continuaram a percorrer a extensa rua onde acontecia o festival. Tenten acompanhava os olhos de sua prima, que pareciam inebriados pela quantidade de balões que cobriam a rua. Vendo a prima por uns instantes, ela pôde sentir a pureza e a inocência que imanavam dela. O brilho nos olhos e aquele sorriso tão cativante de Ohana diziam à Tenten que aquela garota era uma pessoa sonhadora, mas, ao mesmo tempo, frágil e indefesa. Era como uma pequena boneca de porcelana, bonita e encantadora, porém, facilmente quebrável. Ao notar isso, naquela noite de festival, andando de mãos dadas com sua prima, Tenten sentiu-se responsável em protegê-la, afim de que os sonhos de sua pequena prima não fossem extinguidos. Além disso, não permitira que alguém causasse mal a ela, não suportaria vê-la sofrer. Os seus tios haviam a enviado para sua casa para poupá-la das desgraças que desolaram o vilarejo onde moravam. Tenten compreendia isso, era cedo de mais para Ohana defrontar-se com aquilo. Até mesmo para ela, uma ninja experiente e que já enfrentou duras realidades, a guerra trouxe amargas consequências das quais ela ainda não conseguia lidar, por isso, não poderia permitir que tal fato maculasse a infância da prima. "Não importa o que aconteça, Ohana, não vou permitir que ninguém te machuque. Não vou deixar ninguém tirar esse sorriso do seu rosto", prometeu a si mesmo.

Mergulhada nesse sentimento de proteção, Tenten, com uma mãe se dirigindo carinhosamente para uma filha, perguntou:

— Então, o que você quer fazer agora?

— Hm... Bem... – Ohana parou uns instantes para pensar. Depois de ter decido, sugeriu entusiasmada – Que tal comermos alguma coisa?

— OK! Iremos comer.

Tenten, para satisfazer o desejo da prima, levou-a, naquela rua mesmo, numa loja de doces. Nela, Ohana surpreendeu-se com as quantidades de doces à venda. Todos pareciam ser incrivelmente gostosos aos olhos dela, o que a fez ficar indecisa na escolha de qual deveria comprar. Entretanto, uma garota, reconhecida por Tenten, aproximou-se e aconselhou:

— Que tal você provar esse aqui? – perguntou ela, levantando uma embalagem transparente onde havia seis doces.

— Ino! – exclamou Tenten surpreendida.

— Tenten! – Ino envolveu Tenten em seus braços e a apertou durante alguns segundos. Depois de soltá-la, continuou – Por onde você andou durante os últimos meses? Faz tento tempo que não te vejo – em seu rosto estava estampado um misto de alegria e preocupação.

— Andando um tanto quanto ocupada – respondeu Tenten, querendo fugindo daquela pergunta.

Após o fim da Grande Guerra Ninja, Tenten ainda encontrou-se com seus amigos algumas vezes. Entretanto, quando as rotinas de missões foram voltando, e ela nunca sendo requisitada pela Hokage desde então, decidiu-se focar apenas em seus treinos. Somado isso a já conhecida falta de ânimo e melancolia, que a abateu nos últimos tempos, o seu interesse nesse convívio social com os amigos foi se apagando aos poucos, até quando não se sentia mais à vontade em encontrá-los.

Ino resolveu não encher mais a amiga de perguntas como aquela e, correndo seus olhos por Ohana, acabou mudando de assunto:

— E quem é essa garotinha com você?

Tenten, olhando para sua prima, respondeu:

— Essa é a Ohana, minha prima. Ela mora em um vilarejo próximo daqui e veio para cá passar um tempo conosco.

Ino, com um sorriso nos lábios, estendeu a mão para Ohana e se apresentou:

— Olá, Ohana. Eu me chamo Ino Yamanka, sou amiga da Tenten. Prazer em conhecer você.

— Prazer – retribuiu Ohana, acompanhado de um acanhado aperto de mão.

— A Tenten deve ter falado muito de mim para você, não é mesmo?

— Na verdade, não. Ela nunca fala dos amigos – respondeu a garotinha, uma pouco desconsertada com a resposta que dera.

— Tenten, como você pode ser assim? – censurou a Yamanaka.

***

As três caminhavam entre os aldeões de Konoha, que andavam, de um lado para o outro, desfrutando do festival. Ino as convidou para irem a um lugar perto dali onde pudessem sentar e conversar. No decorrer do caminho, ela contou a Tenten que estava, a pedidos de Tsunade-Sama, fazendo alguns plantões no hospital da Aldeia da Folha. Naquele exato momento, ela tinha dado uma pausa para olhar um pouco o festival e comprar alguns doces, mas, logo depois, deveria voltar para lá, pois precisava cuidar de um idoso que fora encontrado machucado nas proximidades da Aldeia:

— O que ele nos contou é que quando estava vindo para cá com sua neta, de cerca de dezesseis anos, foi atacado por um grupo de quatro homens. Eles espancaram-no até que desacordasse. Alguns ninjas que faziam ronda por aquelas bandas encontraram-no caído no chão desacordado e bem machucado e, rapidamente, trouxeram ele para o hospital — explicou

— E enquanto a garota? – perguntou Tenten, intrigada com a história.

— Os ninjas relataram que não havia nenhuma garota, apenas o senhor desacordado no chão.

— Como assim? – dessa vez, foi Ohana que perguntou, também, intrigada.

— É verdade, não havia garota alguma. Mas isso é algo realmente estranho, pois, em uma semana, essa é a terceira pessoa encontrada desacordada pelas redondezas, trazida pelos ninjas até o hospital e que sempre conta essa mesma história. Na qual, eles estão na estrada em direção a Konoha, sempre acompanhados de uma jovem garota, parente deles, e, de repente, são surpreendidos por um grupo de homens que os atacam, espancando-os até que desacordem, mas ao serem encontrados pelos ninjas da Aldeia, eles sempre estão sozinhos, sem sinal de garota alguma.

— Isso realmente é estranho – falou Tenten com assombro – Não pode ser coincidência. Esses relatos devem possuir uma ligação entre si. Mas quem estaria fazendo algo do tipo? Logo agora que as cinco nações vivem num momento de paz.

— E se forem sequestradores? – sugeriu Ohana.

— Tudo indica que sim, Ohana – assentiu Ino.

— Sequestradores de garotas... – disse Tenten para si mesma, achando aquilo impossível de existir. Era a primeira vez que ouvia algo do tipo – Isso é realmente possível? Tsunade-Sama já fez algo a respeito?

— O pouco que sei, Tenten, é que um time foi designado para investigar o caso, todavia, até agora, não conseguiram informações suficiente para localizarem esses sequestradores, muito menos as garotas.

Aquilo era confuso para cabeça de Tenten, não imaginava que algo do tipo poderia acontecer. A história era intrigante e os relatos possuíam uma ligação, isso era indiscutível. "Por que raios alguém estariam sequestrando garotas?", refletiu. "Não pode ser! Seria Orochimaru atrás de corpos para usar como cobaias?", precipitou-se em suas conclusões. "Não, definitivamente, não. Orochimaru precisa de pessoas resistentes para seus experimentos e essas garotas não seriam interessantes a ele. Além disso, desde o fim da guerra, não havia notícias a respeito dele, suas ações não era mais do interesse de Konoha".

Deixando aquele assunto de lado, Tenten resolveu perguntar sobre o paradeiro de Chouji e Sakura. Ino explicou que Chouji não dava as caras há um bom tempo, porque estava atarefado com seu pai, resolvendo algumas questões do clã Akimichi. Ainda mais, ele preparava-se para suceder a liderança do Chouza-san. Por sua vez, Sakura, a mando da Hokage, estava na Aldeia da Areia, há algumas semanas, para estudar sobre as plantas medicinais de lá. Ino contava tudo àquilo com bastante orgulho, pois ver os dois amigos, tão próximos dela, esforçando-se para se tornarem ninjas melhores era gratificante e impelia-a a se tornar mais forte também. Não podia aceitar que Chouji e, principalmente, Sakura a deixasse para trás. Ela queria ser tão forte quanto eles, ela queria ser útil para Konoha.

Por outro lado, para Tenten, ouvir tudo aquilo a deixou decepcionada consigo. Chouji e Sakura estavam trilhando seus caminhos, esforçando-se para tornarem-se cada vez melhores, e, com certeza, seriam reconhecidos por seu trabalho árduo. Enquanto ela, tudo o que fazia era treinar dia a pós dia, sozinha, sem rumo ou perspectiva. Seus treinos eram apenas uma forma de lembrar a si mesma que ainda era uma ninja, embora sentisse que essa realidade ia apagando-se gradualmente, já que não era requisitada para missões ultimamente.

Interrompendo os pensamentos melancólicos de Tenten, Ino gritou:

— Hinata!

Hinata, parada em frente a uma barraquinha, virou-se para vê quem a chamava e foi surpreendida por um amigável abraço de Ino.

— Hinata! Que saudades – exclamou Ino, soltando a amiga de seus braços.

— Ino! – respondeu Hinata acanhada. Virou seus olhos para Tenten e cumprimentou as duas timidamente – Ino, Tenten, como vocês estão?

— Estamos bem – respondeu Tenten, abraçando a amiga.

— Hoje realmente é uma noite especial – disse Ino maravilhada. Ela estava realmente empolgada com aquele encontro com as duas amigas, pois, além de Tenten, ela não olhava Hinata fazia um bom tempo – É tão bom ter vocês duas aqui.

Nesse exato momento, a vendedora da barraca entregava um pequeno pacote a Hinata. Ino, curiosa, notou que aquela barraquinha vendia lembrancinhas, daquelas que damos a quem sentimos algo em especial:

— Para quem é essa lembrancinha que você comprou, Hinata? – perguntou Ino maldosamente e com um sorriso sorrateiro no rosto.

A garota Hyuuga não precisava responder, pois todos já sabiam dos sentimentos dela por Naruto. Tenten sempre achou fofa a forma como Hinata comportava-se quando Naruto estava presente, sempre tímida e titubeante. Torcia para que um dia a amiga supera-se sua timidez e revelasse seus sentimentos para Naruto, embora receasse a resposta que ele poderia dar, afinal, ele sempre foi apaixonado pela Sakura desde a infância.

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*Cheongsam é um vestido de origem chinesa. Ele é justo e de abotoamento diagonal.