Tenten Hiden

4 Capítulo III


A poucos metros de onde acontecia o festival de Boas Vindas à Primavera, Tenten e as meninas resolverem se acomodar em um ermo parquinho para saborear os doces que Ino comprou. Ali, apenas uma fraca luz, vinda de um poste, iluminava o local, dando-lhe um aspecto solitário, onde, pela manha, proporcionava alegria às crianças.

Tenten, sentada num pequeno banco do balanço, ouvia Ino, em pé a sua frente, falar dos últimos acontecimentos em Konoha, das confissões amorosas de suas colegas de trabalho no hospital, e de situações embaraçosas que passou ao lidar com alguns pacientes. Hinata, também em pé, mas encostada em uma das barras de ferro que sustentavam o balanço, ria timidamente dos relatos da amiga.

Virando-se para Hinata, Ino perguntou:

— Hinata, por onde andam o Kiba e o Shino?

— Os dois estão muito atarefados ultimamente. Kiba está em uma missão junto com alguns ninjas de seu clã, enquanto Shino está dedicando-se em sua preparação para se tornar um futuro professor da academia – respondeu.

Surpreendida com o que a Hyuuga falou a respeito de Shino, Tenten, que mirava os seus olhos para o céu estrelando, enquanto balançava-se lentamente no brinquedo, comentou:

— Nunca pensei que ele se tornaria um professor da academia. Não parece ser algo que o Shino faria.

— Nem eu. Pensei que seguiria as tradições de seu Clã – acrescentou Ino, intrigada com a decisão de Shino, pois não conseguia vê-lo, com todo seu jeito sério e reservado, lidando com crianças.

Ohana, que estava sentada em outro banco do balanço ao lado de sua prima e ouvia a conversa atentamente, disse:

— Talvez, nem ele mesmo pensava em se tornar um professor, mas, ao decorrer das nossas vidas, adquirimos experiências que nos permitem repensarmos nossos caminhos, mudando as nossas visões de mundo e, consecutivamente, o futuro que almejávamos, fazendo-nos percorrer caminhos que nunca cogitávamos.

Ao ouvir aquelas palavras, Tenten e as outras garotas, por alguns segundos, pensaram que ali, ao lado delas, não era uma garota de catorze anos que falava, mas uma mulher madura, a qual enfrentou duras provações em sua vida e adquirira uma grande carga de sabedoria após isso. Para Tenten, aquela Ohana nada parecia com a que, minutos antes, corria, com um sorriso bobo no rosto, entre as barracas e encantava-se com cada detalhe do festival.

Elas não sabiam, mas o pouco que viu das consequências da Guerra fez com que Ohana conhece-se a realidade do mundo ninja. Antes, em torno de seus nove anos, o sonho dessa garota era torna-se uma lendária ninja. E isso foi fruto das histórias que ouvia a respeito dos Sannis, principalmente sobre Tsunade. Desde então, sempre pedia aos seus pais que a mandassem para Konoha, ansiando entrar na academia ninja, onde estudaria todas as teorias e técnicas básicas de um shinobi. Seria o primeiro passo para alcançar o seu sonho e tornar-se tão forte quanto os personagens lendários das histórias que ouvia. Entretanto, toda a sua imagem romantizado a respeito desse mundo despedaçou-se quando se defrontou com os destroços das casas destruídas de seu pequeno vilarejo, com a relva encharcada de sangue e com a pilha de cadáveres, de pessoas que outrora conviviam com ela, amontoados pelas ruas. Tudo isso causado pela Grande Guerra, tudo isso causado por um combate sanguinário entre ninjas. Aquela cena a fez compreender o quão violento era o mundo que almejava, e, de certa forma, sentiu-se privilegiada por não fazer parte dele. A Guerra mostrou a Ohana o quão feliz ela era em ser apenas uma simples garota que viva no campo ao lado de seus pais.

Admiradas com o comentário de Ohana, Ino e Hinata começaram a fazer-lhe uma série de perguntas a respeito de sua vida, dos seus gostos e de como era a vida em seu pequeno vilarejo. Foi uma conversa acalorada, na qual Ohana esbanjava entusiasmo, com seu costumeiro sorriso arrebatador estampado em seu rosto a cada resposta que dava. Tenten acompanhava a alegria de sua prima de soslaio, estava contente por tê-la ali, do seu lado. Mas seus olhos estavam voltados para aquele céu noturno e a imensidão de estrelas que o cobria. Fazia algum tempo que não saia às noites, os treinos excessivos das tardes deixava-a fatigado no final do dia e seu único desejo, após os treinamentos, era voltar para casa e dormir.

Aproveitando aquele momento, Tenten continuou a contemplar as estrelas, deixando-se divagar por cada uma delas. Eram tão pequeninas vendo ali de baixo, mas juntas se tornavam tão imponentes e brilhantes. Para ela, era intrigante pensar que, mesmo após mortas, a luz que elas imanavam ainda viaja o espaço até chegar à terra, enfeitando o céu como pequenos vaga-lumes.

Uma leve brisa noturna, fria, mas aconchegante, soprou pelo solitário parquinho. Tenten teve uma agradável sensação de frescor ao sentir a brisa tocar-lhe a face. Fechou os olhos, com o rosto ainda virado para o céu, começou a balançar-se um pouco mais rápido, mas com as pontas dos pés ainda firmadas no chão. Agora, ela sentia uma sensação de liberdade, e, aos poucos, os músculos enrijecidos iam relaxando. A sua atenção desligou-se da conversa entre sua prima e suas amigas e seus pensamentos viajaram para bem distante dali. Imaginou-se mergulhando em um mar de estrelas brilhantes e douradas, sendo levada por uma correnteza de ventos agradáveis e reconfortantes, como uma folha ao cair do galho de uma árvore e sendo embalada no ar por uma leve brisa até cair na relva macia.

Aquele devaneio ia gradualmente preenchendo sua alma. Estava satisfeito por ter cedido ao pedido de sua prima para sair. Aqueles poucos minutos nos quais seus pensamentos viajavam para longe daquele parquinho foram essenciais para esquecer os problemas que afligiam seu espírito. Mas ela não pôde continuar sua viagem. Ohana bruscamente cortou seus pensamentos:

— Hyuuga? Você faz parte do clã Hyuuga? – perguntou ela para Hinata, que estava em pé ao seu lado. Ela levantou-se rapidamente do balanço, suas mãos seguravam firmemente a mãos de Hinata no acesso de euforia e surpresa.

— Sim... Eu faço – respondeu a Hyuuga, espantada com a euforia e a aproximação repentina de Ohana.

Os olhos de garota brilharam ao ouvir essa resposta, seu rosto estava a poucos centímetros do de Hinata. Ela estava encantada em saber que ali, na sua frente, estava um membro do Clã no qual já ouvira histórias. Era algo surreal para uma garota do campo que cresceu ouvido relatos dos feitos dos Hyuugas.

— É verdade que os olhos de vocês podem ver a vários metros de distância? Além de poder vê através das coisas? – perguntou, admirando os olhos brancos de Hinata.

— Sim... É... É verdade.

Ohana sentou-se novamente no balanço, deixou o ar preso em seus pulmões saírem e relaxou. Seus olhos voltaram-se outra vez para Hinata, encantada com o que via.

Ino, que se divertia em ver a reação de Ohana, comentou:

— Mas ela não é uma simples Hyuuga, Ohana. Ela é uma princesa, é filha do líder do clã.

Dessa vez, a garota de pele avermelhada não se sobressaltara, manteve a compostura. Estava diante de uma princesa, sucessora do líder de um respeitável clã. A euforia de antes transformou-se em respeito.

"Hyuuga?", pensou Tenten. Fazia meses que não ouvia esse nome. Mas ouvi-lo, naquele momento, soou como uma adaga afiada, cortando seus devaneios e trazendo a de volta para a realidade.

Ino incentivou Hinata a contar para Ohana um pouco sobre a história dos Hyuugas. E assim ela fez. Contou sobre as origens do clã, falou sobre os grandes heróis que no passado trouxeram grandes feitos e horaram o sangue que carregavam. E, vendo o interesse da garota, contou um pouco sobre seu dia a dia como sucessora na linhagem dos líderes do clã.

— Infelizmente, os meus treinos estão comprometidos. O meu primo, o Ne...

As primeiras sílabas foram o suficiente para não ouvir mais nada. Os ouvidos de Tenten instantaneamente bloquearam aquele som. Vê os lábios de Hinata se movimentando para formar aquele nome, a fez lembrar de um passado que minutos atrás, quando balançava-se e viajava para longe dali através dos seus pensamentos, havia se esquecido.

— ... Agora ele não está mais aqui — Finalizou Hinata

Olhos de Hinata baixaram-se, assim como os de Ino. Falar daquela perda era doloroso. Ohana percebeu o clima de pesar das garotas ao falarem sobre aquilo. Respeitando aquele momento, seus olhos também se baixaram por alguns segundos, mirando o solo cimentado do parquinho. Instintivamente, voltou seu rosto para sua prima. Sabia que pessoa a qual Hinata mencionou era companheira de time da Tenten. Mas o que viu estampado no rosto de sua prima não era um olhar cabisbaixo, como das outras garotas, e, sim, um olhar perdido, vidrado no céu estrelado.

Cortando aquele momento silencioso, Tenten levantou-se repentinamente do balanço e sem virar o seus olhos para Ohana, ela disse:

— Já está tarde, prima. É hora de voltarmos para casa.

Ino e Hinata espantaram-se com a reação repentina de Tenten. Não havia nem meia hora que estavam ali, conversando naquele desabitado parquinho. Ainda era cedo, o festival ainda acontecia.

— Tenten, ainda está cedo. Temos muito que conversar ainda, afinal, faz meses que não nos vemos – reclamou Ino.

— Desculpe, minha amiga, mas preciso ir. Prometi a Ohana que amanhã a levarei para ver meu treinamento, então, precisamos dormir cedo.

Era apenas uma desculpa esfarrapada que Tenten encontrou para ir embora o quanto antes. Não se sentia mais confortável, os músculos novamente enrijeceram-se, sua respiração estava pesada, seu espirito estava voltando ao estado melancólico que se encontrava nos últimos tempos. Falar sobre aquela pessoa acabou desencadeando tudo isso.

Hinata, vendo aquele estranho comportamento da amiga, notou a tristeza que a abatia. Há poucas semanas, percebeu a ausência das visitas de Tenten ao túmulo de seu primo Hyuuga. Toda às vezes que o visitava, sempre via o seu túmulo limpo e enfeitado por flores que constantemente Tenten recolocava, substituindo as que já se encontravam murchas. Entretanto, a conservação do túmulo por Tenten, foi, a cada semana, diminuindo, sendo que nas últimas semanas, ela abandonara tais cuidados. Hinata, então, resolveu assumir a responsabilidade, mas a ausência da amiga a inquietava. Não se atreveu a ir até a casa dela para saber o porquê daquilo, mas, naquele momento, vê-la em pé, com o semblante rígido, sem expressar nenhum sentimento e olhando fixamente para o horizonte, a fez entender a natureza conflituosa pela qual Tenten estava passando.

— Bem, lembrei que preciso ir dormir cedo também. Amanhã haverá uma cerimonia do clã e preciso estar preparada – mentiu Hinata. Sentia-se imponente por não poder ajudar à amiga e, por isso, resolveu mentir, para que Ino não reclamasse mais e Tenten pudesse ir para casa descansar e acalmar seu espirito.

— Você também? – Ino protestou novamente. Vendo que não adiantaria nada continuar a reclamar, cedeu – Tudo bem. Foi tão bom reencontrar vocês, mesmo que não tenha durando tanto tempo quanto eu queria. Até mais meninas e prazer em conhecê-la, Ohana – Envolveu a pequena Ohana em volta de seus braços, dando-lhe um amigável abraço.

Hinata despediu-se também e seguiu em direção a sua casa, Ino a acompanhou, pois o hospital ficava na mesma direção:

— Até mais, Tenten e Ohana – acenou Ino, enquanto entrava em uma rua à direita do parquinho, junto com Hinata, para depois sumir da vista de Tenten e sua prima.

No caminho rumo à casa da tia Meying, Ohana não trocou nenhuma palavra com sua prima. Tenten caminhava poucos metros à frente, enquanto Ohana, atrás, a observava atentamente, curioso para saber o que passava na cabeça dela. Resolveu deixar a curiosidade de lado e continuou mantendo-se em silencia durante todo o percurso.

Ohana não podia ver, mas o rosto inexpressível de antes agora era espaço para as lagrimas que escorriam dos olhos de Tenten, ao mesmo tempo, em que o seu peito, carregava pontadas de dor.