Tentando Destruir um Conto de Fadas
1 O Primeiro Encontro
Davi caminhava distraído pelo mercado disfarçado de plebeu, algo que estava virando rotina. Sentia-se livre do peso que carregava como príncipe herdeiro de Cedro. Dispensou qualquer servo, pois precisava passar despercebido quando dava passos apressados para um local que já conhecia bem.
Ainda se via maravilhado com a bagunça que era o local, cheio de mercadorias e pessoas vendendo, comprando, negociando e, de vez em quando, alguma confusão se estabelecia com baderneiros folgados tentando passar a perna em comerciantes. Parecia uma vida difícil, mas não achava.
Não teria nada melhor do que se preocupar apenas com sua própria vida, lutar pelo seu sustento e deitar a noite com a preocupação apenas do que trabalharia no dia seguinte. Nada de protocolos, nada de reuniões exaustivas, nada de tratados, nada de guerra, nada de responsabilidades por milhares de vidas. Apenas uma, a sua própria, ou talvez de mais algumas pessoas, como esposa, filhos. Mas ainda assim era um fardo mais leve do que o peso de um reino inteiro.
Mas não queria pensar naquilo, tinha saído exatamente para fugir dessa pressão, então balançou a cabeça e estava prestes a entrar no minúsculo estabelecimento, quando se chocou com um corpo mais baixo que o dele.
Logo percebeu ser uma mulher, que com o choque, acabou dando passos cambaleantes para trás. Davi se preocupou e com rapidez a segurou nos braços impedindo que caísse, já que carregava um saco grande. Foi naquele momento que tudo mudou. Os olhos se encontraram e seu coração foi arrebatado.
Os azuis de Davi encontraram os negros da jovem, que também sentiu o mesmo, como se finalmente a vida tivesse fazendo sentido pela primeira vez. Ela vestia roupas gastas, o cabelo castanho claro estava preso em uma trança e o rosto com lábios pequenos, nariz reto e olhos redondos tinham um pouco de areia.
Mas nada daquilo importava, pois Davi a achou incrivelmente linda.
— Você está bem? — perguntou quando percebeu que ainda a segurava, sem dizer absolutamente nada.
— S-sim. — ela respondeu com a voz baixa, desviando o olhar.
O rapaz a sua frente era terrivelmente belo e ela se sentiu envergonhada, pois além dos olhos azuis, ele tinha cabelos loiros, traços simétricos, queixo esculpido e um olhar penetrante. Ela tinha esquecido de respirar quando ele falou. Até a voz dele era bonita.
Davi a soltou com delicadeza, mas não se afastou muito, sua atenção era totalmente dela naquele momento.
— Qual o seu nome? — ele perguntou sem rodeios.
— Rosa. — respondeu baixo.
— Isso parece pesado. — apontou para o saco que tinha caído no momento do impacto.
— Só um pouco. — ela sorriu sem jeito.
— Quer ajuda? — Davi se prontificou, queria um motivo para ter a companhia dela mais um pouco.
Rosa se viu sem palavras, ela sempre passava por ali carregando peso, mas ninguém nunca se importou de tentar ajudá-la. Sentia-se cansada há muito tempo e naquele dia não era diferente. Vinha distraída porque não estava conseguindo juntar a quantidade necessária de castanhas para conseguir vender bem e sabia que receberia pouco.
Naquele momento, se sentiu vista por alguém e realmente precisava de ajuda. Mas não conhecia aquele homem, como poderia confiar? Já tinha tido sua cota de situações desagradáveis com desconhecidos e não queria mais um.
— Obrigada, mas não precisa. Não quero incomodar mais do já incomodei. — ela falou já se abaixando para pegar a sacola cinza.
— Por favor, eu insisto. — Davi se abaixou rápido e segurou a boca amarrada da sacola, consequentemente tocou na mão dela também. — Deixe-me ajudá-la, você parece cansada.
O toque nas mãos não passou despercebido por Rosa, mas mesmo que ela tenha encarado as mãos unidas, ele não recuou. A determinação dele acabou deixando a jovem um pouco mais encantada por ele.
— Tudo bem. — ela respondeu sentindo as bochechas arderem e então soltar as mãos.
Davi se sentiu vitorioso com a desistência dela e puxou com gosto a sacola para o ombro, em seguida esperou que ela tomasse a frente para guiá-lo no caminho.
O aglomerado de pessoas ainda ia e vinha nos corredores do mercado e por isso seguiram em silêncio até uma parte mais calma, onde puderem andar lado a lado.
— Você não me disse seu nome. — Rosa comentou, mas não olhou para ele diretamente.
Naquele momento Davi não soube o que responder, não podia dizer seu nome verdadeiro, no momento que falasse, denunciaria quem era, sua aparência não era muito comum e sabia disso. Por isso sempre tentava deixar o cabelo coberto e usava roupas mais compridas para cobrir o máximo que podia.
Pensou um pouco e falou o primeiro nome que lhe veio à cabeça.
— Ivan. — respondeu com um sorriso fechado torcendo para que ela não achasse estranho ou detectasse a mentira.
— É um prazer, Ivan. — Rosa falou com um pequeno sorriso ao pronunciar o nome falso.
Davi viu que ela estava tranquila e retribuiu o sorriso. A tensão se dissipou e ele sentiu que podia relaxar.
— O que você está carregando? — ele se viu curioso.
— Castanhas, estamos na época de coleta e é um dos melhores períodos para quem precisa sobreviver. — Rosa respondeu segurando as mãos, e Davi então percebeu que elas estavam enfaixadas, porém os dedos expostos mostravam algo estranho.
— O que há com seus dedos? — ele não conseguiu segurar a curiosidade.
Rosa fechou as mãos pois se sentiu envergonhada, juntar castanhas era um trabalho árduo que fazia com que sofresse com efeitos colaterais. O que mais prejudicava eram as unhas, ela perdia todas elas por conta do fruto podre que precisava separar da castanha.
— Você não parece daqui, então não sabe o que acontece com quem trabalha com isso.
Davi não discordou, pois ela não podia saber da verdade, mas aquilo o deixou ainda mais curioso.
— O que acontece com quem trabalha com castanhas? — ele perguntou de forma inocente.
Ela não falou, mas levantou as mãos na frente do rosto, mostrando os dedos e então ele viu. Davi ficou sem palavras quando viu apenas os buracos nos lugares que deveria ter unhas. Ele acabou soltando o saco e com delicadeza segurou a mão dela para que pudesse ver melhor e se sentiu mal.
— Isso… eu… — ele nem sabia o que falar.
— Não se preocupe. — ela respondeu tirando delicadamente as mãos — Acontece todo ano, mas elas crescem de novo.
— Isso não dói?
— Não tanto quanto a fome. — ela apenas abaixou e começou a dar passo novamente, não queria se estender com aquilo.
Davi pegou novamente o saco e a seguiu pensativo. Talvez trabalhar todo dia pelo sustento não fosse tão interessante quanto vinha imaginando. Depois de mais alguns metros ele quebrou novamente o silêncio.
— O que vai fazer com isso? — se referiu às castanhas.
— Vou vender ali. — apontou para uma barraca que tinha vários sacos amontoados.
— Certo.
Davi se assustou com o preço que ela recebeu por aquele saco e se viu indignado com aquilo, não falou nada depois que saíram dali e tiveram uma breve conversa de despedida. Mas de uma coisa ele tinha certeza, não deixaria que as coisas continuassem daquele jeito para Rosa.
Algo tinha acontecido e aquele encontro não era coincidência, ele não conseguia parar de pensar nela e ansiava para revê-la. Por isso decidiu que a encontraria e dali em diante, suas vidas não foram mais as mesmas.
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