Tentando Destruir um Conto de Fadas
2 Medo de Fantasma
O grande salão estava movimentado, pessoas conversavam, andavam de um lado para o outro e a música suave com instrumentos de cordas pairava no ar. O rei Edmundo Montês mantinha uma boa conversa com o representante do Império de Jade, mas sempre passava os olhos pelo salão, tentando encontrar um certo príncipe herdeiro que deveria estar ao seu lado, recebendo a ilustre presença de Jahuel Gomes.
Ao longe, a princesa Diana estava em um canto da longa mesa, observando algumas guloseimas junto com um pequeno grupo feminino.
— Se meu irmão não chegar nos próximos minutos, papai vai explodir! — ela comentou antes de morder o pedaço de um pão com recheio cremoso.
— E porque ele ainda não está aqui? — a prima perguntou curiosa, dando uma checada no salão, pois naquele momento a atenção do grupo estava direcionada ao fato do atraso do príncipe.
A jovem de cabelos pretos, trajando um vestido verde, estava se abanando com um pequeno leque de madeira, com tecido exibindo desenhos de flores coloridas. Seu rosto tinha belos traços com nariz reto, lábios desenhados e olhos azuis marcantes. Esta última característica era a única compartilhada por Diana, que era loira, com nariz pequeno e delicado, complementado com lábios finos e delicados. Seu vestido era azul claro.
— Não sei, Clara. — Diana respondeu e suspirou devagar antes de continuar — Dener foi tentar achá-lo, mas ainda não voltou.
— Isso não é nada bom, o príncipe Davi pode ser punido. — uma terceira moça comentou, esta era ruiva.
Assim como as duas, seu belo rosto era perfeitamente harmonioso e os olhos eram azuis claros, quase cinza. Elen era a mais baixa e delicada do grupo, com seu vestido roxo.
— Vou procurar o príncipe Dener, acho que ele pode ser punido junto com o príncipe Davi, caso se atrasem ainda mais. — a quarta jovem se pronunciou.
Ela era um pouco diferente das demais, tinha um corpo mais volumoso e com curvas, a segunda mais alta do grupo — a mais alta era Clara. Cabelos cacheados longos e olhos grandes, ambos pretos. Tinha lábios fartos e um olhar altivo, mas esse último era um traço que tentava a todo custo ocultar. Ser um pouco fora do padrão já lhe deixava em uma posição desfavorável no quesito desejável e queria diminuir seus atributos exagerados. Apesar de que, estava usando um vestido vermelho que realçava sua cor de pele.
— Teresa, não se desgaste com Dener hoje, ele provavelmente irá recusar sua ajuda. — Diana falou, não em um tom acusatório, mas compassivo.
Ela, assim como as duas amigas, odiavam ver Teresa se arrastando atrás do jovem príncipe, quando ele demonstrava que não tinha interesse nela.
— Eu sei. — ela respondeu desanimada — Mas não consigo evitar a preocupação com ele.
— Olha, somos suas amigas e queremos o seu melhor — Clara falou se aproximando dela enquanto fechava o leque — E eu acho que ele não te merece. — apontou séria — Estou cansada de te ver atrás dele apenas para ser rejeitada todas as vezes. Não faz isso.
— Olha, eu sei que vocês se preocupam, mas eu não consigo. É mais forte do que eu! — ela fechou os punhos e baixou a cabeça. — Vocês só vão me entender quando se apaixonarem também.
— É claro que me apaixonei, por isso acho que isso que você sente não é paixão, parece mais obsessão. — Clara rebateu desviando o olhar.
— Como assim? — Elen perguntou curiosa — Você já se apaixonou e não disse nada?
Clara acabou perdendo a linha de raciocínio e ficou um pouco envergonhada.
— É meio que recente. — respondeu abrindo o leque para esconder o rosto.
— Fale agora! — Diana exigiu, levando a mão para o dito leque e o abaixou.
— Depois eu falo. — Clara fechou os olhos e suspirou antes de voltar a atenção para Teresa — Voltando ao assunto, você precisa superar isso.
Teresa bufou e virou a cabeça de lado fazendo um biquinho novamente com um vinco entre as sobrancelhas.
— Clara. — foi a vez de Diana revirar os olhos — Não é o momento para isso.
Sabia que o gênio forte das duas poderiam aflorar naquele momento e não estavam em um local privado para desenvolver a discussão.
Clara virou de lado e cruzou os braços, mesmo contrariada, não falou mais nada. Teresa puxou o ar com força para os pulmões por algumas vezes, odiava quando entravam naquele assunto, como se ela fosse culpada pelo que sentia. Talvez não se controlasse tanto, mas Clara não precisava repreendê-la sempre. Por isso agradeceu a interrupção de Diana.
No instante seguinte, Davi entrou pelas portas, dava passos largos enquanto terminava de ajustar o colarinho. Era nítido que havia se arrumado às pressas. Não tardou em ir ao encontro do rei, que o olhou duro, mas não falou nada. Apenas seguiu a etiqueta e apresentou o filho ao convidado.
O tempo foi passando e foi o tempo de Dener retornar e se dirigir ao pequeno grupo de mulheres.
— Eu não o encontrei. — o tom de desânimo era evidente.
Apenas depois do desabafo, elas perceberam sua chegada. Ele vestia roupas nas cores marrom e branca. O cabelo loiro estava penteado de lado e os ombros caídos dava um ar melancólico mesmo no belo rosto jovem. Era um pouco parecido com Davi, mas com traços mais infantis.
— Você não o encontrou porque ele já chegou. — Diana respondeu e apontou para onde estava o irmão mais velho.
Nesse meio tempo Teresa se adiantou para encher um pequeno prato com algumas guloseimas e foi até ele.
— Dener, veja esse são os melhores da mesa. — ela sorria docemente e até mesmo piscou os olhos de forma mais lenta.
Clara não disfarçou a leve careta ao ver a amiga se submetendo daquele jeito, mas ficou quieta e apenas se virou para observar Davi de longe. Estava um charme com o cabelo úmido penteado para trás e usando as cores da casa real, laranja. Sorriu de lado pensando quando ele ficaria livre para que pudesse se aproximar.
Ao lado, Dener ficou sem graça, mas aceitou o pratinho de Teresa e agradeceu de forma educada. Ele já sabia dos sentimentos da jovem, na verdade todos já sabiam, mas ele delicadamente mantinha um limite entre eles, pois não sentia nenhum interesse por ela. Na verdade, acabava sentindo pena e por isso não tinha coragem de ser grosseiro mesmo com investidas nada sutis da parte dela.
Então ele olhou ao redor procurando pelo irmão e o encontrou.
— Tenho certeza que o idiota estava peramblando pelo centro da cidade, podia pelo menos ter me chamado. — reclamou.
Ele olhou para a seleção do pratinho e pegou um biscoito com recheio vermelho, na mordida sentiu o gosto de morango e acabou sorrindo satisfeito.
— E então correr o risco de ser punido com ele? Pela cara do papai, sei que ele não vai deixar isso passar. — Diana resmungou cruzando os braços.
— O que o rei vai fazer? — Elen perguntou um pouco temerosa.
— O tio Edmundo tem jeitos peculiares de punir, provavelmente vai colocar ele de castigo no mausoléu da família. — Clara acabou rindo da possibilidade.
— Me arrepio só de lembrar. — Dener se encolheu com certas lembranças.
— Não vai me dizer que tem medo de fantasma? — Clara acusou enquanto se abanava com o leque.
— Quem não tem medo de fantasma? — ele retrucou enquanto se abraçava, com cuidado para não derramar o lanche, sentindo um arrepio com o assunto repentino.
— Eu não tenho medo. — Diana falou em tom determinado.
— Eu também não. — Teresa assentiu confiante.
— Nem do general fantasma? — Dener perguntou enigmático.
— Porque teria medo? Ele está do nosso lado — Diana respondeu sem se abalar.
— Mas dizem que ele é um assassino brutal e cruel, por isso está acabando com o Clã dos Lobos. Tenho certeza que logo, logo a guerra vai acabar porque ele vai ter matado todos os soldados inimigos.
— Eu não teria medo, ele é o nosso herói. — Teresa se pronunciou ao lado de Diana e se calou quando sentiu o olhar de Dener em si.
Recriminou-se internamente porque tinha que manter uma imagem legal para ele, ou seja, discordar não era bom.
— Realmente, ele é o nosso herói. — Dener comentou e voltou a comer.
— Vou dar uma volta, está um pouco calor aqui. — Clara falou já se distanciando enquanto Elen a seguiu.
Os outros estranharam a partida repentina dela, mas não falaram nada.
— Você quer beber alguma coisa? O suco ainda está gelado. — Teresa perguntou solícita para Dener.
Ele apenas confirmou com a cabeça e ela foi buscar. Diana se aproximou do irmão e pegou um dos doces do pratinho.
— Você deveria ser sincero com ela.
— Ser sincero mais do que já sou? — Dener perguntou baixinho — Eu não dei nenhuma palavra de esperança para ela, trato com respeito e só. Nunca dei indícios de que vou corresponder
— Se não usar as palavras corretas, ela vai continuar alimentando qualquer esperança. — Diana sussurrou olhando de esguelha para Teresa que colocava o suco em uma taça.
— Eu não quero magoá-la, queria que ela percebesse sozinha. — havia um pouco de aflição na voz de Dener, realmente não queria ter que lidar com aquilo.
— Isso não vai acontecer, se você realmente não quer dar uma chance a ela, precisa cortar logo. — Diana deu a sentença quando viu Teresa voltando.
Dener suspirou mas não disse nada, sabia que ela estava certa, mas precisava de um tempo para encontrar o momento e as palavras certas.
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