Tentando Destruir um Conto de Fadas
3 Maldita Punição Injusta
Natan caminhava lentamente pelos corredores do palácio enquanto sorria de canto. Apesar de ter acordado tão cedo, estava leve depois de ter passado a noite na Casa da Orquídea. Depois de ter conhecido uma cortesã extremamente linda, que havia há pouco chegado na cidade, acabou viciado nela e já estava planejando quando retornaria para o leito de Elida.
Ele era o segundo príncipe do Clã dos Lobos, mais conhecido como príncipe bastardo. Por ser filho de uma mulher que o rei manteve fora do palácio, foi reconhecido posteriormente. Por não tê-la feito concubina, Natan era visto com total desprezo pelos nobres do reino. Quando ele ainda era criança, Raila acabou morrendo de uma doença mortal, fato que fez com que o filho entrasse no palácio.
Natan era alto, tinha um corpo magro e o cabelo que atingia o ombro, estava sempre desalinhado pela falta de cuidado. Tinha olhos amendoados pretos, característica da mãe. Já o nariz era quase reto, se não tivesse uma pequena protuberância no meio, e a mandíbula marcada, denunciava os traços mais parecidos com o pai.
O jovem príncipe não ligava muito para a realeza e tentava só viver a vida em paz, mas nem sempre conseguia, pois quando alcançou a porta de seus aposentos e abriu, a surpresa foi instantânea. Parecia que tinha passado uma tempestade violenta e que tinha destruído tudo pelo caminho.
Havia comida e bebida jogadas no chão e nas poltronas, a única mesa estava revirada. Muitas peças de roupas estavam espalhadas por todo o local e percebeu alguns utensílios seus quebrados, como cadeiras, muitos cacos de vidros e porcelana espalhados. Avistou itens estranhos perto da cama, comumente usados em práticas sexuais que ele nunca teve curiosidade de saber, mas que sabia exatamente quem gostava de usar.
Então viu Laerte, o irmão mais velho, deitado na cama com três mulheres nuas. Todos dormindo em uma bagunça estranha de braços e pernas entrelaçados. Os lençóis estavam pendurados no lado da cama, mas para fora do que para dentro.
— Mas o que está acontecendo? — a rainha apareceu atrás dele, tirando-o do choque — Laerte! — ralhou indo até a cama para acordar o filho, que obviamente estava embriagado demais para acordar só com a chamada da mãe.
Natan entrou dando passos pequenos, incrédulo com o nível baixo que a madrasta e o irmão desceram, para mais uma vez atrair a atenção negativa do rei sobre si. A mulher estava vestida de forma elegante, com um belo vestido lilás em tecidos leves, apesar do fim do verão. O cabelo estava bem preso e ela exibia joias nas orelhas, braços e pescoço.
Érodi era uma bela mulher de meia idade, mas Natan não conseguia enxergar beleza alguma, pois o olhar que ela lhe dirigia era sempre o pior possível. Exatamente o que ela fazia naquele momento.
— Você é mesmo um imprestável. — ela falou furiosa olhando-o como se tivesse cometido a coisa mais absurda do mundo.
— O que eu fiz? — Natan ainda perguntou com um tom irônico porque não entendia onde ela queria chegar.
— Não basta viver vadiando, tem que arrastar meu filho para essa imundícia? — levantou as duas mãos sinalizando o quarto inteiro — Está vendo, marido?
Natan sentiu um arrepio antes de se virar, entendendo o teatro da madrasta.
Quando finalmente encarou o rei, viu Jairo olhá-lo irritado com os olhos amendoados na cor castanho claro, e soube que podia esperar pelo pior.
— Não acredito que teve coragem de fazer isso dentro do meu palácio. E ainda trazer prostitutas para sujar o príncipe herdeiro! — Jairo ralhou.
O homem vestia roupas simples naquela manhã, túnica branca e calça preta, com os pés calçados em sapato de couro. O cabelo, um pouco mais longo que o de Natan estava penteado para trás e ele não usava nenhum enfeite nele. O jovem imaginou que provavelmente Érodi o acordou às pressas para pegar o príncipe bastardo “no flagra”.
Laerte, assim como as prostitutas, acabou acordando de fato com a discussão. Enquanto elas ficaram envergonhadas ao estarem despidas diante do casal de monarcas, o herdeiro pouco se moveu, indicando que a ressaca estava mais forte do que nunca.
— Vistam-se e saiam daqui, agora! — Érodi ralhou com as mulheres, que mesmo envergonhadas, se levantaram e procuraram pelas peças de roupas espalhadas pelo quarto.
A mulher estava atuando tão bem que Natan quase a parabenizou pelo espetáculo.
— Agora você! — ela se voltou para o jovem dono do quarto — Não vale um centavo do que meu marido gasta para te manter aqui. Desperdiçando dinheiro com bebedeira e essas rameiras, manchando o nome da família real, como se a própria existência já não fosse o bastante. — olhou para Jairo, enquanto apontava para Natan — Eu te falei que deveria ter deixado esse bastardo lá no buraco onde vivia. — reclamou irada.
— Eu não deixaria meu filho viver sozinho depois de perder a mãe, ele não deveria pagar pelos nossos erros. — o rei já estava ficando farto com tudo aquilo.
— E é por causa dessa sua pena que estamos nessa situação, de que adiantou fazer o bem se ele só traz desonra para nossa casa? Sem falar que agora está levando Laerte para o mal caminho. Olha o estado do nosso filho! — apontou para o herdeiro, que mal conseguiu sentar-se na cama. — Ele deveria ser açoitado! — exigiu autoritária.
Jairo respirou fundo, fechando os olhos por alguns segundos, esperando de alguma forma que a paciência entrasse junto com o ar, antes de voltar a discussão. Às vezes não entendia a tempestade que ela fazia por coisas que não eram tão graves quanto aquilo.
— Chega, Érodi. Eles são jovens, isso não é a pior coisa que poderia acontecer — Jairo falou cansado e ainda era de manhã — Natan eu espero que isso não se repita, existe limite para aventuras joviais. — olhou para o filho que estava calado com os braços cruzados — Ficará um mês sair do palácio para qualquer lugar que seja.
— Só isso? — Érodi reclamou — Não foi suficiente, ele precisa aprender a-.
— Eu disse chega, estou com fome. — ele a interrompeu e apenas saiu do local com pressa.
Érodi se virou ainda irada com Natan.
— Maldito, ainda vou te tirar do nosso caminho. — o tom de voz grave enquanto a promessa exalava o ódio que sentia.
Depois se dirigiu até o filho e passou a ajudar ele a se levantar para levá-lo para o próprio quarto.
Natan se viu irritado tanto pela punição quanto pela sua própria falta de autodefesa e autopreservação. Mas sabia que era inútil, a palavra da rainha era sempre a única levada em consideração. Sem falar que nas vezes que revidou, sofreu punição em dobro. Ainda mais porque o rei não dava a mínima para ele, se desse, teria percebido que ele estava limpo, arrumado, não condizente com a atual situação do lugar.
Quando se viu sozinho, caminhou lentamente até a janela do quarto, que estava aberta com vista privilegiada para a cidade localizada ao pé de uma das grandes Montanhas Geladas. Olhou para fora, a bela paisagem da cidade que se moldava com o terreno montanhoso, com casas distribuídas entre o chão, algumas subiam e ficavam entre árvores gigantescas, projetadas para se sustentar mesmo no terreno irregular.
Os pássaros voavam alegres cantando e se via as pessoas movimentando as ruas, sinalizando que a cidade já estava acordada. Amava viver ali, apesar de sentir saudade de sua terra natal, cheia de grandes lagos cristalinos e campos de plantação de grãos. Aprendeu a viver na cidade de seu pai, mas o preço que pagava por estar ali era muito alto.
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