Os primeiros raios de sol despontavam na nascente quando Davi chegou no mercado onde sabia que Rosa passaria. Ele vinha tentando há algum tempo conseguir chegar no horário que ela saía para trabalhar, pois queria acompanhá-la, mas das outras vezes sempre chegava tarde demais. Tinha se vestido da melhor forma que podia para se disfarçar, como sempre. Eram roupas de plebeus em cores azul e cinza desbotadas e uma touca cobrindo os fios loiros, dessa vez era marrom.

Depois do castigo que seu pai deu, um mês limpando os estábulos, procurou a moça. Mas era difícil encontrá-la por causa do trabalho dela, então esperava ela voltar e então se viam, por um tempo limitado. Ele sempre tinha que chegar antes do sol se pôr em casa, era obrigatório toda a família real estar reunida para o jantar.

Foi quando a viu andando devagar ainda com sono, segurando o já conhecido saco de pano, que não estava completamente vazio. A surpresa de Rosa foi instantânea quando os olhos pousaram no rapaz loiro, que a esperava com um sorriso.

— Ivan? O que está fazendo aqui? — perguntou surpresa quando o alcançou.

O rosto dela se iluminou, e não tinha nada a ver com os primeiros raios de sol que despontavam da nascente. Ela usava o mesmo penteado, as vestes de trabalho, que alternavam em um vestido preto, ou um vermelho desbotado, o primeiro citado era a escolha do dia. Mas para Davi, Rosa ainda conseguia ser adoravelmente bonita.

— Eu queria muito te ver, mas como sei que trabalha o dia todo, resolvi acompanhá-la. — ele sorria ainda mais abertamente

— Mas você claramente é o tipo de pessoa que não precisa trabalhar, então porque está aqui? — Rosa ainda se via incrédula com as atitudes dele, cada encontro era como um sonho e tentava não criar expectativas.

Mas ele dificultava muito quando aparecia com seus belos sorrisos e gentilezas. Faziam seu coração palpitar mais forte.

— Porque quero passar um tempo com você.

Rosa ficou desconcertada com a sinceridade dele.

— Mas trabalhar não é a melhor coisa para quem quer passar um tempo junto.

— Eu não tenho nenhum problema, desde que seja com alguém que eu gosto.

A jovem sentiu as bochechas esquentarem e se viu acanhada, a ponto dela virar o rosto para baixo. Davi percebeu e achou adorável a reação dela, mas não queria que ela ficasse constrangida, então mudou de assunto.

— O que você tem aí dentro. — apontou para o saco, era uma dúvida genuína.

— É o meu almoço. — ela respondeu abrindo sem cerimônia.

Tinha um pedaço de pão, carne seca e um odre velho de água, mas a quantidade de tudo era mínima. Davi ficou estarrecido e ao mesmo tempo com dó. Trabalhar o dia inteiro só com aquilo? Isso explicava ela estar tão magra. Sentiu um soco no estômago pois antes de sair de casa, ele tinha conseguido com a cozinheira maga um pedaço de pão fresco, uma caneca generoso de leite quente, mamão cortado junto com banana e alguns biscoitos, que carregou para comer no caminho para encontrar ela.

— Mas você comeu algo antes de sair de casa? — ele perguntou devagar temendo a resposta.

— Sim. — ela respondeu e por um momento, ele se viu aliviado — Tinha um pouco de murici em casa.

Davi engoliu em seco, murici tinha um cheiro estranho e o gosto era muito pior em seu paladar, não entendia porque tinha gente que gostava daquela frutinha amarela fedida. Então lamentou ainda mais pela situação de Rosa, muito diferente do que imaginava. Ela percebeu as feições nada discretas de Davi e apenas guardou tudo com um sorriso amarelo.

— Já estou acostumada, então não se preocupe. — ela falou para que ele deixasse aquela expressão de pena em seu rosto.

Era desconfortável quando ficava tão claro sua condição precária, perder o pais cedo lhe ensinou a dureza da vida e o quanto precisava dar o máximo para conseguir o mínimo. Estava em uma temporada onde poderia juntar um pouco mais para conseguir passar mais um inverno sem muitas preocupações.

— Vamos, vou te ajudar, então será mais rápido e quando voltarmos, vamos comer alguma coisa na taverna, eu tenho algumas moedas. — Davi teve a brilhante ideia pois lembrou que realmente tinha pego antes de sair de casa, imaginando comprar algum presente para Rosa, queria conquistar ela da melhor forma possível.

Apesar da jovem achar que deveria manter um pouco de orgulho, o suficiente para rejeitar a oferta, não queria recusar. Não sabia exatamente como era a vida do rapaz, se ele disse que tinha algumas moedas, deveria significar que ele também não tinha muito, mas ela tinha muito menos. Fazia tanto tempo que não tinha uma boa refeição e por isso, sorriu para ele, acenando positivamente com a cabeça. Se seu querido Ivan estava oferecendo, ela aceitaria de bom grado.

Motivados pela refeição que dividiram depois do trabalho, tomaram o caminho para os cajueiros.


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Davi não estava preparado para a árdua caminhada que tiveram, já sentia os pés doerem de uma forma que nunca sentiu antes, nem o sapato que ele estava acostumado a usar o protegeu das bolhas que ele sabia que estavam se formando. Mas ainda tinha como piorar.

Conforme se aproximavam da enorme plantação, um odor chegou em suas narinas, era fruta podre, obviamente, mas aquele cheiro era muito forte e nem tinham chegado ao destino.

Viu que tinha muitas pessoas ali, desde crianças até idosos e alguns cumprimentavam Rosa com acenos e sorrisos. Ele não sabia como funcionava a colheita da fruta, apenas degustava dela, das castanhas, da bebida fermentada e a mais recente criação da cajuína, uma bebida sem álcool saborosa que estava se tornando popular.

Talvez agora ele poderia presenciar o trabalho com o caju, ele era o futuro rei, certo? Era sua obrigação ver como as pessoas do seu reino viviam.

Infelizmente a podridão aumentou muito quando alcançaram os enormes cajueiros, tentou não demonstrar o desconforto, ainda mais porque todos ali não pareciam incomodados, mas estava difícil respirar.

— Eu sei que não é nada agradável, mas você se acostuma. — Rosa falou tentando lhe passar um pouso de confiança.

Davi deu apenas um meio sorriso balançando com a cabeça.

— Vamos ali, Ivan. — ela apontou para uma direção mais para dentro da floresta de cajueiro e já foi andando, fazendo com que Davi apressasse o passo para acompanhá-la — Juntamos bastante caju em um cantinho e depois tiramos a castanha. — ela informou enquanto o guiava.

Quando chegaram no local indicado, podia ver muitos frutos no chão misturados com as folhagens e plantas baixas.

— A nossa sorte é que esse ano os precoces foram abundantes, então o dono da terra contratou a limpeza embaixo dos cajueiros, se não, estaríamos com mato nessa altura. — ela elevou a mão com a palma para baixo na altura dos ombros — Seria muito mais difícil se a gente tivesse que procurar.

Rosa falava de forma natural, conforme se abaixava e pegava frutas de uma por uma até ter várias nas duas mãos. Davi hesitou quando percebeu que ele tinha que pegar também e o cheiro só piorava ainda mais. Ele não tinha soltado uma palavra desde que chegaram, ainda absorvendo toda a situação.

Ela percebeu, e para não constrangê-lo, caminhou em um canto mais limpo onde tinha raízes altas e soltou o que tinha juntado perto.

— Vou colocar aqui porque quando tiver o suficiente, podemos sentar e sentar, mesmo não sendo muito desconfortável, é melhor do que sentar no chão. — explicou enquanto se movia para continuar o trabalho.

Davi vendo que ela não parou desde que chegaram, tomou coragem e foi fazer o que tinha proposto. A sensação de segurar os frutos apodrecidos era desconfortável, mas ainda não era o pior. Mesmo que depois de horas juntando uma montanha de fruto podre, as pernas e as costas doendo por ter que catar, ele não estava preparado para o que vinha a seguir.

Porque o pior foi quando sentaram e foram separar as castanhas, uma por uma. Rosa ensinou e para ela parecia fácil, mas ele teve muita dificuldade porque era liso e mole quando puxava a castanha, além de que o líquido azedo escorria abundantemente. Às vezes chiringava e quase chorou quando viu que a roupa ficaria com aquele fedor.

Percebeu que aquilo começava a incomodar depois de um tempo, sentia os dedos doerem com os movimentos repetitivos, as nádegas doíam por estar sentado em um local irregular, as costas já estavam pedindo socorro e ele se sentia enjoado. Mas qual foi apenas a primeira parte, pois tiveram que refazer mais duas vezes o processo de juntar caju e separar as castanhas.

Em alguns momentos Rosa sentiu pena de Ivan e ela só podia pensar que ele de fato nunca precisou trabalhar na vida. Pelo menos não naquele tipo de trabalho.

O sol estava no centro do céu quando terminaram e ele quase chorou de alívio quando viu o saco de Rosa cheio. Como um bom cavalheiro ele apenas segurou da forma menos pior e sairam para longe do local.

Quando foram vender o saco, Davi se sentiu injustiçado com o pagamento. Aquilo não valia o trabalho, o desconforto, o odor e o tempo, viver daquele jeito todo dia para ter o que comer não era tão fácil quanto imaginava.

— Isso não é justo. — reclamou olhando as moedas antes de entregar a Rosa — Depois de tanto trabalho receber apenas isso?

Estavam caminhando famintos entre as pessoas.

— Esse ano houve fartura, o que significa que tudo fica mais barato, infelizmente não existe tanta justiça quando se é pobre, e pior, órfão. — Davi olhou para ela enquanto caminhavam, por sua vez, Rosa continuava olhando para frente segurando o saco seco.

Por causa da proposta que Davi fez, eles acabaram comendo o almoço dela e ele recebeu mais um golpe, a pouca carne, o pão velho e a água quente não matava a fome, no máximo aliviava. Sentiu-se ainda mais mal por ela, viver daquele jeito era desumano.

Ele se adiantou e tocou na mão dela, não era a primeira vez, mas aquele toque era diferente. Ela parou e então olhou para ele surpresa.

— O que-

— Vamos almoçar. — ele sorriu enquanto entrelaçava os dedos e encaixava as mãos — Eu vou garantir que você tenha um almoço incrível. — e sorriu para ela.

Logo depois passou a puxar ela pelos corredores finos do mercado e ela apenas se deixou ser guiada, fazia muito tempo que ela não recebia nenhum carinho ou cuidado. Sentiu o coração bater mais forte e apenas sorriu o seguindo. Talvez a sorte estivesse finalmente sorrindo a seu favor

Notas finais
Peço perdão por qualquer eventual erro que deixei passar, não é proposital.