Tengen Toppa Gurren Lagann - Renascimento
13 Capítulo 13: Lendas nunca morrem
Luno estava impressionado de ver a cidade inteira em um simples veículo. Voltava a ser uma criança que era na época que viu os Gurren Laganns com Simon. Ele ria bastante alto e chegava a gritar de alegria. Yoko estava feliz ao vê-lo naquela euforia toda. Olhava para traz, vendo ele se encantar com a vista, quando percebeu só agora que o rosto estava machucado. Ela perguntava, já imaginando a resposta:
– O que aconteceu pro seu rosto ficar amassado desse jeito?
Luno suspirava:
– O que você acha? O Viral aconteceu. Me acordou a pancadas agora pouco.
– É, foi o que eu pensei. Viral nunca teve um mínimo de delicadeza com ninguém. Acho que é por isso que está sozinho até hoje.
Luno ficou curioso com a ultima fala e decidiu perguntar:
– “Sozinho”? Como assim? Pra mim ele parece que está rodeado por pessoas até demais.
– Errrm...você ainda é novo para isso. Se bem que na sua idade eu já tinha pretendentes... – Ela falava o ultimo detalhe bastante baixinho.
– Vamos lá, Yoko. Me explique melhor. Já que vou conviver com o Viral dia e noite daquí pra frente, ao menos me de a chance de entender ele melhor.
Ela suspirava. Era como uma criança querendo saber de onde vem os bebês. Como Luno já não era mais criança, sabia que uma resposta “a cegonha traz eles” não daria certo e falou para ele:
– Simples. Ele nunca teve uma namorada, família ou esposa até hoje. É bem capaz que ele esteja sofrendo um pouco com isso. Ninguém para amar. Ninguém para consolar ou dar um abraço e uns beijinhos. Não que ele pense nessas coisas. Ele nunca foi chegado em romance.
– Ah, eu não entendo dessas coisas mesmo. Devia falar isso com a mamãe, e quem sabe até com a Lily. Acho que só mulheres entendem dessas coisas.
Yoko ria ouvindo aquilo e concordava:
– Ahahaha! Verdade. Não conheci nenhum homem que entendesse de amor mais do que as mulheres. Mas sabe, mesmo que eu fale tudo isso de Viral, ando notando que ele anda de bom humor.
Agora era Luno que ria:
– Ha, Viral de bom humor. Essa é boa!
– Você está certo. Mas, sério, eu realmente acho isso. Ele parece que está se abrindo um pouco mais do que antes. Tem horas que ele parece até que está se divertindo! E tudo isso eu imagino que seja desde que você chegou. Parece que você está lentamente preenchendo um espacinho vazio nele.
– “Se abrindo mais”? Meu deus. Ele era pior antes de tudo isso?
– Digamos que o mal humor dele sempre estava de mal humor.
– Ta aí uma coisa que eu não queria ver, haha!
Os 2 caíram na risada. Luno achava tão engraçado o jeito de Yoko fazer piada sobre as coisas. No fundo, não era estupidez. Era uma maneira de aproveitar a vida enquanto pudessem. Luno começava a ver as coisas dessa maneira, agora que percebia como um possível fim estava próximo. Era ótimo para ele conhecer cada vez mais pessoas que o entendesse em certos aspectos.
Enquanto se divertiam, Luno viu no centro da cidade, do lado da Cúpula dos Líderes, uma máquina gigantesca que não estava lá antes. Parecia uma antena, conectada por inúmeros canos e fios. Era alta como uma torre, quase do tamanho da cúpula. Ele não sabia o que era aquilo:
– Yoko, sabe de onde surgiu aquela máquina? Até ontem, não tinha nada lá!
– Ah, aquílo? Aquilo é a nossa carta na manga, o Véu Espiral. Leeron ficou dia e noite inteiro monitorando isso aí. Ele me falou que estava até controlando Gurren Laganns remotamente para construir a máquina. É, ele tem aquele jeito estranho dele, mas consegue ser ainda mais estranho no bom sentido quando trabalha.
– Eu lembro dele usando um laptop quando fomos dormir. Então era isso que ele estava fazendo. Incrível...ele literalmente fez a máquina brotar do chão do dia pra noite.
– É...Leeron sempre foi assim. Vinha com ideias extravagantes que conseguiam dar certo. Vamos torcer pra que essa ideia dele também dê certo.
Luno concordou, e quando ele o fez, uma pequena toupeira surgiu e pulou no ombro dele. Ele não entendia quem era a toupeira:
– Yoko, o que uma toupeira faz aqui e de onde ela saiu?
– Ah, é o Boota. Simon nunca mencionou ele para você? Boota era o bichinho de estimação dele desde que era garoto. Ambos são muito apegados, ou eram pelo menos. Eu lembro quando Boota dava os seus grunhidos e Simon olhava para ele e de alguma maneira ficava incentivado e falava com Boota. Era como se entendesse o que ele dizia. E você quis saber de onde ele saiu...bem...por alguma razão, ele adora ficar entre os meus peitos. É aqui que ele está, desde que chegamos.
Boota ouviu aquilo, deu grunhidos com animação e pulou novamente entre os seios de Yoko. Luno ficou estranhado. Não sabia se deveria achar engraçado ou se deveria achar bizarro ou doentio. Até porque, o mascote é a cara do dono, ele pensou. Yoko falou logo depois:
– Luno, não estamos longe de chegar aonde vamos. Então aguenta só mais um pouco que você já vai saber a surpresa.
Depois de uma hora, eles pousaram em um lugar remoto, praticamente deserto. Luno olhou para aquele lugar e tinha certeza que não era apenas aquilo que ela queria lhe mostrar. Yoko falou para andarem um pouco, que chegariam lá em pouco tempo. Ficava feliz que não era para ver aquele monte de nada que ela o trouxe lá. Depois de andar um pouco, chegaram onde queriam. No meio do deserto, havia uma espada presa ao chão, com uma capa alaranjada , com o símbolo da Brigada Gurren, amarrada. Encostado na espada, haviam um par de óculos laranja também, idênticos aos que estavam no Gurren Lagann que Luno pilotava. Não só Luno como Yoko também notaram que ao lado da espada haviam cruzes levantadas, além de uma lápide de mármore, rodeada por lírios. As flores pareciam que haviam sido regadas e cuidadas recentemente. Vendo aquilo tudo, Luno perguntou:
– O que é isso que você queria me mostrar?
Ela mudou de humor. Ficou mais séria do que antes:
– É o túmulo de Kamina, o irmão de Simon e também o fundador da Brigada Gu...digo, da Grande Brigada Gurren. Já faz tempo que tem esse nome. Devia ser chamada dessa maneira. É mais apropriado.
– Então é aqui que o irmão de Simon está enterrado. Aquele outro túmulo é de quem então?
– Não sei. A ultima vez que vim aqui, não havia nada do tipo. Apesar que eu imagino de quem seja...
– Hmm. Provavelmente deve ser onde Nia está enterrada. Mamãe falou que conheceu Simon quando ele foi comprar sementes de lírios na loja dela. Acho que era para enfeitar este lugar, em homenagem a Nia.
Luno se agachava perante o túmulo de Kamina. Olhava para quela espada que não parecia enferrujar, nem a capa ou os óculos, que estavam em perfeita condição. Ele fechava os olhos e entrava em algum tipo de meditação. Pensava, pensava e pensava. Yoko aproveitava o momento para pensar um pouco também e pagar seus respeitos aos mortos. Uma hora, Luno abriu os olhos e perguntou:
– Ei, Yoko. Se Simon tinha tanta consideração por Nia e Kamina, o que o levou a agir dessa maneira contra ambos?
– Acho que Simon pensou que ele não poderia salvar mais ninguém. Ele via seus companheiros morrendo, um a um, sem poder fazer nada para salvá-los. Não há como reviver os mortos. Imagino que...ele esteja tentando acabar com tudo de uma vez só, ao inves de ter que sofrer lentamente vendo o Universo sumir perante seus olhos e mais de seus companheiros sumindo com ele.
Luno pensava profundamente sobre o que Yoko lhe dizia. Simon estava triste, de fato. Ele mesmo mencionou no sonho que não queria fazer aquilo, mas se sentia naquela obrigação. Luno percebeu que ali, Simon parecia que estava vivo, porém com o espírito morto. A unica coisa que o movia era lutar contra o filho. Era o que amenizava a sua dor incessante. Percebendo isso, Luno falou tudo aquilo que queria falar:
– Isso está errado. Simon não pode fazer isso. Não deve fazer. Foi ele que ultrapassou todos os limites, não foi? Foi ele que abriu um caminho em direção ao amanhã para todos nos, não foi? Foi ele que nos ensinou que nunca devemos desistir e confiar uns nos outros, não foi?! Então eu não posso aceitar que ele fique pensando dessa maneira! Ele que nos mostrou como devemos usar o melhor de nossas vidas! É ele que deveria estar nos guiando hoje para um amanhã.
Yoko estava incerta sobre o que dizer. Ela concordava e discordava do que Luno dizia. Tentava se explicar:
– Luno, eu sei como se sente. Eu sei que o que Simon está fazendo é errado, mas ele está tentando fazer a diferença. Ele sabe que o fim está próximo. Atualmente, ele é apenas uma lenda. Uma lenda que passou de sua época há muito tempo atrás.
O garoto se inquietava. Ficava por instantes refletindo aquilo tudo, quando falou, em tamanha sinceridade e orgulho:
– Sabe, Yoko, esses dias, eu percebi uma coisa. Simon foi a engrenagem que moveu tudo isso que estamos vivendo hoje. Foi por causa dele que estamos agora todos juntos, lutando. Foi por causa dele que aquele pequeno garotinho, sentado na beira da praia, percebeu que era capaz de alcançar os seus maiores sonhos e hoje está com o destino da humanidade nas mãos. Se Simon é apenas uma lenda que ninguém se lembra hoje, eu farei jus a o que esse nome significou no passado, por ele ter sido aquele que me fez ser quem sou hoje!
Luno pegava a capa amarrada na espada e a vestia. Pegava os óculos e os colocava no rosto, vendo o mundo totalmente diferente agora. Enquanto o vento soprava e ressoava os sons ao eco pelo horizonte, Luno continuava:
– Lendas são eternas. As lendas de ontem são o que fazem os heróis de hoje, que apenas voltarão a ser lendas amanhã, mas farão ainda mais heróis e lendas além. É por isso que eu posso afirmar, com toda a certeza do meu ser e de meus antepassados...
Ele abria os olhos, olhava para a mão direita e a fechava, apontando ela em direção ao céu:
– ...Lendas nunca morrem. Elas apenas retornam com nomes diferentes.
Yoko não conseguia acreditar como que Luno, tão jovem, ja era uma pessoa sábia o suficiente para conseguir deduzir aquilo tudo e poder convencê-la de que ele estava certo. Tinha o espírito de um verdadeiro líder valoroso da Grande Brigada Gurren. E Luno não terminava por ali:
– Eu vou continuar a linhagem que Simon me confiou e vou deixá-la como um legado para as próximas gerações. Iremos todos juntos seguir o mesmo caminho, sem medo do perigo ou da morte. Até porque, fomos, somos e seremos sempre verdadeiros homens, e um verdadeiro homem nunca morre, mesmo quando ele é morto!
Luno apontava o polegar para seu próprio peito e abria um sorriso, regado de orgulho e auto-confiança. Yoko ficou espantada, pois por um momento, ela via Kamina ao invés de Luno, inclusive a voz que ouvia falando era a de Kamina. Quando percebeu que não era Kamina, ela olhava um pouco para baixo, e falava para si mesma:
– É...”Lendas nunca morrem”, afinal. – Abria um leve sorriso, com bom humor.
Luno olhou para cima, e viu que já estava escurecendo. Foi incrível como o tempo passou enquanto ambos estavam lá. Ele ficou entre os dois túmulos, e disse em voz alta:
– Kamina...Nia...farei Simon voltar a ser como era antes. Eu sei que vocês também querem fazer alguma coisa, mas não podem agora. Portanto, eu farei isso no lugar de vocês. Trarei Simon aqui para que possam ver que conseguimos cumprir nossos desejos. Isso é uma promessa. Olhem por mim, pois precisarei de todo o apoio possível.
Luno virava novamente a Yoko e falava:
– Bem, acho que isso é tudo por hoje. Já está quase no fim da tarde, é melhor que voltemos pro quartel, antes que minha irmã fique histérica querendo saber o que aconteceu pra tanta demora. – Suspirava e coçava a cabeça.
– É, você está certo. Acho que já fiz tudo que queria fazer aqui.
E ambos voltaram para a moto de Yoko. De lá, voaram até o quartel novamente. Já era por-do-sol quando chegaram. Calmamente caminharam pelos corredores. Chegando no quarto, não viram ninguém. Nem Viral, nem Solvie, mas olhando para o corredor, viram Lily, andando com um avental e uma tiara. Luno não conseguiu segurar a risada:
– Huhu...Pfff, AHAHAHAHAHAHAHA!! Lily, você ta uma gracinha, hahahaha!
Ela parou imediatamente. Começou a ficar vermelha, tanto de vergonha quanto de raiva. Virou-se e correu em direção a Luno. Na frente dele, ele ainda ria e ela não gostava:
– Nunca mais me chame de “gracinha” assim de novo!
E lhe metia um chute na canela. Luno sentia o golpe e pulava segurando a perna, nada satisfeito:
– Ai ai ai! Não precisava fazer isso! Eu não me tratei ontem pra que você e o Viral me quebrassem de novo, sabia?
Ela cruzava os braços e só colocava bem na frente do irmão:
– Ora, me DESCULPE se você é mal-educado e chato desse jeito! Não precisava ficar fazendo piada de mim só porque eu estou vestida assim ajudando a mamãe na cozinha.
– Piada? Imagina! Eu só estava ressaltando a mais cômica verdade!
Ela dava mais um chute na mesma canela. Luno pulava ainda mais:
– Lily do céu, para com isso! Ta doendo muito! Mas agora, falando sério, ta bem bonita vestida assim. A gatinha borralheira só precisa arranjar um príncipe, haha!
Lily ficava vermelha. Apesar pela vergonha, ficava lisonjeada pelo elogio do irmão. Ele estava tratando ela bem até demais nos últimos dias. Ela gaguejava enquanto tentava agradecer:
– O-Obrigada...b-bem, vocês devem estar com fome. A minha mãe está na cozinha aqui do quartel fazendo o jantar. Todo mundo está lá. Bem, Gimmy ainda está meio bêbado por causa da festa de ontem, mas é só deixar ele lá que uma hora ele se cansa. Vem comigo que eu levo vocês lá.
Luno já ficava feliz na hora:
– A mamãe ta fazendo o jantar?! Pedir pro pessoal lá guardar um pouco de comida se não vai acabar tudo!
Yoko abanava a mão, com a outra no quadril:
– Podem ir lá. Não estou com fome. Até porque, preciso me manter em forma.
– Tem certeza, Yoko? A comida da mamãe é a melhor que existe!
– Tenho sim. Não era você que queria comida sobrando, Luno? Melhor ir logo antes que já acabe.
– Bem, se você diz, vamos lá Lily.
– Ok. Alias, que óculos e capa são esses? Parece que você fugiu de um circo.
– Ei, mais respeito. É o simbolo da Brigada Gurren, que...
E ambos iam conversando pelo corredor. Yoko via os dois tão próximos um do outro. Próximos até demais. Ela já via através de toda aquela proximidade. Estava feliz vendo Luno ser amigável assim com Lily, mas se preocupava com o risco do garoto enlouquecer caso acontecesse algo com a irmã.
Ela caminhava pelos corredores. Olhava para a janela e via o sol, lentamente se escondendo no horizonte. Estava tendo pensamentos sobre o que Luno havia dito sobre lendas nunca morrerem. Eram muitas duvidas que ocupavam a cabeça dela. Será que Luno agora é Kamina? Kamina de alguma maneira reincarnou no corpo do garoto? Ele ainda vê Simon como pai, ou o vê como irmão? Ele planeja matar Simon ou vai acabar morrendo tragicamente como morreu há 37 anos? E se vencer, será que vai tomar os mesmos passos de Simon e ser derrotado pela próxima lenda? Eram muitas dúvidas e nenhuma resposta. Ela estava confusa. Muito confusa. Sentia saudades de Kamina, mas entendia que Luno não era ele, apesar de acabar agindo igual a ele. Ela se apoiava na borda da janela, olhava para baixo e chorava, se lembrando do passado, em pequenos flashes na memória, a cada lágrima que caía.
“Quem diabos você pensa que sou?! Sou o grande Kamina!”
“Chute a lógica para o lado e decole com o momento! É assim que a Brigada Gurren funciona!
“Lembro de como Simon cavava naquele dia. Eu queria ser o homem cujo corpo e espírito nunca quebrariam”
“Yoko, conto com você para proteger a minha retaguarda”
“10 vezes mais. Eu vou voltar e te devolver 10 vezes mais. Eu te prometo...”
– *Lendas podem não morrer. Homens podem não morrer, mesmo quando são mortos. Mas os sentimentos daqueles que se foram...nunca mais voltam...e nos deixam apenas com...lembranças.*
Ela limpava as lágrimas. E retornava, com o coração ainda partido. Jurou que nunca iria esquecê-lo, mas estava tão triste que duvidava de tudo. Duvidava se aquílo não foi apenas sonho. Duvidava se era o mesmo Kamina que se lembrava. Se o próprio Kamina ainda se lembrava dela.
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