Tengen Toppa Gurren Lagann - Renascimento
11 Capítulo 11: "Nunca me deixe..."
– Ah, eu tô morto. Preciso descansar...
Era Luno que repetia isso enquanto andava em direção ao quarto da mãe, guiado por sua irmã. Ela suspirava vendo o irmão daquele jeito, reclamando:
– Você reclama demais. Reclamava de ter que caminhar tanto ontem, agora reclama de ter se esforçado demais? Me dá um tempo.
Luno tomou um susto ao ver que Viral estava junto aos dois. Pulou e acabou agarrando Lily de tanta surpresa. Ela ficou vermelha de vergonha, enquanto Luno falava com Viral:
– Ai meu Deus, que susto! Achei que você tinha ido com Gimmy beber com o resto da brigada!
– Eu por acaso tenho cara de quem quer ficar bêbado na véspera da batalha? De quem quer ficar se divertindo ao invés de fazer algo útil?
– Exatamente. Você por acaso tem cara de quem se diverte? Acho que não, hahahaha!
Viral torcia o nariz a essa resposta. Sabia que Luno não perdia a primeira chance para fazer piada. Pelo menos, ficava feliz ao saber que estava em seu bom humor. Depois olhava que Luno ainda estava ridiculamente agarrado em Lily, que respondia para seu irmão:
– Errrm, Luno...já pode me soltar...
Luno, que não percebeu que ainda estava agarrado em sua irmã, soltou ela e pediu inúmeras desculpas, meio sem jeito. Lily apenas disse que estava tudo bem. Ela mesma não estava incomodada com aquilo. Achou inclusive bastante agradável. Ele também não viu como algo tão ruim. Viu aquilo como algo estranhamente legal. Diferente.
Todos continuaram o caminho logo depois. Luno ainda estava cansado, Viral ainda estava de saco cheio e Lily parecia andar mais pensativa do que de costume. Em pouco tempo já haviam chegado nos quartos. Luno abriu a porta e viu sua mãe sentada na cadeira, olhando para um pequeno porta-retrato em suas mãos. Ele apenas disse:
– Mãe, voltei. A Lily também voltou comigo, então já pode parar de rezar o terço.
Solvie olhou para o filho na hora. Levantou-se da cadeira e correu para abraça-lo. O fez com tanta força que Luno sentiu uma leve falta de ar. Ela estava com os olhos brilhando de felicidade, quase lacrimejando:
– Ainda bem...ainda bem que vocês estão bem...que alívio...
Luno estava feliz pela mãe estar mais tranquila, mas não conseguiu resistir em ter que parar com o momento:
– É ótimo que você está bem também, mãe, mas não agora. Não na frente do Comandante Viral né, hehehe...
Solvie se tocou da cena que havia criado e o soltou. Agora olhava para Viral. Ficou um tanto amedrontada pela aparência do comandante, mas falava com ele naturalmente:
– Então você é o Comandante Viral? Meu filho fala bastante de você. Prazer, meu nome é Solverina, mas pode me chamar de Solvie. – Cumprimentava com as duas mãos aquelas semi-patas enormes.
– Pode parar com essas formalidades. Eu posso ser militar, mas essas coisas me dão sono. E também, muito prazer. Posso perceber que é uma pessoa bem mais balanceada do que o seu filho. – Viral continuava com seu mal-humor, mesmo na frente da mãe de Luno, porém um pouco mais educado.
– Você ta é com inveja de não ver graça nas coisas, isso sim. – Luno apoiava a cabeça nos braços e sorria.
Enquanto Viral ficava quieto e de olhos fechados, Luno olhou para o porta retrato que sua mãe estava olhando. Era uma foto dela, bastante jovem, com um bebê nos braços e um homem alto, quase cutucando a criança e aparentemente, bastante feliz e sorridente. Já imaginava quem eram aqueles mostrados na foto, mas mesmo assim quis perguntar:
– Mãe, o que é aquele porta retrato?
Solvie rapidamente voltou á mesa que o retrato estava e o abaixou, enquanto desviava a pergunta:
– É apenas uma foto antiga minha. Não quero te incomodar com minhas velharias.
Era como ele imaginava. Estava na cara que era uma foto de quando ele era um bebê, junto a Solvie e Simon. Sabia que sua mãe não conseguia de maneira alguma se desprender do amor que sentia por ele, mesmo estando ele no lado inimigo. Queria conversar sobre isso mais afundo com sua mãe, mas na frente de Lily e Viral seria impossível, além de estar sentindo medo de feri-la ainda mais. Pouco tempo depois, Solvie sentou e fez perguntas:
– Alias, quando soou os alarmes, onde você estava, Lily?
– Eu estava com Luno, quase a caminho do quarto, quando o alarme disparou.
– Por que você não voltou imediatamente logo depois disso?
– Bem...eu...
Viral entrou na conversa e falou por Lily:
– Luno havia ido no Gurren Lagann para lutar e Lily foi com ele no meio do campo de batalha.
Solvie ficou horrorizada:
– Você foi com seu irmão no meio de uma batalha?! Tem noção do que podia ter acontecido?!
Lily parecia estar tendo um dejá vu. Luno também estava e achava mais cômico do que trágico. A irmã tentava começar a dar uma explicação:
– Eu sei que parece complicado, mas...!
– Sua mãe tem razão. Foi um ato irresponsavel. Seu irmão estava ferido e ainda queria lutar, mesmo que fosse até a morte. Se ele falhasse, você poderia acabar morta. – Viral a interrompia com frias afirmações.
– Olha, eu sabia de todos os riscos, mas mesmo assim...!
– Filha, você estava prestes a querer jogar a vida fora! Luno conseguiria resolver as coisas sozinho!
– Eu só queria ajudar!!– Lily estava prestes a se enfurecer, mas se entristecia logo depois.
– Podia ter colocado tudo em risco, garota!
– CHEGA!! – Luno entrava para por um fim naquilo.
Todos pararam de discutir e Lily apenas abaixou a cabeça e soltava uma lágrima enquanto falava em voz baixa:
– Eu só queria...
Luno não gostava de ver a irmã daquele jeito e começou a falar para Viral e Solvie:
– Vocês dois, que decepção. Ficar acusando Lily desse jeito. A culpa não é dela. A culpa é toda minha por ter deixado ela vir comigo. E antes que vocês comessem a ficar apontando o dedo para mim, digo pra vocês que não me arrependo de ter essa culpa, pois garanto que se não fosse por Lily, eu não teria me esforçado do jeito que eu me esforcei e também, foi ela que me salvou, que nos salvou quando estávamos prestes a morrer. É graças a ela que eu estou agora falando com vocês que estão mal-agradecidos pelo fato de estarmos vivos. E além do mais, deviam estar envergonhados. Não se trata dessa maneira pessoa alguma...
Ele se abaixava, limpava a lágrima de Lily e dizia:
– ...principalmente aqueles que nos mais amamos e confiamos nesse mundo.
Diferente da outra vez que Luno fez algo assim com a irmã, ele estava sério e cheio de razão no que falava. Lily não conseguia acreditar que o irmão estava sendo tão gentil com ela pela segunda vez no mesmo dia. Achou realmente estranho, mas pouco se importou e ficou extremamente feliz. Só não foi abraçá-lo pois pensou que ele ficaria um tanto insatisfeito e envergonhado. Apenas abriu um enorme sorriso, enquanto ele se levantava e apenas dizia:
– Agora que ta tudo bem, deixa eu dormir aqui porque eu tô morto!
Ele se jogava na cama que tinha lá. Estava todo debilitado por causa da ultima luta, mas deitou lá assim mesmo. Lily não gostou muito daquilo e começou a falar alto com ele:
– Você vai dormir aí sem nem tomar um banho ou trocar a roupa? Você sequer se lavou quando estava cheio de lama depois de desmaiar ontem!
Ele fechou os olhos e respondeu enquanto relaxava:
– Pfff, banho. Quem precisa disso? Eu estou perfeitamente bem do jeito que estou, obrigado.
Lily não conseguia entender como que o irmão conseguia ser uma pessoa tão firme e tão desleixada:
– *Como ele consegue pilotar um Gurren Lagann de primeira e não consegue entender questões básicas de bom senso...*
Viral se aproximou da cama e puxou Luno pelo colarinho, dizendo, cara-a-cara para ele:
– Seja um bom irmão e um bom filho e levanta dessa cama. Vamos para outro quarto, pois esse será apenas das mulheres, fui bem claro?
– S-Sim senhor...
– E NÃO ME CHAME DE SENHOR! Me chame de “Comandante” ou de “Viral” apenas. Me faz parecer velho.
– S-S-Sim se...digo, comandante. – Luno nunca havia sentido tanto medo e calafrio na vida quanto olhar nos olhos aterrorizantes de Viral tão de perto.
– Ótimo. Agora venha comigo.
Ele soltou Luno e ambos foram a seu caminho. Solvie e Lily ficaram perplexas pelo comportamento de Viral. Acharam duro e quase cruel para um comandante tomar. Pensaram então como era bom não estar na pele do garoto.
No quarto ao lado, quando ambos chegaram, Viral explicou para ele:
– Aqui é o quarto onde iremos dormir. Vai ter uma troca de roupas na sua cama e um outro uniforme pendurado ao lado, para você usar amanhã.
– Chique. Se você é tão arrumado assim, bem que podia cortar esse seu cabelo. Parece que faz décadas que ele ta assim.
– Apenas se entre e vá dormir. Já falou besteira demais para um dia só.
Ele entrou e quando entrou, tinha uma pessoa em uma cama, de pijamas azuis e um laptop. Essa pessoa olhou para Luno e Viral e lhes disse:
– Ohh, vamos todos estar dormindo juntos no mesmo quarto? Que maravilhoso!
Luno entrou em choque quando viu que era Leeron no quarto:
– AH, NÃO!! VOCÊ NÃOOO!!!
Solvie e Lily ficaram assustadas com a gritaria e foram correndo checar o que havia acontecido. Quando chegaram, viram Luno agarrado em Viral, que estava de braços cruzados e com uma veia saltada na testa, quase a ponto de explodir:
– Eu vou contar até 5 para me soltar. Se não...!
Luno nem esperou Viral terminar de falar que já havia o soltado. As duas que estavam logo atrás não conseguiam segurar a risada. Foi hilário ver aquílo. Quando ele notou as duas, implorou para elas:
– Pelo amor de Deus, alguma de vocês fique no meu lugar! Não quero dormir alí de maneira alguma!
– Por que deveríamos? Só tem homens aí... – Solvie respondia ele.
– Leeron não é nenhum homem, eu te garanto. – Parecia estar totalmente apavorado.
– Eu ouvi isso!! – Leeron respondia do quarto.
Viral colocava as mãos no ombro dele, e apenas falava enquanto puxava ele para o quarto:
– Não adianta querer fugir. É aqui que você vai dormir e ponto final.
Luno não gostava daquilo e parecia quase paranoico quanto a isso:
– Não, não, não! Não quero dormir no mesmo quarto que ele!! De qualquer maneira, boa noite, mãe. Boa noite, Lily. Aproveitem bem o dia amanhã, porque depois vai ser a grande batalha!
Fechou-se a porta e ambas ficaram lá, rindo novamente de tudo que viram. Voltaram para o quarto e se arrumaram para dormir. Lily ficou intrigada e perguntou para Solvie:
– Você acha que Luno vai ficar bem mesmo com aqueles dois?
Solvie estava sorridente:
– Ah, com certeza vai. Ele consegue dar um jeito nas coisas bem rápido. Consegue até mesmo aguentar Viral daquele jeito...
Ela fazia uma pausa, e falava com um tom mais triste:
– É como se...Viral fosse...o pai que ele nunca teve...
Lily percebia que aquilo fazia sentido e ficava mais melancólica. Ela via a mãe com o porta-retrato em mãos, quando perguntava:
– Ei, mamãe...acha que o maninho vai conseguir descansar bem? Ele parece bem abalado por ter que lutar com Simon dessa maneira...
Solvie parou por um instante. Não sabia o que falar. Pairou-se um breve silêncio naquele lugar, quando Solvie respondeu:
– Ele pode até mesmo tentar descansar bem e pode até mesmo não conseguir. Mas eu vou lhe dizer, descansado ou não, no dia da luta, ele vai estar totalmente preparado. Ele vai encontrar todas as forças necessárias para encarar Simon.
Lily ouvia atenciosamente. Tinha certeza que o que a mãe dizia era capaz de acontecer. Solvie olhava para o porta-retrato e continuava:
– ...Seu irmão é forte. Muito forte. Ele tem tudo aquilo que precisa para viver feliz. Eu invejo isso dele. Se eu tivesse sido forte como ele...nada disso teria acontecido. Mas agora...agora está tudo nas mãos dele. Eu confio nele e acredito que ele vai ser capaz de ajudar a todos nos. Eu posso não ter sido forte como ele no passado, mas eu vou emprestar toda a minha força para que ele possa corrigir os erros...meus e de Simon, para que possamos viver sem mais arrependimentos.
– Eu quero ser forte como ele também. Uma pessoa muito especial me disse que cada um de nos é capaz de fazer o que quiser e que temos a força para ajudarmos quem bem entendemos, basta querer. Eu acho que...você quer ajudar o maninho, então você vai ser capaz de ajudá-lo de verdade, mamãe!
Solvie ficava surpresa de ver a filha falando daquele jeito e ficou muito feliz. Nunca imaginava que estaria aprendendo com ela do jeito que estava. Chegava para perto da filha lentamente e a abraçava, com os olhos fechados e um carinhoso sorriso:
– É...acho que você está certa. Obrigada filha. Obrigada por tudo.
Lily a abraçou de volta, falando em voz baixa:
– Você vai sempre ser a melhor pra mim, mamãe.
– Nunca me deixe sozinha, filha. Nem você, nem seu irmão. Me prometam isso, por favor. Não quero passar o resto da minha vida sozinha como estava anos atrás... – Abraçava cada vez mais forte a filha.
– Não vamos, mãe. Não vamos...
Ficaram assim por um tempo. Era como se a mãe estivesse com a filha nos braços novamente. Como se ela fosse o bebê recém-nascido que nunca sairia dos braços da mãe. Que iria sempre querer mais carinho, mais aconchego, mais apoio. Solvie sentiu-se mais como se ela estivesse nos braços da filha. Não queria que aquela sensação acabasse nunca mais.
Depois de um tempo, elas se separaram lentamente e Solvie, já melhor, falou:
– Bem, está ficando tarde. Está na hora de dormir. Termine de se arrumar e vamos dormir.
Lily terminou de se arrumar em pouco tempo, e apagou as luzes. A mãe já deitava e dormia, parecendo ter agradáveis sonhos depois da conversa. Lily demorava um pouco para pegar no sono. Ela ainda estava preocupada com o irmão, se ele realmente iria conseguir descansar depois disso. Ela via como que mesmo de muito bom humor, ele não parecia estar bem. Sentia que era apenas uma máscara de suas angústias e suas preocupações. Além de tudo, via como a mãe tinha medo da solidão. Ela apostava tudo em Luno para que ele pudesse ajudá-la a colocar um fim nesse sentimento de arrependimento e remorso. Ela não queria ficar sozinha nunca mais. Nunca imaginava que a mãe se sentia dessa maneira e faria o possível para não deixá-la. Não, faria mais que o possível para não deixá-la sozinha. A própria Lily tinha medo de ficar sozinha. De não ser amada e acabar se perdendo. Vendo isso, perguntou para a mãe:
– Mamãe, eu posso...amar alguém assim como eu amo você? E então abraçar, falar todas essas coisas bonitas pra ela e nunca mais deixar ela sozinha?
Solvie ainda estava um pouco acordada, e respondeu:
– Mas é claro, filha. Seria ótimo poder encontrar mais pessoas que quiséssemos amar desse jeito. Mas por que a pergunta?
– É uma longa história...
Fale com o autor