Tenebris
1 Unus
— Você não está nem usando um escudo, Sonea — Akkarin sussurrou.
Sonea desesperou-se. Akkarin estava gravemente ferido e Kariko a menos de dez passos. Ela não podia deixar que ele desse seu poder a ela. Já estava exausto e ferido. Se Sonea não fizesse nada, Akkarin morreria.
- Eu não posso te perder. — ela disse baixinho, pousando suas mãos no peito dele enquanto concentrava sua magia e enviava ondas de poder curativo.
Akkarin remexeu-se embaixo dela, protestando. Mas estava muito fraco e nenhum dos seus esforços surtiu qualquer efeito.
- Pare Sonea! Pare! Você precisa lutar! Precisa do seu poder para lutar!
- Não posso te perder, Akkarin. Não posso.
Ela puxou a faca do peito dele, sentindo os tecidos religando-se com sua magia, os sangramentos sendo estancados, a dor sumindo...
Um riso, cruel e sem humor, cortou o silêncio.
— Então, foi aí que eu deixei minha faca — Kariko vociferou. — Que bom que a encontrou para mim.
Sonea arquejou. Sua magia falhou por uma batida de coração e depois voltou, mais fraca do que antes. Foi apenas o suficiente para terminar de fechar o ferimento. Ela se voltou para Kariko e tentou colocar um escudo em volta dela e de Akkarin. Mas não havia mais nada. Nenhuma magia. Nada.
- Eu preciso de mais! — ela implorou, para ninguém em especial. — Preciso de mais! Preciso...
Ela rangeu os dentes. Não era justo. Conseguira salvar Akkarin, mas agora iria perdê-lo por que não tinha mais nenhuma energia para lutar. A sensação de impotência a esmagava mais do que a ausência de magia. Ela olhou para o rosto pálido de Akkarin, que se concentrava em olhar para os magos ichanis.
Lágrimas rolaram pelo seu rosto, mas ela mal as sentiu. Decidiu tentar uma última coisa. Fechou os olhos.
-
Estava dentro de sua própria mente, olhando para a pequena casa que Rothen a ensinara a fazer. Entrou. Tudo o que ela era – lembranças, sonhos, medos, expectativas — estava contido dentro daquelas paredes. Sem perder tempo, Sonea caminhou até a porta onde ela mantinha seu poder confinado. Respirou fundo enquanto girava a maçaneta. E se não houvesse mais nada lá dentro? E se seu poder tivesse sido completamente drenado? Como ela iria proteger Akkarin?
Sonea balançou a cabeça. Aquilo não levaria a nada. Nunca saberia o que havia atrás da porta se não a abrisse. Estava perdendo tempo. E Akkarin estava lá fora, exaurido, enquanto ela se deixava entregar ao medo.
Com um rápido movimento de pulso, Sonea escancarou a porta, olhando expectante para o já conhecido vazio. E lá estava ela, brilhando. Uma grande esfera de poder, reluzindo no vazio. Sonea sorriu ao vê-la. Não sabia se o que estava para fazer daria certo ou se alguma vez já fora feito. Decidiu confiar em seus instintos. Ela precisava daquele poder. Akkarin precisava dela.
- Eu preciso de mais poder. Preciso de mais... — ela repetiu para si mesma, enquanto se afastava alguns passos. — Preciso de mais.
Então, correu em direção à porta e se atirou no vazio.
-
O ar rodopiou à volta deles. Akkarin mal reparou. Estava acabado agora. Sonea parecia estar desmaiada. Usara todo o seu poder para curá-lo e agora já não podia lutar contra os Ichanis. Ele não a culpava. Se estivesse em seu lugar, não tinha certeza de que poderia vê-la morrer.
Mas de repente o improvável aconteceu. Sonea se levantou, um pouco desajeitadamente, como se não se lembrasse muito bem de como fazê-lo. Ele não podia ver seu rosto, ela estava de costas para ele. No entanto, havia algo muito diferente com ela. Kariko também viu. Sua expressão passou de presunçosa a apavorada. Era como um lobo que tivesse a presa entre os dentes e de repente se visse com a própria garganta rasgada.
O mago Ichani recuou um ou dois passos, incrédulo. Sonea avançou alguns passos na direção dele, deixando Akkarin para trás. Depois parou, encarando-o. Ele observou seu rosto atentamente. As veias se destacavam, azuladas sob a pele branca. Seus olhos eram frios e não havia nada neles. Era quase como se ela estivesse vazia por dentro. A escuridão que viu neles o assustou.
Sentiu o chão abaixo de seus pés estremecer e alguma coisa produziu um estalido alto. Ao olhar para baixo, viu que as pedras do calçamento estavam rachadas e Sonea parecia ser a causa. O chão abaixo dela estava intacto. O céu escureceu-se com nuvens e o vento chicoteava os galhos das árvores sem a menor piedade. O cabelo de Sonea dançava no ar, e as sombras em seu rosto lhe davam uma aparência sinistra. Subitamente o ar ao redor deles tornou-se mais e mais frio.
Kariko decidiu que não iria esperar mais. Reunindo o máximo de poder que conseguia acumular e concentrando-o na palma da mão, rugiu uma ordem aos outros Ichanis.
- O que é que estão esperando seus idiotas? Matem-na! – gritou.
Os outros magos pareceram acordar de um sono profundo e dispararam sucessivamente rajadas de poder maciço contra Sonea.
Ela nem mesmo piscou. O poder enviado contra ela não chegou nem perto de ferí-la, sendo repelido ao atingir um escudo redondo como um domo de mais de três metros de diâmetro e dissipando-se em seguida.
Ao sentir o ataque, Sonea pareceu vê-los de verdade. Cerrou os dentes em uma expressão feroz e ergueu as duas mãos ao lado do corpo. Kariko e os outros ichanis gritaram ao sentirem seus corpos serem levantados do chão como se fossem penas pelo poder de Sonea.
Nenhuma magia que usassem surtia efeito. Eles estavam como ratos esmagados por uma ratoeira, completamente imóveis. O ar à volta deles queimava e arranhava a pele e respirar se tornou uma provação. Seus pulmões pareciam prensados em um torno de ferro. Até mesmo pensar se tornava difícil.
Ela caminhava calmamente na direção de suas presas imobilizadas, com a graça de um caçador que não tem pressa, pois sabe que não há nada que elas possam fazer para sair de sua armadilha.
Parou a alguns passos deles. Kariko olhou fixamente para o rosto de Sonea. Tentou soltar um grito de horror com o que viu, mas não conseguiu. E no entanto, não conseguia parar de olhar. Por que os olhos dela já não tinham mais pupilas, nem mesmo íris. Eram totalmente pretos e olhar para eles era como tentar enxergar o fundo de um poço.
- O que é você? — ele murmurou entredentes.
Sonea apenas sorriu, com uma expressão de maldade terrível. E então os corpos de Kariko e os outros magos Ichanis desintegraram-se e se dispersaram no vento como se fossem cinzas.
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