Tenebris
2 Duo
Akkarin acordou com o som de vozes abafadas. Abriu os olhos lentamente ao se dar conta do cheiro de sangue e medicamentos impregnado no ambiente. Reconheceu as paredes pintadas de tons neutros, o cheiro fresco e medicinal das ervas manipuladas pelos magos de túnica verde, a total ausência de decoração do ambiente. Estava na Ala dos curadores, dentro do clã.
Uma sugestão de movimento chamou sua atenção próximo da porta. Akkarin virou-se e viu Vinara sorrindo, parada junto à soleira.
A chefe dos Curadores tinha uma expressão cansada, com olheiras surgindo logo abaixo dos olhos. Estava mais pálida do que de costume e as mangas da sua túnica traziam manchas de algo que parecia ser sangue seco.
– Quanto tempo eu dormi? — ele perguntou, com a voz um pouco rouca.
– Quase dois dias. — Vinara respondeu, em um tom de voz suave.
Akkarin inclinou-se para se sentar.
– O clã? — ele perguntou, com um pouco de medo da resposta.
– Perdemos quase metade dos magos, Akkarin. Os membros superiores estão considerando a possibilidade de recrutar aprendizes de fora das casas. O círculo interno foi quase destruído. Há muito o que se fazer.
Akkarin assentiu, silenciando-se por um momento e absorvendo as informações que ela lhe dera. Vinara entrou no quarto, fechou a porta e puxou uma cadeira, sentando-se. Pareceu relaxar. Akkarin pensou que ela deveria estar trabalhando a horas.
– E Sonea? — ele perguntou, hesitante.
– Ela ainda está inconsciente, o que é estranho, não encontramos ferimentos externos. Achamos que fosse exaustão, mas já fazem dois dias. Um dos nossos curadores tentou alcançar-lhe a mente, mas foi repelido com muita força. Está inconsciente também.
– O que acha que aconteceu? — perguntou Akkarin. Conhecia muito de cura, mas nenhum dos magos do clã se comparava a Lady Vinara.
A maga deu um sorriso constrangido e naquele momento pareceu muito mais velha.
– Eu esperava que você pudesse me dizer, Akkarin. Vocês dois passaram muito tempo juntos, pensei que soubesse. Mas se nem mesmo você sabe...
– Eu quero vê-la.
– Não acho que seria uma boa ideia, Akkarin... — Vinara advertiu.
– Eu quero vê-la. — ele insistiu, dessa vez em um tom mais firme.
– Akkarin... Nós não sabemos se é seguro. Sonea... — ela suspirou, fazendo uma pausa e segurando a ponte entre o nariz e a testa com os dedos. Quando voltou a encará-lo, seu olhar era sombrio. — Ela desintegrou três magos negros com a mesma facilidade de quem espanta uma mosca. Ela os transformou em cinzas, Akkarin. Você compreende?
Akkarin reprimiu uma onda de raiva.
– Sonea matou os magos ichanis. Ela nos salvou a todos. É isso que você está tentando dizer, Vinara. Sonea nos salvou.
– Akkarin... Eu não sei mais. Não sei se é seguro.
– Sonea vale o risco. Preciso saber se ela está bem.
Vinara susteve seu olhar por um longo momento, mas por fim, assentiu, contrariada.
– Acho que não posso mantê-los separados. Você se sente bem para caminhar?
Akkarin assentiu e se levantou devagar, seguindo Lady Vinara para fora dos aposentos.
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Haviam dois magos guerreiros do lado de fora do quarto de Sonea. Akkarin acenou com a cabeça para cumprimentá-los e os dois se entreolharam, um pouco surpresos, antes de retribuir, cedendo passagem a Akkarin e Lady Vinara.
Não havia muita diferença do quarto onde Akkarin tinha ficado para o quarto onde Sonea estava agora. Mas ali as cortinas estavam firmemente fechadas, dando ao local uma luz amarelada doentia. Vinara fechou a porta assim que eles passaram, certificando-se de não fazer barulho. Um pequeno globo de luz feito por Akkarin iluminou a cama onde Sonea estava deitada. Ele se aproximou, caminhando silenciosamente, olhando para ela com uma expressão neutra. Ao se chegar mais perto, notou que a pele dela estava ainda mais pálida do que de costume, contrastando com as veias azuladas. Os olhos se moviam, ainda fechados, como se Sonea estivesse sonhando.
Sem tirar os olhos dela, Akkarin puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da cama. Sua mão segurou a dela e ele se surpreendeu ao perceber como a pele de Sonea estava fria. Cuidadosamente, Akkarin a buscou mentalmente.
Vinara franziu o cenho ao ver respiração de Sonea mudar, acelerando. Uma, duas vezes, a mente do mago negro foi projetada para fora, com tanta força que Akkarin levou os polegares às têmporas, com um pouco de dor. Inspirou fundo por um longo momento e tentou outra vez. Dessa vez, pôde sentí-la. Teve certeza de que era Sonea, mas havia algo mais também. Uma outra presença, mais fria, o analisou com cuidado, cercando-o, estudando-o. Akkarin sentiu aquilo ceder terreno e permiti-lo entrar na mente de Sonea. Aliviado, Akkarin se viu diante da casa onde Sonea costumava manter seus pensamentos.
Um pouco relutante, entrou devagar, parando na sala modesta e esperando para ver se Sonea o receberia. Aguardou pacientemente, mas não havia sinal dela. Era como se sua mente estivesse completamente vazia.
– Sonea. — ele chamou, mas não houve resposta. Inspirou fundo e tentou de novo. — Sonea, onde você está?
Novamente o silêncio. Ele olhou em volta, e uma sugestão de movimento chamou sua atenção em uma das portas. Um ruído, estranho e contínuo, parecido com unhas arranhando a madeira. Contendo-se apara não recorrer à própria magia, Akkarin levou os dedos à maçaneta da porta, girando-a lentamente. O barulho se tornou mais urgente e ele abriu a porta com um movimento brusco. E o que viu o deixou maravilhado.
A imensa esfera cintilante de poder que flutuava no vazio negro abalou todas as suas convicções. Sempre soube que Sonea era poderosa. Mas nunca se atrevera a imaginar o quanto. Simplesmente não conseguia parar de olhar.
– Akkarin! — A voz de Sonea ecoou no vazio e o mago negro procurou por ela, sem sucesso. — Akkarin, estou aqui! Me ajude, Akkarin! — ela implorou, e o tom de desespero que usava fez o sangue dele congelar.
– Estou aqui Sonea! Estou indo! Siga a minha voz! — ele gritou para o vazio, preparando-se para saltar.
Então foi empurrado por um poder maciço e frio, e se viu outra vez diante da porta fechada. Sua cabeça rodava e os olhos lacrimejavam. Enxugou-os com as costas da mão e viu um vulto diante de si. Esforçou-se para focar a visão piscando uma, duas vezes até conseguir. Entusiasmou-se ao reconhecer a silhueta de Sonea, mas conteve a respiração ao ver o seu rosto.
Seus olhos estavam negros e as veias escuras da face se destacavam sob a pele pálida. O cabelo se movia como se estivesse debaixo d'água.
– Sonea? — Akkarin chamou.
Mas a coisa parecida com Sonea apenas sorriu, e Akkarin foi empurrado com violência para fora da mente dela, de volta a seu corpo.
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