Tempted
13 Respiro
Notas iniciais
POV Christian.
Lavei a parte suja do lençol e o deixei dentro do cesto de roupas sujas no banheiro. Estava me sentindo vivo e saciado. Mas mais que isso, foi como estar de volta para meus domínios. Anastásia tinha meu domínio. Seja lá o que fosse acontecer no outro dia, eu não conseguia me sentir arrependido pelo que fizemos.
Voltei para o quarto e Anastasia havia rearrumado a camisola. Estava deitada de lado, agarrada a um travesseiro. Não pude evitar sorrir quando reparei que, no seu criado mudo, o copo de leite que eu havia trazido estava vazio. Assim, aproximei-me da cama e sentei ao lado de Anastásia.
— Você está bem? – perguntei.
Anastasia fungou.
— Me sentindo um lixo.
— Não diga isso! – adverti instantaneamente.
— Acho que o que fizemos foi errado! – ela disse e fungou de novo, sem se virar para mim.
— Acho que o que fizemos foi perfeito. – admiti para mim mesmo também.
— E quais as perspectivas disso? Nenhuma!
— Está falando isso com base na perspectiva do seu casamento. – falei tentando não transparecer como essa ideia me irritava.
— E de que outra forma eu poderia falar? Não me venha com o papo de só Anastasia porque na prática não é assim.
Mas que droga! Minha recente satisfação estava começando a ir por água a baixo. Não valia à pena se fosse para Anastasia ficar assim.
— Me desculpe... – pedi.
Anastasia soluçou e eu a puxei de encontro ao meu peito. Ela rolou e escondeu o rosto em mim.
— Sh... – tentei acalmá-la. — Você não está sozinha. Eu vou ficar com você.
— Christian...
— Ninguém vai julgar você. Não se julgue mal por isso. E se você quiser, podemos agir como se nunca tivesse acontecido. – garanti, mas sem acreditar nisso. Não tinha como não pensar no que tinha acontecido sem sentir que foi a coisa errada mais certa já sido feita.
***
POV Anastasia
Droga! Eu estava me sentindo péssima. Abri os olhos e a luz do dia fez doer minha cabeça, assim como me trouxe a lembrança dos últimos acontecimentos. Meus olhos doloridos me indicavam que eu devo ter chorado até dormir. Não me lembro de Christian ter ido embora, no entanto ele não estava aqui. O vazio no quarto, tirando a mim mesma, quase me permitia imaginar que nada havia acontecido aqui.
Levantei e me coloquei no automático. Pegar roupas, toalha, banho, vestir. Enquanto me forçava a cumprir com as atividades eu não conseguia definir o que estava sentindo sobre o que eu tinha feito. Eu nunca tive sexo casual na minha vida, se é que eu poderia dar esse nome para o que aconteceu. Uma parte de mim chamava de outra coisa: traição. Eu sempre me envolvia a esse nível apenas com os caras com que me comprometia. Quer dizer, havia sido apenas três e Christian foi o terceiro. E o melhor, outra parte de mim falou. A parte que não tinha vergonha na cara. Mas ainda assim foi errado.
Eu estava sem perspectivas, me sentindo triste, ruim, culpada, devastada. Tudo que Christian me fez sentir evaporou de ontem para hoje. Eu estava como um balão vazio.
Fui até o espelho e comecei a pentear o cabelo. Apesar dos meus olhos inchados, ainda parecia ser a mesma Anastasia de sempre. Diferentemente de como eu me sentia. Eu precisava encontrar forças, precisava colocar a cabeça no lugar e encontrar uma forma prática de me sentir bem de novo. Eu precisava sair dessa casa.
Assim que terminei de me arrumar, tomei coragem para sair do quarto. Meu tornozelo estava bem melhor, quase sem inchaço algum. Já conseguia apoiar um pouco o corpo sobre a perna esquerda, mesmo que ainda mancasse. Então, segurei a maçaneta com o máximo de confiança que consegui reunir e abri a porta.
Vacilei um pouco ao longo do corredor até as escadas, mas consegui não tropeçar. Assim que virei no corredor, dei de cara com Christian.
— Oi. – ele disse.
— Oi. – respondi.
Eu não sabia o que fazer, como agir. Estava lutando tanto para fingir que noite passada havia sido apenas um daqueles sonhos, dos quais você não tem culpa, que quase conseguia acreditar. Mas com Christian bem à minha frente, ficava difícil. Ele não parecia o mesmo Christian de quando cheguei nessa casa. O modo como estava me olhando e como me cumprimentou, apesar de ter o mesmo efeito intimidador de sempre, tinha também um ar cúmplice.
— Eu ajudo você a descer. Se quiser. – ele disse. Soou inseguro pela primeira vez desde que o conheci.
Odiei a forma como minhas mãos formigaram quando ele as segurou sem esperar minha resposta. Eu não disse nada e deixei que ele suportasse meu peso degrau por degrau até em baixo, de modo que eu não precisava me apoiar totalmente sobre uma perna só. Eu procurei não corresponder, não segurá-lo de volta. Mas era tão difícil. Talvez fosse só comigo, mas havia um magnetismo que me impulsionava a estar perto dele. Nos últimos três degraus Christian foi à frente e me ergueu pela cintura, fazendo um meio giro até me devolver ao chão.
— Obrigada. – falei.
— Com certeza não foi não foi nada. – ele garantiu enquanto continuava com suas mãos na minha cintura.
— Christian... – expirei. — Você deveria me soltar.
— Aham. – ele admitiu, mas sem o fazer. Olhava-me fixamente, e seus olhos pareciam mais claros e intimidadores.
— O que está pretendendo? – perguntei sentindo meu estômago vibrar.
— Nada. Só não quero... Deixar você ir.
A frase ficou no ar por alguns segundos. A culpa que eu sentia não me deixava apreciá-la como, talvez, em outras circunstâncias, eu faria. O conflito era pior ainda porque Christian estava me mantendo sob a áurea do seu perfume. Ele era atraente em todos os sentidos.
— Não é certo. – consegui dizer.
— Mas parece certo.
— Porque você não está no meu lugar. – rebati. — Eu não ganhei nada com isso. A não ser o seu benefício da dúvida. Que veio acrescido do benefício da culpa.
— Quer dizer que você sente culpa... Apenas culpa? – Christian perguntou parecendo momentaneamente ressentido.
— No momento sim. – admiti. Mas acho que não era tudo.
Assim que respondi os ombros de Christian pareceram cair. Eu não me lembro de tê-lo visto fora de sua postura de altivez e segurança habituais.
— Anastasia... – Ele começou a dizer, mas fomos interrompidos pela Sra. Grey.
— Bom dia meninos! Prontos para o café?
Christian ergueu a cabeça, retomando a postura e virando-se para enxergar a mãe. Eu tentei ignorar que o formigamento do meu estômago subiu todo para meu rosto.
— Bom dia Grace. Já estou levando Anastasia até lá. – Ele falou evidenciando o fato de ainda estar com as mãos em minha cintura.
— Ah! – Sra. Grey reparou neste detalhe também, parecendo compreender. — Seu tornozelo ainda dói muito, filha?
— Para descer as escadas sim. – Na verdade não doía mais tanto assim, mas precisei me juntar à história de Christian para não levantar suspeita.
— Então não a deixe, Christian – Sra. Grey falou. — Anastasia chegou aqui andando e funcionando em perfeito estado e é assim que ela deve ficar.
Só Grace riu da própria piada e acenou para que a seguíssemos até a cozinha. Mas mal ela sabia que eu já não estava funcionando bem, independente do machucado.
Esperamos um pouco por Mia, enquanto Martha e outros empregados colocavam a mesa. Sra. Grey os ajudando e dando recomendações sobre a dispensa e o jantar. Christian havia sentado no seu lugar de sempre, que ficava de frente para mim, mas ele não me olhava. Ele havia se fechado e encarava apenas o celular, digitando de vez em quando. Aposto que se tratava de negócios, pois estava sério e suas sobrancelhas pesavam, formando uma sombra sobre seus olhos claros, que ganhavam um ar profundo.
A noite passada, que até a alguns minutos atrás eu consegui transformar num evento distante, quase como mais um sonho do que um fato, agora vinha em flashes na minha memória. Em pensar que há algumas horas aquele olhar de Christian era meu, e por mim. Que seus lábios me beijaram e aquelas mãos tocaram em mim! Quase pareceu bom o suficiente para afugentar a culpa. Mas eu não conseguia. Eu precisava de espaço. Precisava ficar livre das pressões e colocar a cabeça no lugar. Mas, é claro, isso não ia acontecer:
Mia veio da sala, enfim, trazendo o telefone estendido à frente. Antes mesmo de me dar bom dia, ela falou:
— Pelo amor de Deus, Ana, atenda esse telefone! Ele está quase me matando por telepatia.
— Que? – Perguntei apalermada enquanto segurava o aparelho. Antes mesmo de encostá-lo ao ouvido, escutei chamarem meu nome na ligação. Era... — Elliot.
— Puta merda, Ana, o que aconteceu? – ele falou parecendo muito, muito bravo.
Meu coração parou e meu estômago embrulhou.
Arrastei a cadeira para trás e fui mancando até a sala, acenando para Mia e Grace que já, já voltava. Christian não se manifestou para me ajudar a andar dessa vez.
— Elliot, o que houve? – consegui perguntar.
— Eu é que pergunto! Deixo você por uma semana e quando menos espero recebo aquele seu recado desesperado. Depois você não atende, nem responde às minhas mensagens a noite toda. Quando ligo para minha irmã para perguntar o que aconteceu ela me diz que você sofreu um acidente. Eu é que pergunto o que houve!
Ele disparou tudo quase sem tomar fôlego. Perto do que meu alerta culpado teria a temer, as preocupações dele até pareceram pequenas. Se ele soubesse...
— Elliot, me desculpe. Eu não quis causar nenhuma preocupação. Está tudo bem. E Mia exagerou. Nem foi um acidente de verdade.
— Dá para explicar o que aconteceu então?
Contei a ele sobre o caso do lago. Agora mais que nunca isso não parecia nem um pouco preocupante perto do que fiz na noite passada. Escutei Elliot extravasar seus sermões um por um, imaginando que, na verdade, ele estivesse me punindo por ter dormido com seu irmão, num desespero silencioso para tirar esse peso da minha consciência, mas quase não ajudou em nada.
— Droga Ana! – Ele finalizou. — Eu não posso sair daqui. Não agora que estamos indo ao júri para nos defender da acusação de plágio. Tenho uma sessão agora mesmo, em dez minutos.
— Desculpe.
— Ok... – ele expirou. — Me desculpe também.
Ficamos um tempo em silêncio.
— Elliot...
— Você está bem? Pode esperar mais um dia? – ele perguntou.
Não, droga, eu não estava bem!
— Claro.
— Certo. Fique aí e não se mova. – Ele brincou e eu fingi que ri. — Agora vou ter que ir. Cuide-se baby.
Ele desligou.
Não. Ouvir sermões de Elliot não foi solução alguma.
Antes que alguém aparecesse para falar comigo ou eu acabasse chorando por causa da minha própria consciência, aproveitei o telefone e liguei para a primeira pessoa em que pensei.
— Ana! – Kate respondeu. — Oi, como você está?
— Kate... Preciso de ajuda.
***
POV Elliot ~cinco semanas atrás~
Eu nunca pensei que o trabalho poderia me proporcionar algo além de tédio. E não, dessa vez também não estava me referindo ao sexo, por causa de Amanda. A coisa realmente mudou desde que descobri que o Sr. Steele na verdade era a Srta. Steele. Ela era tão linda e estimulante que fazer negócio com a editora para a qual ela trabalhava, de repente, se tornou a parceria mais brilhante de toda minha carreira.
Estávamos trabalhando juntos há apenas uma semana, mas eu juro: poderia me casar com aquela mulher!
— A Srta. Steele e o Sr. Palmer chegaram, Elliot. – Falou Amanda entrando em minha sala sem bater. — Deixei-os esperando na sala de reunião.
— Certo. Estou indo lá. – falei recolhendo os papéis necessários e indo em direção à porta.
Antes de eu tocar a maçaneta, Amanda me parou, segurando-me pelos ombros.
— Alto lá, senhorzinho Grey. Eles podem esperar por mais uns minutos.
— Na verdade temos uma videoconferência com...
— Com uma editora na França, eu sei! – Amanda falou e rolou os olhos. — Ainda sou sua secretária, sabia?
Balancei a cabeça tentando me concentrar no que Amanda dizia.
— O que você quer dizer?
— Que há alguns dias você tem ficado estranho comigo! Tem me tratado como...
— Como uma secretária. – Falei.
— Não seja estúpido, Elliot! Você sabe o que eu quero dizer.
— Amanda... – Passei a mão pelos cabelos. — Você sabe que esse tipo de... relação... não pode durar. O que você esperava?
— Mas estávamos nos dando bem. Até saímos uma vez e... Por acaso não gosta de mim? Da minha companhia? E do que fazemos juntos?
Amanda deu um passo a mais na minha direção, fazendo seu perfume tomar conta de mim.
— Não é nada disso. – Falei. Era difícil encará-la quando ela me olhava daquele jeito, meio de baixo para cima. — Eu não quero magoar você. Não quero que sinta que eu tirei algum proveito...
— Porque você já tirou, não é? – ela falou em tom acusatório.
— Aproveitamos juntos. Amanda... – segurei as mãos dela, tirando-as delicadamente de cima de mim. — Podemos conversar outra hora? No almoço? Eu tenho que ir para a reunião.
Amanda arrancou as mãos das minhas, arrumando seu vestido e em seguida me lançando um olhar frio.
— Claro, Sr. Grey.
***
— Eu estive pensando, realmente acho que devemos estar lá, na feira em Paris. O que acha Sr. Grey? – perguntou o chefe de Anastasia, Palmer, já ao fim de nossa reunião.
— Concordo. Podemos mandar nossos melhores representantes! – falei. Sr. Palmer riu.
— Ora, meu jovem, minha melhor representante é a Srta. Steele aqui.
Olhei para Anastasia, que hoje estava deslumbrante em uma composição de blazer e saia, e a vi corar graciosamente.
— Seria uma honra, Sr. Palmer. – ela respondeu educadamente.
— Anastasia com certeza é a mais indicada. – Palmer continuou. — Quem o senhor recomenda, Sr. Grey, da sua empresa?
— Ah, para fazer esse tipo de negócios, eu mesmo senhor.
— Então está fechado! Vamos convencionar nossos prazos para esta semana e estará tudo em ordem, por hoje.
— Exatamente. – Concordei. — Minha equipe e eu vamos avaliar o projeto e enviamos nossos prazos ao fim desta tarde. Tudo certo, James?
Meu assessor, que tomava nota de tudo, acenou de forma positiva.
— Sendo assim, nós devemos ir. Foi um prazer conhecê-lo, Sr. Elliot. – Disse Palmer se levantando. Anastasia o imitou. — Vou esperar o contato de vocês esta tarde.
Anastasia também se despediu formalmente enquanto arrumava a pasta e seguia para fora da sala de reuniões atrás de seu chefe. Fui com eles, James ficando atrás de mim.
No hall do andar em que estávamos, paramos todos a espera do elevador. Joguei mais uns papos furados com Sr. Palmer enquanto não podíamos descer.
— Onde pretendem almoçar? – Perguntei. — Se quiserem, posso recomendar um restaurante ótimo aqui perto.
— Obrigado, meu jovem, mas eu trouxe meu almoço. Tenho tolerância a glúten. Vou direto para a CIP. – Sr. Palmer respondeu e achou graça.
— E você Srta. Steele?
— Vou almoçar em casa, Sr. Elliot, obrigada.
— Ah! – evitei responder para não soar ansioso.
Fora nosso primeiro encontro, já estive em dois outros happy hours em que Anastasia esteve presente, mas em nenhuma das ocasiões ela aceitara algum convite meu.
— Sr. Elliot! – Chamaram atrás de mim. Virei-me para encarar Amanda.
— Pois não?
— O senhor havia marcado seu almoço aqui, lembra-se? – Ela insinuou.
O elevador abriu antes que eu pensasse em dar a ela uma resposta melhor. Anastasia e Palmer entraram e seguraram a porta para mim.
— Obrigada, Amanda, mas hoje vou almoçar fora. Cancele o pedido, ok?
Tudo que vi antes da porta se fechar foi Amanda me encarar com uma expressão de poucos amigos. Ela sequer disse Tudo bem, Sr. Grey, como sempre. James, que deveria ter vindo comigo, ficou parado no hall e as portas do elevador se fecharam. Não entendi, mas também não voltaria somente para chamá-lo. Talvez fosse até melhor que não viesse. Talvez ele fizesse companhia à Amanda.
Descemos até o estacionamento e nos despedimos mais uma vez. Sr. Palmer entrou em seu carro e saiu à frente. Vi Anastasia entrar em um Fusca preto reluzente. Eu simplesmente não consegui apenas assisti-la ir.
— Está de brincadeira! – Falei me aproximando da janela do carro de Anastasia.
— O que foi Sr. Grey? Nunca viu um clássico?
Ela e sua língua afiada.
Sorri.
— Estou surpreso! Srta. Steele, você é surpreendente!
— Não conhece muitas mulheres autênticas então. – ela riu. — Com licença, preciso ir, ou o horário do almoço vai acabar.
Afastei-me do Fusca alguns centímetros, mas antes que ela acelerasse, me aproximei e me abaixei à altura da janela.
— Anastasia, saia comigo, por favor! – Joguei.
É claro que Anastasia já tinha percebido o quanto eu estava a fim dela, ela era suficientemente inteligente para saber. Eu precisava desesperadamente saber se ela tinha algum interesse em mim. Ela era uma incógnita.
— Bom... Eu não tenho muita certeza... – ela falou me encarando.
Ela não me olhava como muitas mulheres faziam, que viam em mim um cara rico e jovem e rico. Anastasia me olhava como se eu fosse só um cara.
— Não me faça implorar! – pedi.
Anastasia segurou um sorriso.
— Um almoço de meia hora. – Ela cedeu. — Só por causa de seus esforços, Sr. Grey.
Ouvi o clique da porta do carona sendo destravada. Sorri e dei a volta para entrar no fusca.
***
POV Anastasia
— Você tem certeza de que está bem o suficiente para sair, querida? – perguntou a Sra. Grey enquanto eu levantava do sofá da sala ao ouvir a campainha.
— Estou sim, Sra. Grace. – Falei, soando positivamente confiante. — Preciso muito pegar uns documentos em casa. E vai ser bom sair com minha melhor amiga.
Alcancei a porta da casa ao mesmo tempo em que Martha a abria para a nossa recém-chegada.
Kate se colocou para dentro da casa dos Grey, esplêndida, como eu quase já estava desacostumada a ver. Não que ela tivesse deixado de ser maravilhosa, em algum momento, mas essa semana na casa dos Grey fazia tudo antes disso parecer muito distante na minha memória.
— Ana! – Kate exclamou vindo até mim e me enlaçando em um abraço apertado. — Como você está? Você parece ótima!
Ri por dentro. Ótima era tudo que eu não estava.
— Estou bem melhor. Meu tornozelo só está um pouco travado, mas já ando normalmente. – Falei a ela mostrando a liga de tornozelo/calcanhar que Sra. Grey me deu para usar enquanto houvesse qualquer fragilidade.
— É bom saber! Prometo que não vou fazer você ficar andando de lá pra cá em lojas! – Kate riu.
— Ótimo. Então, Kate, esta é a Sra. Grey, mãe de Elliot. Sra. Grace, esta é Katherine Kavanag, minha melhor amiga.
Sra. Grey sorriu calorosamente para Kate e a cumprimentou com um abraço.
— Você me lembra muito minha filha, Mia!
— Ah, eu já a conheci. Mia é adorável!
— Mesmo! – Grace pareceu admirada.
— Sim, na nossa primeira saída para ver o enxoval da Ana.
— Ah, sim! Agora lembro. Mia comentou!
Arranhei a garganta antes que as duas decidissem engatar algum papo sobre casamento ou enxoval do mesmo jeito que Kate e Mia fizeram na vez em que saímos. Neste momento eu é que precisava sair, urgentemente.
— Ah, Sra. Grey, foi um prazer conhecê-la! – Kate disse, percebendo meu sinal. — Ana e eu precisamos ir. Prometo que ela estará de volta antes da meia noite!
— Como se eu fosse virar uma abóbora! – Brinquei indo até Kate e tomando-a pelo braço.
— Vão lá, meninas! Divirtam-se! – Sra. Grey falou. — E Kate pode vir nos ver sempre que quiser, sinta-se à vontade!
— Obrigada Sra. Grey! – Kate disse ao mesmo tempo em que eu. Em seguida viramos para a porta e caminhamos para fora.
Assim que Martha fechou a porta atrás de nós, antes mesmo de descermos todos os degraus que levavam até onde os carros faziam a curva para estacionar, ouvimos um rugido limpo e baixo de motor. Um possante prateado com teto removido deslizou da lateral da casa em direção à saída, no caminho, passando bem à nossa frente. Dentro do carro, Christian Grey. Mia e eu tivemos que parar enquanto ele passava. Por um segundo senti meu sangue sumir e minhas mão gelarem.
O vi tão perfeitamente como se estivesse passando em câmera lenta. Desde o café, quando comentei na cozinha que eu havia ligado para uma amiga e que sairia com ela, deu para perceber Christian se fechar ainda mais, sem erguer os olhos um segundo sequer em minha direção. Ele sumiu o resto da manhã em seu escritório. No entanto, agora, ele passava frente a mim, vestido com roupa formal, todo em preto. Estava absurdamente sério, com o cenho franzido e os lábios comprimidos. Parecia ainda mais atraente, ainda mais másculo e... sensual. Ele não virou para olhar para nós, mas eu senti como se estivesse consciente da nossa presença.
— UAU! – Kate deixou escapar assim que o carro virou a curva em direção à saída. — Christian Grey! Por essa eu não esperava!
Esperei o carro de Christian sumir completamente antes de recuperar o fôlego e perguntar:
— Você o conhece?
— Ana, eu sou uma jornalista! É claro que sei quem é Christian Grey! – Kate falou rolando os olhos, obviamente mais recuperada daquela visão do que eu. — Acho que o reconheceria em qualquer lugar!
— Ah! Claro.
— Mas vindo para cá hoje, juro que não esperava vê-lo aqui. Ele não mora na cidade?
Eu precisava parar de me surpreender com o quanto Kate era bem informada. O bom era que isso me poupava de ficar explicando demais.
— Ele mora. Kate, vamos logo por favor!
— Tudo bem, — ela falou me olhando de lado, retomando a caminhada até o seu carro estacionado na lateral da casa. — Para onde você quer ir primeiro? Restaurante, shopping?
— Pro nosso apartamento, por favor!
— Tem alguma coisa a mais acontecendo não tem? – Ela perguntou, mas seu tom era de certeza.
Dei a volta em seu carro e entrei pela porta do carona assim que ela a destravou para mim.
— Tem, e eu preciso desesperadamente de ajuda! – admiti me desarmando. Era muito bom não ter que fingir que estava tudo bem.
Kate entendeu o recado e voou pela pista até nosso apartamento. No caminho, ela foi comentando sobre ela mesma, o que me permitiu uns bons minutos sem focar na minha própria situação, que foi um alívio. Assim que chegamos, senti como se tirasse de cima de mim uma tonelada de preocupações! Até minha culpa pareceu amenizar. Nosso apartamento era tão hospitaleiro e casual que quase fui às lágrimas. Joguei-me no sofá enquanto Kate largava sua bolsa no balcão da cozinha.
— E então, o que vai ser? Sorvete ou vinho?
— Sorvete! – falei tirando os sapatos e me encolhendo como uma criança. Ok. Eu ia contar tudo a Kate. — Pensando bem, acho que vamos precisar de algo mais forte!
— Tudo bem!
Kate trouxe dois copos de uísque e me entregou um.
— Não fique animada, só temos vinho mesmo. É que eu não sei onde coloquei as taças. – ela admitiu. — Uma dose vai ser suficiente ou melhor deixar a garrafa aqui? – ela perguntou e eu me limitei a encará-la. — Ok... A garrafa fica. Vamos lá Ana, comece que eu já estou ficando assustada!
Eu suspirei.
— Estou com medo Kate.
— Medo de que? – ela quis saber se acomodando na outra ponta do sofá.
— De tudo!
— Seja mais específica por favor! É sobre os Grey? Algo com Elliot?
— Antes tivesse sido com Elliot! – Sussurrei enquanto a culpa e a vergonha sobre o que eu tinha feito começavam a tomar conta de mim. Contrastando com esses sentimentos, a imagem de Christian saltava em minha memória, por um momento me deixando em duvida.
— O que aconteceu? – Kate perguntou depois de tomar um longo gole do vinho que não era lá essas coisas. — Estou preparada para qualquer coisa!
— Ok. Lá vai. Sem rodeios: eu dormi com Christian Grey.
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