Tempted

14 Wall-of-Sound


Notas iniciais
Voilà

Kate quase regurgitou o vinho e em seguida começou a rir. E riu.
— Ana, você não deve estar falando sério! – E riu. — Anda! Conta logo o que aconteceu!
— Ah, você não acredita? Bom... Pelo menos alguém ri dessa situação!
Escondi-me atrás do copo e tomei um longo gole de vinho. Bebi quase metade de uma só vez. Algo em mim deveria estar deixando claro que eu não estava brincando porque Kate se ajeitou no sofá e segurou minha mão por cima do copo de uísque.
— Ana... É verdade mesmo? Mas... Como...? Quando...? Por quê? Como assim...?
— Tudo começou quando nos conhecemos, eu acho. Eu estava nua na suíte do quarto quando ele entrou e...
— HEY! – Kate exclamou com os olhos quase saltando para fora das órbitas.
— Não houve nada. Só que ninguém me disse que aquele quarto era do Christian. Na verdade ninguém sabia que ele ia estar em casa.
— Foi assim que vocês se conheceram? – Kate perguntou, surpresa.
— Foi. – Admiti e vi Kate começar a se abanar. — Talvez tenha sido por isso que, desde o começo, nossa relação não parecia muito... Natural.
— Ele tentou algo com você? – Kate perguntou com cautela.
— Não! Não. Christian... – Suspirei. Era difícil definir qualquer coisa sobre ele. — Ele é muito determinado e direto, mas... não é mau caráter.
— Você... Por acaso... Está...?
— Não! Não diga uma coisa dessas! – me alarmei. O que ela ia dizer? Apaixonada? Não. — Eu vou contar como foram esses dias e depois você tira suas conclusões, ok?
— Ok.
Kate e eu terminamos o primeiro copo antes de eu continuar. Isso ia ser bem mais fácil se eu ficasse bêbada. Assim, falei a ela o modo como Christian me fazia sentir intimidada; contei das poucas conversas que tivemos, mas que eram cheias de impressões e sensações. Contei sobre o modo como Christian parecia distante de todos da família e como eu me impressionava ainda mais com ele por ser tão independente. Expressei o modo como me sentia solitária com o afastamento de Elliot, e a raiva que me dava por todo esse problema na empresa justamente agora. Fui detalhando o máximo possível de tudo que conseguia lembrar até o momento em que me senti fisicamente atraída por ele depois do meu breve afogamento no lago e a maneira como cuidou de mim. Expliquei o que aconteceu e como me senti quando Mia me mostrou o convite do casamento. Depois, descrevi a conversa que tivemos quando ele decidiu me dar o benefício da dúvida no meio da noite.
— E... Bom... Eu não preciso explicar o resto, preciso? – Perguntei soluçando por causa da bebida. — Ele é lindo, e gentil, e muito, muito... Intenso.
Kate parecia atordoada.
— Por favor, não. – ela agitou a mão no ar em sinal para que eu parasse, largando sua... sexta dose de vinho?... em cima da nossa mesa de centro. — Ana! Eu ainda estou um pouco perplexa para tirar conclusões.
— Eu sei...
— E como você está se sentindo?
— Horrível! Sabe... Você sabe que eu nunca traí ninguém, eu detesto ser traída, e o que fiz com o Elliot... Ainda mais enquanto ele está passando por problemas graves... E foi com o próprio irmão! E na casa dos pais dele!
— Ok. Pare sua depravada! – Kate tentou brincar, mas não surtiu efeito em mim. A culpa cresceu junto com minha quase embriaguez e eu comecei a chorar. Kate veio para meu lado. Depois de um tempo, voltou a falar. — Ah, Ana! Quer saber realmente o que eu penso?
— O que?
— Que você não cometeu nenhum crime!
— É fácil achar isso quando você não está se sentindo tão mal! Eu nem sei como vou conseguir encarar Elliot. Sábado ele vai estar em casa!
— Pense pelo lado positivo. Você vai ter uma chance de decidir.
Afastei-me de Kate o suficiente para olhá-la e ter certeza do que ela estaria insinuando.
— Decidir o que?
— O que você está sentindo. – ela respondeu de forma óbvia. — Sabe... Sendo sincera... Se você se apaixonou por Elliot em um mês, por que não poderia acontecer com o Christian também? Ou quem sabe o que você sentiu por Elliot só foi muito arrebatador, mas na verdade não é o suficiente... Você sabe... Para casar... Ah, sei lá... É muito fácil ficar romântica em Paris...
Eu fiquei momentaneamente embasbacada. Era isso que Kate pensava do meu casamento com Elliot? Era isso que ela sempre pensou?
— Desde quando você acha isso?
— Não me entenda mal... Todo mundo duvidou um pouco de quando você decidiu casar com Elliot. Mas eu acreditei depois, porque não tinha como duvidar de que você estava sinceramente apaixonada. E Elliot estava perceptivelmente na sua.
Balancei a cabeça. A perspectiva era muito mais confusa do que reconfortante. (Internamente algo me dizia que Kate só estava falando aquilo porque estava levemente bêbada).
— Mas e se for o contrário? E se o sentimento arrebatador e momentâneo for o Christian? – Perguntei.
— Isso você vai ter que descobrir! E se for ele... Ainda acho que não tem por que você se sentir culpada. – Kate esvaziou o resto da garrafa em nossos copos. — Todo mundo sente atração por alguém, e pelo o que você contou, Christian também ficou caidinho na sua!
Sorri. Droga eu não queria sorrir. Mas não conseguia evitar.
— Ele ficou. – Admiti como uma idiota.
— E tecnicamente você não está nem noiva nem casada, porque nenhuma das cerimônias aconteceu ainda! – Kate começou a bradar erguendo o copo, como que para brindar comigo. — E como última hipótese, você pode considerar que ter ficado com Christian foi uma despedida de solteira. Por que não? Homens fizeram isso por séculos, e ainda fazem, por que não nós? TIM-TIM!
Fui obrigada a rir e brindar com Kate. Ah! Eu a amo!
— Kate, amo você! – Falei.
— Também amo você, Ana Banana. Mas não o suficiente para me casar! – Ela falou, tirando com minha cara.
— HA! Muito engraçado!
— Para sua despedida de solteira ficar completa, só está faltando mais uma coisa.
Kate se levantou e foi até nosso hack, apertou uns botões e de repente Single Ladies invadiu o ambiente. Ri até minha barriga doer.
— Nada melhor do que divar um pouco, não acha? – ela falou começando a se balançar na música. — Vou pegar mais uma garrafa para nós.
— Ok. Eu arrumo a sala. – Falei me pondo de pé.
Comecei a arredar os sofás em direção à parede, abrindo espaço para o que seria a pista de dança da minha despedida de solteira improvisada.

***
POV Christian

Eu estava dirigindo há mais de duas horas. Já fui até meu apartamento, saí para correr, voltei, e agora voltei a dirigir. Provavelmente estava quase para sair da cidade e não conseguia pensar em lugar nenhum para onde ir. Tudo que eu sentia era que precisava achar um rumo. Eu achei que não poderia me sentir pior em relação à Anastásia depois do que fizemos, mas eu me enganei. Eu estava mais sem rumo que antes, e ela mais fora do meu domínio ainda.
O que fazer? O que fazer?
Desde quando eu me lembro de mim, nunca houve nada que conseguisse me acalmar tão facilmente. Na verdade nunca houve muito que me aplacasse num geral. Às vezes acho que foi isso que me fez chegar aonde cheguei. Nada era o suficiente, porque talvez eu nunca tivesse sonhado com uma coisa em específico.
Mas agora a situação era diferente. Finalmente eu tinha um desejo, mas que não parecia estar ao meu alcance. Ter transado com Anastasia não foi o que eu esperei que fosse. Claro, foi ótimo. Ela era linda e foi incrível. Mas ter transado com ela não foi tudo. Toda ela era tudo. No entanto, para ela, o que sobrou de mim foi culpa. Culpa! O que eu deveria extrair disso? Que ela realmente amava o meu irmão?
O toque do celular soou no autofalante do carro, conectado ao bluetooh. Tive que respirar fundo antes de apertar o vivia voz.
— Senhor Grey! – Disseram do outro lado, em voz alta.
— Rebeca, eu estou dirigindo. – informei à minha secretária.
— O senhor está vindo para a empresa? Há uns documentos urgentes que o senhor precisa assinar.
— Não! – respondi, mal acreditando em mim mesmo.
— Desculpe, senhor? – pelo visto Rebeca também não.
Eu estava dispensando trabalho.
— Eu estou com uma emergência. – falei. — Mande-me a versão digital que eu olho quando chegar em casa. Eu analiso e, se for o caso, dou uma confirmação e você insere minha assinatura digital.
Rebeca demorou um segundo a mais que o normal para responder.
— Tudo bem Sr. Grey. Tenha uma boa tarde.
Desliguei.
Droga! Esse era o efeito Anastasia em mim. Eu não me sentia alinhado entre físico, emocional e mental. Estava desestabilizado. Odiava me sentir em desvantagem, porque já estive nessa posição muitas vezes no passado. E agora Anastasia me fazia experimentar esse sentimento de novo.
Eu não deveria ter admitido o quanto ela estava mexendo comigo, nem ter ido tão longe... Agora eu tinha memórias, em vez de sonhos irreais, para povoar meus pensamentos sobre ela. Como quando, por um momento, ela parecia ter sentido alguma coisa além de... O que ela disse? Atração. Quando ela decidiu que queria estar em meus braços, em vez de atender ao chamado de Elliot. Por que ela fez aquilo? Por que me deu permissão?
Não. Eu não estava disposto... Eu não estava em condições de me deixar numa situação assim, vulnerável.
Continuei dirigindo, dando a volta até o centro de novo, até o Wall-of-Sound, um dos meus investimentos mais recentes. O lugar era ótimo para desfrutar de privacidade e diversão ao mesmo tempo. Música, luzes, bebidas, uma estrutura superequipada e bem estruturada... Tudo era administrado por um dos profissionais que mais entendia de casas de show e entretenimento em todo o país: Jason Taylor, meu antigo colega de faculdade.
Eu aprovei fazer negócio com a firma assim que Taylor me propôs e eu chequei o lugar. Vi o modo como Taylor trabalhava: ele não permitia falhas ou erros. Tudo era como deveria ser para garantir a satisfação total dos frequentadores. Era um negócio no qual eu realmente poderia investir.
Cheguei ao local em poucos minutos. Assim que atravessei as portas de acesso restrito, usando minhas digitais no leitor biométrico, alcancei os bastidores da boate. Tinha uma equipe razoável transitando de um lado para o outro, subindo e descendo os dois andares da casa de shows ainda fechada. Muitos que passavam por mim eram funcionários novos, que ainda não me conheciam pessoalmente, mas acho que eram capazes de me identificar. Isso era bom. Evitava situações desagradáveis de Ei, quem é você? Não pode entrar aqui!.
Passei direto até uma única sala de vidro, projetada acima do segundo nível da boate, de modo que quem estivesse lá pudesse ter uma vista panorâmica de tudo que se passava em baixo. Era o escritório de Taylor. Antes mesmo que eu batesse à porta de vidro, que não me permitia ver o que havia dentro, Taylor a abriu para mim, já que o vidro era transparente de dentro para fora.
— Grey! – ele me saudou. — Que surpresa!
— Boa tarde Taylor.
— O que é isso? Inspeção surpresa? – ele brincou.
— Talvez.
— Vamos lá, entra aí, cara!
Taylor teve que sair da frente porque nós dois não cabíamos ao mesmo tempo pela passagem da porta. Adentrei o escritório e fui até uma sofisticada poltrona de design contemporâneo: dava a impressão de ser muito instável e insegura, pela forma afunilada que tinha, mas era confortável. Taylor deu a volta em sua mesa de vidro e se acomodou no seu lugar. Ele desligou o monitor do computador em que trabalhava antes de se voltar para mim.
— Então, Grey, o que traz você aqui?
— Inspeção, como você falou.
— E você não espera que eu acredite nisso não é?
Balancei a cabeça. Era incomum alguém que trabalhasse comigo me tratar de maneira informal, mas também era um pouco revigorante.
— Não, na verdade não. – Respondi. — Acho que vim aqui mais como cliente hoje.
Taylor ergueu as sobrancelhas.
— Estamos num retrocesso? Tipo o Grey da faculdade?
— Talvez. – Achei graça.
— Bom, no caso... – Taylor apertou um botão no interfone acoplado à sua mesa. — Lyn? – chamou.
Pois não, senhor? – responderam no viva-voz.
— Pode trazer um Manhattan para mim e para um convidado, por favor?
Claro, senhor. Um instante.
— Se vamos entrar nessa onda de passado, melhor começar com o pé direito, não acha? – falou Taylor se voltando para mim.
— Na verdade não é tanto pelo passado que acabei chegando aqui hoje. – falei. — Mas não quer dizer que também não posso aproveitar a vinda para fazer uma inspeção. Como anda o Wall-of-Sound?
— Estava bom demais para ser verdade não é? – Taylor rolou os olhos. — Bom... Eu poderia mostrar o balanço da semana, do mês, as planilhas e tudo mais, mas... Tudo que tenho a dizer é que, se você deseja fazer uma inspeção, fique para mais tarde. Esse lugar está fervendo! Comprove por si mesmo.
Sorri. Nossos drinks chegaram. Uma garota vestindo um colete e calça pretos, com finos detalhes em LED entregou a bebida em minha mão e a outra depositou na mesa de Taylor. Aqui nesta sela o uniforme poderia até parecer um pouco demais. Mas lá em baixo, com a casa aberta, as luzes e o som, imaginei que o uniforme fosse parecer bem mais adequado.
— Obrigado, Lyn. – disse Taylor enquanto eu divagava.
— Mais alguma coisa? – ela perguntou e se voltou para mim.
— Não, obrigado. – respondi.
— Tudo bem. – Lyn respondeu e demorou alguns segundos em excesso antes de se virar e ir embora.
— Ainda chamando a atenção das garotinhas, não é Grey? – Taylor brincou.
— Por acaso eu fiz alguma coisa?
— Ah! Não se faça de santo! Quantas das suas funcionárias não dão mole, heim?
— Taylor... Há limites. – Assinalei.
— Tudo bem! – Taylor falou erguendo as mãos.
— Espero que você não fique dando mole para essas meninas. Não quero saber do meu nome envolvido numa empresa com caso de assédio sexual.
— Calma lá, cara! – Taylor falou. — Sabe que não sou de me meter em roubadas. Diferentemente da nossa época, se é que você se lembra!
— As roubadas nos encontram de uma forma ou de outra. – respondi com um pouco menos de humor do que eu gostaria. A roubada em que eu estava agora não tinha a ver com as nossas roubadas de adolescência.
Taylor me olhou de forma questionadora.
— Mas então... Você disse que não veio pelo passado... Também não veio simplesmente por negócios... O que é que está pegando? Alguma roubada? – ele adivinhou.
— Digamos que sim.
Eu não sabia se era a coisa certa falar dos meus problemas, mas por muito tempo, durante a faculdade, Taylor foi o único que entendia alguns aspectos da minha história. Moramos no mesmo orfanato ainda criança, e só viemos descobrir isso mais tarde. Acaba que ele é uma das raras pessoas fora do contexto familiar que conhecem partes sombrias do meu passado. Poderíamos nos considerar amigos...
— Desembucha! – Ele falou me tirando dos pensamentos. — Tem a ver com a empresa ou é mais... pessoal?
— Completamente pessoal. – admiti.
— Algo que fez você vir aqui para beber e esquecer?
— Não sei se esquecer é possível no momento.
Taylor riu. Eu parei de beber para encará-lo. Não suportava que zombassem de mim.
— Foi mal, cara! Mas não acredito que Christian Grey veio até meu humilde estabelecimento por causa de uma mulher!
— Alto lá! Eu não disse nada sobre uma mulher.
— A menos que você seja gay e, pelo seu histórico eu diria que não, o que mais, além dos negócios, poderia o motivar a perder uma tarde de trabalho? E pior: vindo aqui para falar comigo?
Ok. Foi minha vez de rir.
— É. Talvez você tenha razão.
— Obrigado pela parte que me toca. – ele se fez de ofendido.
— Na verdade tem a ver com uma mulher, mas eu não vim aqui para abrir o coração, se é o que você está pensando — zombei.
— Grey, sabe que eu também não trabalho com streapers! Se é o que você está procurando! – Ele deu o troco.
— Também não vim procurar streapers! Ah, dá um tempo!
— Então você veio apenas beber? – Taylor perguntou, incrédulo.
— Acho que sim.
— Nesse caso, vamos é trabalhar!
Ele falou e ligou o computador novamente. Eu não acreditei, a princípio, mas no fim das contas, entramos no começo da noite falando de administração e gerenciamento de crise.

***
POV Anastasia

Eu estava começando a ficar tonta. Tonta de verdade de tanto rir e dançar pela sala ao som de divas do pop, junto com Kate. Foi quando fomos obrigadas a parar porque o vizinho do lado veio bater na nossa porta dizendo que estávamos incomodando e ele ia chamar a polícia. Desligamos o som e, assim que ele foi embora, começamos a rir.
— Nossa! Ana, há quanto tempo não fazíamos isso? – perguntou Kate se jogando no chão, recostada no sofá.
— Parece que faz uma eternidade! Ah! Eu não queria parar!
Kate riu.
— Precisamos de momentos assim! – ela passou a mão pelo rosto, descolando os fios de cabelos do suor. — HEY! Tive uma ideia!
— Qual? O vinho acabou! – falei.
— A gente poderia sair.
— Sair? Para onde?
— Eu não contei uma coisa ainda... – Kate disse e deu um risinho bêbado. — Eu conheci um cara...
Arregalei os olhos e meu queixo caiu.
— E quando pretendia me contar? – inqueri.
— Não estou dizendo que haja alguma coisa entre nós. Só estou dizendo que conheci. – ela se defendeu. — Foi numa cobertura. Eu fui fazer uma matéria sobre atrações culturais da cidade, e ele foi um dos entrevistados.
— Sério? Mas o que isso tem a ver com a gente, aqui e agora?
— É que ele administra uma casa de shows. Uma das melhores. Totalmente alto nível. – Kate falou com os olhos brilhando. — E ele me deixou com seu cartão... Ah, Ana, diz que vamos!
Comecei a rir.
— Como assim diz que vamos? Kate, você prometeu me devolver para os Grey antes da meia noite, lembra?
Kate rolou os olhos.
— Não devemos nada para os Grey. – ela falou seguramente e se colocou de pé. — Quer saber? Esqueça os Grey!
Eu ri.
— Como assim?
— Foda-se! Estou intimando você a ficar. Não existe Grey. Não existe Elliot nem Christian! Vamos nos divertir sem nada de caras!
Comecei a me animar com a perspectiva. Talvez fosse exatamente disso que eu estava precisando.
— Mas... – eu disse. — E quanto ao cara que conheceu?
— Só precisamos dar uma ligadinha para ver se o convite ainda está de pé.
— Quer dizer que ele foi só seu entrevistado, mas no fim deixou um convite para conhecer a balada dele? – cruzei os braços. — Ingenuidade não combina com você, Katherine Cavanag!
Ela riu.
— Eu sei... Mas não é só porque ele me fez uma cortesia e eu estou aceitando que tenho qualquer obrigação de corresponder a ele! Apesar de ele ser um gato! Parece aqueles seguranças bombados com tatuagem no pescoço e tudo, mas é gentil e educado.
Kate disse enquanto sorria bobamente.
— Ok. E pra você se trata apenas de uma cortesia desinteressada? – perguntei cética. — Mas tudo bem! Você me deixou curiosa! Vamos lá, ligue para ele!

***
POV Christian

Enquanto Taylor saiu do escritório para checar os últimos preparativos antes de abrir o Wall-of-Sound, aproveitei para conectar meu e-mail e responder às necessidades mais urgentes da empresa. Respondi às mensagens quase desesperadas de minha secretária e pedi que adiasse todos os compromissos para a semana que vem. Durante este fim de semana queria ter um pouco mais de paz. Resolver problemas menores, estressando-me menos. Assim que terminei de usar seu computador, Taylor voltou.
— Você vai ficar mais um pouco, não vai? – perguntou ele estranhamente animado, batendo palma uma vez.
— Pode ser que sim. O que você está pensando?
— Tenho uma boa notícia. Vou receber uma visita especial hoje. Já conferi o show com nosso DJ, e pedi para ele não economizar no set que preparou para essa noite.
— E de que visita especial você está falando?
— Uma mulher que conheci. – ele admitiu. — Ela vem acompanhada, e não quero dar a impressão de que estou desesperado.
Com essa eu realmente ri.
— E você está desesperado?
Taylor bufou.
— Não! Mas ela vai trazer uma amiga. Sabe o que isso quer dizer.
— Não, não sei.
— Talvez ela esteja interessada também, mas não quer parecer precipitada. Aí convida uma amiga para vir junto. – Taylor falou como se fosse algo que qualquer um devesse deduzir também.
— E você espera que eu despiste a amiga dela só para lhe dar vantagem?
— Qual é Grey! Pelos velhos temos!
Era tudo de que eu precisava: me meter em alguma roubada, pelos velhos tempos!
— Não sei não, Taylor. Não tenho paciência para esse tipo de coisa.
— E de que tipo coisa você está falando?
— Ficar jogando conversa fora com uma mulher que possivelmente vai ficar a noite toda dando mole. Não estou mais nessa!
— Não seja preconceituoso, senhor Grey! – Taylor me repreendeu. Ora, eu só estava pensando a partir das minhas experiências do passado. — E vai que ela é diferente? E se ela te ajudar a desencanar dessa outra garota que está te deixando numa fria? A final, você veio até aqui... Reaprenda a socializar, cara!
— Sinceramente, se você não fosse meu amigo, eu o demitiria!
— Ainda bem que sou isento.
— Mas não brinque com a sorte!

***
POV Anastasia.

Kate conseguiu garantir que entrássemos na balada do seu tal conhecido-bonitão e agora acabávamos de nos arrumar. As duas horas que gastamos escolhendo maquiagem e roupa, tirando o tempo do banho, nos permitiu recobrar o bom senso. Nosso vinho barato logo perdeu o efeito.
— O que acha? – ela perguntou, parando em frente a mim com um vestido preto e jaqueta de couro. Estava impressionante.
— Acho que vou ficar em casa, quem sabe me enterrar, porque você me faz parecer um patinho feio! – brinquei.
— Ah, sua boba!
Kate riu e seguiu para o espelho experimentar os brincos. Fui até lá perto e chequei minha imagem mais uma vez. Como eu não poderia mais abusar da recuperação do meu tornozelo, decidi não usar salto, e sim uma sapatilha, que combinava com uma calça skinni que Kate me emprestou. A jaqueta vermelha, também de Kate, destacava minha pele e combinava com o batom, que me deixava com cara de femme fatale. Olhando nós duas no espelho, parecíamos realmente muito atraentes. Eu, mais esportiva, e Kate, sexy e casual.
— Estou começando a ficar ansiosa. – falei. — Vamos logo! Estou com bons pressentimentos!
Kate sorriu para mim pelo reflexo.
— Uh la la! Assim que gosto de ver!
— Sabe... Realmente parece que não tenho mais problema nenhum. E talvez não tenha mesmo! – admiti. — Christian não fez mais caso sobre o que fizemos, ninguém mais sabe o que fizemos, agora é só passar por cima.
— É assim que se fala! – Kate passou um braço por cima dos meus ombros, em apoio.
De repente fomos surpreendidas por um som de buzina.
— É o táxi. – falei. — Vamos lá!
Eu não fazia ideia de onde era o lugar, mas Kate me garantiu que sabia onde era, então nem me preocupei em prestar muita atenção no caminho. Durante o breve percurso, Kate me falou um pouco mais do tal cara que era dono do lugar.
— Ele deve ter quase trinta, se já não tiver. É solteiro, até onde sei, e está há dois anos na cidade tomando conta do negócio.
— Então ele não é daqui?
— Parece que não. Mas fez faculdade aqui.
Antes que eu puxasse mais conversa, o táxi parou em frente a uma porta de vidro preta, coberta por um toldo transparente, em cima do qual reluzia o nome Wall-of-Sound. Fiquei surpresa com a fila que se formava a partir dali até quase dobrar a esquina. Um segurança estava na entrada, checando quem poderia ou não entrar.
— É aqui. Descemos desse lado, Ana! – Kate falou, despertando-me.
— Ah, sim, claro. – falei e destranquei a porta.
Quando saí, tirei do bolso uma nota e entreguei para Kate, contribuindo com o preço da corrida. Logo, Kate também saiu e enlaçou seu braço ao meu.
— Parece legal, não é? – ela perguntou inegavelmente animada.
— Sim. E caro. Você ainda tem certeza? – hesitei.
— Claro! Fomos convidadas!
Kate arrumou a postura e lançou para trás dos ombros uma longa e ondulada mexa loira de seu cabelo impecável. Caminhou até a entrada do lugar me levando ao seu lado. Ouvimos murmúrios contrariados do pessoal da fila quando nos aproximamos do segurança e ele nos deixou passar à frente de todos.
— Não acredito que acabei de fazer isso! – Comentei constrangida pela entrada vantajosa que tivemos. Mas acho que Kate não ouviu mais.
Passamos por um portal que detectava metais, mas fomos liberadas. Tirando os brincos e o celular de Kate, não tínhamos mais nada de metal. Assim, cruzamos mais uma porta, finalmente para dentro da casa de shows propriamente dita.
Logo à primeira vista, fiquei sem fôlego. Deu para entender porque o nome do lugar era Wall-of-Sound. O ambiente era quase um pentágono, muito amplo, aparentemente dividido em diferentes áreas de convivência e pista de dança, as paredes que o circundavam pareciam grandes painéis eletrônicos, onde linhas, luzes e feixes se desenhavam em padrões quase psicodélicos, que se agitavam sempre no ritmo da batida que tocava, dando a impressão que, de fato, estávamos cercados por paredes de som.
Havia um segundo andar que dava a volta pelo ambiente, como uma sacada que ia de um lado ao outro, formando um longo corredor suspenso. Nesses camarotes ainda havia bem pouca gente. Num terceiro nível, acima desses camarotes, havia um grande cubo de vidro que eu não sabia dizer se era um compartimento ou um adereço a mais que refletia luzes difusas sobre todo o resto, mas era muito impressionante. Estava cheio de gente, mas não lotado o bastante para ser desconfortável. Eu não estava acostumada àquelas luzes, por isso não soltei o braço de Kate.
— E aí? Cadê seu amigo? – perguntei tentando soar acima do barulho e da música.
— Ele disse que estaria na entrada, nos esperando.

***
POV Christian

Depois que as portas se abriram, rapidamente o Wall-of-Sound ganhou vida. Fiquei satisfeito em ver que eu estava aplicando meu dinheiro num empreendimento promissor. Taylor tinha razão: a fila em torno do lugar e a forma como as pessoas pareciam satisfeitas do lado de dentro dizia mais do que um relatório sobre como as coisas iam por aqui.
Assim que todas as luzes foram acesas e nosso DJ contratado começou a tocar, toda a estrutura do ambiente ganhou vida. Não me arrependi da pequena fortuna que gastei aqui investindo em arquitetura, design e engenharia.
— Cadê sua garota? – perguntei a Taylor me afastando da parede de vidro de seu escritório panorâmico.
— Vamos ver!
Ele falou sentado à mesa. Mexeu algo no computador e então ligou o monitor que mostrava imagens da câmera de segurança da entrada. À distância não consegui distinguir ninguém na imagem, mas Taylor se levantou de pronto:
— É ela. Vamos lá!
— Se eu me chatear com a amiga dessa sua amiga, vou diminuir seu salário. – ameacei.
Taylor riu.
Saímos do escritório, que se trancou automaticamente. Descemos as escadas até o térreo e trilhamos por um corredor nos bastidores da estrutura central da casa de shows, o que nos livrou de ter que driblar todas as pessoas que dançavam e andavam de lá para cá na pista. Quando finalmente chegamos até a entrada, bom... Definitivamente nada poderia ter me preparado para aquela surpresa.
— Katherine Cavanag! – Falou Taylor, anunciando-se e fazendo as garotas olharem em nossa direção.
A moça loira, ao lado de Anastasia, a mesma que vi hoje quando saí de casa, virou-se e sorriu, sem me ver, a princípio. Assim que Taylor deu um passo para ela, abrindo a frente para mim, finalmente ambas me enxergaram. Anastasia me enxergou.

— Christian! – as duas disseram juntas, surpresas.
— Vocês já se conhecem? – perguntou Taylor depois de cumprimentar Katherine.
— Boa noite Anastasia, — eu disse. — Boa noite, Katherine, certo?
— Sim. Boa noite! Quem diria, não é? – Katherine respondeu. Anastasia não se manifestou.
Ela estava estupidamente linda hoje. Melhor que em todas as ocasiões nas quais já nos encontramos na casa dos meus pais. Ela parecia viva, de um jeito novo. Tinha um ar mais seguro e fortalecido que não tinha a ver só com a maquiagem. Se não fosse o fato de ela olhar mais para Kate e Taylor, deliberadamente evitando olhar para mim, quase poderia dizer que estava indiferente à minha presença. Isso pareceu um bom sinal.
— Bom, Taylor, essa aqui é a amiga de quem eu falei, Anastasia Steele. Assistente de direção da CIP. – Katherine foi dizendo.
— Muito prazer, senhorita! – falou Taylor, tomando a mão de Anastasia e dando-lhe um beijo.
— Como vai? – ela respondeu para ele.
Uma subida sensação de desconforto me atingiu. O que? Ela ia passar a noite me ignorando?
— Bom, já que vocês parecem conhecer meu amigo aqui, Christian Grey, vou poupar apresentações. Que tal irmos nos sentar? – Taylor propôs.
— Claro. Ótima ideia. – respondeu Katherine.
Ela deu uma olhada significativa para Anastasia, mas eu não tinha como saber exatamente o que ela quis dizer. Taylor tomou a mão de Katherine e seguiu à frente com ela, deixando a mim e a Ana para trás.
Anastasia começou a segui-los logo, sem esperar por mim.
— Anastasia! – Chamei. Ela parou sem se virar. Fui até ela.

***

POV Anastasia

Só podia ser brincadeira! Ou uma pegadinha. Christian tinha que ser justamente o amigo do cara que Kate mal conhecia? Era coincidência demais, ironia demais! Mas ao mesmo tempo dificilmente poderia ser uma armação. Em choque, evitei olhar ou falar com ele. Ainda mais porque ele estava absurdamente lindo, ainda todo de preto, mas agora sem casaco ou paletó. As mangas enroladas até a altura dos cotovelos empregavam-lhe um ar relaxado e seguro, evidenciando seus braços, fazendo-o parecer forte e sensual.
Eu não poderia ficar perto dele.
Kate me lançou um olhar que me dizia claramente segura a onda, o que eu traduzi para você aguenta por uma noite, não é?. Mas na verdade eu não sabia se seria forte o suficiente para resistir à intensidade da presença inesperada de Christian.
Quando Kate começou a adentrar na festa junto com seu amigo, Taylor, que, diga-se de passagem, realmente parecia um segurança de tão forte, com a ponta de uma tatuagem à mostra na lateral do pescoço, eu só pensei em ir atrás e manter o não-diálogo entre Christian e eu pelo maior tempo que eu conseguisse. Mas...
— Anastasia! – ele chamou.
Meu corpo reagiu, paralisando no mesmo momento, mas sem me virar. Senti Christian colocar sua mão sobre a minha coluna e começar a me conduzir entre as pessoas seguindo no mesmo rumo de Kate e Taylor. Um calor reconfortante irradiou a partir do meio das minhas costas até meu peito.
Ok. Não pira. Aja naturalmente.
— Estou surpreso por você estar aqui. – Christian falou, quebrando a continuidade da música em meus ouvidos.
Eu não soube o que dizer. Ele continuou nos guiando até alcançarmos uma mesa redonda, com assentos altos, que ficava perto de um balcão de bebidas, todo trabalhado em preto, como se fosse feito de ônix. Atrás, uma parede forrada de garrafas em todos os tamanhos e cores. Kate e Taylor se acomodaram um ao lado do outro, deixando livres outros dois lugares pares. Assim, Christian se sentou ao meu lado. Uma garçonete vestindo colete e calça, com detalhes em LED se aproximou de nós e anotou nossos pedidos. Para minha sorte, o lugar era tão incrível que eu tinha muito com o que me distrair enquanto lutava para fingir que não era Christian Grey ao meu lado.
— Então, vocês se conhecem de onde? – Taylor, que até então conversava com Kate, perguntou virando-se para mim, como que para tentar me incluir na conversa.
— Ah, o que?
— Christian reconheceu vocês. Vocês se conhecem de onde? – Ele repetiu.
— Ah... Do trabalho. – menti. Senti imediatamente um formigar na minha orelha direita, o que provavelmente indicava o olhar de Christian sobre mim.
— Ah, entendo. – Taylor disse e olhou para Christian de um jeito cúmplice.
Kate olhou para mim e sorriu. Espero ter deixado claro que não gostaria de me identificar como noiva de Elliot. Estava definitivamente a fim de não assumir complicações. Espero que ela não comente nada sobre isso com Taylor.
Vendo que eu não ia prosseguir uma conversa com ele, Taylor, que na verdade pareceu ser um cara bem legal, voltou sua atenção para Kate. Christian e eu ficamos lado a lado, mudos, como dois estranhos, por alguns minutos angustiantemente longos.
Nossas bebidas chegaram e, assim que bebericaram um pouco dela, Kate e Taylor se levantaram e foram dançar. Senti-me sendo absorvida por uma bolha de pressão invisível ali, ficando para trás ao lado de Christian.
— Anastasia... – ele falou de novo.
Antes que ele continuasse, me ergui e virei de frente para ele.
— Onde fica o banheiro? – perguntei.
Visivelmente confuso, e até um pouco irritado, Christian me deu as indicações. Saí correndo de perto dele o mais rápido possível. Achei o banheiro no fim de um corredor de luzes vermelhas, passei direto pela pequena fila na entrada para os sanitários e corri até uma pia vaga.
Eu estava corada, ridiculamente, mas o resto estava no seu lugar e eu parecia bem. Por dentro era que estava toda a loucura. Meu coração parecia latejar nos ouvidos. Eu não fazia ideia do que esperar dessa noite.
Parte de mim estava entrando em parafusos de expectativa. Mas expectativa de que? Christian e eu não tínhamos o que se poderia considerar como um relacionamento. Não tínhamos nada além de atração e eu estava decidida a não sucumbir a ela de novo.
***

POV Christian

Mas que droga ela estava fazendo? Eu não poderia acreditar nessa minha sorte. Anastasia bem aqui ao meu lado, no entanto agindo como se não me conhecesse. Um lado de mim dizia era uma forma de reprimir o que ela poderia sentir por mim, porém, outro lado de mim dizia que era simplesmente a expressão de que ela não sentia nada demais.
Eu, por minha vez, estava acelerado, ansioso como um adolescente perto da garota mais bonita da escola, naqueles filmes idiotas. Eu detestava ficar nessa posição.
— Anastasia... – tentei pela segunda vez, chamar sua atenção.
Ela se levantou de súbito, perguntando pelo banheiro. Indiquei o caminho e fiquei a observando sumir no meio da multidão. A Imaginei sumindo para sempre. Seria essa a sensação? Como se ela se perdesse de mim?
Se no começo eu achava que minha atração por ela era puramente sexual, agora eu já não sabia mais como definir. Por que continuar me sentindo tão abalado por ela se nós dois já havíamos dormido juntos?
Mais agi do que pensei quando me levantei da mesa e saí abrindo caminho até a entrada do banheiro feminino. Todo meu corpo parecia quente e agitado. Katherine e Taylor estavam perdidos em alguma parte da pista de dança que não os vi. Parei na saída do corredor e esperei alguns minutos por Anastasia.
***

POV Anastasia

Mexi e remexi no meu cabelo, brincando com as ondas que consegui fazer, até que uma mulher atrás de mim resolveu dar uma cutucada no meu ombro.
— Licença, queridinha, você não tem nada melhor para fazer? – ela falou com uma expressão de poucos amigos.
— Desculpa. – respondi rapidamente. Eu tinha esquecido que era um banheiro público.
De toda forma, saí da frente do espelho e comecei o caminho de volta para o salão. Eu já tinha decidido seguramente que manteria a postura fria e indiferente em relação a Christian, mas todo meu momento de reflexão no banheiro começou a ir por água abaixo quando cheguei ao corredor das luzes vermelhas e fui tomada pela mão até o meio da multidão. Christian esteve à minha espera. Seu toque contra a pele da minha mão fez meu sangue borbulhar e irradiar energia.
A música havia mudado no tempo em que passei no banheiro, agora era forte e quente, com uma cadência envolvente e estimulante. Somando-se a isso todas as vozes que conversavam em torno de nós, mesmo que eu protestasse por estar sendo arrastada até a pista, Christian não ouviria. Com as sombras e feixes de luzes dançantes, eu também não conseguia enxergá-lo com precisão. Quando ele parou e se virou para mim, seus olhos ora apareciam, ora sumiam em escuridão. O ambiente fazia as imagens às vezes parecerem pouco reais.
— O que você está fazendo? – falei praticamente gritando.
— Tirando você para dançar! – Christian gritou de volta, puxando-me um pouco mais para perto.
— Mas eu não danço! – falei e tentei me afastar, mas ele não me soltou.
— Eu já vi você dançar. Na biblioteca. – ele falou, direcionando minhas mãos até seus ombros, depois voltando as dele para minha cintura.
— Eu não acho que devíamos... – consegui dizer.
— Você não quer conversar, então, estou propondo algo menos lógico. – Ele disse.
— Como assim?
— Chega de tentar entender!
Dito isto, Christian se abaixou e tomou meus lábios nos dele, mantendo-me presa em seus braços enquanto não parávamos de nos mexer. Bem... Eu não estava realmente dançando, mas era impossível não ser levada pelo movimento da massa ao nosso redor, e pelo movimento do corpo de Christian contra o meu. Eu não entendi o que ele quis dizer, mas beijá-lo naquele momento e daquela forma me dava uma ideia sobre o que é ser menos racional.
Droga! Eu estava perdida. Precisava urgentemente tomar uma decisão. O que era bem difícil de fazer quando seu corpo começa a reagir contra sua racionalidade. Parecia completamente impossível não aproveitar a sensação de ter Christian tão perto, porque nos conectávamos com muita facilidade.
Tudo que consegui discernir no tempo em que nos beijávamos foi que era realmente muito bom beijá-lo. Quando paramos, ele não se afastou, e continuou me beijando pelo pescoço.
— Christian, nós vamos nos meter em um grande problema! – falei. Meu coração estava... feliz. Literalmente dando saltos no peito. Então era por isso que eu estava ansiando?
Eu precisava saber se esse era um sentimento arrebatador e passageiro ou não. Mas como?
— Já temos um problema, Ana... – Ele murmurou contra minha pele. — Eu que o diga! Não consigo... – e me chupou. — ...parar de pensar em você.
A impressão foi de que alguém ligou os aquecedores do ambiente em pleno verão: me senti envolvida em uma onda de calor que só fazia me amolecer.
Segurei Christian pelo rosto e o tirei de cima da minha pele.
— O que você está me dizendo? – perguntei. Seria bom ter uma ideia precisa sobre o que se passava com ele.
— Atração não é suficiente. – ele falou, dando a impressão de que continuava a conversa que começamos ontem. — Não é fácil, para mim, definir... Não sei se devo...
— Não estou disposta a me complicar mais. – falei. Christian balançou a cabeça em concordância. — Precisamos tentar raciocinar isso.
— Agora você quer conversar? – ele disse ironicamente.
— Só achei que seria bom tentar manter uma distância.
— E ficar distante é melhor que isso? – Christian perguntou colando seu corpo em mim. Fiquei surpresa de não ter entrado em ebulição.
— Já nos rendemos a isso, e tudo que sobrou depois foi culpa. – lembrei.
— Tudo bem. Tive uma ideia.
Christian tornou a pegar minha mão e me levar por entre as pessoas, dessa vez indo até nossa mesa. Na tranquilidade relativa daquele espaço, ele falou enquanto eu me sentava:
— Espere aqui, ok?
— O que você vai fazer?
— Pegar meu paletó e a carteira. Já volto.
Assim, ele virou as costas, sumiu no mundo de luzes dançantes. Tentei encontrar rapidamente Kate e seu amigo Taylor também, passando uma vista ao redor, mas era impossível identificar. Assim, tomei mais um gole da bebida que eu havia deixado na mesa. Depois percebi que eu não tinha certeza de qual era o meu copo.
Fiquei entretida com as paredes de som e a forma como o DJ interagia com o público, pedindo para agitarem com a música, ou falando algo da próxima seleção que iria tocar. Assim, pouco tempo depois, Christian retornou.
— Pronta? – ele perguntou me estendendo a mão.
— Pronta para que? – inqueri. Ele parecia animado. Era tão bonito!
— Vamos dar uma volta! Eu prometo que não vou levar você para nenhum lugar onde possamos... Hum... Perder a cabeça.
Eu ri. Foi interessante como essa preocupação pareceu ser realmente necessária.
— E o que vamos fazer? – quis saber.
— Ora, Srta. Steele... Existe um mundo de coisas para além de atração sexual. – Ele me respondeu cinicamente.
— Ouvi falar em atração sexual? – perguntou Kate se aproximando de repente de volta à mesa. Ela estava radiante, mas um pouco descabelada. Claro que foi só pela dança, pensei rapidamente e ri.
Taylor veio atrás dela. O que foi uma sorte, porque nos livrou de ter que responder àquela pergunta imprópria de Kate. Aposto que ela estava se divertindo com a minha situação.
— Vocês querem pedir alguma coisa? Temos um cardápio incrível, pode apostar! – Taylor falou. Parecia tão radiante quanto Kate.
— Podem pedir, mas Anastasia e eu estamos de saída! – Anunciou Christian seguramente.
— Saída? – Perguntou Kate com um sorriso que parecia querer saltar do rosto.
Olhei para Christian de forma inquisidora, mas ele pareceu nada abalado com isso.
— Não se ofenda, Taylor, mas nós vamos dar uma volta. Sua recepção foi ótima! A casa está indo muito bem.
— Obrigado, cara! Eu fico tomando conta de tudo por aqui.
— E posso saber para onde você está pensando em levar minha amiga? Eu disse para sua mãe que ela estava sob minha responsabilidade hoje. – falou Kate, parecendo sutilmente ameaçadora.
— Não se preocupe, Srta. Kavanag. Eu me responsabilizo. – Christian respondeu.
— Ah é? E que tal eu ser a responsável por mim mesma? – Me meti. — Seria muito bom.
— Posso usar isso a meu favor no tribunal, — Christian cochichou para mim.
— Então vamos? – Falei mais alto, fingindo que ele não tinha dito nada.
— Só tenho uma coisa a dizer antes! – Interferiu Kate. — Divirtam-se!

Notas finais
Obrigada por ter esperado e lido até aqui. E aí? Quais as expectativas?