Tempted

16 O fim de semana II


Notas iniciais
Eis o cap. gente!

Christian tirou as mãos de mim e realinhou a postura. Remexi-me, de repente um pouco desconfortável, em cima do piano. A sensação de que eu tinha estragado tudo pesou sobre meu humor, e me senti afundando.
— Desculpa, eu não quis ser invasiva. – me apressei em dizer.
Christian cruzou os braços. Parecia ter posto uma barreira automática, invisível, entre nós.
— Por quê? – ele perguntou.
— Quero entender você... Saber quem você é. Como é. – disse sinceramente. Ele me olhou sob as sobrancelhas, que agora projetavam uma sombra sobre seu olhar claro. — Talvez me ajude a entender por que você me atrai tanto... – joguei.
Christian franziu o cenho e caminhou dando a volta no piano. Puxei minhas pernas para cima da cauda do instrumento e girei para não perdê-lo de vista.
— O que atrai você é o que eu sou agora. – ele disse, sentando-se ao piano. — É tudo que você está vendo. Então por que quer saber de uma coisa que não existe mais?
Observei Christian me perfurar com seus olhos. Tentei ignorar o modo como isso mexia com minha timidez, e encarei de volta. Por que ele disse isso? Como assim o que não existe mais? Era mais que óbvio que, por trás de toda a fachada de segurança, independência e altivez de Christian, havia alguma coisa que ele não mostrava, que sua família não ousava comentar.
— Você está errado. – surpreendi-me comigo mesma ao dizer.
— Você não tem como saber.
— Eu não sou cega, Christian... Eu... Sei que há alguma coisa. Algo que faz você ser como é.
— E como eu sou? – ele jogou.
Mordi o lábio. A pergunta me forçava a pensar em tudo que sempre me chamou atenção nele. Seria como abrir meus pensamentos e mostrar a forma como eu o via. Seria me revelar. Mas se fosse para tentar entendê-lo melhor... Bom, talvez valesse à pena.
— Você é exatamente como tudo isso que eu vi até agora. – falei gesticulando de forma a abranger o espaço a nossa volta. — Você está aqui em cima, como esse apartamento. Presente, mas ao mesmo tempo distante de tudo que o cerca. Você parece inapreensível, e também inacessível. Ao mesmo tempo em que há alguma coisa muito bonita e atraente, há algo que intimida e repele.
— Mas eu estou aqui, não estou? Com você? – ele inquiriu.
— Está, mas não é como se eu pudesse realmente conhecê-lo de verdade. – admiti. Era isso que me frustrava. — Quando nos conhecemos... Por que ninguém na sua casa me falou de você normalmente como falaram da Mia? Quando você cuidou de mim depois que eu caí no lago, você disse que não era do tipo de pessoa que tinha histórias boas pra contar, e que teve que cuidar de si sozinho por muito tempo.
Christian levantou o olhar deixando perceptível que estava surpreso por eu lembrar um detalhe daqueles.
— Você disse que eu tinha problemas para me relacionar. – ele rebateu. Eu quase ri.
— É, eu disse. Mas não mude a conversa.
— Não estou mudando. Só quero saber o que de tão importante há em saber do meu passado.
— As coisas ficariam bem mais claras... – admiti. — Todo o modo como é agora é uma consequência.
Christian pareceu pensar sobre o que eu disse por último.
— Você poderia não gostar do que houve lá atrás. – ele falou de forma soturna.
Engoli em seco. Era uma possibilidade. Os Grey não eram muito mais transparentes a respeito de Christian do que ele mesmo. E se alguma coisa ruim realmente tivesse acontecido? Mas era difícil acreditar. Eu olhava para Christian, o modo como ele age na vida, seu sucesso e autoconfiança... Um homem como ele não poderia ter cometido nenhum grave erro.
— Foi algo... Hum... Que você fez? – arrisquei.
Christian me olhou como se eu tivesse o beliscado ou insultado a sua mãe.
— Anastasia! – ele exclamou.
— Amigos contam as coisas um para o outro. – joguei. — Não é para isso que estamos aqui?
— Você é do tipo de amiga que fuça tudo? – ele perguntou já estressado.
Ok. Aquilo ofendeu.
Escorreguei para fora do piano e comecei a marchar de volta para sala. Apanhei meu casaco estava sobre um dos sofás.
— O que você vai fazer? – Christian perguntou vindo atrás de mim.
— Vou para casa. – respondi.
— Casa?
— A minha. – enfatizei. — Chega de Greys por hoje.
Caminhei até a entrada e apertei o botão do elevador.
— Você disse que não ia embora. – Christian falou, seguindo-me.
— Você disse que estávamos aqui para entender as coisas. Você perguntou um monte de coisas sobre mim no jantar. Eu te contei. Mas eu também tenho dúvidas, curiosidades. Você não está disposto a se abrir. E eu não quero ficar fuçando tudo.
Não sei como conseguir ser tão clara e objetiva. Eu nem queria ir embora, mas não poderia ficar se nada se esclarecesse com isso.
***
CHRISTIAN
— Desculpe. – Eu disse. O elevador chegou e Ana não entrou no mesmo instante, como se esperasse eu acrescentar algo. — Não sei se vou conseguir falar daquelas coisas... Foram tempos difíceis.
Ela olhou para baixo, depois para mim. Mas sua expressão não dizia muita coisa.
— Eu queria entender... – ela disse.
Pensei rapidamente por onde eu poderia começar ou que parte eu poderia contar sem ter que reviver momentos difíceis. Sem contar coisas das quais não me orgulho de ter feito. Sem mostrar o lado nada glorioso da minha vida. Imaginei se a atração que Ana sentia por mim resistiria ou não ao que eu era, por trás de tudo que ela via hoje. E se ela não gostasse? E se eu acabasse com seu interesse por mim? Eu perderia a única coisa que ainda me dava esperança de tê-la por perto.
— Eu lamento, Ana... – falei.
— Eu também, Christian. – Ela disse, entrando no elevador e apertando o botão para o térreo.
Meu coração deu um descompasso e eu congelei. Poderia ter entrado no elevador e dito qualquer coisa que a fizesse desistir de ir embora, mas não pude. Fiquei com a última imagem de Anastasia me olhando como se enxergasse através de mim, mas ainda assim não conseguisse entender o que via. Mas ela via. Mesmo me conhecendo há tão pouco tempo ela via algo... Como?
Nenhuma outra mulher jamais me questionou sobre mim mesmo ou meu passado. Eu sempre fui muito claro para qualquer pessoa: Christian Grey, CEO, filho dos bem-sucedidos Carrick e Grace Grey. Era de conhecimento público que eu era um adotado, mas meus pais pagaram uma boa quantia para todos aqueles que pudessem ser fonte de informação para que não contassem nada além disso à mídia. Ninguém sequer sabia o nome do orfanato de onde vim, ou qualquer coisa a mais sobre minha história. Tenho que reconhecer que devo isso ao Carrick, mas não posso ignorar também que ele estava protegendo o próprio nome ao tentar ocultar meu passado.
Como Anastasia poderia ter sido tão perspicaz? Será que alguém chegou a falar algo de mim para ela? Grace? Mia? O próprio Elliot?
Voltei para dentro do apartamento e fiquei impressionado com o modo como aquela sala, que há poucos minutos atrás parecia muito alegre, agora voltava a parecer vazia demais. Agora as palavras de Ana pareciam definir muito mais o lugar do que as palavras do corretor que me vendeu aquele apartamento: um espaço distante e inapreensível. Como eu?
***
ANASTASIA
Já estava muito tarde quando saí do apartamento de Christian. Cheguei ao hall de entrada e me sentei em uma das poltronas caríssimas da recepção. A mulher que estava atrás do balcão de atendimento e o segurança na entrada me olharam, mas deveriam achar que eu era moradora, por ter descido do elevador principal. Eu precisava definir como chegar em casa em segurança. Ligava para Kate, mas ela não me atendia. Eu poderia pegar um táxi, mas não tinha trazido dinheiro o suficiente, nem os cartões.
— Ah, acho que já a identifiquei. – uma voz de homem soou vinda de um corredor à esquerda. Olhei rapidamente e notei que era um homem corpulento, vestido todo de preto, falando ao telefone. Estranhei quando ele veio até mim.
— Com licença, senhorita. Sou Robert Smith, trabalho para o sr. Grey. Ele me mandou para levá-la aonde desejar ir.
Não, só poderia ser pegadinha!
— Avise para o Sr. Grey que está tudo muito bem, não preciso do favor dele. – respondi.
— Senhor Grey me avisou que a senhorita não aceitaria e me orientou a insistir. – Robert continuou, mantendo-se à minha frente.
— Pode ficar a noite inteira parado aí então. – respondi, mexendo no celular e chamando por Kate de novo. Mas só caía na caixa postal.
— Por favor, senhorita, a senhorita pode checar meu distintivo. – Robert disse me mostrando uma carteira de identificação. Olhei rapidamente e de fato parecia real.
Na verdade eu não duvidava de que Christian poderia ter dezenas de empregados no prédio. Um guarda-costas, um segurança e um motorista. Não seria de se admirar.
Banquei a difícil por mais uns vinte minutos. Mas já tinha passado de meia noite e eu comecei a considerar que Kate jamais me atenderia. Eu não queria pagar o papelão de dormir numa cadeira de recepção, ainda mais correndo o risco de Christian descer e acabar com que tinha sido uma saída dramática de minha parte. Não que eu estivesse preocupada com o modo como saí de seu apartamento, realmente, mas eu havia cedido, cedido ao meu bom senso e aceitado vir para cá para que nós dois tivéssemos a chance de nos dar bem um com o outro. Deixar as coisas mais esclarecidas. Mas Christian não pareceu mais tão disposto assim, e eu tinha um compromisso. Mesmo não me sentindo como antes, eu precisava me lembrar de Elliot.
— Certo, sr. Robert. Vamos lá. – falei por fim.
Robert pareceu despertar e demorar uns segundos para entender que eu estava aceitando a carona. Ele descongelou do lugar onde tinha ficado de pé por quase vinte minutos.
— Obrigado, Srta. Vamos até o estacionamento, por favor.
***
Cheguei no meu apartamento, que dividia com Kate. As luzes estavam todas apagadas e tudo estava silencioso. Robert foi muito eficiente e atencioso, me deixando até a porta do prédio, antes de ir embora, logo em seguida. Sozinha, entrei e fui direto para o quarto. Tudo que eu precisava fazer era dormir. Tentar tirar um pouco Christian do pensamento. No caminho, lembrei de Elliot e senti culpa novamente. Eu tinha que tomar jeito. Que merda eu estava fazendo? Eu era noiva! Não deveria ficar dando asas a qualquer atração que eu sentisse por alguém. E parecia ainda muito pior com Elliot dando um duro danado pra salvar a empresa, sem saber de nada do que estava acontecendo.
— Sim, Ana, querida, — disse a mim mesma, entrando debaixo dos lençóis. — Isso precisa parar.

***

No dia seguinte, um barulho irritante me fez despertar. Tapei os olhos para me proteger da luz que entrava pela janela. Estava nublado, mas ainda assim claro demais. O celular vibrou mais uma vez me fazendo eu identificar, agora claramente, o som que havia me acordado.
Cacei o aparelho no bolso da calça que eu estava usando ontem e me surpreendi quando vi a foto de Elliot no mostrador: duas mensagens:

De: Elliot Grey
Hora: 8h00
Bom dia, meu bem. Estou indo para casa hoje, como prometido. Espero que esteja melhor. Quero muito encontrar você.
–---------------------------------------
De: Elliot Grey
Hora: 8h02
Saudades ♥

Dei um salto na cama, assustada. Como assim? Elliot!
Lembrei-me que ele realmente havia dito que faria um esforço para voltar para casa no fim de semana. Olhei no mostrador da data, e hoje era sábado. Tive vontade de me jogar contra a parede e me espancar até voltar a ser eu mesma. De repente a noção da minha situação atual caiu sobre mim com o peso da realidade. Meu noivado estava batendo na porta! Mas apesar desse choque de razão, eu não poderia negar que o sentimento não era o mesmo de antes. Estava me sentindo como numa esteira em direção a algo para o qual eu não fazia mais esforço. Lembrei de Christian. Essa mesma esteira que me levava em direção ao casamento com Elliot parecia me afastar de Christian, que há pouco tempo atrás nem existia para mim!
— Ah, droga! – bufei, me jogando sobre a cama novamente.
Passados mais uns minutos em que eu tentava pensar sobre tudo e acaba não pensando em nada, decidi me colocar no automático novamente. Levantei e fui até o banheiro. estava me sentindo péssima e tinha um pouco de olheira. Depois de tomar banho, vesti um robe e fui para a cozinha. Tudo que eu precisava era alguma coisa forte que reativasse meu cérebro. Fiquei pensando se Kate não teria voltado. Quis conversar mais uma vez com ela sobre minha situação e ter um ponto de vista menos turvo que o meu.
Fiz um pouco de café instantâneo e voltei para o corredor dos nossos quartos, parando na porta do de Kate. Ouvi um ronco e fiquei aliviada por saber que ela estava em casa. Segurei a maçaneta e girei, me colocando para dentro sem cerimônia. Éramos praticamente irmãs. Mas não estava preparada para o que vi.
— OH! – arfei deixando a caneca de expresso cair no chão fazendo um estrondo.
Kate e o amigo de Christian, Taylor, se sentaram subitamente, cobrindo suas partes íntimas com o lençol.
— ANA! – Kate se sobressaltou.
— Ai meu deus! – eu falei, virando de costa e saindo do quarto.
Voltei para a sala e me sentei encolhida no sofá. Nunca tive a desagradável experiência que as vezes alguns filhos têm de flagrar os próprios pais na cama, mas acho que deve ser muito parecido com o que eu senti naquele momento. Queria me esconder. Minutos depois, Kate apareceu na sala, vestindo uma camisa e calça de moletom. Taylor veio logo atrás, usando a mesma roupa de ontem.
— Bom dia. – Kate falou. — Eu não sabia que você tinha chegado, eu nem ouvi você!
— Cheguei ontem à noite. – respondi.
— Olá! – Taylor acenou um tchauzinho.
Droga! Ele era amigo de Christian, e passou a noite com a minha melhor amiga! E eu aqui! Será que eles pensaram que Christian e eu também... ANA! PARE!
— Ah... Então... – Kate falou quebrando o silêncio constrangedor. — Eu vou... Refazer o expresso. Você vai querer uma xícara antes de ir, Taylor?
— Ah... Pode ser.
Taylor respondeu e se sentou no sofá em frente ao meu. Parecia tão deslocado e constrangido quanto eu. Kate era que parecia mais natural. Acho até que estava achando engraçado. Ela sempre conseguia rir de quase qualquer situação. Queria poder rir da minha naquele momento.
Taylor começou a cutucar a própria unha enquanto esperávamos em silêncio. De vez em quando nos olhávamos e trocávamos um sorrisinho sem jeito. Eu ainda queria poder me enterrar, mas nunca quis tanto como no momento seguinte:
A campainha do apartamento soou na entrada a alguns metros atrás de mim. Fiz menção de me levantar para ir atender, mas Taylor se pôs de pé antes.
— Pode deixar comigo. – falou parecendo mais ansioso que eu por sair daquela situação constrangedora. O que só piorou.
Ouvi o som da porta sendo aberta e alguém dando o passo para dentro.
— Taylor? – uma voz masculina perguntou.
Não poderia ficar pior: era Christian!

Notas finais
Espero que ainda estejam gostando. O fim de semana só está começando. (Gente, sei que tem uns erros por aí, mas tenho conseguido escrever e não revisar... mil perdões)