Tempo da Lua
3 Terra
A terra está presa debaixo das unhas, causando atrito nas pontas dos dedos. Essa é a única região que ainda não foi castigada pela nova vida. A terra está encharcada pelo orvalho da madrugada e muito disposta antes do sol queimar no céu. A lama sobe nos braços, manchando também as mangas da camisa. Dante não se importa. (Mesmo ciente que precisará esfregar bastante a camisa caso queira usá-la novamente). Diante da quietude das primeiras horas do dia, tudo é delicado como o carinho de uma mãe adorada.
As habilidades de jardinagem são reduzidas; o pouco que sabe aprendeu assistindo Brontolo. Ele para de remexer a terra e franze o cenho. (Brontolo do dialeto florentino significa algo como resmungão na língua comum, e agora Dante desconfia que ninguém daria a alcunha ao filho de bom grado. Deuses, ele não sabe o nome real de Brontolo! Brontolo deve ter um nome, pelos deuses! Ou Deus, ainda não decidiu a vertente que mais agrada.)
Brontolo pouco expressava além de resmungos e ofensas aos colegas de labuta. As raras frases completas surgiam quando Brontolo estava com fome, exigindo, questionando e até criticando a demora das servas para servir as refeições. Às vezes, em uma língua desconhecida, resmungava algo que posteriormente foi traduzido para “Na minha terra as coisas são diferentes! Nenhuma mulher demoraria tanto para cumprir as obrigações”. Dante nunca teve coragem para questionar a origem dele porque Brontolo o suportava com uma exigência inegociável: silêncio total enquanto trabalhava.
Eventualmente, quando bem humorado (quase nunca!), Brontolo verbalizava as explicações e até era capaz de contar curiosidades da labuta — nunca curiosidades pessoais. Dante rabiscava no caderninho com o carvão lapidado a figura densa de Brontolo: baixa estatura (tão pequeno quanto as mulheres mais baixas); pele queimada pelo sol; tronco largo, barrigudo e barba espessa. O cabelo escuro caía ao redor da boina que Brontolo usava até para dormir. (Dante pensava nele como um barril de madeira velho).
(Pensando agora, Brontolo diferenciava-se entre os servos. Não tinha passado, nem interesse em construir o futuro. Era casado e fiel à terra; garantindo extensas plantações e colheitas prósperas, situação muito peculiar já que o cultivo em maior escala é feito exclusivamente pelos camponeses; tendo o duque e outros nobres direito ao que foi produzido. Dante não sabe o que era feito com a colheita, nem teve a oportunidade ou curiosidade de questionar Adrian sobre. Havia, é claro, nos arredores da casa, muitos jardins exóticos. Árvores frutíferas importadas; ervas; vegetais com nomes estranhos e muitas flores. Das ervas, Nora cuidava, expulsando Brontolo diversas vezes).
Terra boa, bem cuidada; a ausência de ervas daninhas e muito adubo são ingredientes principais. “A terra é sensível, senhorzinho”, Brontolo justificava quando repetia que paciência e gentileza eram as verdadeiras habilidades indispensáveis para o sucesso do plantio. “Sensível como o coração de uma dama. E capaz de notar as más intenções no coração de quem a toca. A terra é capaz de ouvir. E falar. Sim, falar! Isso mesmo”.
A memória alimenta o discreto sorriso de Dante. Antes de começar, Dante baixinho pediu permissão para manejar a terra porque assim o ranzinza jardineiro havia ensinado. E, ainda inseguro, insiste na tentativa de salvar as frágeis mudas de alecrim e sálvia. Todo o esforço é feito pensando em Nora, que Dante nem sabe se está viva. O pensamento causa um breve aperto no peito, e ele para de mexer na terra, vagando os olhos.
Semanas se passaram desde a última carta que receberam de Nora. De vagas informações e sentimentos, a carta pouco fez ao coração angustiado de Dante, senão aumentar mágoa e saudades. A decisão de partir em busca da alma de Selena criou sentimentos contrários: Dante em silêncio aceitou porque está muito ciente que foi o causador de toda a desgraça. Porém, depois de tanto tempo, a aceitação da morte de Selena parece o único caminho seguro. Às vezes acredita que se a morte de Selena fosse aceita, poderiam viver em harmônia novamente. Em Florença. Juntos como a família que um dia foram. A crença é louca e insustentável porque Adrian e Dante não saíram da terra natal por causa do luto; eles partiram porque, aparentemente, todos os demônios do mundo decidiram que Florença era um excelente lugar para as férias.
(Não por eles, é claro! Um pouco mimado e estressado com a convivência prolongada e nada mediada com Madalena, Dante pouco quis ouvir sobre o que aconteceu nas semanas em que Adrian e Nora estiveram longe. Tem a impressão de que Nora comentou sobre demônios, vampiros e tudo de ruim que há no mundo. E em menos de quinze dias, ela estava sendo visitada por essas estranhas e insistentes criaturas. E, bem, sim. Os olhos tipicamente azuis e humanos se transformam em irremediáveis esferas pretas. Dante ouviu um dos demônios sugerir que a alma de Nora e a alma de Tahmon — demônio que aceitou o pacto de Dante para trazer Nora de volta — estavam fundidas).
Não pare.
Dante balança a cabeça e olha ao redor, procurando a origem da voz. “Ei, bem aqui”. Ele estreita os olhos em busca do locutor. “Não me esqueça aqui também!Termine o serviço, por favor”.
Duas coisas são recusadas com veemência: I. Dante se recusa a acreditar que está ouvindo uma voz baixinha e estridente; II. Dante prefere morrer do que considerar que a terra está falando. Ele olha para baixo, para o que as mãos trabalhavam, quando ninguém se aproxima.
— Estou enlouquecendo.
A resposta surge em uma vibração longa:
Por que acha isso, garoto?
Dante deixa a sálvia e a terra caírem no chão e recua.
— Estou ensandecido.
Por quê?
— Estou ouvindo vozes! — Dante agarra o cabelo e puxa levemente. — Vozes da terra!
Eu não sou terra.
Ele ri.
Não sou terra! E você não é daqui, é? Por que mexe no que não te pertence?
— Há pouco tempo estava pedindo que continuasse! — Ele responde e se encolhe ao notar. — Deuses… E Deus.
Cuide de mim, sim! Mas não sou terra!
— Só pode ser um demônio!
E um demônio seria capaz de gerar tudo isso?
— Você nada gera. Apenas muito fala.
E você é imprudente. Bem que as meninas comentaram. Um menino no corpo de homem.
— Meninas? Que meninas?
As meninas do rio. Você…
— O que você está fazendo, estrangeiro?
A aproximação do trio silencia a conversa com a terra. Dante arrasta-se para longe do pedaço de terra falante e esfrega o rosto, causando irritação nos olhos. Murmúrios são trocados entre Fatma e Rade. Borko também está presente, mas se limita a murmurar uhum bem baixinho. Dante olha ao redor, examinando a cena em que está sendo flagrado.
As ervas têm as raízes expostas. A terra preta está espalhada ao redor do canteiro, e agora Dante não sabe com qual monte estava conversando. Ele sente o arrepio surgir na nuca e esfrega o ombro contra o rosto. As ferramentas, duas pás enferrujadas e uma tesoura cega, estão mais próximas do trio do que dele, o que causa outro desconforto acompanhado do esquisito movimento de ombro. (Nem sabe porque se incomoda tanto com a localização das ferramentas. Os três são da família. Todos eles são da família, certo? E Dante não deveria nem cogitar que as ferramentas de jardinagem possam ser usadas em intentos malignos. Certo?)
— Eu estou… — Dante começa na língua comum. — Cuidando disso.
Borko analisa o canteiro com as sobrancelhas arqueadas e comenta, suave:
— Essa horta estava esquecida.
O discreto sorriso preenche o rosto de Dante.
— Exato. — Dante pega as mudas de sálvia e alecrim. — E são ótimas ervas! Servem como excelentes temperos. Principalmente para as carnes. — Ele franze o cenho. Aprendeu isso com as cozinheiras do palácio, que eram bem mais amáveis do que o jardineiro. Elas apenas temiam que Dante fosse flagrado pelo senhor da casa na cozinha. Borko assente conforme escuta, demonstrando interesse. — E também… — Dante sorri, sem graça. Foca em Borko. Filho caçula de Kamel e Yanca e único integrante da família que demonstrou gentileza. Fatma mantém os braços cruzados sobre o peito, exibindo uma carranca que muito se assemelha a aparência neutra de Kamel: sobrancelhas escuras e densas curvadas; olhos pequenos e estreitos, sérios e impacientes; bochechas e lábios caídos. Todos exibem pele escura em diferentes tons, que combinam com os longos cabelos escuros. (Não se sabe se é pela breve gentileza, mas Dante nota que o cabelo escuro, levemente ondulado, emoldura o rosto do Borko com mais cuidado e fineza do que dos outros). — Bom, alecrim é excelente para a proteção. Sálvia funciona de forma similar. Mais para limpeza do que para proteção, acredito. São ervas bem…
Fatma ri, jogando a cabeça para trás.
— Você fala como uma bruxa.
Dante segura a saliva na boca. Hannah o aconselhou a manter a discrição.
— Eu… — Ele morde o lábio inferior. — Tenho conversado mais com Hannah. Ela sabe muito sobre várias coisas.
— Hannah é a nossa sacerdotisa! — Borko responde, empolgado. — E herdou o nome da sua avó. O vô amava muito a irmã. — Fatma encara Borko, estreitando os olhos. — É uma pena que…
— Hannah não deveria ser homenageada. — Fatma interrompe, erguendo o tom de voz. — Hannah abandonou a família, a cultura e o povo. Nada fez de bom. Até mesmo mudou de nome porque não queria ser lembrada das origens. — Fatma rodeia o canteiro, analisando as ervas. — O nome é uma maldição. Até mesmo a sacerdotisa foi corrompida.
— Hannah enlouqueceu. — Rade comenta. — Não acredito que gasta o seu tempo conversando com ela.
Dante até considera comentar que Hannah é uma das poucas pessoas que demonstra interesse em conversar com ele. Desiste da ideia rapidamente ao presumir os longos e cansativos murmúrios que Fatma é capaz de proferir. (Ele realmente não sabe como uma garota de dezessete anos pode ser tão cansativa!).
— Não me importo em conversar com ela. — Dante se vê rebatendo. — Deve ser ruim viver daquele jeito. — Ele junta as ervas e a terra. — Mal consegue andar. E ninguém mais a escuta porque pensam que é louca.
— Hannah é louca. — Rade soa sério. — E ela merece a vida que tem.
Borko desvia os olhos. Fatma concorda. Dante segura o ar (e as palavras).
— Você realmente desperdiça tempo ao dar tanta atenção a ela. — Fatma debocha. — Mas esse é o seu feitio, não? — Rade solta a risada pelo nariz. Borko balança a cabeça. — Pouco se interessa no que realmente importa. Em aprender o que realmente importa. Entre nós está há mais de um ano, e não é um de nós. Até o seu pai, que mais tempo foi corrompido pelos homens, se assemelha mais ao nosso povo.
Dante solta uma discreta risada pelo nariz. Inúmeras são aos jeitos de descrever Adrian. Parecido com os licanos definitivamente não é um desses. Talvez seja até ingênuo.
— E o que realmente importa?
— Você é muito tolo. — Rade ri. — Ele é mais mãe do que pai. — Diz para Fatma. — Aposto que a mãe dele era uma daquelas humanas estúpidas.
Dante desvia os olhos. O peito arde conforme as palavras crescem.
— Flores. Ervas. Desenhos. Histórinhas. — Fatma despreza. — Podem até ser interessantes para vocês, humanos. O povo licano, por outro lado, foi feito do fogo e da força. Não temos tempo pra essas bobagens.
— Ainda assim, têm coisas lindas aqui. Eu vi tapeçarias que…
— Os fracos, os doentes e os velhos precisam se distrair, afinal. — Fatma aproxima. Dante estreita os olhos. — Quão injustos seríamos por exigir o impossível dos impossibilitados? Descuidados do destino, muitas vezes não são capazes nem de se defender do inimigo, quanto mais defender a família! Desses devemos ter pena! A eles são permitidas as atividades brandas para que não se sintam inúteis para a comunidade. E não o são! Pelo contrário, a obra dos impossibilitados é feita com tamanho zelo que é apreciada até pelos estrangeiros. — Dante ergue o queixo. Fatma lamenta: — E, ainda assim, nunca conheci um irmão orgulhoso da incapacidade. Até o mais doente entre nós almeja a cura para que possa voltar à lida, para andar pela comunidade e pelo mundo com orgulho. Andar da forma com que a Mãe o fez. Do fogo. Da força. Pronto para entregar a vida pelo povo.
— Acho que devíamos… — Borko tenta interromper o sermão.
Fatma ergue a mão, silenciando o irmão e prossegue:
— Mas aqui está você: jovem, saudável e forte! Com coragem, ergueria-se conosco como a nova geração. — Fatma arrasta o pé na terra. — Ainda não sei se a sua apatia é tremor ou preguiça.
— Talvez seja incapacidade. — Rade acrescenta. — É frágil como uma flor.
Fatma e Rade riem. Dante ainda está apoiado nos joelhos, como estava enquanto trabalhava no canteiro, e se força a manter o queixo erguido enquanto os comentários queimam os ouvidos e espalham a ardência por todo o corpo. A boca está cheia de palavras maldosas, que se emaranham em frases desconexas em diferentes idiomas. As mãos estão fechadas em punhos, e Dante sente o ardor das unhas contra as palmas.
— Bom, — Fatma exibe o último sorriso. — É necessário colocá-lo à prova para descobrir. Não hoje, mas muito em breve. Até lá… — Fatma chuta a terra escura na direção de Dante, salpicando grãos nos olhos dele. Dante fecha os olhos com força, e as lágrimas escorrem. Não é um choro; é a reação natural dos olhos irritados. Mesmo assim, as risadinhas de Fatma e Rade completam a humilhação. Dante mantém o rosnado na boca. — Cuide das plantinhas, bebezinho.
Dante mantém os olhos fechados, cheios de lágrimas de irritação, enquanto escuta o afastamento de Fatma e Rade. O terceiro membro se aproxima. A respiração de Borko é ruidosa e alta. Dante pode imaginá-lo apertando as mãos contra as coxas enquanto sofre para elaborar uma única frase. A brisa da tarde traz o cheiro de lavanda que Borko tem. Lavanda, suor e outra coisa que Dante é incapaz de definir no momento.
— Eu só… — Borko recua. — Não…
As palavras se perdem na brisa. Dante se esforça para abrir um dos olhos, lutando contra a sensação de terra por toda a pálpebra. Broko é forma confusa e embaçada, que foge antes de conjugar a frase.
(...)
O dia é feio como o diabo. As nuvens escuras escondem totalmente o Sol. O vento insistente anuncia a chuva que se arrastará por muitos dias, totalmente atípico para o começo de Abril. Ou Junho. Madalena franze a feição. As últimas semanas são um amontoado de acontecimentos insignificantes que alteraram a percepção de tempo. Apenas uma lembrança a mantém levemente conectada ao mundo: o bebê que estava gerando no ano anterior, antes de Nora tomar o corpo e matá-lo, nasceria em meados de junho de acordo com os cálculos da Lady Rossi.
O bebê completaria um ano nas próximas semanas, se Nora não tivesse acontecido. Madalena tem certeza que depois de vinte e seis anos de pura existência, a vida finalmente teria sentido à luz da maternidade. Então, haveria três crianças pela casa. Selena eventualmente voltaria, e Dante mudaria o temperamento conforme a idade adulta chegasse. Todas as noites rezava por isso até Ginevra confessar o pecado, e Madalena rapidamente adoeceu diante da realidade.
Uma carta. Uma condenação definitiva. Relembra enquanto encara os envelopes fechados com o selo da família Conti. Todas as cartas chegaram depois que o túmulo de Selena foi violado, provavelmente enviadas por Ginevra. Madalena não teve interesse em lê-las porque sabia que todas eram amaldiçoadas.
Nada do que a irmã escreva pode diminuir os grilhões que a impedem de repousar todas as noites. A imaginação fértil a faz construir várias vezes a situação em que Selena estava, uma criança de oito anos, antes de padecer. E todas as noites, enquanto implora por perdão a um deus que nunca a respondeu, Madalena se pergunta como Ginevra, que é mãe de duas crianças com idades semelhantes, concordou com os horrores cometidos debaixo do teto que governava com mão de ferro.
Também não pode se eximir da responsabilidade. Madalena foi facilmente convencida que o mar, a companhia de crianças da mesma idade e o lar cristão seriam o bastante para que Selena se tornasse uma criança típica, sufocando a ascendência sobrenatural.
Madalena balança a cabeça e seca as lágrimas. Olho por olho; dente por dente. O bebê que gerava foi ceifado, assim como Selena. Não tem direito de lamentar tanto. Não será a primeira, nem a última mulher a despedir-se dos filhos.
Repreensão feita, Madalena olha ao redor. A varanda do quarto de Adrian está exatamente como foi deixada. Com vista para a entrada da propriedade, próxima das maiores árvores. A pequena mesa com duas poltronas eram usadas para os desjejuns e as ceias nos dias que Adrian sustentava pouco carisma.
Enquanto eram casados, antes de tudo acontecer, Madalena tinha pouca coragem para visitá-lo nos aposentos privados. Duas ou três vezes o acompanhou no desjejum. Nunca na ceia. Temia que Adrian, de repente, decidisse tomá-la por direito como esposa. Madalena ri da própria tolice. Se Adrian quisesse exigir os direitos enquanto marido, o faria em qualquer lugar, a qualquer momento. E a verdade é que poucas vezes estiveram juntos, por insistência de Madalena, pressionada por Ginevra, e muitas taças de vinho para ambos. Não era agradável; sempre estava tensa, suando em excesso e infeliz. Provavelmente Adrian não se sentia diferente.
Em muitas camadas Adrian existe, e Madalena teve vislumbres em diferentes épocas.
Adrian acompanhava Marco nas visitas à família Moretti, ao norte de Florença. O ducado que abrangia a região de Toscana, tendo Florença como centro, era recente e delicado. As alianças com as nobres casas eram de extrema importância para Marco, que precisava fortalecer a autoridade. E a casa Moretti ainda era a maior potência da região. Um único detalhe impediu que Riccardo se tornasse o duque: a ausência de herdeiros. Ciente da mágoa e influência de Riccardo, Marco se preocupava em agradá-lo.
Madalena era uma criança entre nove e dez anos com pouquíssimo entendimento sobre política. E Adrian, oito anos mais velho, pouco a notava também. Por outro lado, Ginevra dispensava grandes esforços para conquistar a afeição do futuro duque.
O casamento entre Adrian e Ginevra era a tábua de salvação para ambas as casas. A mágoa de Riccardo seria amenizada: como pai da futura duquesa teria grande poder de decisão nos assuntos da corte. E para Marco era vantajoso porque manteria a Casa Moretti submissa e dócil.
Enquanto Ginevra planejava o futuro como duquesa, Adrian era desinteressado e tinha pouquíssimas palavras; a maioria eram pedidos direcionados aos servos e concordâncias submissas aos senhores das casas. Madalena o achava antipático. Talvez soberbo. E quando a notícia de que Adrian havia gerado uma criança fora do casamento espalhou-se, Madalena o julgou desrespeitoso.
Dante nasceu seis semanas antes do casamento de Ginevra e Adrian. A mãe era filha de um comerciante e faleceu no parto. Embora ofendida, Ginevra estava disposta a seguir com a união quando Marco garantiu que a criança seria criada pelos avós maternos, bem longe de Florença.
Misteriosamente, Marco faleceu dias depois. E Adrian foi nomeado duque e pai aos dezenove anos. Na época corria-se os boatos que Adrian assassinou o próprio genitor, mas Madalena nunca teve coragem de perguntar. Se pudesse, talvez faria o mesmo com Riccardo.
É claro que a primeira decisão enquanto duque foi cancelar o casamento com Ginevra. Moretti se ofendeu profundamente. Os outros senhores estavam divididos entre preocupação e reconhecimento de oportunidade. Muitas ofertas de matrimônio foram feitas. Adrian retribuiu todas com isenções fiscais e outras benfeitorias que conquistaram o apoio da maioria.
Então, Madalena o reencontrou cinco anos depois. Riccardo estava magoado e isolado, preferindo negociações com a família Conti, muitas vezes intermediada por Ginevra que floresceu diante da morosidade do marido. Naquela visita, na tentativa de aproximar novamente as casas, Adrian estava acompanhado de Eleonora. Foi a única vez que a viu antes da morte. A aparição era tão impressionante que Madalena, no auge dos dezesseis anos, queimou em pensamentos esquisitos que posteriormente reconheceu envergonhada como desejo.
Mas o que podia fazer? Madalena olhava para muitas mulheres naquela época, e Eleonora era alta, esguia e esbanjava um longo cabelo escuro como a noite, que contrastava com a pele pálida e os olhos num tom de azul-escuro. Os boatos mais aceitos na época, provavelmente espalhados pela própria corte de Adrian, eram de que Nora advinha de uma família aristocrata da Rússia. A verdadeira natureza da mulher só foi conhecida nos círculos mais estreitos e especializados, como a ordem de Lucien.
Nessa visita, Adrian foi diplomático e quase carismático. Madalena se lembra de tê-lo visto rir pela primeira vez na companhia da esposa. Pessoalmente, ela também sorria bastante para a Nora. Nunca foi capaz de julgá-lo por isso.
A próxima vez que se encontraram foi na cerimônia de casamento. Eleonora estava morta há quase dois anos, e Adrian extremamente fragilizado, tanto pela perda quanto pela pressão que as famílias exerciam. A proposta de Riccardo voltou a ser a tábua de salvação, que foi agarrada com alívio.
Dante tinha nove anos, e Selena completaria três anos em poucas semanas. Madalena se viu pressionada por dois lados. Verbalmente, a família esperava que cumprisse o papel enquanto esposa e gerasse um herdeiro o mais rápido possível, para garantir que Dante e Selena tivessem pouca importância. Afinal, Dante era um bastardo e não poderia herdar o ducado, e Selena era a legítima herdeira que somente poderia casar-se com outro nobre.
Do outro lado, Adrian nunca verbalizou que gostaria que Madalena fosse mãe para as crianças. Provavelmente não teve coragem, nem capacidade. Madalena também nunca tocou no assunto. Nessa época, ele se comportava como quando era jovem: falava apenas o necessário para lidar com as questões do ducado. Atravessava a imensa casa nas sombras, perdido nas próprias questões, fugindo especialmente de Dante, que exigia muita atenção.
Por dois anos, Madalena esperou que Adrian a procurasse. Enquanto isso, ela se distraía com a fé e com a companhia da Lady Rossi. Às vezes era capaz de passar as tardes com a Selena, sempre doce, curiosa e falante. Madalena supunha que Selena era como a mãe. Dante, por outro lado, estava cada dia mais parecido com o pai; resmungos soltos, escondendo-se pelos cantos e sempre infeliz.
Adrian estava bêbado quando a procurou. Um misto de alívio e decepção a invadiu quando notou que ele não a procurava como homem. Estava chateado e enlutado, passou boa parte da madrugada desabafando sobre a vida miserável que tinha. A situação tornou-se rotina nas próximas noites. Eventualmente, Madalena também contou sobre a infância perturbada por espíritos e da juventude desajustada. Adrian foi a primeira e única pessoa que ouviu os pensamentos pecaminosos que tinha sobre mulheres. Ele riu alto, como fazia quando estava com Nora, rosto afundado no travesseiro e disse: “Bem, eu entendo. Mulheres são bem mais bonitas que os homens. Peles macias. Cabelos sedosos. E, bom, você sabe, peitos bonitos”.
“Adrian!”, Madalena berrou antes de se esconder debaixo da coberta, muito envergonhada.
No dia seguinte, quando sóbrios, Madalena implorou para que o segredo fosse mantido. Ele concordou sem pestanejar. Contudo, sempre que estavam fora de casa — na Igreja, no centro, em eventos de outras famílias — trocavam sussurros avaliando as mulheres presentes. Madalena queimava de vergonha e escondia o rosto no braço dele. Adrian a abraçava, rindo em seu ouvido.
Às vezes, embriagado, Adrian sugeria que Madalena encontrasse uma companheira. Madalena se escondia envergonhada, e ele argumentava por quase quinze minutos.
“Madalena, temos apenas essa vida. Eu estou condenado à infelicidade desde que Eleonora morreu. Você, não. Não deve me acompanhar nessa cansativa carta de suicídio”.
“Não é uma carta de suicídio”.
“Para mim, sim”. Madalena revirava os olhos, “Você não tem curiosidade?”
“O tempo todo”.
“Então, vamos encontrar alguém pra você.”
“Quem, Adrian?! Você está se ouvindo?”
Ele riu, arqueando as sobrancelhas.
“Você acha que é a única mulher a gostar de uma mulher?”
“Fale baixo!”
“Não é não. Eu já vi várias”
“Nossa Senhora, por onde você esteve andando…”
“Eleonora gostava de…”
“Não! Eu não quero saber o que fazia com a sua esposa. Você está bêbado, isso é nojento, e eu… Quero pensar em você como alguém muito conservador. Que nojo”.
Adrian riu, e Madalena ficou muito séria ao dizer: “Além disso, eu preciso gerar um herdeiro”. Adrian parou de rir e a encarou, erguendo a sobrancelha. “Não precisa”.
“Você não entende isso. Não como eu”.
“Você nem gosta de crianças, Madalena”.
“Como você pode dizer isso? Eu gosto da Selena”. Adrian sorriu, pensando na filha. “Dante é mais… complicado”. O sorriso dele sumiu. “Ele é… Raivoso. Não me suporta”.
“Dante…” O suspiro foi alto. “Talvez Marco estivesse certo”. Madalena o encarou, séria. “Talvez eu devesse ter deixado Dante com os avós. Como homem, sou miserável. Como pai… Criei o Dante. E me envergonho disso”. Adrian afundou a mão no cabelo escuro, bagunçando-o. “Você tem razão. Preciso de um herdeiro. Não posso ser ingênuo. Dante não pode herdar o que tenho. Muito menos Selena. Outro filho… É a única coisa que posso fazer para garantir o futuro estável das crianças. Para garantir que na minha ausência Dante não seja menosprezado. Para garantir que Selena não precise se submeter a um herdeiro que nem conhece. Caso eu parta hoje…”
“Não fale isso, por favor”.
“É a verdade. Na minha ausência hoje, quem assume é Vincenzo. E Vincenzo… Pode não ser cruel, embora eu não o suporte. Mas é inútil. Um completo inútil”.
Algumas tentativas foram feitas até Madalena engravidar. Ao descobrir a gestação, optou por esperar as primeiras semanas passarem antes de revelar. Nunca contou. O corpo foi invadido por Eleonora. Talvez agora Adrian saiba, mas nada disso importa. Agora ele a odeia por Selena. E não há perdão à espera.
Ela suspira, afundando o corpo na poltrona. Talvez Sylvia tenha razão: ama o Adrian. Não como um homem, nem como marido. Também não é como um irmão; seria estranho vê-lo desta forma. Talvez seja como…
Muitos minutos são gastos na tentativa de explicar. Ela desiste e consegue entender porque pode ser tão estranho para Sylvia. Todavia, o casamento com Adrian foi a melhor coisa que lhe aconteceu. Longe do domínio de Riccardo, respirou pela primeira vez. A intensa rotina religiosa foi mantida porque temia que as visitas indesejadas retornassem.
Para além disso, muitas primeiras vezes teve com o Adrian. Foi a primeira vez que foi à ópera. A primeira vez que provou vinho. A primeira e única vez que ajudou a matar um porco para o jantar. Foi terrível. Madalena vomitou, e Adrian riu baixinho, escondido. Também foi a primeira vez que dançou no baile. Nenhum outro homem a acompanhou na juventude; estavam sempre ocupados circulando Ginevra como urubus. Adrian até mesmo teve paciência de lhe ensinar nadar enquanto ensinava Dante e Selena. É claro que as crianças aprenderam rapidamente, e Adrian manteve-se paciente para ensiná-la até o fim.
Madalena seca as lágrimas. O casamento também lhe deu um lar. Não estava mais sujeita às decisões questionáveis dos pais. Podia escolher se queria dormir cedo ou tarde. Podia opinar sobre os móveis e solicitar os jantares conforme as preferências pessoais. E provavelmente a coisa mais importante, que foi a base para se permitir viver todo o resto: nunca mais se sentiu suja.
Não perdeu apenas um filho. Com a volta de Eleonora, perdeu toda a vida que lutou para construir durante cinco anos. Perdeu as escolhas, a liberdade e até mesmo a atenção de Adrian. Não pode responsabilizar Nora por tudo, é claro. A presença da família Baccari é a principal origem de infelicidade que Madalena tem. E Deus, ao lado da Nossa Senhora, sabe que faria qualquer coisa para mandá-los embora.
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