Tempo da Lua
4 Oliveira
As pedras de calcário assentadas formam o piso da praça principal. No centro da praça, o calcário foi substituído por mármore para delimitar o canteiro que detém a oliveira mais antiga da comunidade. O tronco da árvore é retorcido e robusto. Os galhos são muitos, provando a idade da árvore. E as incontáveis folhas que pendem dos galhos são pequenas e verde-claras. As olivas, que brotam obrigatoriamente após o inverno, são verdes, redondas e quase sem cheiro — algo sutil e herbáceo.
Da principal oliveira, nenhum fruto é colhido. As azeitonas amadurecem, tornando-se roxas e, às vezes, até pretas antes de caírem na terra ao redor do tronco. A árvore sagrada tem os frutos consagrados à Madora, oferecidos em rituais anuais e presencialmente na noite de iniciação dos jovens, na qual a deusa vem à terra — de acordo com Hannah. A sacerdotisa também contou que a árvore foi plantada pelos primeiros licanos a ocuparem o assentamento, guiados in persona pela própria deusa. Portanto, a punição por roubar o fruto sagrado é tão severa quanto o castigo de Adão e Eva.
Todas as ruas formam círculos ao redor da oliveira, sendo interligadas pelas avenidas principais que cortam os círculos em quatro direções, como um X. Nas avenidas principais estão os membros que trabalham no comércio. O primeiro andar das casas que estão nas avenidas principais funciona como loja. Alimentos não perecíveis, como os cereais, são os produtos mais comuns. Também pode-se encontrar leite fresco, frutas e cortes de carne — a maioria advinda do porco.
O comércio é quase exclusivamente interno e funciona como permuta, na qual os membros da comunidade realizam trocas que julgam ter valores aproximados. Com exceção da lã, da carpintaria, das olivas e do vinho, os licanos não produzem nada. Todos os itens encontrados no comércio advêm de trocas com os povos externos. Isto é, os licanos prestam serviços de natureza variada para comunidades externas a troco de ouro, cereais, frutas, vinhos e gado. (Com gado refere-se aos porcos, aos galos e às galinhas principalmente. Os poucos bois e vacas são utilizados na lida diária para puxar carroça. Eventualmente, podem se tornar alimento, desde que a refeição seja para grande número de pessoas.)
Muitas tabernas também estão nas avenidas principais. Diferente de Florença, as tabernas não existem exclusivamente para o comércio de bebidas, embora o vinho seja muito apreciado entre os licanos. (Detalhe importante: os campos de cultivo de uvas e criação de vinho são o único domínio que está longe da Oliveira e é tão valorizado.) As tabernas são como centros oficiais de convívio. Os membros iniciados — e apenas os iniciados — têm livre acesso e utilizam os locais para jogos, encontros e socialização em geral. Os membros não iniciados têm de se contentar com a vida que acontece ao redor da Oliveira.
Os únicos comércios voltados para o público externo vendem tapeçarias, peças de madeira, azeite, uvas e vinhos e não estão nas avenidas principais. São barracas montadas na Praça da Oliveira para que qualquer visitante possa se aproximar com facilidade. Além disso, a primeira rua que circula a Oliveira é a mais sacralizada. O templo foi construído de frente para a árvore. E ao redor estão as outras casas que pertencem aos membros mais importantes da comunidade, como a família do Fevzi. Aos membros menos quistos são reservadas as ruas mais distantes, quase no limite do território, assim como a vigília interminável das fronteiras.
Todas as informações são rabiscadas em abreviações na última folha do caderno trazido de Florença. Dante manteve-se cuidadoso no uso do caderno porque notou que não seria tão fácil conseguir outro. Embora o papel feito de trapos de tecido tenha substituído o pergaminho (antes de morrer, Nora explicou como o conhecimento era inacessível à maioria da população nos anos anteriores por dois motivos: a produção do pergaminho era muito cara, necessitando de vários animais; e todas as cópias do mundo eram feitas à mão por escribas. O papel infiltrou-se na Europa por meio dos mouros. Muitos anos depois, um homem chamado Gutenberg inventou um dispositivo que facilitava as cópias. Atualmente, outro problema existe: apenas os nobres sabem ler. Deuses, Dante nunca ficou tão feliz por ser nobre. Não imagina existir em um mundo em que os olhos notam os traços que formam as letras, as palavras que formam os textos e não fazem ideia do que significam), ainda pode ser de difícil acesso.
A maioria das páginas foi ocupada por desenhos, descrições longas da comunidade e muitos desabafos. Dante começou a escrever pensando em enviar o caderno para a mãe, para mantê-la informada. A ideia enfraqueceu com o passar dos meses. Dante encara a última folha. O desenho é uma planta da cidade. Ao menos, é como Dante imagina que pareça vista do alto: Oliveira no centro; ruas que circulam o ponto principal e avenidas que atravessam e unem todo o território. Alguns pontos foram frisados por mero desejo artístico, como o poço, o caminho de terra para o rio ao leste e as áreas de plantio de oliveiras e videiras.
Sentado na terra, de forma que as costas são apoiadas no tronco da figueira, Dante observa o movimento na praça. Todas as barracas estão montadas desde que a comitiva foi vista se aproximando do território licano. Aparentemente, os homens de Sabedoria, como são chamados os conselheiros de Fevzi, estavam cientes da visita, embora não tivessem reconhecido o estandarte, o que indica que a comitiva vem de bem longe.
Neste momento, Fevzi guia um pequeno grupo de visitantes entre as barracas, provavelmente explicando sobre os produtos que a comunidade oferece. De longe, os vinhos são os mais quistos. Os homens vêm e vão com copos na mão, e as vozes sobem conforme a embriaguez domina no sol do meio dia.
A maioria dos comerciantes mantém a pouca educação que tem. O carisma definitivamente não está entre os talentos licanos. Reservados e desconfiados, atravessam as ruas enquanto sussurram na língua materna. Os sussurros às vezes são tão altos quanto moscas reunidas nas fezes dos cavalos após dois dias chuvosos.
Há mais de um ano, Adrian e Dante foram recebidos da mesma forma. Fevzi, como líder e principalmente tio de Adrian, muito se esforçou para garantir que fossem bem acolhidos. Provavelmente a familiaridade física do Adrian com os nativos — pele escura, olhos e cabelos pretos, altos e corpo bem desenvolvido, forte — tornou a convivência menos desconfortável. Dante, por outro lado, herdou apenas os olhos escuros. E, embora esteja crescendo muito em altura nos últimos meses, os braços e pernas ainda são franzinos como os membros dos licanos mais doentes.
(Até poucos dias, ao se encarar no espelho, Dante era incapaz de tecer reclamações. O rosto quadrado, com olhos e lábios médios, nariz adunco e sobrancelhas retas o agradava. Poucos fios de barba tomavam a pele acima do lábio superior. O cabelo ondulado é castanho-claro e não é cortado desde que saiu de Florença; atualmente as pontas estão na linha do queixo. A pele é apenas corada pelo sol. Em outras palavras: é um jovem comum. Talvez até mesmo bonito. O senso estético do local é muito diferente. Dante olha as próprias mãos finas e preservadas, como as das damas da Europa, e suspira alto).
— Garoto.
Dante se assusta, e o caderno cai na terra. Adrian para diante dele, tampando o sol e os visitantes. Ele estreita os olhos e analisa o pai. As calças imundas de barro denunciam que Adrian passou outra manhã cuidando dos cavalos. Pode até mesmo ter tirado um tempo para treinar luta com a Yusra, que mantém-se passos atrás, como se não quisesse se intrometer. (Na opinião de Dante, Yusra participa muito mais do que é aceitável).
— Adrian.
Adrian se movimenta, desobstruindo a visão.
— Chegaram hoje cedo? — Adrian pergunta.
Eles encaram a movimentação na praça.
— Ontem à noite — Yusra responde.
— E de onde esses são?
Yusra balança os ombros definidos pelo esforço repetitivo. Dante evita pensar na aparência dos próprios ombros.
— Não tenho certeza. — Yusra também encara os visitantes, usando a mão para evitar boa parte dos raios solares. — Me parecem cristãos, mas provavelmente estão submissos ao Sultão.
Adrian assente como se tivesse ouvido mais do que o necessário. Dante, por outro lado, estreita os olhos. Se não tivesse tantas questões com Yusra, questionaria facilmente a vida sob o comando do líder otomano, embora desconfie que a rotina dos nativos seja pouquíssimo afetada, já que o sultão garante o direito de profissão de fé, ainda que não seja islâmica. O assunto faria Clement falar por horas sobre o quão genial e organizado o Império Otomano se tornara ao ponto de cobrar imposto dos que pretendiam manter a rotina anterior à conquista sem sofrer repreensão. Ainda assim, muitos chefes proeminentes se converteram ao islamismo no intuito de manter as posições hierárquicas.
— E o que querem? — Adrian finalmente pergunta.
Yusra balança os ombros de novo.
— Sinceramente? — Yusra e Adrian se olham. Dante estreita os olhos. — Ainda não faço ideia.
Adrian balança os ombros também e encara Dante.
— O que está fazendo?
Dante cata o caderno sujo de terra e mostra ao pai. Ele estreita os olhos, comprime os lábios e assente. (Mais do que interrogar Yusra, Dante gostaria de encurralar o pai e tecer muitas dúvidas, sobre principalmente os sentimentos dele. A expressão sempre opaca incomoda. As horas que Adrian passa em silêncio soam como desconsideração).
— E você? — Dante pergunta, enfim.
Adrian e Yusra erguem as sobrancelhas ao mesmo tempo. Dante estreita os olhos de novo, incerto.
— Estava dando uma olhada nos cavalos.
É claro que estava.
— E eu aproveitei para ensinar novos fundamentos para o seu pai.
Dante imediatamente revira os olhos e comenta:
— É claro que aproveitou, Yusra. Claro que sim. — Dante encara o pai. — E o que achou, papai? Ao menos ouviu o sermão? — Adrian o repreende pelo olhar. — Desconfio que não. Está sempre preocupado com outra coisa. É uma pena, Yusra. Provavelmente terá que repetir.
Ela exibe um sorriso mordaz.
— Eu não me importo de repetir quantas vezes forem necessárias. Inclusive, da próxima pode se juntar a nós. Não gostaria de aprender sobre o seu povo?
— E para quê? — Dante devolve a provocação. — Isso é temporário. Logo voltaremos para casa.
— Você não sabe disso. — Yusra suspira. — Veja, Dante, eu entendo que esteja frustrado. A vida aqui é totalmente diferente e você sente que não consegue se encaixar. Mas…
Dante decide ignorar tudo o que Yusra diz enquanto junta as coisas e ergue-se do chão. Adrian o analisa, silenciosamente questionando-o.
— Yusra, — Dante interrompe. — Você é muito jovem para ser tão morosa.
Yusra pisca várias vezes.
— O quê?
— Morosa. Chata. Pedante. — Dante pensa nos sinônimos: farisaica, presunçosa, convencida, repetitiva, cansativa, enjoada, tediosa. São muitos. — E você só é cinco anos mais velha do que eu. Tem idade pra ser minha irmã, não é, papai?
— Não deboche. É a nossa sabedoria ancestral.
— Prefiro me educar com a sacerdotisa.
Yusra recua meio passo.
— Hannah não é a mulher que costumava ser.
— Se eu estivesse manco e isolado, também não seria. — Dante encara o pai. — Quando vai à cidade?
— Nos próximos dias. Por quê?
— Preciso de mais papel. — Dante mostra o caderno gasto. — E tenho novas cartas. Claro que provavelmente não serão recebidas. Muito menos respondidas. — Adrian tensiona os lábios. — Torço para que ela não esteja morta. De novo.
Dante afasta-se enquanto Yusra reclama sobre o recente comportamento. Gostaria de olhar para trás e conferir a feição de Adrian. Tem a impressão de que o pai não gasta nem mesmo dez minutos do dia para preocupar-se com o temperamento que lentamente desenvolve. E como poderia repreendê-lo, se no final são feitos da mesma coisa? Ambos perderam a mãe cedo demais e foram criados por homens que nunca deveriam ter sido pais, embora reconheça que Marco foi muito mais danoso. Para equilibrar a competição, Dante pode citar que perdeu a mãe, a irmã e o pai em vida antes de ser homem formado!
O assobio atravessa os murmúrios advindos da praça. Dante para de andar e olha em direção ao pai. Imediatamente se detesta por responder tão rápido ao chamado, como um cachorro treinado para amar o dono independentemente da circunstância, como se o assobio estivesse marcado a ferro na pele. Dante provavelmente o ouvirá quando estiver perdido no inferno e será o bastante para guiá-lo de volta.
— O que foi?
— Apareça à noite. Haverá uma ceia. — Dante revira os olhos e observa rapidamente os visitantes. Adrian acrescenta no dialeto florentino: — Vão matar um boi.
— Até que enfim. Não aguento mais comer porco.
Adrian ri, e Dante luta para não esticar os lábios. Enquanto atravessa a praça para ir ao templo, nota um vulto nos galhos da oliveira. Ele para de andar. Nem mesmo os animais, que são naturalmente ignorantes, ousam se aproximar e muito menos roubar a oliveira. Apesar disso, no galho mais soberbo está a ave preta como a noite. O corvo bisonho encara Dante e cacareja como um relógio badalando à meia-noite.
(...)
Todas as noites, a sala de jantar é tomada por refeições barulhentas. Vincenzo, Valentina, Francesco e Abigail se reúnem ao redor da mesa e conversam enquanto arrastam os talheres contra os pratos de estanho, exatamente como os mendigos que brigam por restos de pão no centro de Florença. Madalena é incapaz de entender por que a família insiste em sujar os pratos se pretende se alimentar como bastardos, muitas vezes usando as mãos.
As refeições em família não são bem o que a incomoda. Madalena dividia a mesa com os pais e a irmã. Também acompanhou Adrian e as crianças diversas vezes. Todos eram educados, silenciosos e sabiam manusear os talheres. Porém, não é certo que uma criança tão pequena ocupe a mesa: as mãos desajeitadas do Francesco falham ao levar o alimento à boca, sujando a mesa e o chão ao redor. O menino também insiste em tocar toda a comida disposta, seja em pratos alheios ou nas bandejas. As birras infantis são rotina diante da passividade dos pais. Abigail dispara uma quantidade excessiva de palpites não solicitados. E a parcimônia de Vincenzo, que assiste a tudo sem intervir, causa fortes dores de cabeça. Por isso, Madalena faz todas as refeições no quarto.
Também é por isso que Madalena espera todos se juntarem à mesa para invadir o escritório que Vincenzo reivindicou. Tendo o senso crítico mais afiado, ele contentou-se em ocupar o escritório que pertencia ao Marco. Desde a estranha morte, o cômodo perdeu-se na casa ao ponto de que dois dias foram necessários para tirar todas as coisas que pertenciam ao falecido.
Como esperado, a porta do escritório está trancada. Madalena desconfia que a ousadia não partiu de Vincenzo, mas sim de Abigail que é exatamente como o filho pródigo voltando para casa. Aparentemente, o casamento com Ettore, um burguês insignificante, não foi tão alegre e próspero. Pouco ajudou o vício que Ettore desenvolveu por apostas. Entretanto, o arrependimento de Abigail não foi o bastante para convencer Marco a aceitá-la novamente na propriedade. E é claro que Madalena não gasta mais de um minuto pensando sobre a vida miserável que a mulher construiu.
A cópia da chave foi furtada por uma das poucas servas que ainda a respeitam. Madalena certifica-se de que os corredores estão vazios antes de adentrar o cômodo. Por cuidado, tranca a porta por dentro e mantém apenas uma vela acesa, evitando chamar a atenção.
O escritório é tão neutro quanto Vincenzo. Madalena aproxima-se da mesa perfeitamente organizada, como se nem mesmo fosse usada. Os cadernos estão organizados à esquerda, com a lupa de leitura por cima. O tinteiro e a pena estão à direita, próximos do selo utilizado pela família Palucci. Com cuidado, procura por qualquer documento, carta ou anotação que confesse a situação do ducado.
As cartas estão guardadas por ordem alfabética e data na última gaveta da escrivaninha. Madalena ocupa a poltrona espaçosa enquanto avalia os correspondentes. Muitas cartas foram trocadas com a responsável pela propriedade Baccari. Algumas cartas pertencem aos principais nobres da região. Outro punhado pertence aos burgueses de Florença. E quatro ou cinco cartas foram recebidas do Adrian.
Madalena considera roubar todas as cartas e sabe que é um erro terrível. Contenta-se em pegar apenas as cartas de Adrian. Com mãos trêmulas, abre as correspondências mais recentes trocadas com o sr. Innocent, o comerciante que mais investe nas navegações, e com o sr. D’Angelo, o banqueiro. Ambos agradecem o convite e confirmam a presença no jantar, visto como a oportunidade perfeita de discutir as taxas de impostos, a divisão de terras e outras pendências relativas ao ducado.
Que jantar?, Madalena fala sozinha.
As cartas recebidas da família Foscari e da família Bazzi são bem menos amigáveis. Embora também agradeçam o convite, avisam que não pretendem ceder muito.
Madalena massageia as têmporas. Vincenzo Baccari está planejando um jantar, provavelmente para massagear o ego de todos os senhores, e nem considerou consultá-la. Adrian está longe, é um fato, mas ainda é a senhora da casa. Mais do que isso: como a legítima duquesa de Florença, conhece os senhores, as questões e as frágeis relações mais do que qualquer um.
A cabeça lateja. Madalena revira as cartas sem o cuidado anterior. Bufa alto quando desconfia que o convite não se estendeu às Casas Moretti e Conti, que são os aliados políticos e comerciais mais fortes que os Palucci têm. Anteriormente, as famílias também eram rivais e disputaram o domínio sobre a Toscana, tendo Florença como centro. O casamento entre Ginevra e Adrian era a promessa de paz e aliança que Riccardo e Marco teceram. Diante do descumprimento do acordo, Riccardo voltou os olhos à família Conti na intenção de estreitar os laços e se opor aos Palucci.
O casamento de Adrian e Madalena evitou que o conflito se agravasse, mas não que se extinguisse. Muitas mágoas existem, e um futuro estável só é possível se o casamento dos filhos de Ginevra e Madalena acontecer, unindo definitivamente as três famílias rivais.
A ausência de Adrian fragiliza muito a Casa Palucci. E a questionável ideia de Vincenzo Baccari reunir os nobres e os senhores mais notáveis de Toscana soa como uma traição aos aliados. Na verdade, é uma traição descarada; uma clara tentativa de romper a aliança fragilizada e instaurar uma nova organização.
Madalena levanta-se em um pulo quando se lembra das várias cartas que recebeu de Ginevra nas últimas semanas. Provavelmente a irmã não gastou mais do que duas linhas para discutir sobre Selena; todo o papel estava sendo usado para negociar as posições das casas.
Ela abandona o escritório sem se preocupar com a bagunça que causou. Todas as cartas da irmã estão intactas e amontoadas na mesinha da sacada de Adrian. Madalena torce para que tudo não passe de ansiedade, que a sua interpretação esteja muito equivocada que a família apenas tenha escrito para confessar a culpa.
Ao dobrar o corredor, na intenção de alcançar as escadas, Madalena tromba com Abigail. O impacto é leve, mas faz com que as cartas roubadas caiam no chão. Com as mãos trêmulas, ela tenta alcançar as correspondências. Abigail é mais rápida e pisa nas cartas.
— Você está mais desorientada do que o normal.
Madalena range os dentes; Abigail recupera dois dos quatro envelopes abertos. Os olhos escuros conferem o remetente, e os lábios cheios se estreitam. Se não tivesse tanto desprezo pela laia de Abigail, poderia apreciar a beleza que se recusa a envelhecer.
— Me devolva isso! — Madalena avança na mulher, puxando a carta. — Isso é meu!
— Você… — Abigail olha em direção ao corredor. — Como entrou no escritório? Isso não é seu!
— É mais meu do que seu. — Ela puxa os envelopes. Abigail resiste. — O que vocês pensam que estão fazendo? Acham que estão na casa de vocês? Essa é a minha casa!
Abigail ri alto e aumenta o tom de voz:
— Eu nasci nessa casa!
— E a deixou para se casar com um fracassado! Faça-me o favor, Abigail!
As cartas rasgam com a tensão que ambas exercem. Madalena franze o cenho e sente o rosto queimar. Adrian tem escrito há quanto tempo? Por que nunca soube? Ela teria escrito de volta. Teria contado o que realmente acontece na ausência dele; os excessos de Abigail, a incompetência de Vincenzo!
— Você é uma agregada.
Madalena ri, incrédula.
— A senhora claramente se esquece de quem eu sou! — Ela ergue a voz. — A senhora, o seu filho e a agregada só estão aqui porque Adrian permitiu. Do contrário, ainda estariam lutando para sobreviver naquele casebre. Mostre algum respeito à senhora da casa.
— Minha querida… — O tom condescendente faz Madalena fechar os punhos. — Eu entendo que seja difícil de entender, mas Adrian se foi há tempo… — O suspiro dela é falso. — E como vocês não tiveram filhos, Vincenzo é o herdeiro legítimo. O que quer dizer que você vive aqui por piedade, como a viúva do duque.
— Adrian não está morto.
— Não? — Abigail joga as cartas no chão. — Veja as correspondências. As datas. Adrian não escreve há meses. Provavelmente estão mortos, ele e o garoto. É triste como a tragédia sempre o acompanhou. Primeiro, perdeu a mãe. Depois, Cecília se foi no momento em que deu à luz ao Dante. Meu querido irmão morreu de forma tão bruta, atacado na floresta. Até hoje não sabemos quem foi o agressor... Nora durou tão pouco quanto poderia. Até mesmo Selena faleceu sob os cuidados da sua irmã. Ouvi dizer que foi pneumonia… — Madalena range os dentes. Abigail exibe um curto sorriso. — A vida do meu sobrinho foi cavar covas, até descer à própria cova.
As lágrimas queimam nos olhos. Madalena ergue o queixo e nota a aproximação de Vincenzo.
— Adrian não está morto. — Ela ergue a voz. — E mesmo que esteja morto, deveríamos estar de luto. Não planejando um jantar para toda a corte. — Vincenzo desvia os olhos, covarde. Abigail ergue o queixo também. — E antes de pensarem em organizar um jantar, deveriam ter me contado. Ao menos por respeito.
— Madalena… — Vincenzo tenta.
— A vida precisa continuar. — Abigail responde. Vincenzo nega com a cabeça. — A prolongada ausência do duque causa muito desconforto entre os súditos. Todos estão preocupados e ansiosos sobre o futuro. É necessário acalmar os ânimos, a fim de evitar contendas.
Madalena solta o ar pelo nariz.
— É assim que pretendem evitar contendas? — Ela debocha. — Vejo que o tempo longe da corte, vivendo com os trocos de Adrian, empobreceu o raciocínio de vocês! Bom, essa é a consequência das suas escolhas, Abigail. Se tivesse aceitado o marido que Marco escolheu para a senhora, não estaria nessa degradante situação. Talvez Marco até mesmo permitisse que vivessem aqui… — Madalena junta as mãos em frente ao corpo. — E vocês são ainda mais incapazes do que Adrian temia. Pretendem dar um banquete para as principais casas e para os senhores mais importantes e não convidam os maiores aliados que têm? Devo lembrá-los de que a aliança com a Casa Moretti e com a Casa Conti é extremamente delicada? E que é pela parcimônia de ambas as famílias que o ducado prospera?
Vincenzo enche os pulmões de ar, desvia os olhos e suspira. Abigail mantém a postura arqueada e retruca:
— Aliança ou submissão? — Madalena nega com a cabeça. — Vejo que a ignorância também te é conhecida. Esquece-se de quem somos? Acha que Marco se tornou duque por mera gentileza da sua família? Acha que o meu irmão pediu permissão ao seu pai? Marco teceu a paz com a sua família por cordialidade, para evitar mal-estar e conflitos desnecessários. Os verdadeiros aliados da Casa Palucci são os nobres, que nos apoiaram na conquista.
— Não vejo por que iniciarmos um conflito. Nós podemos… — Vincenzo comenta.
— Não. — Abigail interrompe. — Está na hora de Florença caminhar forte e independente. É vergonhoso o que Adrian fez com o legado do pai. Marco nunca se submeteria aos caprichos de Riccardo. A cordialidade do meu irmão seria suspensa no momento em que os Moretti e os Conti juntaram forças para nos pressionar. Até quando estaremos sujeitos? A Casa Palucci senta-se na maior cadeira. Moretti e Conti devem se contentar com a posição que têm: são nossos súditos, assim como todas as outras famílias de nobres.
— Mãe… — Vincenzo a repreende. — É melhor conversarmos sobre isso em um momento mais oportuno.
A gargalhada que escapa de Madalena é uma mistura de descrença, repreensão e deboche.
— Isso é tudo que tem para dizer, Vincenzo? — Madalena aponta o dedo para ele. — Adrian confiou em você. As instruções dele foram muito claras! Você é mais do que covarde. Você é um traidor! Adrian é o seu senhor. Você deve obediência! Não me importa o discurso elaborado que Abigail tenha; vamos tratar isso como realmente é: traição. Traição ao seu lorde. Traição aos Moretti e aos Conti.
— Não, não! — Vincenzo resmunga. — Não tenho a menor intenção de tirar de Adrian a posição que lhe pertence. A minha pretensão com esse banquete é apenas amenizar as preocupações dos senhores com o futuro do ducado. Nada mais.
Madalena estreita os olhos.
— Do seu coração sou incapaz de duvidar, porque é tão tolo quanto uma criança. Certamente não percebe o que está fazendo! — Ela encara Abigail. — Abigail o conduz como se guia um cego! Não gaste o seu tempo consultando-a. Abigail está longe da Florença há mais de três décadas. As coisas são muito diferentes. Adrian não profana a herança do pai, embora devesse. Pelo contrário, contra os próprios desejos, casou-se comigo para evitar sofrimento aos súditos. Casou-se comigo porque tem a humildade necessária para reconhecer que sozinho e isolado é incapaz de governar! — Madalena junta as correspondências. — Adrian me honrou como esposa e senhora desta casa porque reconheceu a importância que exerço aqui. Sou a ponte entre os Palucci e os aliados, que estão muito ansiosos para se tornarem inimigos. — Madalena encara os dois. — Eu devo ser consultada em qualquer outra decisão como essa. O meu marido não está morto, e eu continuo sendo a senhora desta casa. Sendo assim, enviarei os convites à Casa Moretti e à Casa Conti, assim como escreverei para Adrian para informá-lo do que realmente está acontecendo em casa. — O rosto de Vincenzo torna-se vermelho. Madalena encara Abigail. — Da próxima vez que considerar orquestrar tamanha traição, sugiro que se prenda voluntariamente em uma das celas da nossa masmorra. Muito me surpreende a senhora, uma mulher vivida que hoje até avó é, não reconhecer o lugar que ocupa. Esquece-se, Abigail, de que o seu sobrinho não nutre nenhuma afeição por vocês. Aliás, nem ao próprio filho Adrian demonstra piedade. — É uma mentira descarada que Madalena pretende manter. Adrian sempre mimou excessivamente o primogênito. — E a senhora se engana se pensa que todas as covas que Adrian cavou o deixaram fraco. Pelo contrário, se Adrian foi capaz de enterrar as pessoas que mais amou na vida, imagine o que será capaz de fazer com a sua família de sanguessugas? Recomendo parcimônia.
(...)
— Você está muito quieto, Ratinho.
Dante para de fingir que está lendo e ergue o olhar para Hannah. Ela está na poltrona próxima da janela. O céu ganha tons rosados, anunciando a chegada da escuridão em breve. A sacerdotisa parece apreciar o anoitecer porque briga todas as tardes com Yanca sobre as janelas do próprio quarto. Talvez seja uma forma de revoltar-se; talvez Hannah goste de perturbar a cunhada; talvez seja a única coisa que pode fazer. Dante suspira alto, fecha o livro e relaxa na poltrona, encarando o teto decorado.
— Estou pensando. — Dante espera que Hannah questione para decidir se pretende ou não compartilhar. Quando ela não o faz, prossegue: — Também está quieta.
— Estou pensando também.
Dante a encara.
— Sobre o quê?
Hannah exibe um discreto sorriso. Com mais interesse do que o normal, Dante a avalia. A pele marrom foi queimada pelo sol durante muitos anos, exibindo manchas típicas. O cabelo é espesso, com pouquíssimos fios brancos, e está sempre trançado. Os olhos castanhos são grandes, expressivos. (Ele tenta presumir a idade da mulher, ciente de que o próprio pai tem menos de 35 anos e que eles são primos de primeiro grau. Em contrapartida, a mãe de Adrian era nove anos mais nova do que Fevzi. Kamel tem mais de 45 anos, sem dúvidas. Talvez Hannah tenha entre 40 e 44 anos. O tempo não foi tão bondoso, contudo).
— Me conte primeiro o que te perturba.
A mentira salpica a boca dele. Dante encara a lombada do livro escrito na língua licana e ri sozinho. Quem pretendia enganar quando fingia ler? Hannah aguarda, muito mais paciente do que o normal. Ele desvia os olhos para o exterior, contando nuvens.
— Tudo me perturba. — Dante revela. — E provavelmente vou te cansar antes mesmo de chegar na metade da lista.
— Aceito a aposta.
Dante sorri sem mostrar os dentes.
— Tenho medo de não voltar para casa.
— Por quê?
— A minha mãe…
— A bruxa.
— Ela é a minha mãe.
— Não duvido que seja.
— A minha mãe desapareceu. Não responde mais nossas cartas. E eu temo que ela esteja morta de novo. — Hannah assente. — E o Adrian…
— Adrian. — Hannah comenta. — E não “o meu pai”.
— Tenho medo de ele se acostumar. Tenho medo de ele desistir. Tenho medo dele. E tenho medo de ficar sem ele.
— Adrian não ficará muito mais tempo.
— É um palpite?
— É o futuro.
— Como sabe disso?
Hannah balança as mãos.
— Acho que tem algo a ver com ser uma sacerdotisa desde os dezesseis anos. — É a vez dela encostar na cadeira. — Fevzi não está totalmente errado quando me trata como incapaz. Não é apenas a perna. A minha cabeça… — Hannah posiciona os dedos na têmpora. — O passado, o presente e o futuro se confundem aqui. E às vezes é tão confuso que não suporto o peso das minhas palavras. Antes, o futuro era linhas que eu era capaz de distinguir, de entendê-las e, às vezes, até evitar. Até mesmo isso a Mãe me roubou.
Dante pisca várias vezes. São muitas as questões, porém apenas uma resiste:
— Vamos embora? Adrian e eu?
Hannah sorri.
— Adrian, sim. O caminho dele não é entre nós, independentemente do quanto Yusra tente. — Hannah se ajeita na cadeira. — Yusra é mais do que tola, é iludida. Ela realmente acredita que vai suscitar pertencimento nele.
— E quanto a mim?
— O seu caminho é conosco.
Dante ri, incrédulo.
— Isso é…
— Impossível?
— O meu pai não me deixaria ficar. Pior ainda: a minha mãe. Além do mais, o que eu faria aqui?
— Agora você me acha louca também.
Ele balança a cabeça.
— E você está pensando no quê?
Hannah se ajeita.
— No que acontecerá no banquete de hoje. — Ele arqueia as sobrancelhas. — Inclusive, você se atrasará se não se mexer logo.
— Não pretendo ir. — Hannah mantém a expressão vazia. — Por que você se preocupa tanto?
— É o meu povo. É a minha família. E o nosso futuro.
— A sua família pensa que você é louca.
— Apesar de tudo, você ainda ama o seu pai. — Dante franze as sobrancelhas e suspira quando entende a comparação. — Não tenho rancor da minha família, nem mesmo do meu povo. Às vezes eles são cruéis, mas não culpados pelo que Madora me fez. — Hannah mostra a perna. Dante suspira. — Eu estarei lá quando a escuridão a pegar. A noite também é inevitável.
Dante pensa no corvo que viu na oliveira e desvia os olhos. Embora seja curioso, desperdiçou o tempo em que esteve na comunidade: não teve interesse em participar, crédulo de que o retorno para Florença seria rápido; os nativos também não eram tão cordiais e carismáticos quanto Hannah. Na verdade, Dante ainda não tem verdadeiro interesse em entender as nuances nas quais a comunidade está envolvida. (Ele gosta da arte, das cores, das oliveiras e até das pedras. Está ansioso para contar tudo à mãe, que é tão sedenta por conhecimento quanto ele. Todavia, a mãe está quieta como o túmulo de Selena. E aparentemente não retornará para Florença. Não acredita totalmente na predição de Hannah. Acredita, sim. Dante percebe. Não apenas acredita, mas sente nos ossos que nunca mais voltará à terra natal. Nunca mais.).
A lágrima surge tão rápido quanto é arrancada do olho esquerdo. Dante levanta-se.
— Vamos. — Hannah inclina a cabeça. — Você deve se arrumar. — Ela prepara-se para argumentar. Dante impede: — Você tem direito de participar. E se o problema for a distância, vou te carregar. Pode demorar muito porque talvez precise fazer pausas, mas… — Ela gargalha e esconde a boca com as mãos. — Vamos chegar, eventualmente.
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