Tempo da Bruxa
26 ad aeternum
1545
O exterior do cômodo é diferente do que tinha imaginado. Nora nunca percebeu que não estava no térreo. O corredor estreito dá acesso a escada tão estreita quanto. O chão e as paredes são de madeira. A pequena janela no meio do corredor permite visão para o exterior. Ela, contudo, está se arrastando, incapaz de erguer o corpo.
As mãos estão unidas na frente do corpo, mantidas pelas correntes enfeitiçadas que Sylvia fez. Os pés também estão acorrentados e embora não impeça completamente a marcha, Nora não consegue sustentar o corpo fragilizado. Não é capaz de produzir nenhum efeito mágico, e o exterior do cômodo que foi mantida por incontáveis dias é ainda mais gelado. O corpo desfeito e machucado permanece nu, e a ferida no seio esquerdo dói mais.
Ela olha para trás e suspira. Retornar para o cômodo não é uma opção. Portanto, Nora se arrasta pelo corredor e torce para que a serva não decida a visitar. Pela primeira vez, ela compreende completamente o estado deprimente que o corpo de Madalena foi reduzido. Cada corte, machucado e roxo arde de forma intensa. O mamilo dilacerado sangra devido ao esforço, e os membros que foram esticados ao extremo não suportam nenhum movimento. As lágrimas rolam pelo rosto, e Nora não tenta evitar o choro porque a percepção de tudo o que Lucien fez a amedronta.
Nora arrasta o corpo até o degrau inicial, sentando-se. Apesar das pernas acorrentadas, Nora as utiliza como apoio para descer o tronco para o próximo degrau. O corpo desequilibra e quase cai escada abaixo. Nora luta para se equilibrar. A queda facilitaria a descida, e ela não tentaria evitar se não fosse criar um barulho tão alto.
O esforço para descer as escadas a faz gemer, suar e choramingar. Outro corredor a recebe no térreo. Ela se arrasta pelo corredor até ver as primeiras portas fechadas que dão acesso aos outros ambientes que compõem a simples casa de madeira. No térreo as paredes são decoradas com quadros dos santos e de Jesus como se uma família comum e muito crédula vivesse na casa. Enquanto se arrasta pelo longo corredor, Nora percebe dois vasos com plantas e range os dentes diante da causalidade.
Além dos cômodos com portas fechadas, o corredor dá acesso ao que Nora imagina ser a sala de estar. O silêncio sepulcral a permite notar a lareira acesa, crepitando o resto de madeira disponível. Ela nem cogita aproximar-se porque teme encontrar com a serva. Ela se arrasta até aproximar-se do que presume ser a cozinha. O esforço de arrastar o corpo por toda casa, esfolando ainda mais a pele, arranca suor, sangue e lágrimas. Existe um esforço adicional para movimentar-se com o máximo de discrição possível.
O chão da cozinha é de pedra. O fogão a lenha crepita, e o cheiro do cozido enoja Nora. Ela arrasta-se para debaixo da mesa de madeira próxima a parede e analisa o ambiente. A porta que dá acesso ao exterior da casa está aberta, e Nora não se apressa na movimentação. Permanece escondida debaixo da mesa, embora reconheça que não é um esconderijo digno, até ouvir a movimentação da serva.
A mulher murmura cantigas de ninar quando retorna para a cozinha. Ela mexe o cozido, prova e adiciona mais sal e manjericão. Nora segura o ar nos pulmões com medo da respiração ser alta demais. A serva afasta-se do fogão e aproxima-se da mesa. Nora se encolhe, morde o lábio e fecha os olhos. Não sabe o que acontecerá se for vista, mas percebe que não há outro caminho. Prefere morrer do que retornar para as correntes. E prefere lutar à morte.
A mulher demora-se próxima da mesa, e Nora desconfia que ela esteja cuidando das roupas do padre. Para se distrair, e também tentando acalmar-se, ela cogita qual relação a serva mantém com o homem. Não acredita que os padres são totalmente abdicados dos prazeres carnais, apesar das orientações da igreja católica. E também não vê outro motivo para a mulher manter-se na companhia de Lucien.
A serva confere o cozido antes de sair da cozinha. Nora escuta o barulho da porta abrir e fechar antes de movimentar-se. Desta vez, o corpo é arrastado com força e desespero, causando mais escoriações devido ao chão áspero.
O ar puro sufoca e a luz do dia queima os olhos. Nora geme quando a brisa gélida acerta o corpo despido. Ela esconde os olhos com as mãos acorrentadas e demora mais do que é seguro para acostumar-se com o exterior. Quando o faz, arrasta-se pelo chão de terra, que está úmido, até encontrar descanso próximo às árvores frondosas. Ela tosse, lacrimeja e força os pulmões a funcionarem. Pela primeira vez em muito tempo Nora sente outro cheiro além de sangue e mijo. As lágrimas borram a visão, e ela espirra porque o cheiro de pólen é forte.
A grama ao redor das árvores está nascendo após o longo inverno. Ainda é ressecada, amarelada e pinicante. Nora esfrega as mãos na grama até causar alergia. Ela inspira profundamente várias vezes, certificando-se de que está realmente viva. É impossível conter as lágrimas de emoção. Há poucos momentos estava convicta que a sua vida se encerraria da pior maneira possível. De novo.
O céu está cinzento, e Nora tem dificuldade de encontrar a posição do sol. Apesar disso, presume que é meio de tarde. A neve se desfez completamente, deixando o mundo úmido e pronto para recomeçar. Ela teme por Dante, que pouco tempo tinha para resolver-se com a sua natureza. Pensa em Selena porque desconfia que passou mais de três semanas acorrentada; tempo suficiente para que ela tenha voltado para casa.
O pensamento lhe dá mais um pouco de força, embora a visão esteja embaçada. Desta vez não por causa das lágrimas, e sim porque esforçou-se muito mais do que o corpo que foi torturado, amaldiçoado, desfeito e desnutrido é capaz de aguentar, apesar da magia que carrega.
As mãos, inclusive, permanecem presas na corrente enfeitiçada. Nora usa o resto da energia para cogitar todas as possibilidades. Fora do círculo mágico é capaz de invocar ajuda. Poucos seres estariam dispostos a ajudá-la, e o sol ainda está bem aparente para que Revna possa lhe ouvir.
A dor no estômago é incapacitante. O mingau era pesado demais para comer com tanta vontade, e o corpo que foi submetido à extrema fome é incapaz de absorver. Ela tosse tentando causar vômito na esperança que melhore a dor. A visão embaça e a cabeça gira várias vezes. Nora percebe que está prestes a perder a consciência e se desespera.
As opções parecem escassas. Nora não pensa direito também. As recentes memórias de quando encontrou com o Conde Drakul a inspiram. Com a ponta dos dedos e o cotoco das unhas, Nora luta para arrancar cascas do tronco frondoso da árvore. Pequenas farpas entram em sua pele, e ela nem percebe o desconforto. Com cascas ela forma duas runas antigas e secretas que foram gravadas a ferro em sua mente. Antes de ceder à fragilidade, Nora torce para que Revna cumpra a promessa.
1188
A escultura permanece indiferente aos males do mundo. Não há velas, nem oferendas dispostas no que restou do templo. O silêncio é sepulcral. O caderno, que é metade grimório e metade diário, repousa na pequena mureta que separa o local sagrado de adoração do resto do templo. Nora permanece a passos atrás, relutando entre as opções.
O retorno do castelo demorou mais do que Nora e Nikita desejavam. Nikita transformou-se em ira e luto antecipado, tentando por diversas vezes acessar o castelo sem sucesso. Por outro lado, o irmão relatou que a sacerdotisa de Eris não demonstrou preocupação. A suspeita confirmou-se quando Floare partiu antes do amanhecer, abandonando o povo e a fé que jurou lutar até o fim.
Portanto, Nikita sugeriu que partissem também. Floare foi capaz de abandonar a causa, que agora mostra-se resolvida. É a quarta noite desde que Nora amaldiçoou o conde a permanecer preso no castelo e não há relatos de ataques, nem mesmo ataques de fúria e vingança. A cada novo nascer do sol, Nora murmura o encantamento feito, ainda temendo a fragilidade da magia. E ao levantar da Lua, o nosferatu permanece trancado. Aos poucos, Nora será capaz de esquecer-se disso, mas não por enquanto.
Por outro lado, Nora não é capaz de partir ainda. A visita ao nosferatu não foi apenas desafiadora. A transformou em tantos sentidos que ainda não uniu as peças para expressar o que arde em seu coração. Em alguns entardeceres, Nora quase diz ao irmão que não retornará. O seu povo não pode oferecer mais, e retornar para Bryda é voltar para a gaiola nem tão dourada assim. A percepção da vastidão do mundo a encantou e a humilhou. E o grimório e diário disposto a poucos metros confirmam os seus temores. Não supõe todos os segredos escritos na página. Se fosse um diário comum não estaria guardado com tanto afinco. E ainda assim, Nora é capaz de suportar?
E ela é capaz de partir sem saber?
É capaz de não partir?
Nora geme e apressa-se para alcançar o caderno. As folhas são amareladas, levemente mofadas e duras. Com cuidado, Nora folheia o grimório. Muitas páginas são dedicadas a anotação de magias peculiares, mas corriqueiras também. Algumas páginas são desabafos da bruxa que casou-se com um morto vivo. Oltia arrepende-se e o ama, vivendo em profunda angústia e indecisão. A sra. Ileana faz poucas e desconfortáveis aparições, e Oltia não demonstra carinho por ela.
Oltia descreve que o nosferatu também bebeu do seu sangue mágico. A confissão é uma mistura de sensualidade, desprezo e angústia. Pelas poucas páginas, Nora faz um esboço sobre Oltia; ciente do que o homem era, entregava-se aos prazeres e sacrifícios ao mesmo tempo que temia.
Nora folheia bastante antes de ver a orelha feita no fim das folhas. Ela ri quando enxerga o título do texto escrito com tinta vermelha: NOSFERATU. O texto é objetivo e severo ao contar a origem dos vampiros por meio de magia mal-intencionada, que desrespeita a natureza. Entre a descrição da origem e do feitiço que é capaz de transformar seres mortais em imortais, há um desabafo pessoal de Oltia, confessando a responsabilidade e quase culpa por ter transformado o conde em um vampiro.
Nora nota que a “tinta” vermelha é sangue. A pressão nos ombros surge conforme entende que o conde não foi transformado por outro vampiro, o que o torna uma versão específica e única do encantamento praticado por Oltia.
O final é dedicado para as formas de matar o morto-vivo. Oltia escreve e frisa que estacas, independente do material, são ineficazes. Devido a particularidade da origem, esse nosferatu pouco teme o solo sagrado e itens consagrados a Jesus, mas existem específicas ervas capazes de perturbá-lo. Ele também depende do convite dos moradores para adentrar qualquer casa, embora não possa ser expulso. Oltia descreve brevemente quais magias o detém temporariamente. “A morte completa, porém”, ela escreve ao final da página, “só é possível através do…”.
A página acaba. E não há página seguinte. Nora toca o que restou da página arrancada no canto da encadernação. Oltia descreveu a forma de encerrar a existência do monstro que criou e a página foi arrancada bruscamente. Nora rapidamente imagina alguns suspeitos. O conde, é claro. Porém, a sra. Ileana parece mais responsável por isso.
— Oltia era uma bruxa formidável. — A voz feminina surge. Nora vê a mulher que se surgiu no centro do templo e solta o caderno, recuando um passo. — E eu pensei que seria uma sacerdotisa capaz de atravessar os tempos. Porém…
Nora recua até bater o corpo contra um dos pilares do templo. A mulher aproxima-se da escultura e observa a imagem, quieta por muito tempo. Depois, todas as velas se acendem de repente. A água da fonte volta a correr, e as flores que morreram retornam a vida e perfumam o local.
— Prefiro assim, se me permite. — Ela toca a escultura, e o breve toque é capaz de fazê-la parecer o que era antes. — As coisas não são tão bonitas quanto eram antes. Me entristece, é claro. E também entendo que é o caminho natural do mundo. As coisas acontecem, e os devotos mudam de opinião conforme a necessidade. Alguns de nós — Ela para de tocar a imagem. — se enraivecem e apagam a existência dos devotos. Outros, como eu, aceitam o fato.
Nora abre e fecha a boca. A garganta arranha, e as mãos suam.
— O que…? — Nora observa a escultura e a presença. A energia que ocupa o lugar é suave, mas densa e concreta. — Eris?
Eris a olha. É uma mulher relativamente alta, de pele escura e com um imenso cabelo da cor de mel. Os olhos também têm a cor do mel com respingos verdes. Os lábios são bem desenhados, e nisso a escultura se parece. O rosto é arredondado, o que lhe dá uma expressão juvenil e doce.
Nora sente as pernas tremerem, e os joelhos cedem. Ela é incapaz de olhar para a deusa. Eris, por outro lado, ri e aproxima-se, levantando-a. A pele de Nora queima, e ela sente a energia de Eris encher o seu corpo. Eris segura o rosto de Nora e observa por muito tempo.
— Você agora é como era. — Eris a solta com gentileza e afasta. — Não exatamente igual. Mas muito parecida.
— Do que está falando? — É a primeira pergunta que consegue conjecturar. — Eris… Você… — Nora não tem certeza de como se referir a ela. — Você existe.
Eris solta a risadinha pelo nariz e é muito gentil quando responde:
— Claro que existo, minha querida.
Por muitos minutos, Nora não elabora qualquer resposta ou reação. As pernas tremem muito, e as mãos suam tanto que é possível escorrer. É a primeira vez que encontra uma deusa pessoalmente. Nora a encara por mais tempo ainda, absorvendo todos os detalhes que a compõem.
— Você existe. — Nora repete, incrédula. Aos poucos, todas as partes formam um pensamento linear. — Você existe! Por que não respondeu?! — A incredulidade se transforma em raiva. — Todas essas pessoas. Por que não respondeu?!
— Todas essas pessoas? Quem?
— O seu povo!
— O meu povo preferiu o Cristo.
Nora é incapaz de rebater.
— Mas e Floare?
Eris suspira e afasta-se, pegando o caderno. Ela folheia com muito cuidado, franzindo o cenho. Quando o fecha, o mantém bem perto do peito.
— As súplicas de Floare eram constantes, de fato. Eu ouvi e atendi no que me pareceu justo.
— E o nosferatu não era uma súplica justa?
Eris a encara. Apesar dos breves encontros com o corvo, Revna nunca se apresentou daquela forma. Ele era o sussurro na floresta; era o farfalhar das folhas; era as visitas por meio de corvos e corujas. Nunca uma forma física e tão humana; possível de tocar.
— O nosferatu… — Eris senta-se na muretinha, dando de ombros. A casualidade assusta Nora. — Foi um problema causado por uma das minhas meninas. Desconfio que tenha uma percepção disso. — Nora nega. — Há muitos anos, Oltia era uma bruxa devota a mim. Pessoalmente eu a ensinava e a construía. Eu pensava que Oltia se dedicaria ao meu templo como minha sacerdotisa. Eu a manteria através dos séculos para que cumprisse o meu desejo na Terra. Devo dizer que o meu desejo não é desproporcional. Acredito que o equilíbrio deve ser preservado. O meu fardo, Eleonora, não é pesado. E Oltia era… — Eris movimenta as mãos, trazendo flashes vivos de Oltia entre os dedos. — Excepcional. Pensei que ela pudesse ser uma filha distante de Circe. Apenas a linhagem de Circe seria capaz de tanto… — Nora franze o cenho enquanto a deusa se dispersa nas memórias. É a segunda vez que ouve falar da Circe e não faz ideia do quão verdade é. — Um dia o Conde solicitou a visita de uma bruxa forte. Estava tão ferido que os curandeiros não foram capazes de curá-lo. Temia muito morrer. Ordenei que Oltia o atendesse. Minha intenção era aproveitar a oportunidade para ensiná-la. Uma única visita não foi o suficiente para livrá-lo completamente da agonia. E eu demorei para perceber que Oltia o visitava mais do que necessário. Ela se encantou com o afeto do conde. Afeto esse que eu nunca previ, afinal, o que um conde tem em comum com uma serva? E você o conheceu. Sabe muito bem que é um ser que se importa com a linhagem mais do que tudo.
— Não me diga que era amor. — Nora despreza.
Eris, porém, não afirma, nem nega.
— Oltia optou por seguir os próprios caminhos, rejeitando as minhas propostas. — Eris gesticula. — Em algum momento ela fez esse desrespeito. — Ela mostra o caderno. — É mais do que um desrespeito a mim. É uma blasfêmia à natureza; à ordem correta das coisas.
— Você permitiu que ela criasse um nosferatu.
— Oltia não me pediu permissão. E também não recorreu a mim para ajudá-la. Usou dos próprios métodos, ciente dos custos. — O arrepio surge na nuca, e Nora esfrega os braços. — Tudo o que eu poderia fazer era castigá-la. Não fui capaz disso porque a alma dela já estava amaldiçoada. Que castigo pior eu poderia impor? Além disso, a sra. Ileana a castigou em vida.
Nora se movimenta pelo pátio, balançando a cabeça e tentando construir uma frase completa. As palavras surgem, agarram na garganta e morrem. Ela esfrega o rosto, gesticula e ri de si mesma.
— E essa era a sua preferida. — Nora debocha.
— O que está sugerindo? — Eris é severa. — O que pensa? — Nora franze o cenho e recua. — Não posso julgá-la. Vocês têm uma visão deturpada do que os deuses são. Alguns talvez sejam, mas eu não. Não vou incutir obediência e devoção à ninguém. Vocês são livres. Os criadores deram isso a vocês. E que tipo de liberdade seria se eu punisse todos que decidem não me adorar? Não é liberdade se o custo é a vida. O que aconteceu a ela foi a consequência das escolhas que tomou.
— Você podia salvá-la
Eris sorri.
— Eu podia?
Nora abaixa os olhos quando a resposta surge. Talvez Oltia não desejasse ser salva. Em seus escritos, Oltia parecia muito ciente de tudo que acontecia ao seu redor.
— Ainda assim, Floare estava aqui. Ela estava disposta a obedecê-la, a servi-la e a sacrificar-se, se necessário.
Eris inclina a cabeça, franze o cenho e suspira.
— Eu nunca escondi de Floare a solução para o problema. — Nora franze o cenho, Eris prossegue: — A página foi arrancada pelo nosferatu. — Ela se refere ao livro. — Mas a forma de matá-lo sempre foi de conhecimento de Floare. Exige um sacrifício de sangue mágico. Afinal, foi a magia que criou esse monstro. E apenas a magia pode desfazê-lo. — Nora recua outra vez. — Uma bruxa deve sacrificar-se. Ao deitar-se com o nosferatu e permitir que ele beba o sangue mágico, a bruxa aceita a morte como caminho para redenção de todo o povo. O nosferatu, embriagado pelo sangue mágico, se esquece de sua obrigação ao raiar do sol. — Eris gesticula, demonstrando entre as mãos o que acontece. — Ele não é capaz de parar a tempo. — Nora vê a página arrancada em sua mente e entende que Eris causa isso. — E é morto por sua ganância ao raiar do sol.
Nora sente as lágrimas surgirem.
— Floare… — Ela engasga na própria suspeita. — Não minta para mim!
— Eu não minto, criança. Floare sabia. Ela sempre soube. — Nora nega, incrédula. — Não há mais bruxas entre esse povo, e Floare precisava de uma bruxa de linhagem forte como Oltia. Não é algo comum nos dias de hoje, infelizmente.
Nora franze o cenho quando a primeira lágrima cai do rosto. Eris torna-se séria e quase sombria.
— Ela sabia disso quando me orientou a encontrar com o conde. — Eris assente. — Ela sabia que…
— Floare não esperava que você retornasse. — Eris comenta. — E por isso partiu. Deve ter temido a ira de sua metade. A raiva causa angústias intensas.
— Eu era o sacrifício! — Nora esbraveja entre as lágrimas. — Eu fui oferecida ao nosferatu como uma ovelha é levada ao matadouro! Floare… — As palavras somem e retornam momentos depois: — Floare nunca me contou isso! Ela fingiu ignorância sobre o assunto. Ela disse que não sabia!
Eris permite que Nora atravesse toda a raiva e mágoa. É noite quando Nora é capaz de respirar outra vez.
— Não lamente mais por isso. — Eris aconselha. — Você está aqui.
— Porque eu me tirei de lá! Porque eu, — Nora aponta para si mesma. — eu fiz isso. — Eris concorda. — Se eu não tivesse encontrado uma forma…
— A sua disposição foi nobre, Eleonora. Ainda que não soubesse das intenções de Floare, a sua conduta foi nobre e forte. A sua magia a protegeu. A sua magia a guiou. E o nosferatu não teria te aceitado se o sangue que percorre as suas veias não fosse tão antigo e forte. — Eris pausa. Quando prossegue, a voz é frágil e assusta Nora. — Pensei que nunca mais a encontraria. Pensei que o castigo seria eterno. Mas aqui está você! Não há dúvidas, minha irmã, que é você. É diferente, mas você. Que arrependimento! — Nora recua conforme a emoção domina Eris. A cabeça lateja e é capaz de vomitar a qualquer momento. — Desta vez, eu juro, não cometerei os mesmos erros de antes. — Eris aproxima-se, envolvendo o rosto de Nora nas mãos. Ela tenta fugir, mas o toque de Eris é tão forte quanto cuidadoso. — Desta vez, terei a chance de consertar tudo. — Nora mexe o corpo com violência. Eris a enreda completamente. — Não tema. O que tenho a te oferecer é o que muitos procuram, inclusive o nosferatu. O que hoje trago para você é o que precisa, embora não veja com totalidade agora. Não tema, criança! Você foi desenhada para isso.
O grito de Nora fica preso na garganta quando o corpo é erguido do chão. Ela se esforça para olhar Eris, que desfaz-se de sua casca humana. A presença de Eris é uma luz dourada e intensa, que cega Nora parcialmente. Ela chora e implora para que Eris pare. As palavras que Eris usa são de uma língua desconhecida. Conforme Eris ordena, Nora percebe faíscas douradas a rodarem com intensidade. As faíscas se aproximam e se afastam o tempo todo. Nora luta contra.
Eris segue murmurando. Nora não ouve mais as palavras desconhecidas; ela escuta o crepitar do fogo como se uma grande fogueira estivesse acesa a poucos metros. As faíscas se tornam maiores, mais intensas e mais avermelhadas. Eris não é mais dourada; é da cor de cobre fundido. Nora urra outra vez, implorando para que pare. Porém, Eris está concentrada demais para ouvi-la. As palavras, quer dizer, o crepitar do fogo é ensurdecedor. Em sua mente, Nora compreende o sentido.
A doença não a tocará. E as feridas não mais te matarão
O tempo não lhe é mais senhor; é servo
Enquanto o sol nascer, você viverá
Assim eu ordeno,
Assim será;
Vida sem fim
Até o fim
As faíscas encorpadas, da cor de cobre, adentram a pele da Nora causando profunda dor. Ela berra, implora e chora. O corpo estremece e arrepios percorrem toda a pele. A carne parece se alargar e estourar até se encolher novamente, tornando-se concisa, firme e eterna. Por um momento, Nora sente o sangue secar nas veias. O coração para por um minuto completo. Quando o sangue volta a correr, queima todas as veias. Nora vê em sua mente o sangue da cor cobre, como Eris é agora. O coração volta a bater quando o corpo cai no chão do templo.
— Desta vez, minha criança… — Eris fala, crepitando. — Desta vez será diferente. Eu prometo. Você consertará tudo. É por isso que voltou. Voltou para consertar todas as coisas.
A deusa parte. E Nora demora anos para se convencer de que Eris a amaldiçoou com uma vida sem fim.
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