Tempo da Bruxa
27 Existência
A ave preta a espreita pela janela, ainda silenciosa. A mulher não percebe o visitante e concentra-se em coser o tecido grosso. O crepitar da lenha do fogão a distrai do mundo exterior. A moradia é tão pequena e discreta que o fogo que aquece o caldeirão é capaz de aquecer todo o ambiente.
A costura não é tão precisa quanto a mulher almeja. As mãos trêmulas a acompanham desde a tenra idade e tem piorado conforme envelhece. Ela teme que a tremedeira se alastre, a engolindo por completo. Se assim for, será inútil por completo. O pensamento a sufoca muito rápido, interrompendo por completo a atividade. Ela afasta a calça para verificar o próprio trabalho e geme com o resultado que dificilmente agradará o homem. Ao mesmo tempo, o corvo invade o cômodo sem que ela perceba.
Ela encara as próprias mãos, se esforçando para interromper o tremor. Contudo, todo o esforço causa formigamento no braço esquerdo. A perda de força é o resultado final. Ela segura a respiração, levanta-se e utiliza o braço que tem mais força para apoiar-se nos móveis. O formigamento sobe pelo braço e queima até o ombro. Ela balança o membro para tentar amenizar a sensação que acredita ter sido causada pelo tempo excessivo que dedicou-se à costura.
O suor pinga do rosto, e ela reconhece que as crises estão mais frequentes. Quando era criança, os formigamentos eram breves e amenizados pelas massagens da mãe. A perda eventual de força no braço esquerdo permaneceu sem explicações. E após muitas visitas de diferentes sábios na arte de curar, ela notou o sofrimento que causava na família com as suas queixas. Guardou-as para si até convencer-se que o tremor e a fraqueza eram um castigo vindo dos deuses.
O corvo grasna e assusta a mulher. A mão direita segura o braço esquerdo contra o peito, tentando conter o tremor. A ave preta inclina a cabeça e pula da janela para a cadeira da mesa. A mulher franze o cenho e aproxima-se da ave.
As penas pretas e os hábitos carniceiros definem a ave como amaldiçoada e portadora de maus presságios. Ela sorri com o pensamento e sugere:
— Está vindo buscar minha alma? — O corvo cacareja como se entendesse e aproxima-se. — Sabe que não é bem vindo.
O corvo grasna.
— Vá. — Ela usa a mão boa para afastá-lo. — Vá embora, corvo.
A ave empoleira no ombro esquerdo dela. A risadinha o sacode, e ele inclina a cabeça outra vez. Ela caminha até a porta, avistando o jardim que ainda não foi consumido pelo inverno. Ao oeste, o sol prepara-se para se pôr. A percepção de que a noite está próxima a faz esquecer-se do formigamento e do corvo, correndo pelo jardim enquanto chama por Aella. O corvo a acompanha e pousa no galho mais próximo. Ele cacareja e empoleira, apontando com o bico em direção à floresta. Porém, é tarde demais. A menina é guiada em direção à casa pelo pai. A expressão dele é mais severa que o comum, e a mulher se encolhe e abraça o braço trêmulo outra vez.
— Você não ficará satisfeita enquanto não perdê-la! — A voz é grave, e a acusação severa. Ela se encolhe mais. A menina está distraída com as flores que colheu na floresta. — Não ficará satisfeita até os deuses a levarem! Mulher inútil! — Ele acrescenta enquanto arrasta a criança para casa. A mulher aproxima-se para acolher a filha da fúria insuportável. — Onde está a sua cabeça o tempo todo? Longe daqui. Sempre longe daqui!
O corvo cacareja. A mulher pega a filha no colo para protegê-la.
— Ela estava brincando. — A voz é frágil e trêmula. — Eu não a perderia. Nunca.
A risada é mais alta do que o cacarejo da ave preta.
— Brincando?! — Ele ri. — É tudo isso que fazem enquanto estou fora?! Enquanto trabalho por vocês?!
— É uma criança.
— Uma criança? — A mulher usa a mão trêmula para tapar o ouvido da filha, apertando-a contra o peito. Ele gargalha. — É grande o suficiente para ajudar! — A aproximação é violenta, a mulher recua e o corvo cacareja. — Se não fosse idiota como você! Se ao menos pudesse falar, eu juro pelos deuses, eu já teria… — O homem se interrompe. — Não vou pedir outra vez. É tempo de ensiná-la. E se não fizer… — A mulher recua outra vez. — Eu não devo ser tão ingrato com o presente dos deuses. Uma filha muda! Muda, mudinha! — O homem agarra o rosto da menininha, e ela fecha os olhos com força. — Continue assim, minha filha. Fará o seu marido muito mais feliz do que eu sou.
Naquela noite, o homem ronca alto, o corvo cacareja do lado de fora da casa e Circe afia a adaga mais uma vez, temendo não ter força para usá-la.
***
O despertar da Nora é abrupto. Ela senta-se na cama e tosse tanto que os pulmões ardem. As lágrimas escorrem pelo rosto, e o choro balança o corpo fragilizado e dolorido de Madalena. O braço esquerdo está completamente dormente e trêmulo. Ela abre e fecha a mão na tentativa de recuperá-lo. Aos poucos percebe que não está mais pendurada, nem mesmo desmaiada próxima da árvore.
O quarto é iluminado por muitas velas. As janelas estão fechadas, e o ambiente é quente e aconchegante. O corpo frágil está vestido com uma camisola e coberto com duas mantas pesadas. O suor escorre pela nuca, misturando-se ao sangue e lágrimas. O tremor desaparece do braço, e Nora leva a mão ao coração ao senti-lo arder com tanta força que quase a sufoca.
Antes que possa levantar-se, a porta do quarto se abre. O homem alto adentra o quarto e aproxima-se da cama. Nora se encolhe, temendo-o. Porém, ele senta-se na beirada da cama com tamanha graciosidade que quase a envergonha. Eles se encaram por um tempo. Nora franze o cenho.
O rosto é longo, tem as maçãs bem elevadas e a linha da mandíbula definida. O nariz é arrebitado e desenhado. Nora o reconhece pelos olhos, enfim, porque são verdes como as folhas secas no final do outono.
Todo o choro reprimido escapa quando Revna a acolhe. Nora afunda a cabeça no peito dele. O colete preto rapidamente se torna úmido. Ele esfrega as costas dela com as pontas dos dedos com movimentos repetitivos e familiares. Revna cheira ao orvalho da floresta; às noites quentes e breves e ao farfalhar das árvores.
— Você veio.
Revna apoia as costas dela com um braço, mantendo-a próxima do peito. O queixo dele apoia-se no topo da cabeça de Nora, e ela acha tudo muito familiar mesmo que seja a primeira vez que o vê naquela forma. Os dedos ainda estão trêmulos quando ela agarra a entidade. Revna desfaz a tensão dos dedos ao envolvê-los com a mão. Por longos momentos, nada é dito.
— Revna, — Nora choraminga, frágil. — eu…
A frase não é concluída. Revna mantém-se quieto e próximo até que Nora seja capaz de respirar pelo nariz e se acalmar. Ela afasta-se devagar, estranhando-o por completo. Durante a longa e instável relação, Nora o encontrou em muitas versões. A primeira foi como uma ave preta carniceira. Depois, ele roubou todas as aparências que o agradou; desde homens à mulheres de muitas cores e formas. E sempre como uma sombra.
Pela primeira vez, a casca não tem pele fria, nem o peito imóvel. Ele é quente, respira e move-se como se estivesse na própria carne pela primeira vez em séculos.
São muitos pensamentos, e Nora segura a cabeça por uns momentos. O sonho ainda está vivo em sua mente, mas as últimas experiências são mais intensas. Por isso, ela concentra-se na questão:
— Quanto tempo? — Ela olha ao redor. — Onde estou? — Nora se encolhe. — Cadê o Lucien?
Revna segura o rosto dela, usando o polegar para acariciar as bochechas. Antes de afastar-se, ele segura a ponta do nariz dela entre os dedos com muita delicadeza. O ato surpreende tanto que Nora perde as palavras.
— Ainda está no mesmo lugar. — Revna fala, enfim. A voz a choca. Adrian tem a voz encorpada e profunda, sendo sempre ouvido mesmo quando sussurra. As aparições de Revna enquanto sombra soavam como farfalhar de árvore. E um corvo geralmente é áspero. Na atual forma, a voz é macia e suave em tom médio. Cadente e tranquila. — Quanto ao tempo… — Ele suspira. — Algumas semanas. — Nora arregala os olhos. Ele encolhe os ombros. — E não se preocupe com Lucien agora.
Nora preocupa-se.
— Ginevra. — Ela acusa. — Foi a Ginevra. Ela sabe. Sabe de tudo. — Nora tenta movimentar-se, e a pele de todo o corpo repuxa. — Semanas. Semanas! — Ela lembra-se de Dante e a sua primeira transmutação, além de Selena. — Eu preciso ir…
Revna a impede de movimentar-se mais e a repreende com o olhar. Nora ainda o estranha muito.
— Não é a lua certa. — Nora para de se mexer. — Ainda há tempo. — Ela não acredita. A magia capaz de impedir uma transmutação é complexa e demorada. No entanto, é incapaz de movimentar-se enquanto Revna mantém a mão em seu ombro. — E você ainda está muito frágil. — O olhar dele transforma-se. Nora olha para o corpo coberto e sente o fisgar na região do seio esquerdo. Com as mãos trêmulas, ela toca os braços de Madalena. A maioria dos machucados, vergões e infecções se foram. — Preciso de mais tempo para curá-la completamente.
Nora esfrega a pele macia, impressionada com a ausência de cicatrizes. As unhas também estão crescidas e saudáveis. Revna levanta-se e aproxima-se da mesa. Nora observa que há muitas velas, ervas, flores e cristais dispostos no móvel. Por um tempo considerável, ela o assiste. As escápulas se movimentam o tempo todo. Revna aquece o pequeno recipiente nas chamas das velas. Aos poucos o quarto é tomado por um cheiro diferente.
Ele retorna com uma pasta acinzentada. O cheiro é forte. Revna murmura palavras antigas e incompreensíveis. A pasta fermenta e se torna avermelhada. Ela arqueia as sobrancelhas, e ele afasta a camisola grande e expõe o tórax e o seio ferido. Nora se encolhe quando ele espalha a pasta nas feridas, mas não há ardência ou dor. Lentamente o incômodo anterior desaparece por completo. Ela percebe que a pasta borbulha na pele e arqueia as sobrancelhas.
— Não consigo recuperar o seio antes de tratar a infecção.
Muitas questões surgem. Nora opta pela dúvida maior:
— O que é isso?
Ele sorri sem mostrar os dentes e coloca o recipiente vazio na mesinha de cabeceira.
— Terra santa, confrei, urtiga, espinheiro e vinho batizado.
Ela assente.
— E o que você murmurou?
Ele sorri e segura o rosto dela com cuidado.
— Como pode ser tão curiosa até nesse estado? — A gentileza a enlouquece. — É uma magia antiga. Te ensino depois.
Nora suspira, ri de si mesma e pondera.
— Às vezes me esqueço. — Revna inclina a cabeça. — Me esqueço que é isso que você faz, que é quem você é. — Ele senta-se na beirada da cama. A pasta aquece a ferida, e Nora deita-se quando se sente cansada. — É tão estúpido da minha parte, considerando que busquei você exatamente pelo conhecimento. É claro que sabe tudo.
— Eu não sei tudo.
— Nem consigo presumir o quanto você sabe. Como aprendeu tanto?
— Eu tive muito tempo. — Revna a olha. — E muita curiosidade também. Quando era jovem, — Ele ri. Nora inclina a cabeça. — No começo, isto é… Não havia muito, senão a escuridão. Ainda assim, gastei muito tempo para entendê-la — Ele gesticula, e Nora imagina. — Escuridão é como vocês, mortais, definem. E eu entendo. Mesmo nas noites de lua cheia, os seus olhos não são capazes de ver mais do que as estrelas, a lua e o céu. Muitos pensam que isso é tudo. Mas há tanta coisa.
Sem pensar, Nora segura a mão dele e leva para o coração. Ele aproxima-se.
— Me conte. — Ela pede. — Não sobre as coisas lá fora. Ainda sou pequena demais e tudo isso me assusta. — Ele sorri. — Me conte sobre as coisas daqui. Como eram as coisas.
A conversa é tão familiar.
— No início, a Terra era feita de gases e explosões. — Nora franze o cenho, incapaz de imaginar. — E quando as primeiras formas surgiram, eu percebi que esse lugar era diferente dos outros. Por muito tempo, eu fui apenas um observador da ordem das coisas. É incrível como a vida encontra o seu caminho, mesmo quando parece impossível. Foi essa percepção que me mudou. Lá fora era interessante, mas o que estava acontecendo aqui… — Nora arregala os olhos, impressionada. Ele sorri. — Admito que fui incapaz de me manter indiferente. Quanto mais existo, mais entendo que não existe indiferença. Mesmo para coisas como eu… — Revna ajeita-se na cama para que as costas se apoiem na cabeceira, e Nora cede espaço para o corpo dele. — A vida encontrava a sua forma. As primeiras coisas surgiram na água. Depois, quando chegaram à terra… Imagine a minha surpresa. Até então ainda era um exímio observador. Optei por entender e aprender as estruturas primeiro, em assistir as formas que a vida se desenhava, antes de realizar os meus caprichos.
— Qual foi o seu primeiro capricho?
— Bom, eu gostei muito do verde. Fiquei feliz em aumentar as coisas verdes.
Nora ri, incrédula. Ele confirma com a cabeça.
— Admito que demorou muito antes que coisas de outras cores surgissem.
— Quando eu nasci, tudo estava formado. As coisas mudam, mas ainda tem muito verde. — Ele sorri. — Sou incapaz de imaginar como foi ver tudo o que existe hoje surgir. — Nora franze o cenho. — Não se sentia sozinho?
— Eu não estava. Eu nunca estive. — Nora franze a testa. Revna ajeita-se, suspira e brinca com os próprios dedos. — Há outra coisa como eu, você sabe disso. Existe desde que eu existo.
— Outra entidade? — Revna confirma com a cabeça. — E… — Nora senta-se quando não sabe o que dizer. — O que…? — Ela gesticula. — Como isso era?
— Por muito tempo não era. Somos coisas totalmente diferentes. A Terra não despertava a atenção dela. Não ainda.
— Isso… tem um nome?
— Madora. — Nora coça a nuca quando o nome preenche os ouvidos. — Madora encontrou os próprios interesses. E a Terra se desenvolveu muito antes que ela enxergasse esse lugar.
— E eram só vocês dois?
— Por muito tempo, sim. — Revna pausa e suspira. — Eu me dediquei a esse lugar. Eu intervim o mínimo possível porque, novamente, a vida sempre encontra o seu caminho. Em algum momento, não sei quando exatamente, Madora veio até mim. O tempo dela fora da Terra a teceu de outro jeito. Hoje eu sei disso. Na época, porém, ela era a única coisa que eu conhecia. Era a minha igual. Provavelmente fomos forjados da mesma coisa. Ou, como a própria Terra, por acaso surgimos da mesma coisa.
Revna não diz. E Nora não sabe se a suposição lhe pertence de verdade. De qualquer forma, a dúvida é dita como afirmação:
— Vocês eram companheiros?
— Nos tornamos, sim. — Revna desvia os olhos. Nora o encara até ele voltar a falar: — O resto da história você conhece. A nossa união concebeu muitos seres. E esses seres, por sua vez, conceberam outros seres. Alguns deles eram parecidos comigo. E por isso vocês nunca ouviram falar deles. Vocês só conhecem os deuses que intervieram e fizeram desse lugar a sua imagem e semelhança.
A história que Nora conhece, desde pequena, é que os deuses criaram tudo o que existe. Primeiro, a natureza. Depois, os animais. Em seguida, as diferentes raças como as bruxas, os licantropos, as fadas e até os homens comuns. Todavia, nunca lhe contaram sobre os pais dos deuses.
— Assim como você, a Madora permanece. — Revna confirma. Nora expõe a próxima dúvida como afirmação de novo: — E ainda é a sua companheira.
— Não. — A negação ocorre muito rápido e é acompanhada de um sorriso desdenhoso. — Não mais. E nunca mais. — Nora franze o cenho. Revna prossegue: — É uma história longa. Sei que a sua curiosidade é extensa também. Porém, agora, o seu descanso é mais importante.
— Não posso descansar. — Nora senta-se na cama, preparando-se para levantar. — Eu passei semanas fora.
— Eleonora…
— Os meus filhos…
— Eles estão bem.
Nora suspira aliviada.
— Então, você os visitou?
O silêncio de Revna o incrimina.
— Eu estava procurando você. — Nora revira os olhos. — Você é a minha prioridade.
— Que seja! — Nora debocha. — A minha prioridade são os meus filhos! — Revna não se comove. — Revna, eu fiz uma promessa.
— Você quase morreu.
— Eu não morri.
O humor da entidade se transforma tão rápido que os olhos se tornam escuros como a noite.
— Por sorte.
— Não seria a primeira vez.
— Esse é o problema. — Revna esbraveja. — Não seria a primeira vez! — Eles se encaram, ambos alterados. — Eleonora, eu entendo a sua devoção com os seus filhos. Acredite em mim, eu entendo. Mas o que aconteceu aqui, o que Lucien fez com você…
— Não é a primeira vez que me torturam. Sabe disso.
— É a primeira vez que quase conseguem. — Revna soa severo. — Esse corpo não é o seu corpo. Não importa o quanto a sua alma mágica e os sacrifícios que fez tenham mudado esse corpo. Ainda é um corpo humano. E sempre será. — Ela morde o lábio com raiva. — Esse corpo que ocupa não tem a mesma força, muito menos a imortalidade do seu corpo de verdade. E de forma alguma se recuperará tão rápido quanto o seu corpo anterior. Eu entendo a sua ansiedade, entendo o seu medo. Mas preciso que fique aqui e descanse um pouco mais.
— Me leve para casa. — Nora implora. — Você pode fazer isso.
— Eu farei assim que possível. Você acabou de acordar.
— Estou perdendo tempo aqui.
Revna ri.
— Perdendo tempo?!
— Eu fiz uma promessa! — Nora ergue a voz e sente o pulmão doer. — Você é incapaz de entender, mas eu fiz uma promessa.
— É claro que fez! Se eu sou incapaz de entender o que uma promessa é, você é incapaz de deixar as coisas serem o que são. Dante é um licantropo! É a natureza dele! Não pode evitar para sempre!
Nora pisca várias vezes.
— Você sabe que não é tão simples assim! — Nora resmunga. — Sabe disso, Revna! Não fale como se Dante convivesse com a família de licantropos, como se estivesse se preparando há meses para isso. Não fale como se a transmutação fosse um processo simples e ocasional! Ele não sabe nada sobre o que é! E o pai dele também não sabe! — Ela aumenta o tom de voz. — E eu sei menos ainda. Tudo o que conheço é o sofrimento que vi Adrian atravessar.
— Adrian! — Revna eleva a voz também. — Adrian, Adrian, Adrian! O tempo todo. É tudo o que sabe falar.
— E sobre o que eu deveria falar?! — Nora berra. — Deveria falar sobre a minha família morta? Ou sobre a bruxinha idiota que eu era? Ou sobre o infeliz dia que uma deusa me transformou nisso?! Agora até mesmo me pergunto se a conhece. Afinal, de uma forma ou de outra, todos os deuses vem de você! — Revna balança a cabeça e a aperta. — Adrian, Dante e Selena são a minha família! Por muitos anos, por séculos, eu não tive nada, nem ninguém.
— Eu estava lá.
— Estava?! — Nora sente a cabeça rodar e senta-se. — Você era uma aparição ocasional, Revna! Não posso negar que me acompanhou, que me ensinou, que me ajudou e que facilitou a minha existência em muitos momentos. Mas você sempre sumia na manhã seguinte. E, deuses, não me lembre que é da sua natureza. Não ouse me dizer que pertence à escuridão. Eu sei disso! Mas a escuridão existe o tempo todo em lugares diferentes! — Eles se encaram. — Por que não me levou com você?! — As narinas do Revna estão dilatadas como se ele realmente respirasse, e o rosto está completamente vermelho. Os olhos que eram esverdeados agora são completamente escuros. — Por quê?!
— Não vou te impedir de voltar para casa. — Revna murmura, esvaziando-se da raiva. — Mas não hoje, nem amanhã.
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