O cavalo negro não tem rédeas, nem cela. Portanto, não é Nora quem define o percurso. A montaria parece saber exatamente o que está fazendo. No mundo em que vive, dividindo-o com toda a sorte de criaturas, até mesmo humanos, um cavalo enfeitiçado não está nem perto de surpreendê-la. Surpreende-se, sim, com quem preparou a montaria para ela. E também evita pensar no assunto. É como uma velha desconfiada e cheia de crendices. Teme que a entidade seja capaz até de invadir os seus sentimentos.

Ou está se tornando medrosa demais?

A cavalgada de retorno é mais longa que a ida. Em parte, Nora está exausta, e o clima não ajuda. É final de janeiro, e as temperaturas são baixas como nunca. Há geada e neve por todos os lugares. Se não fosse o casaco de pelos e couro, o corpo de Madalena não aguentaria tanto. Por outro lado, Nora percebe tarde demais que não está retornando para a casa de Adrian.

Devido ao aspecto inóspito do ambiente, ela demora a diferenciar e reconhecer. Anos se passaram desde que ocupou a choupana. Diferente de Sylvia, Nora escolheu uma localização agradável, longe o suficiente da vila mais próxima, para subir as pedras da choupana. Há um lago próximo que a maioria das mulheres, acompanhadas de suas crianças, frequentam para lavar as roupas de suas senhorias. Há um bosque agradável, que agora está congelado como o lago. Há árvores frutíferas e flores cheirosas, decorando as estações de alegria.

A choupana repousa entre esses ambientes. Longe o suficiente para não ser um lugar frequentemente abordado, mas não distante o suficiente para que o isolamento a consumisse.

Nora se alegrava, ela se lembra conforme o cavalo diminui o ritmo, que lavava as roupas na beira do lago simplesmente para ter com quem conversar. E inventava uma história diferente para cada pessoa com quem conversava, ciente que as mulheres, atarefadas, não se lembrariam dela quando voltassem à vila.

Por isso, quando Dante apareceu, Nora pensou que pudesse ser uma criança perdida de sua mãe. A cabana era distante demais do lago para que uma criança conseguisse ir sozinha e a pé. E Dante não se vestia como um plebeu. E mesmo com a hipótese, ainda que obviamente falha, Nora não o levou ao lago para possível reconhecimento.

O cavalo para de marchar e vira a cabeça em sua direção. Nora olha ao redor. Falta mais de uma légua para a choupana. O recado está claro, porém. A montaria a levara até aquele ponto e nenhum metro a mais.

As pernas estão congeladas quando Nora salta do cavalo. Ela cai na neve, enrola-se na casaco de pelos e assiste o cavalo preto afastar-se com tranquilidade até sumir de vista. Como se pudesse ver o corvo, Nora revira os olhos, amaldiçoando por sempre fazer tudo tão difícil e ineficiente.

Nora levanta-se quando o corpo de Madalena está prestes a congelar na neve. Os pés afundam na neve conforme caminha, enrolada no casaco, em direção à antiga moradia. Nos últimos anos de vida, Nora visitou a choupana poucas vezes. A vida estava totalmente centralizada no palacete que Adrian herdou do pai e vive confortavelmente. Enquanto marcha, Nora lembra-se da entidade debochando do quão desleixada ela se tornou. Também lembra-se do quanto Sylvia a julgou. Nora reconhece que a decisão de casar-se com Adrian não era a melhor, considerando a sua origem.

Mas a sua origem, naquela época, não lhe dizia mais nada. Tudo estava acabado. A sua família estava morta tempo o suficiente, até mesmo a parentela distante. E o mundo se tornou muito diferente do que Nora conheceu quando verdadeiramente jovem. A cabana era a coisa que mais a lembrava de casa. Não da casa em que viveu enquanto estudava com sua avó. Não da rotina que tinha enquanto aprendia a pronunciar as palavras no idioma arcaico ou jogar runas. Nada disso. A choupana a lembrava do lar que tinha com os pais e o irmão quando era apenas uma criança.

Adrian também lhe trouxe essa sensação. Apesar do palacete, de todos os servos e o poder envolvido, a vida era ironicamente simples e cotidiana. E as maiores preocupações de Nora era inventar novas distrações para Dante, cuidar do jardim e cavalgar o quanto a montaria suportasse. Divertia-se também na companhia de Adrian, com quem apostava corridas a cavalo sem fim definido. Com quem discutia livros e novas filosofias. Com quem viajava para Roma para assistir outro concerto. Com quem cochichava durante os jantares sobre as escolhas estéticas dos convidados.

As memórias são um abraço quente e cruel porque Nora faleceu, e Adrian casou-se com outra mulher com estranha facilidade. Embora Nora entenda o apelo do casamento para uma figura como ele, não consegue aceitar que Madalena foi escolhida. E tão escolhida ao ponto de gerar outro filho dele.

Nora toca a barriga de Madalena. Não há nenhuma protuberância que indica uma gestação longa. Provavelmente nem mesmo Madalena soubesse que estava gerando um bebê. Mesmo sem sentir, Nora toma conhecimento da adaga escondida no bolso interno do casaco. Em algum momento da discussão com Sylvia, ela percebeu que ervas não eram o suficiente para encerrar a gestação. Não há resoluções simples para situações tão complexas. E o sacrifício é a única língua que a magia que Nora herdou é letrada.

Ela se arrepia com a conclusão ao mesmo tempo que vê a choupana. A construção permanece do mesmo jeito que deixou há anos. Nora percebe que todos os candelabros que existem dentro da casa estão emanando luz. A lareira também está acesa porque a fumaça escapa pela chaminé. Ela nem sequer cogita a presença infeliz de outras pessoas. Sabe que o solo é consagrado e nenhuma criatura, nem mágica, nem humana, pode adentrar sem o convite adequado. Entidades, por outro lado, são coisas a parte e a capacidade de alteração de realidade é diferente.

Nora não recusa o ambiente acolhedor e quente. Também não agradece. Ela luta para arrancar as botas sujas de neve e folhagem velha e adentra a choupana. Não se preocupa em trancá-la. Sabe que nada a alcançará. Por isso, deita-se para dormir com tranquilidade.

***

É a segunda vez que encara o reflexo no espelho desde que ocupou o corpo. A figura de Madalena nunca a agradou, embora Nora reconheça que é tão comum quanto poderia. O corpo de Madalena é de baixa estatura, diferente do corpo com que Nora nasceu e desenvolveu. A silhueta não é esguia e os movimentos daquele corpo não são ágeis. O cabelo é cor de trigo, mas está sujo de sangue ressecado, terra e neve com dejetos diferentes. As unhas estão sujas também. Ela nem se arrisca a cheirar as mãos.

Mas ela usa as mãos para tocar a barriga de Madalena outra vez. O ato tornou-se rotineiro desde que Sylvia lhe contou da gestação. Nora viveu demais para saber como os bebês surgem. E pergunta-se a todo instante como Madalena está grávida. Nora morreu há mais de seis anos. Para ela, foi há algumas semanas. É doloroso perceber que o seu companheiro prosseguiu a vida com tanta facilidade que casou-se com Madalena.

Nora deixa a mágoa de lado ao avaliar o corpo de Madalena. Uma mulher relativamente jovem. Os seios são belos e bem posicionados. A silhueta é mediana. As pernas são cheias e atraentes. E a pele é dourada pelo sol, apesar do inverno, e não há nenhuma marca que conte sobre a sua vida. Nenhuma mancha, nenhuma cicatriz.

Nora era muito diferente.

Havia cicatrizes por todo o seu corpo. Nas mãos, nos braços e por todo o tronco. O seio esquerdo era marcado por linhas grosseiras, histórias sussurradas de todas as vezes que tentaram roubar o seu coração. A pele da perna direita era desfeita pelo acidente com fogo. E Nora tem quase certeza que não tinha um dedo no pé.

Os pés de Madalena são pequenos e perfeitos.

Antes de afundar o corpo na banheira, ela percebe que Madalena nunca foi indevida. Madalena é a mulher perfeita para acompanhar alguém como o Adrian. Nora era inapropriada.

Enquanto a água quente limpa o corpo de Madalena, retirando o sangue seco do cabelo louro, Nora aperta a barriga como se pudesse sentir o bebê. Confirma a suspeita de que a gestação é recente. E se indigna porque não sente a energia latente que um feto de licantropo, alimentado por magia antiga, deveria ter.

Uma completa aberração, como os pais, que servido da linhagem mais pura, do sangue mais antigo, contenta-se em ser imperceptível.

***

Sentada próxima a lareira, aquecendo o corpo de Madalena, Nora observa o garoto ocupar todo o assento almofadado. Dante está distraido utilizando todo o seu conhecimento de inglês para tentar decodificar o livro que Nora tirou da coleção de Sylvia. Por um segundo ela lamenta. As últimas memórias vividas em sua alma são de Dante tão miúdo que poderia dormir no pequeno sofá. Lembra-se de Dante pequenino, ocupando toda a choupana com a sua presença infantil e amável. As risadas e as perguntas infantis. E as histórias que Nora inventava para diverti-lo antes de dormir. Lembra-se da sensação que a aterrizou, algo que sempre presumiu que não pertencia a pessoas como ela. Desejou e quase efetuou, ainda que dividida pela culpa, assumir Dante sem se importar com suas origens ou família que procurava por ele.

— Você se esconde aqui.

Não é uma pergunta. Nora percebeu que a choupana se tornou refúgio para o garoto na primeira manhã. Havia utensílios e porcelanas novas. As estantes, que foram esvaziadas quando Nora aceitou se mudar, estavam ocupadas por incontáveis cadernos com desenhos e rabiscos aleatórios do garoto. Os livros favoritos dele também decoravam os móveis. Em lugares mais discretos, boa parte dos grimórios de Nora foram guardados com verdadeiro cuidado. Então, ela esperou que ele chegasse. Demorou alguns dias, e Nora sentiu-se capaz de ir até ele.

Mas ele chegou.

Dante encolhe os ombros como se estivesse cometendo atrocidades.

— Às vezes, sim.

Nora nega.

— Às vezes? — O rosto do garoto torna-se vermelho. Ela pensa em perguntar se Adrian sabe e percebe que a pergunta é até desrespeitosa. — Por quê?

— Para onde mais eu iria, mamãe?

Nora apoia o rosto na mão e tira um momento para observá-lo iluminado pelo fogo da lareira. É difícil aceitar que perdeu a mudança de todos os traços infantis. Ao mesmo tempo, Nora sente-se sortuda por vê-lo. Enquanto morta, não tinha percepção de seu estado. E ela nunca saberia o que Dante tornou-se.

— Desconfio que a sua casa é bem espaçosa.

Dante solta o ar pelo nariz.

— Não é a minha casa. É a casa do Adrian.

Nora evitou o assunto desde que Dante chegou. Eles gastaram bastante tempo se abraçando e garantindo que estavam bem. Dante a encheu de perguntas que Nora prontamente ignorou; muitos detalhes da sua viagem eram desconfortáveis demais, inclusive o estado de Madalena. Contentou-se em garantir que visitou uma antiga e sábia amiga que foi bondosa em ajudá-la.

— Oh, querido… — Nora move-se, sentando-se ao lado do garoto. Ele a evita por uns instantes. — Tudo ainda é difícil?

A pergunta é dolorosa e estúpida. A resposta é óbvia, Nora presenciou. Contudo, aceitar o que Adrian tornou-se, principalmente enquanto pai, é ainda pior.

Dante suspira alto e deixa o livro de lado.

— Desde que você se foi, mãe. — Dante balança os ombros. — Nada é como antes.

Nora o acolhe, apoiando o queixo no topo da cabeça dele. Dante aceita o afeto.

— Ainda não consigo entender o que aconteceu com o seu pai. Não consigo. — Ela lamenta. — Eu sei que tudo muda, inclusive o amor. Mas, Dante, você é o filho dele. O único filho. E o seu pai faria qualquer coisa por você. Eu não… Como se tornou isso?

— Somos coisas diferentes agora. — Dante soa sóbrio demais. — Eu não sei. — Ele levanta-se, andando e inquieto. — Não sei se eu sou o problema. Talvez eu seja demais mesmo. Não sou parecido com ele. Com a forma dele pensar. E talvez seja demais. — Nora está prestes a resmungar absurdos. Dante prossegue: — Ele pensa que tudo isso… — Dante gesticula, referindo-se aos livros, a casa e a eles. — é um assunto encerrado. Ele odeia quando falo disso. Do que nós… — Ele recusa. — Do que eu sou. Acho que ele não suporta que eu não seja tão…

— Ele não é diferente! — Nora ri, incrédula. — Se você é o que é, é porque ele também é! — Ela gesticula até desistir. Dante permanece quieto, absorvendo também. Nora lembra-se da discussão com Sylvia sobre todos os limites que atravessou por amor. — O seu pai…

— Ele é? — Dante interrompe. — Ele realmente é? Porque não parece. Não parece nada com o que eu sou. Nem com o que isso… — Ele aponta para os livros. — diz. Ele parece… Parece muito com Madalena. Não parece nada comigo. Parece com Madalena, sim. Fala como ela. Pensa e age como ela. Não consigo acreditar que o meu pai seja isso. Ele é só um homem. Só eu sou assim, desse jeito. — Dante coça a cabeça. — Acho que nem mesmo Selena é como eu. — O sorriso é magoado. — Papai fez isso. Eu não era boa companhia, acho.

— Vocês são irmãos. Do que está falando?

Dante move-se com dificuldade, pendendo nas próprias pernas. As palavras cessam.

— É diferente. Você sabe que é. — Os dedos dele passeiam pelos livros na estante. — Selena é a sua filha. E a filha dele. Ela é… E eu sou… — Dante abaixa o olhar. — Entendo agora. Não sei quando entendi. Mas eu percebi. Percebi que é diferente.

Dante parece excessivamente sério e simplesmente triste. A tristeza é habitual desde que Nora o reencontrou. O olhar sério e distante, contudo, o distancia do que Nora se lembra. Ela o encara, incapaz de se mover. Petrificada. De repente, sente ainda mais rancor de Madalena.

Não viveu o suficiente para averiguar a relação tecida entre Adrian e os filhos. A ideia de que ele diferencia Dante e Selena a perturba. E a perturba ainda mais cogitar o que o bebê, fruto do casamento ideal, significa para os seus filhos.

— Você é o meu filho. — Nora fala com a mesma firmeza com que tratou Sylvia. — De fato, não gerei você como gerei a sua irmã. Mas isso é insignificante. Você é o meu filho, e eu sou a sua mãe. Você nasceu aqui. — Nora mostra o coração. — E aqui. — Ela demonstra a mente. — Eu desejei você. Sem imaginar que um dia poderia ter. A sua irmã foi uma experiência desejada, mas você foi o meu milagre. Eu passei vidas, Dante, tentando me convencer que isso, que você, era demais para alguém como eu. Eu vaguei por aí. Eras e eras. Eu sabia que não havia muito pra mim. Mas você me escolheu. E isso é a única coisa que me importa. Você me escolheu.

O sorriso dele é trêmulo, mas real. Nora sorri também.

— Eu sei. — Ele limpa os olhos. — O seu amor sempre foi forte como uma pedra. Eu senti isso a vida toda. Até mesmo quando esteve longe. — Nora segura a respiração. — Mas não muda o fato. Para Adrian, eu sou uma consequência. Uma consequência de momentos breves. Eu sou o que sou. — Dante senta-se de novo, mais calmo. — Penso que ele não imaginou que eu iria vingar. Era pequeno e frágil demais. E agora vivo o suficiente para lembrá-lo da mancha em sua história. Esse é o meu lugar. Todas aquelas pessoas garantiram que eu soubesse.

Nora mantém-se distante para disfarçar a expressão de horror que toma o seu rosto. Ela inspira e expira, buscando diminuir o desconforto em seus ombros.

— Madalena?

Dante dá de ombros.

— Também.

A decisão se firma como uma rocha. O que era para ser um sacrifício difícil torna-se uma vingança óbvia. Primeiro, de Madalena por cogitar que poderia substituir a linhagem de Nora tão facilmente. E principalmente de Adrian que rebaixou Dante a posição de indesejado, como se fosse um bastardo qualquer.

— Querido… — Nora aproxima-se dele. Eles se olham. — Tudo isso será resolvido. — É uma promessa. — Você ficará seguro. E não passará por nada que não deseja. — Outra promessa. — E, então, nós vamos buscar a sua irmã. E vamos a qualquer lugar que vocês desejem. — O sorriso dele é tímido. — Qualquer lugar.

***

Dante insistiu em ajudar e não acreditou quando Nora garantiu que era capaz de carregar alguns pedaços de madeira sozinha. Nem mesmo Nora acreditou. Porém, ela precisava se esconder na floresta cheia de neve antes que a noite chegasse.

Em seu coração não há nenhum resquício de dúvida ou culpa. Talvez a sua alma, depois daquela lua, pese um pouco mais no julgamento final, se é que ele existe.

Talvez Sylvia tenha razão. Perdeu-se em seu dom. Talvez bruxas como Nora tenham perdido também a reverência pela natureza e vida. São discussões que Nora se perderia se fosse um pouco mais jovem, se não tivesse visto tanto do mundo e dos próprios deuses.

Às vezes ela não entende a intenção deles. Como seria possível Nora não revoltar-se vivendo tanto?

Tudo o que ela viu, tudo que ela sentiu e o tanto que existiu. Houve amor, encantamento e deleite. Houve acalento e pessoas adoráveis. E Nora também viu a indiferença, que julga pior que a crueldade. Conheceu homens e mulheres maldosos, dispostos à excessos por motivos questionáveis.

Por um tempo, Nora pensou que tinha a obrigação de salvá-los. Ou de ao menos impedir tantas perversidades. Como se pudesse trazer algum equilíbrio ao mundo; como se pudesse convencê-los do caminho correto. Como vários deuses tentaram, falharam e se afastaram do mundo quando testemunharam tamanha infelicidade.

Não há dúvidas. Não há arrependimento. E, ainda assim, Nora precisou se afastar de Dante, que tem a acompanhado desde o dia que a encontrou na choupana, para absorver a decisão que formou-se em sua alma na noite em que soube da gestação de Madalena.

A lua na época não era favorável para o que pretendia, e Nora sabia que demoraria alguns dias até que a primeira lua minguante surgisse no céu. E ela realmente acreditou que os dias seriam o suficiente para dissuadi-la da decisão. Os relatos de Dante, contudo, a encheram de algo ainda pior. O que era um mau necessário tornou-se uma vingança irreverente.

E mais uma vez ela encontrou-se naquela posição insuportável que a longevidade lhe deu. A escolha entre o afeto e a existência. Ao optar por encerrar a gestação de Madalena, Nora entende as consequências com clareza. Tudo o que havia entre ela e Adrian será destruído. Adrian o fez primeiro, de qualquer maneira. Adrian destruiu tudo quando subjugou o próprio filho à posição inferior; quando afastou Selena da família e quando trouxe alguém como Madalena para dentro de casa.

Ela para de andar quando percebe que embora indesejado, Nora nunca lamentou a longevidade que lhe foi dada como Sylvia. A percepção é definitivamente atrasada e quase insignificante naquele fim de tarde. A ocorre de qualquer forma. Ocorre porque o que resta das folhas sussurra em seu ouvido, provocando.

A maldição transforma-se, de repente, em uma escolha. Talvez, assim como Sylvia, Nora poderia encontrar formas de pôr fim à sua existência. Ela lamentou o que os deuses lhe fizeram e o quanto custou; a família, os amores e a vida comum. E escolheu continuar, da mesma forma que, conscientemente, pretere a vida da aberração de Madalena aos seus filhos.

Nora escolheu viver, apesar dos severos custos.

E agora, ocupando outro corpo, ela opta outra vez ciente do preço.

Nora aproxima-se da choupana disposta a despedir-se de Dante por uma noite. Se o corvo não mentiu, e ele seria capaz, o encerramento da vida do bebê é o suficiente para que o corpo frágil de Madalena pare de se desfazer. Não lhe foi dito, mas Nora presumiu. O sacrifício do bebê também deve ser o suficiente para transformar o corpo em algo mais formidável.

Ela escuta a confusão antes de ver. E quando vê, é difícil manter-se escondida na floresta.

Há três soldados montados em frente à choupana. O solo encantado é respeitado pelos cavaleiros, mas não por Adrian.

É desconfortável assistir Adrian discutir com Dante outra vez. Os movimentos de ambos são bruscos. Nora solta as madeiras e está prestes a separá-los, mas se reprime quando percebe a sutileza da situação.

Se interromper a discussão, Nora se tornará o alvo da nova briga. Ao menos, o corpo de Madalena será. E mesmo que Nora espante Adrian, a noite será desperdiçada. A próxima lua-minguante está distante. Nora não pode se dar ao luxo de perder um ciclo lunar ciente da proximidade da primeira lua cheia de Dante; ciente da complexidade da magia que pretende fazer para proteger o filho.

Por isso, ela segura a árvore ressecada. Segura-se porque sabe que as pernas e o coração são traidores. A discussão de Dante e Adrian é breve porque o homem não permite que o garoto fale muito. Dante monta o próprio cavalo contrariado, entre acusações e outras crueldades. Adrian suporta o desafeto em silêncio, e a presença dos guardas é o suficiente para constringir Dante.

Nora assiste eles se afastarem enquanto a floresta observa: “Pensei que fosse o seu filho”.

O coração dela a trai, assim como as pernas. Ela corre o máximo que os pulmões aguentam como se pudesse alcançar Dante, que se afasta com rapidez devido ao trote rápido do cavalo. Enquanto corre, forçando o corpo ao máximo, Nora chama por ele, disposta a perder a lua; disposta a se indispor ainda que frágil. Mas o corpo falha, e Nora cai sobre os joelhos, machucando a pele intacta de Madalena.

E Dante desaparece.