Tempo da Bruxa
10 Lua Minguante
— Levante-se. Você perderá a lua.
Desta vez, o comentário não soa do farfalhar das folhas. Nora sente a umidade da neve atravessar o tecido da roupa, esfriando o corpo. Ela concentra-se na sensação para evitar a presença do corvo. Ele permanece parado apenas um instante. No momento seguinte, o corvo toca o ombro dela. O toque não é firme como de uma pessoa de carne e osso. É uma pressão instável e espalha-se por todo o tronco dela.
— Vá embora.
O corvo se afasta meio passo. Ele não respira, nem emana calor. A presença é silenciosa e turva como a própria noite. Nora evita o contato visual. Embora saiba que é tolice, às vezes ela o trata como uma aparição, recusando-se a dar atenção como se fosse o suficiente para afastá-lo.
— Levanta-se.
Nora levanta-se porque o céu escurece rápido demais e ainda há muito para ser feito. Convence-se que os sentimentos conflitantes não são úteis e marcha em direção a choupana. A presença a acompanha na forma que mais se assemelha ao que Nora imagina que entidades sejam; um espectro escuro que sempre está escorrendo pelas bordas; uma sombra que se move densamente. E ela ainda tenta prender a entidade fora da choupana, mas o espectro escorre por baixo de sua porta e forma uma aparência no interior da cabana.
Ela não se interessa em qual forma a entidade escolhe. Em silêncio Nora encontra tudo que deixou previamente separado. A lâmina encantada é o item essencial para a noite. As ervas e as runas entalhadas em pedras serão úteis também. Ela escolhe o castiçal mais simples para ostentar a única chama que consegue levar até a clareira. Ciente do que pretende, Nora certifica-se de separar também tecido limpo.
— Não há dúvidas em seu coração, há?
Nora quase o olhar por cima do ombro.
— Há? — Nora devolve a pergunta. — Pensei que criaturas como você pudessem perceber nossas intenções.
O corvo permanece quieto. Nora o vê pelo reflexo do espelho e revira os olhos ao perceber que ele insiste em manter a aparência do Adrian.
— Não funciona assim. — Ele aproxima-se. A movimentação não é tão fluida quanto a de um homem de verdade. E as sombras correm para fora da casca. — Seria muito fácil se pudesse entrar na mente de vocês, mas a mãe natureza decidiu preservá-los. — Há ironia quando ele fala mãe natureza. — Então, eu só ouço vocês quando externalizam. — Nora surpreende-se tanto que esquece que estava o evitando. A cópia do Adrian arqueia a sobrancelha. — Não pode ter dúvida em seu coração. Um sacrifício duvidoso não é pleno.
Ela fecha os olhos e pondera.
— Por que eu teria dúvidas?
— Eu não sei. Percebo que é comum em vocês, mortais. — Nora solta o ar pelo nariz. — E trata-se de um bebê. Um ser indefeso, inocente, puro…
— Acredita nisso ou só está se divertindo em me perturbar?
Ele sorri. É idêntico ao Adrian sorrindo e ainda não é o Adrian. A casca é mecânica e ausente de autenticidade.
— Não posso ter um pouco dos dois?
— Isso… — Nora diz de repente. — Não seria necessário. — Ele arqueia as sobrancelhas. — Não seria necessário se eu estivesse com o meu corpo de verdade. Se importa-se tanto com o sacrifício de um bebê inocente, aposto que pode me ajudar a encontrar o meu corpo.
— Eu poderia, sim.
— Não me diga que tem um preço.
— Tudo tem um preço, bruxa. Você sabe disso. Está preocupada porque não sobrou nem mais um pedaço da sua alma para leiloar?
Nora revira os olhos. Ele solta o ar pelo nariz. Ela o encara e nega.
— Desde quando você faz isso? — Ela imita o ar sendo solto pelo nariz. — Você não respira.
— Vocês fazem isso o tempo todo. — O corvo solta o ar pelo nariz outra vez. — Não?
Ela estreita os olhos sem saber se deve questioná-lo.
— Digamos que eu possa pagar o preço… Pode buscar o meu corpo?
Ele finge pensar.
— Você é mais esperta que isso. Não se pergunta porque voltou para esse corpo? — Nora olha as mãos de Madalena. — Porque a sua alma seria enviada para um corpo aleatório, que já possui alma, se o seu verdadeiro corpo estivesse disponível e livre?
Ela recua e franze o cenho.
— Meu corpo não existe mais. — Nora presume. A entidade mantém a expressão vazia. Nora estreita os olhos. — Espere. Como assim disponível? Há alguém perambulando por aí com o meu corpo?!
O corvo dá de ombros e se afasta para mexer na estante. Nora o segue.
— Não faça isso com os ombros. — Ela repreende. — Diga-me.
Ele ri.
— Vocês fazem isso o tempo todo. — O corvo faz o movimento outra vez. — Eu gosto desse. É a melhor forma de se esquivar.
— Meu corpo está ocupado?! — Nora aumenta o tom de voz. — Revna! — Exige. — Revna! — Nora aproxima-se e o puxa pelo ombro. É frio e duro como metal. — Quem está no meu corpo?
Revna balança os ombros de novo. Nora está prestes a sacudi-lo como faria com uma criança, mas a entidade desfaz-se do seu toque e aparece no canto oposto da sala.
— Eu não sei, Eleonora. Eu… — Revna gesticula, imitando um ser humano. Ainda não é tão bom. — Não tive interesse em saber os detalhes. Talvez o seu corpo não exista mais. Ou talvez esteja ocupado por outra alma bem mais forte que a alma de Madalena. Aliás, ela não resistiu nenhum pouco à possessão, não é? — Nora arregala os olhos. — Não sei de todas as coisas; não acompanho todos os seres da Terra. São muitos! Mas eu sei que você não voltou para o seu corpo porque não está disponível. Os detalhes? Não sei.
Nora afunda o rosto na mão e bufa. Ele inclina a cabeça, estudando-a.
— Eu realmente… — Ela gesticula. — realmente esperava mais de coisas como você.
A entidade se diverte.
— O quê? Acha que sou onipresente, onisciente e onipotente o tempo todo? E ainda imortal? Isso é um exagero cristão.
Ela tira um minuto apenas para encará-lo. O corvo permanece imóvel, a encarando de volta. O peito não se move, assim como as pálpebras piscam muito menos do que o necessário. A pele é fria e a carne dura. A imitação é barata.
— Certo. — Nora volta a preparar as coisas para o ritual. — Deixe-me sozinha, ao menos. A sua presença não é de grande ajuda. — A entidade não se move. Nora guarda todas as coisas dentro da maior bolsa que tem. Ela veste o casaco, dois pares de meias, touca e luvas. O corvo permanece parado. É um esforço ignorá-lo. Nora morde o lábio inferior, frustrada. Não consegue supor se a entidade realmente não sabe sobre o seu corpo ou se apenas não tem desejo de ajudá-la. O ser permanece presente, imitando um corpo que não o pertence. — Por que? — Nora exaspera. — Por quê?! Não me diga… — Ela balança o dedo indicador. — Não me diga que eu tenho uma dívida. Estou ciente da dívida. Estou ciente de todas as vezes que procurei você. Mas por que agora?! — Ela gesticula muito. — E eu morri! Pensei que isso pagaria o nosso pacto.
— Morrer? — Ele ri. — O que faço com sua alma morta?!
— Eu não sei! O que você faz com todas as almas? Você não precisa que as coisas morram para que colete as almas?! Não é assim que os pactos funcionam?
— Para a maioria, sim.
— E por que eu voltei se a minha alma te pertence? Você… — Ela aponta para a figura de Adrian e percebe. — Eu estava… — Nora gesticula e o corpo perde as forças. Ela sente a cabeça girar. — A escuridão. A vida toda eu ouvi sobre o que acontecia quando morrêssemos. Eu pensei que… Não há nada, há?
Aquela projeção é incapaz de externalizar qualquer sentimento. Nora também não sabe se entidades sentem, mas não se surpreenderia se a resposta fosse positiva. Todos os seres são reflexos dos deuses. Os deuses, por sua vez, são reflexos das criaturas que os antecedem. E como os deuses poderiam dar às criaturas emoções se não as possuíssem? E de onde os deuses aprenderiam todos os sentimentos, senão dos seus criadores?
A entidade mantém o silêncio e funciona muito bem. Nora senta-se e nega com a cabeça.
— Não há nada? — Ela soa incrédula. — Para nenhum de nós?
Ele senta-se também na poltrona diante dela.
— Depende… — O corvo ajeita-se na cadeira. E as sombras que compõem a sua verdadeira forma parecem fugir do contorno daquele corpo. — Alguns deuses encontram prazer em receber as almas que foram fiéis e dignas durante a vida. Há deuses que são como justiceiros, pessoalmente buscando e julgando as almas. Tudo depende do que a alma acreditava. — Nora arqueia as sobrancelhas. — Mas no começo, antes que houvesse tantos deuses, tantas possibilidades e versões, não havia nada. As almas retornavam para o vazio. Sem consciência. Sem sentimentos. Apenas a energia fluindo por todo o universo.
— Copérnico está certo, então? Sobre o universo.
O corvo sorri.
— Estava, sim. Ele morreu enquanto você estava fora. Uma alma audaciosa para o seu tempo.
— Você o buscou? — A entidade assente. — Você me buscou? Porque minha alma é sua, não é? Depois de tantos favores.
— Eu não te busquei. Nem ao menos senti a sua passagem. Mas a sua alma repousou no vazio.
Nora encara a lareira.
— É isso que faz com as suas almas? Elas repousam no vazio?
O corpo move-se.
— Você é muito curiosa. — Aquela figura que interpreta Adrian volta a mexer na decoração da cabana. — As almas me pertencem a partir do momento que as pessoas as vendem por favores ridículos. E não devo a você explicações do que acontece às almas que me pertencem. Mas, Eleonora, não se acha tola em sua pergunta? Porque eu passaria centenas, milhares de anos, fazendo acordo para deixar as minhas almas à revelia?
— Não vai me dizer o que faz com as almas. — Ela observa a criatura movendo-se. — Por que não me buscou? Minha alma te pertence. Não por favores ridículos.
— Não. As suas motivações são sempre nobres, não é? — Eles se encaram. Nora entende a ironia. — Entregou-se com verdadeira facilidade para poupar o seu irmão. Você faria qualquer coisa por ele, não faria? A sua metade. Foi assim que falou dele.
— Ele nasceu comigo. Não suportaria vê-lo partir daquela forma. — Nora finge ajeitar as coisas. — De qualquer forma, ele morreu. Mas eu o vi viver. — Ela não percebe o sorriso. — Ele viveu muito. Por um tempo, saber que havia um pouco do meu irmão pelo mundo me deu forças para continuar.
— Quando você trocou a sua alma pela alma do seu irmão… Ainda era jovem. Era uma bruxa comum. Talentosa, mas comum. Admito que não imaginava que se tornaria imortal.
Nora ri.
— Foi um mau negócio, aposto.
— Para nós dois. — A entidade aproxima-se. — Quando você me prometeu a sua alma também não esperava viver tanto. Acho que só prometeu porque tinha a perspectiva de morrer também. Antes ou logo após o seu irmão.
Nora pondera.
— Não é verdade. Eu não imaginava que ganharia esse presente dos deuses… — Ela debocha. — Mas eu tinha medo. Tinha medo do que aconteceria quando viesse buscar a minha alma. — Ela encara a adaga uns segundos. — Tinha medo do que encontraria do outro lado. — Nora franze o cenho e encara a entidade no corpo do Adrian. — Por que não me buscou antes? Imagino que os planos dos deuses foram contrários aos seus, mas você os antecede. A sua existência, a sua continuidade. Todos os deuses passarão. Cedo ou tarde. Novos deuses surgirão. Mas você continuará. Por que não me buscou? Tenho certeza que tinha, e tem, poder para encerrar o meu percurso na Terra.
A entidade tira a adaga da mão dela e analisa a lâmina.
— Você conjurou um demônio para encantar essa adaga… — A entidade passa os dedos falsos na lâmina. — Está mesmo certa do que fará essa noite. Esse é o seu maior defeito, não é? Admito que seria indelicado se te resumisse à apaixonada. Não é uma simples paixão. É um amor avassalador. Por sua família. Sempre por sua família. Por Dante eu entendo. Ele é o que você sempre sonhou. — Ele se afasta com a adaga. Nora se preocupa. — Mas por ele? — A entidade aponta para a própria figura. Para a aparência de Adrian. — Isso não é por ele, eu vejo. Mas você seria capaz. Você foi capaz quando desafiou a ordem natural das coisas para poupá-lo. É capaz de sofrer por todos os seus amores de uma forma quase que grata.
— Vamos discutir minhas motivações agora? Como você mesmo propõe, são tolas e emocionais. Como a de todos os mortais, penso.
— Você não é mais uma mortal. — Ele rebate. — Não vou discutir as suas motivações. São justas quando comparadas a maioria das almas. Ainda assim, simplesmente não acredito que não se arrependa. Não se arrepende? — Nora o encara. — Você foi longe para protegê-lo. E ele foi rápido em encontrar outra, não é? Você não se pergunta, nem por um instante, se tudo aquilo era real? Pra você é claro que era real. Mas e para ele?
Nora avança em direção à coisa. Ela toma a adaga dele com um gesto bruto.
— Pensa que Adrian seria o primeiro? Em todos esses anos, acha mesmo que o Adrian seria o primeiro a me magoar? O primeiro a me trair? O primeiro a mentir? — Nora debocha. — Quatro séculos. Acha que choro por todos? — Nora o olha dos pés à cabeça. — Adrian é apenas mais um. E se eu precisar tirá-lo do meu caminho, como fiz com Sylvia, eu farei. Independente do que vivemos, do que fomos e do que eu pensei que tinha. — Ela ergue o queixo, firmando-se. — E, por favor, você viveu o suficiente para conhecer muitas estéticas. Escolha uma aparência mais original porque essa tentativa de provocação não me é nada senão ridícula. Eu genuinamente esperava mais de uma entidade como você.
Nora percebe que o corpo não é mais o suficiente para manter aquela entidade. Os olhos tornam-se completamente pretos, assim como a pele. Os traços de Adrian desaparecem e resta apenas os contornos escuros daquilo. A aparência mais próxima do que ele realmente é. Nora prefere. Então, resmunga:
— Deixe-me trabalhar.
***
São poucas as velas dispostas dentro do círculo feito com sangue. As chamas, porém, são tão altas que iluminam boa parte da clareira. A noite é gelada e pequenos flocos caem. Os flocos não são o suficiente para apagar as velas. A consagração feita deu às parafinas um funcionamento diferente. As runas dentro do círculo tem a função de proteger. As ervas e outras pedras mágicas foram adicionadas para potencializar o ritual.
No centro do círculo mágico, Nora mantém-se em pé proferindo a reza básica para consagrar a noite. A lua minguante está no topo do céu, portando toda a energia de purificação e finalização de ciclos, e Nora a encara em busca de força para prosseguir. As baixas temperaturas são um desafio. Ela abdicou do casaco de pele e optou pela camisola simples porque uma roupa elaborada deixaria tudo pior.
As chamas se mantêm altas, indicando que o portal está aberto. Nora para de entoar a reza inicial quando sente o frio ser substituído por um mormaço inadequado. Ela olha ao redor, certificando-se de que fisicamente está sozinha. O silêncio da noite é tão profundo que Nora pode escutar o coração de Madalena. Por um breve momento ela se questiona se Madalena ainda habita aquele corpo. E deseja que sim.
Nora alcança a lâmina encantada por um demônio. A escolha não poderia ser melhor. Apesar da energia que a própria ferramenta porta, Nora utiliza do fogo ardente para purificar o objeto e das ervas para abençoá-lo.
Encarando o céu noturno, Nora inspira o ar gélido. Teme morrer novamente. Lembra-se do conselho da entidade e pensa em Dante. Em seu idioma antigo, tão antigo quanto o seu povo, Nora repete a reza sobre a necessidade de purificar o corpo para que a alma possa habitá-lo completamente. A adaga aquece-se também e queima a mão. Nora range os dentes e prossegue.
Ao que não foi permitido, nem convidado
Ao que usurpa e consome
Ao que cresce sem permissão
Nora sente o mal-estar crescer. O líquido quente escorre do seu nariz.
Eu o afasto
Eu o proíbo
Eu o encerro
Eu o condeno
Desse corpo não terá força
E dessa alma não terá benfeitoria
Eu o expulso
Eu o condeno
Retire-se
Os olhos sangram, e Nora prossegue a entoar as palavras em seu idioma natal. A cada frase ela coloca mais energia, mais força e mais determinação. A adaga continua a esquentar, queimando a palma da mão. Dentro do círculo o calor é insuportável. Nora sente a aberração movimentar-se dentro do corpo de Madalena e o repreende e o amaldiçoa. Ela ergue a voz a cada repetição enquanto as chamas das velas são capazes de incendiar a floresta.
Desse corpo não haverá força
E dessa alma não terá benfeitoria
As suas mãos não alcançarão,
E os pés não sustentarão,
Eu o expulso,
Eu o encerro
Eu o condeno
E tudo que me pertence retorna
Nora treme quando empunha a adaga. As palmas das mãos estão vermelhas, pingando sangue. Os olhos e o nariz também escorrem. O sangue borbulha nas veias, e Nora sente os órgãos movimentando-se. Ao mesmo tempo, a dolorosa cólica irrompe no ventre. Nora curva-se e urra quando a segunda onda de dor a atravessa.
Eu o encerro
Eu o condeno
Eu o sacrifico
Tudo o que me pertence retorna
A dor é a mesma de um parto. O sangue continua jorrando pelos olhos, nariz e mãos. A terceira onda de dor é acompanhada por mais um sangramento. Nora sente o sangue escorrer pelas pernas. O útero se contrai, e ela percebe que não há mais tempo.
As mãos tremem enquanto posiciona a adaga quente no ventre. A lâmina é tão afiada que a ponta é o suficiente para arrancar um filete de sangue da pele dourada. Nora respira rápido, sangra e sua com excesso. Todo o corpo treme, prestes a desfalecer. Ela entoa a reza e encara a lua minguante pela última vez.
O urro ecoa por toda a floresta quando a lâmina adentra o corpo lentamente, cortando e queimando. Nora, de repente, não enxerga mais nada senão sangue. Ela repete “Eu o encerro, eu o condeno, eu o sacrifico” e sente a adega quente rasgar o ventre de Madalena. O sangue escorre em excesso. Ela chora, treme, baba e urra. Tudo ao mesmo tempo.
Nora solta a adaga por um instante, caindo de joelhos. Sabe que é necessário girar a lâmina, mas as mãos tremem demais. Ela sente o ar faltar. As lágrimas escorrem, misturando-se ao sangue e sujando os lábios. A respiração é cortada. Antes mesmo de girar a lâmina, Nora chora e resmunga baixinho, presumindo a dor insuportável.
Eu o encerro. Eu o condeno. Eu o sacrifico. Maldito seja. Devolva-me!
A lâmina é girada pelas mãos trêmulas. Nora não vê, muito menos escuta. Sabe que está urrando alto porque a garganta dói.
Quando a adaga é retirada, o sangramento é impossível de ser contido pelas mãos trêmulas. Nora ainda chora e urra porque as cólicas não cessam. Todo o corpo dói e prepara-se para um parto extremamente prematuro. Ela inclina-se para frente, mantendo o corpo em quatro apoios. As cólicas são substituídas por contrações que tornam-se cada vez mais ritmadas e curtas. Nora sangra, chora e o corpo faz um esforço desproporcional para expelir o feto.
Nora agarra-se às únicas coisas que estão dentro do círculo enquanto concentra-se na expulsão dos restos do feto. Ela não escuta mais nada, nem sequer sente outra coisa além da dor pulsante no ventre e as contrações. O trabalho é longo, embora Nora não tenha uma percepção de tempo adequada.
Todo o corpo queima, principalmente a genital. As partes deformadas da aberração são minúsculas, e Nora sente tudo sair, inclusive a placenta. Nora visualiza os pedaços do feto e da placenta e horroriza-se ao perceber que estão cobertos por larvas e sanguessugas. Ela berra e tudo, enfim, escurece.
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