A queimação no peito a convence do golpe inesperado. Nora mexe-se, tentando tocar a ferida. As mãos, contudo, estão unidas na frente do corpo por correntes que queimam os pulsos. Os pés estão presos por corda. Conforme a consciência retorna, Nora percebe que o corpo foi deixado no chão, em cima de uma tapeçaria que fede a mijo. O ambiente é abafado e rançoso. O rosto coberto pelo capuz a impede de conseguir mais detalhes.

Aos poucos a ardência física é substituída por algo pior: a percepção de que foi pega outra vez de surpresa. Nora sabia que era questão de tempo até que a farsa se tornasse insuportável. Enquanto sente a dormência diminuir pelo corpo, ela lista todos os momentos que excedeu-se em seu fingimento, principalmente nos últimos dias que aproximou-se consideravelmente de Adrian. Sente-se estúpida por ter pensado que Ginevra seria incapaz de reagir ao perceber a ausência da alma de Madalena no corpo. Na verdade, Nora sabia que Ginevra reagiria, mas definitivamente não esperava pela adaga e corrente encantada.

— O senhor sabe que respeito e confio no seu julgamento. — Ginevra murmura enquanto adentra o cômodo. Por poucos segundos Nora sente o ar puro adentrar o cômodo. Há outra pessoa com a mulher. A porta fecha-se. E o ar puro se esvai. A percepção do cheiro rançoso aumenta, quase causando vômito. — Mas não entendo. Não vejo porque estender a situação se temos o necessário.

Há barulhos de objetos de metais sendo movimentados. Nora imagina uma mesa de madeira maciça extensa que ostenta uma variação impressionante de objeto; desde livros, velas, louças até correntes, pregos, alicates e outros objetos que os torturadores julgam necessário. A possibilidade não a amedronta de verdade. Não é a primeira vez, nem mesmo a segunda, que é arrastada para um cômodo abafado para ser torturada. Nora sobreviveu aos Cavaleiros Teutônicos mais de uma vez.

— A senhora acha que atravessar uma adaga no coração da sua irmã é a melhor alternativa?

A voz é grave e um tanto quanto rouca. Nora supõe que seja um homem de meia idade que encontra sentido na vida ao perseguir, torturar e estuprar qualquer um que seja levemente diferente do que a fé orienta. Definitivamente não é a primeira vez.

— A adaga expulsará esse espírito.

— E matará a sua irmã no processo.

Nora imagina Ginevra mordiscando o lábio e apertando as mãos. A observação do homem é interessante. Apesar da queimação em seu peito esquerdo, Nora não teve contato o suficiente com a adaga para supor a magia que a teceu, nem mesmo as intenções. Sabe que Madalena, em seu corpo e existência comum, seria incapaz de sobreviver ao ataque. E também não é uma garantia que a mera agressão seja o suficiente para tirá-la do corpo.

— Talvez não a mate. — O homem prossegue. — Em minha experiência, quando um corpo está possuído, a verdadeira alma que o ocupa não sofre com as investidas feitas contra o demônio. — Ginevra respira alto, prestes a interrompê-lo. Ele prossegue: — Ainda assim, me sinto mais confortável em tentar outras alternativas antes porque não posso garantir o que acontecerá com Madalena quando esse espírito maligno se for.

Nora está em uma igreja. Ou alguma propriedade que pertence à igreja e foi consagrada a Jesus e muitos santos. Ela não sente nenhuma energia diferente, nem mesmo uma forte inspiração ou queimação cristã. Contudo, há apenas uma categoria no mundo capaz de reunir todas aquelas palavras em uma única frase. E, Deuses, é extenso o ódio que Nora devota aos padres.

— Outras alternativas?

Os passos pesados ecoam pelo ambiente. Segundos depois, o corpo de Madalena é levantado do chão e assentado sobre uma cadeira de madeira. Nora esfrega as mãos na madeira, sentindo as farpas. O padre arranca o capuz com considerável agressividade. Nora prepara o seu melhor sorriso para recebê-lo. Ele é rápido em realizar o sinal da cruz, e ela quase ri.

A ausência do capuz a permite verificar todo o ambiente. De fato, há uma extensa mesa de madeira maciça a poucos metros. A cadeira em que foi alocada pertencia ao jogo da mesa. Em cima do móvel tem muitos livros, bíblias, tinteiros, penas para escrever e muitos objetos para tortura que a igreja não recomenda que os padres utilizem. A cruz na parede diante Nora é grande e escura. Ao redor da cruz há pinturas de todos os apóstolos. Nora os reconhece e amargamente lembra-se das catequeses que foi submetida quando os cavaleiros venceram o seu povo.

Ela movimenta a cabeça e localiza as pequenas janelas posicionadas atrás dela. Não consegue ver além dos vidros, mas desconfia que não estão realmente em uma igreja. Esse tipo de sujeira deve ser feita longe da vista de todos.

Nora retorna o olhar para os presentes. Ginevra está atrás da mesa e carrega um olhar espremido no rosto. Deve ser difícil ver o corpo da irmã acorrentado, sujo e ensanguentado devido a facada. O homem é mais altivo. Os primeiros pontos brancos surgem no cabelo ralo e na barba grande. Rugas excessivas o envelhecem ainda mais. Os lábios são inclinados para baixo, lhe dando uma aparência severa. A vestimenta do padre é discreta, composta unicamente pela cor preta. Nora dificilmente o reconheceria fora de contexto.

— Demônio, — A voz é firme e o pedido soa mandatório: — eu, remido pelo sangue Jesus, a serviço do único Deus verdadeiro, ordeno que se apresente em nome de Jesus.

Nora solta o ar pelo nariz ao perceber que além de tortura, haverá também severas tentativas de expulsá-la do corpo com exorcismo.

— Eu não sou um demônio. — Nora o corrige, franzindo o cenho. — E mesmo se eu fosse, por que daria a você tamanho poder? O nome é a coisa mais sagrada do mundo. — Ginevra contorna a mesa, aproximando-se. O padre ergue o braço, a impedindo de invadir o círculo de tamanho considerável feito no chão. Nora surpreende-se ao identificar as runas e outros símbolos. Presume que o padre também utilizou água benta. — Olá, querida irmã.

— Veja, padre, é o corpo de Madalena. A voz que fala é a de minha irmã. Até os movimentos são dela. Mas nada que sai da boca soa como Madalena.

— Não é a sua irmã nesse corpo.

Ginevra está prestes a chorar. Nora olha para as janelas outra vez e lamenta que o dia clareou outra vez. Provavelmente passou toda a noite desmaiada e perdeu a chance de clamar por ajuda de Revna. Nora sabe que Revna não demoraria a atendê-la e também sabe que é capaz de sair da situação sozinha. Contudo, se libertar será muito mais demorado, e a Lua muda com considerável rapidez. Mais do que nunca ela precisa rever Selena e preparar a magia para Dante.

— Onde está Madalena? — Ginevra questiona. — Madalena, minha irmã, consegue me ouvir?

— Um momento. Vou avisar a Madalena que está aqui para visitá-la. — Ginevra arregala os olhos. Nora fecha os olhos de Madalena e finge procurar por outra alma dentro do corpo. — Oh, sinto muito. Ela não está disponível. Não se preocupe. — Ela sorri, maldosa. — Eu avisarei que esteve aqui.

— Seu demônio imundo! — O padre a repreende, severo. — Não deboche na casa de Deus. — Ele afasta-se até a mesa e retorna com uma cruz pequena de madeira. — Eu ordeno que responda em nome de Jesus!

— Pergunte e eu responderei.

— Por qual nome é chamado?

— Ginevra sabe o meu nome. Essa é a melhor pergunta que tem? — Ginevra arregala os olhos, e o padre a encara. Ela franze o cenho enquanto pensa e recua quando percebe. — Deixe-me adiantar para que o poupe de tantos esforços insignificantes. Eu sou Eleonora. E a minha existência os antecede. Não serão os primeiros, nem os últimos a tentarem. E eu não sou um demônio que pode controlar porque sabe o real nome. Por isso, espero que perceba que boa parte dos seus acessórios são mais do que insignificantes; são ineficazes. — Ginevra mantém os olhos bem abertos. A pele dela é clara, mas torna-se completamente sem cor. Nora a assiste uns segundos antes de encarar o padre. — Se posso alertá-los: sejam sábios e se poupem. Admito que a adaga, as correntes e as runas me surpreenderam. Percebo que estão mais preparados do que a maioria. E também reconheço que posso levar mais tempo, mas apenas um pouquinho mais de tempo. E quando eu sair daqui, eu mesma os farei se arrepender.

— Não se preocupe. — Ele rebate. — Eu garanto que não sairá daqui.

— Garante? — Nora inclina a cabeça. — O senhor é mais do que bem-intencionado. Considerando a sua breve e frágil existência, toda a ousadia é apenas desconhecimento. Eu lhe garanto que não sabe com quem está lidando. — Ela mexe-se na cadeira. — Eu não sou um dos pequenos e frágeis demônios que se orgulha de ter expulso. Não vou alertá-lo mais de uma vez.

— Considerando a sua situação você fala demais.

Nora ri.

— Acha que é a minha primeira vez?

Nora força as correntes. E o aço queima ainda mais a pele, machucando-a. Ao mesmo tempo, ela sente a força do corpo reduzir e a dormência retorna. Ginevra mantém-se distante e assustada. O homem aproxima-se do círculo que prendeu Nora e toma cuidado ao atravessá-lo sem desfazê-lo. Ele agarra o queixo dela com força, apertando. Nora range os dentes e afasta o rosto.

— Eu sei o que você é. — Ele a observa. — Não é um demônio comum. É uma bruxa. — Nora o encara. — E bruxas são seres depravados que utilizam magia proibida.

— Magia proibida. — Nora debocha. — Nem sabe o que isso significa.

— Ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira. — Ele entoa o versículo com firmeza. — E a feiticeira não deixarás viver! Pode não ser um demônio típico, mas uma bruxa também é um tipo de demônio.

— Não. — Ela resmunga. — Não somos como os demônios. Nós fomos criadas e escolhidas!

— Servas de Satanás! — Nora joga a cabeça para trás e ri histericamente. Ele avança no corpo de Madalena e a agarra pelo vestido, sacudindo-a. O tecido demora, mas rasga. Nora mantém o sorriso no rosto. Ele a joga na cadeira e agarra as mãos dela, unidas pela corrente. — Isso… — Nora observa as runas entalhadas nas correntes. — Foi feito especialmente para você. Eu abomino todos vocês, demônios, bruxas, lobisomens e vampiros. Vocês são pragas.

— Nós antecedemos vocês! — Ela grita. — Vocês são um acidente do acaso. Incapaz de se cuidarem sozinhos, sempre clamando por ajuda! Se não fosse por nossa bondade vocês não chegariam tão longe. Devia ajoelhar-se e agradecer.

— Diante você? — Ele debocha. — Por que o faria? — O homem contorna a cadeira. — Solte-se, bruxa!

Parte das runas são familiares a Nora; a maioria era utilizada para manter energias e presenças densas dentro do ambiente pré-determinado, visando evitar que o ritual pudesse falhar. Outras runas foram criadas para proteção. E também tem desenhos que são completamente novos para Nora, embora mantenham estrutura similar às runas. Ela estremece quando presume o significado e uso dos novos desenhos.

— A adaga, as runas, esse círculo mágico… — Nora comenta e franze o cenho. — Não é o tipo de conhecimento que a igreja produz.

— De forma alguma. Nossas produções refletem apenas Cristo.

— Quem deu isso a vocês?

— Admito, eu relutei em usar tudo isso… — Ele pondera. — Precisei pedir a Deus humildade para reconhecer que estava lidando com algo diferente e que não tinha as ferramentas necessárias. Então, o anjo Miguel, famoso por suas batalhas, veio a mim e santificou essas ferramentas! Veja como Deus é bom.

Nora sempre evitou os anjos. Além da rixa intensa com os demônios, eles são dotados de uma autoestima e desprezo pelos mortais que é tão típica quanto enjoativa. Algumas presenças não são confiáveis e outras são literais demais.

— Miguel santificou. — Nora comenta com certo deboche. — Mas não foi ele quem fez. Esse trabalho é muito específico. — Ela não dirá que parte das runas eram usadas pelo seu povo. — Estou surpresa, padre. Teve a sorte de encontrar outra bruxa neste século.

Ele exibe um sorriso encardido.

— Outro demônio, sim. Você parece surpresa.

— Não existem muitas bruxas.

Nora prefere pensar que uma bruxa teve acesso ao mesmo sistema mágico que o seu povo praticava porque a outra opção é Revna. Revna talvez seja o único ser que tem conhecimento das runas ao ponto de criar e encantar novas. A queimação surge no estômago e arranca o seu ar. Revna não a trairia daquela forma. Não depois da última conversa.

— Acredite, eu também me surpreendi. Não por encontrar outra bruxa. Estou surpreso que tenha sido traída por uma das suas irmãs. Me questiono o que fez para ela… — Nora pisca, incrédula. Não há descrição, nem nenhum outro detalhe é fornecido. Porém, apenas uma pessoa surge em sua mente. Ela sente-se melhor por não ser Revna. E se arrepende por não tê-la enterrado. Os olhos ardem brevemente. Sylvia, maldita, ensinou mais do que deveria a ela. — De qualquer forma, ela foi extremamente gentil em nos presentear com esses artefatos. Não sei o que fazem exatamente, mas sei que fazem algo porque você ainda está aprisionada aqui.

Sylvia não tem magia própria. Depende de objetos mágicos que estão espalhados pelo mundo para canalizar a magia e produzir feitiços, encantamentos, curas e até mesmo maldições. Nora não consegue imaginar onde Sylvia encontrou tanta magia para produzir a adaga e as correntes. Ela fecha os olhos, inspira e afasta da mente todos os pensamentos turbulentos. Concentrada, Nora direciona toda a magia do corpo e alma para as algemas. O aço geme e vibra novamente, e Nora sorri. No momento seguinte, toda a intensa magia direcionada às algemas retorna para Nora em um choque doloroso. Ela geme quando sente a pele queimar mais e as correntes se apertarem.

Nora movimenta-se outra vez, usando a força física para romper com as algemas. Contudo, o aço está mais firme, mais grosso e mais pesado que antes. Ela escorrega na cadeira quando percebe que é a própria magia que está sustentando o seu cárcere. Quanto mais intento, magia e atenção direcionar às correntes, mais fortes elas se tornam.

— Maldita! — Nora esbraveja, assustando-os. — Sylvia, eu vou te caçar.

O padre ri, satisfeito.

— Percebo que o trabalho será intenso. Minha senhora, — ele se aproxima de Ginevra. — preciso que nos deixe à sós. A senhora não se agradará do que acontecerá aqui.

Nora permanece se debatendo tentando se soltar enquanto eles discutem. O coração bombeia o sangue com tanta força que causa dor no ferimento no peito. Ela range os dentes, puxa as correntes e amaldiçoa Sylvia por muito tempo. O corpo se enfraquece com a energia gasta, e as correntes parecem cada vez mais severas.

— Vejo que está sofrendo. — Nora ignora. — E não acho que esse sofrimento seja necessário. Deixe esse corpo que não te pertence e se arraste para o buraco do qual saiu.

Ela gargalha.

— Deixar o corpo? — Eles se encaram. — Tão fácil assim?

— Temo que se arrependerá em breve.

— Não mais do que você.

— Minha querida, eu sou paciente. Não importa quanto tempo demore, nem importa o quão longe precisemos ir. Vou garantir que seja expurgada desse corpo.

— E eu vou garantir que falhe. — Nora se exibe. — Meu senhor, deixe-me te fazer uma promessa. Eu não sei se Madalena existe ainda. Talvez a alma dela tenha descansado no Senhor.

— Mas o corpo não. O corpo está sendo corrompido por você, demônio.

— Talvez ela ainda esteja aqui dentro. — Nora prossegue. — Eu não sei. Não gastei tempo tentando descobrir porque Madalena é insignificante para mim.

— Demônio.

— Mas eu te garanto. Você pode até mesmo me mandar para o buraco do qual sai, mas eu levarei o corpo e a alma de Madalena comigo.

O primeiro tapa queima na bochecha esquerda. Nora sente o sangue escorrer pelo nariz e surgir na boca. Ela cospe o sangue e ri, mostrando os dentes sujos. Ele ajeita a postura, pretendendo ser imponente. Nora engole o resto do sangue antes de dizer:

— Essa é toda a sua força?

A próxima agressão é um soco forte que derruba o corpo de Madalena no chão. Nora sente a cabeça girar e o sangue quente sujá-la ainda mais. A dor é completa e sem pausas. O ouvido entope por um minuto inteiro. Ela cospe outra vez e ergue o tronco do chão, encarando-o.

— Esse é o seu melhor? Você bate como moça.

A fúria do homem cresce, e Nora perde a noção do tempo em meio às agressões. Quando ele se satisfaz, Nora não sente mais nenhuma parte do corpo de Madalena. O nariz está definitivamente quebrado, assim como as costelas, o que torna a respiração quase impossível. A dor é tão intensa que a faz surda por um tempo. Os olhos estão inchados, e as pálpebras não se abrem. Os braços e pernas ainda estão presos, e ele concentrou a sua força no abdômen, no rosto e nas costas de Madalena. Nora sabe que é questão de tempo para que sangre por dentro. E também sabe que o seu sangue mágico não a deixará morrer.

— Que belo homem que você é. — Ela usa o resto das forças que tem para resmungar. — Espancando uma mulher.

Ele para de limpar as mãos e a encara.

— Você não é uma mulher. Você é uma coisa.

Com isso, ele aproxima-se outra vez e rasga o resto de tecido que cobre o corpo de Madalena. Nora pouco se importa com a nudez de Madalena e sorri.

— Gosta do que vê? Não me diga que vai enfiar o seu pau sujo no corpo dela…

O murro a leva para o tapete sujo de mijo e sangue de novo. O padre sai do círculo mágico e abre as janelas. O vento gélido invade o cômodo no mesmo instante. Nora se esforça para não demonstrar que o frio a atingiu e a preocupa. O corpo reage, contudo. A pele se arrepia e os mamilos surgem. Ele a encara como se apreciasse uma obra de arte. Nora o encara, gravando cada detalhe do rosto dele enquanto planeja desfazê-lo por completo em breve.

***

— Nossa mãe de Deus! — A mulher exaspera e deixa a porta bater, interrompendo a reza do padre. — Padre Lucien! O que o senhor está fazendo? — A mulher se apressa para socorrer o corpo de Madalena. O padre se antecipa e evita que ela adentre no círculo mágico. — O senhor está louco!

A discussão prossegue por muitos minutos. Nora permanece deitada no chão, encarando o teto. Por enquanto a percepção de tempo está preservada. É a primeira vez desde que chegou há seis luas que outra pessoa além do homem adentra o ambiente. Os cinco dias foram parecidos, senão idênticos, ao primeiro dia. O padre, que agora sabe o nome, gasta boa parte da inicial paciência questionando-a e confrontando-a. A tentativa de esmorecer o seu espírito não é tão bem sucedida quanto às sessões de espancamento que o padre encontra certo divertimento.

O corpo de Madalena cede à violência dia após dia, apesar do sangue mágico ainda o impedir de se desfazer por completo. Nora não vê o reflexo de Madalena desde que chegou, mas sabe que ela está completamente desfigurada. A pele dourada agora é preenchida por hematomas que variam de roxo, azul e preto. O nariz permanece quebrado, e dois dentes caíram da boca. A pele está rasgada em diversos locais, e todas as noites antes de se deitar Lucien derrama bebida nas feridas.

Durante o dia as janelas permanecem fechadas para preservar a saúde do padre de meia idade. Antes de se recolher, Lucien lembra-se de abrir todos os vidros possíveis e apagar a lareira. O vento gélido invade o cômodo, e Nora que não acha ser capaz de morrer de tanto apanhar tem certeza que morrerá de frio. O corpo, que não é alimentado, suporta com muita dificuldade os excessos durante o dia. A magia da Nora, cada dia mais fragilizada, esforça-se para curar parte dos ferimentos apenas para que Lucien os faça de novo no dia seguinte. Ele sentiu um prazer estranho ao perceber isso e passou a se esforçar e variar em suas sessões sádicas. Na última tarde, o padre invadiu o cômodo com um chicote usado para domar cavalos e experimentou na pele humana por tanto tempo que foi necessário retirar o tapete.

— Não se engane, sra. Galli. — Lucien adverte. — Apesar da forma humana e feminina, é um dos piores demônios que já lidei.

A senhora a encara com os olhos arregalados.

— Não posso crer.

— Minha senhora… — Ele aproxima-se, tocando os ombros dela. A mulher é de baixa estatura e tem um corpo grande. Nora aposta que ela é a responsável por cozinhar, lavar e limpar a casa que o padre usa para as atividades duvidosas. Provavelmente o padre a vetou de adentrar o cômodo até então. — Alguma vez já lhe enganei?

— De forma alguma, monsenhor.

— Me sinto alegre por saber disso.

— Alguma vez já agi de forma desproporcional aos ensinamentos de Cristo?

— Em nenhum momento, monsenhor.

— E quando pequei, alguma vez deixei de me confessar e me punir pelos meus excessos?

— Nunca, monsenhor.

— Não tenho tido uma postura adequada?

— Sim, é claro.

— Portanto, peço que não me coloque à prova. Um dia, esse corpo foi ocupado por uma jovem adorável e temente a Deus. Não sou capaz de entender como ou porquê, mas a alma caridosa da jovem foi espremida para que essa entidade possuísse o corpo.

— A jovem morreu?

— De forma alguma. Acredito que o demônio a aprisiona.

— Nossa Mãe de Jesus. — A mulher se benze imediatamente.

— Reconheço os aparentes excessos, mas garanto que é o único caminho para libertar a alma da nossa irmã. — A mulher encara o corpo de Madalena por uns segundos. Nora presume que esteja pior do que sente. — Por isso, peço que tenha cuidado quando estiver aqui. É um demônio sagaz, debochado e inteligente. Pode facilmente enganar os despreparados.

Nora arrasta o que resta do corpo e senta-se.

— Sou um demônio, uma bruxa ou uma entidade? Imagino que o senhor não saiba as diferenças entre esses seres.

— Nada disso vem do Senhor, bruxa. Não me importo se tem diferenças.

— Eu conheço apenas uma entidade. — Nora prossegue. — E já me foi dito que existe outra. E antes de tudo existir, antes dos deuses, dos seres mágicos, dos seres humanos… — Ela pausa. — Antes mesmo de Jesus, essas entidades habitavam o vazio. Um dia, em um tempo distante, essas entidades perceberam, entre todos os planetas e universos, que a Terra era boa e agradável.

— Veja como blasfema! Do que fala, bruxa?

— Estou te ensinando, garoto. Cale-se e aprenda. — Ela pausa. — Ao verem que a Terra era agradável, decidiram ficar. E o amor entre eles prosperou, e os primeiros deuses surgiram. Os deuses, vendo que a Terra era boa e agradável, sentiram-se sozinhos apesar da companhia dos pais e iguais. Cansados do vazio, criaram os primeiros seres mágicos. A sua raça, — Nora debocha, — foi a última parte da criação. E da sua raça vem todas as ilusões. Que tipo de Deus se deixaria ser crucificado e morto?

A questão o irrita outra vez. Lucien dispensa a serva, advertindo-a novamente sobre o temperamento instável e perigoso de Nora. A mulher apressa-se para sair do cômodo, e Lucien mexe em suas coisas por tanto tempo que aparenta ter se esquecido das ofensas. Minutos depois, ele adentra o círculo mágico, e Nora tenta imaginar quantas vezes ele precisa invadir o círculo para enfraquecê-lo o suficiente para que a sua reza atravesse o telhado.

— O Senhor Deus criou a raça humana. — O padre resmunga. — Uma criação perfeita.

— Mas foram expulsos do céu.

— Devido ao pecado. Um castigo mais do que merecido. Sabe de uma coisa, Eleonora? — Ela não tem disposição para responder. — O castigo é o caminho pelo qual Deus corrige e salva as almas. Já não tenho certeza se a alma de Madalena está entre nós. Nunca deixarei de tentar; somente se Deus me mostrar que é o suficiente. Contudo, eu vejo os planos perfeitos do Senhor diante de mim. — Nora segura o ar quando vê o alicate usado para torcer metal. — Vejo que já conheceu a palavra do Senhor. Me alegra e me entristece. Primeiro, me alegra porque Deus é capaz de alcançar todos os lugares. Me entristece porque se você já conhece a palavra do Senhor, não justifica todas as blasfêmias. Deus é capaz de absolver as almas que não tiveram a oportunidade de conhecê-Lo em vida. Mas as almas que tiveram a oportunidade e ainda o negaram devem se arrepender antes que seja tarde. Muitas vezes o arrependimento vem pelo castigo. E sinto que agora isso é parte do meu chamado.

Quando o Lucien se recolhe para dormir, abrindo as janelas e apagando a lareira, não há nenhuma unha nos dedos das mãos de Madalena e o sangue está empossado no chão. Antes de perder a consciência, Nora tem a impressão de que reza. Não para o Deus católico, apesar dos severos esforços do padre. Ela reza para Revna. Ela implora e geme. Porém, a casa ainda tem telhado, e o círculo mágico ainda está inteiro.