1188

Diante da escultura de mármore tem mel, laranjas, vinhos nobres e cristais nobres. A sacerdotisa do templo queimou casca de frutas cítricas e lavanda há pouco tempo. Devido às investidas cristãs, pouco sobrou do templo dedicado à deusa. A maioria das colunas do ambiente foram desfeitas propositalmente. A escultura, por sua vez, também não resistiu completamente. Parte do rosto da deusa se foi, assim como ambos os braços. Apesar dos poucos recursos, o cheiro do incenso sobe aos céus, e Nora não entende porque a deusa é tão insensível ao clamor do povo que ainda lhe devota tanta fé.

— Apesar do silêncio, — A mulher de idade avançada murmura, aproximando-se. — sou incapaz de abandoná-la.

Elas encaram a face destruída da deusa Eris. Ela não é cultuada entre o povo de Nora, que tem a liberdade de escolher os deuses que servirão. A família de Nora respeita os deuses amplamente reconhecidos, mas optou, devido à insistência da avó, em priorizar os estudos da magia que a família carrega no sangue. Nora, por sua vez, nunca sentiu afinidade com nenhum deus, senão a coisa travestida de corvo.

— Quando?

A senhora pisca, molha os lábios e suspira alto.

— Não tenho certeza. — A sacerdotisa ajeita as velas com cuidado. — Penso que nós a abandonamos primeiro. Quando o Cristo Crucificado chegou, muitos de nós foram rápidos em deixá-la.

— Não sei se nos foi dada escolha.

— Vocês resistem, porém.

Nora mordisca o lábio inferior.

— O preço é alto.

— Não acha que o preço é justo para a liberdade?

A pergunta ecoa na cabeça de Nora, e a mulher a convida para retornarem para a pequena casa feita de madeira e pedras. A bebida servida também tem laranjas em sua composição e um pouco de rum. Nora aquece-se rapidamente e olha a paisagem pelas janelas que ainda estão abertas.

— Você o sente? — Floare questiona. Nora franze o cenho. A mulher sorri sem graça e explica: — A sua metade. Seu irmão.

— Oh, Nik. — Nora esfrega a nuca. — Não apenas nascemos juntos, como também fomos gerados juntos. Não vejo uma vida sem ele. É como se… Enquanto Nik existir, eu terei um lugar no mundo.

— Eu te entendo, menina. — A velha senta-se com a própria caneca de latão. — Eu também tive uma metade. Ursula. — Nora arqueia as sobrancelhas e oferece um sorriso gentil quando a mulher divaga. — Éramos mais que irmãs gêmeas, éramos melhores amigas inseparáveis. Ainda não sei como resisto sem ela.

A tristeza abate Nora brevemente. Embora ela e o irmão sejam jovens, e a vida se desenhe de forma próspera, a mera ideia de perdê-lo um dia a sufoca.

— Eu não suportaria. Por isso, morrerei primeiro.

Floare sorri e nega.

— Não pode garantir.

— Eu garanto. — O olhar que Floare lhe oferece é quase de pena. Nora mexe-se desconfortável, e a ausência de Nik se estende mais do que é normal. Se estivessem em casa, Nora não se preocuparia. Nik provavelmente estaria com a futura esposa. Estão, contudo, em terras distantes que Nora resistiu muito à ideia. — Não falemos disso. Conte-me mais sobre o que perturba o seu povo.

A mulher se sacode e bate na mesa três vezes.

— Eu o expulso. Bata também, menina. A sua força pode ser grande, mas não deve dar sorte ao diabo. — Nora a imita. — Eu ouço sobre esse diabo desde que era menina. É uma coisa horrenda que atravessa os anos sem envelhecer. Os mais antigos diziam que ele foi um feiticeiro forte e fez um pacto para viver para sempre. Isso não é correto, você sabe. A mãe Natureza é perfeita em sua criação, e é necessário que exista um equilíbrio. Tudo deve morrer. Até os deuses. — Nora arregala os olhos. — Sim, garota. Até os deuses morrem. Penso às vezes que a minha Eris se foi. É a única justificativa. De qualquer forma… — A velha faz uma pausa para tossir. — Ele suga as vítimas até matá-las. Enquanto Eris andava entre nós, o Nosferatu não tinha permissão para nos tocar. Agora Eris se foi, e eu não fui abençoada com a magia e pouco sei sobre como mantê-lo longe. Por isso, busquei ajuda em vocês. O seu povo, apesar de simples, sempre mostrou-se hospitaleiro. Abençoada seja Bryda. Inicialmente roguei por Bryda e muito me entristeci quando soube da moléstia que a acometeu. Sou feliz por ela ter mandado vocês. Sobre o seu irmão pouco ouvi. Me ressinto, mas sei que Bryda pouco o estima. Por outro lado, a sua avó nunca poupou palavras ao falar de você. Não ouso duvidar do sangue puro e forte de Bryda.

Nora não tinha intenção em passar o resto da primavera próxima de Cárpatos. A beleza do lugar o precede. Os dias, contudo, se vão com muita rapidez, e ela não teve tempo para colher as próprias flores. Bryda sempre lhe disse que servir era o preço justo para o dom que recebeu. Nora não acha que recebeu a magia como um presente. A magia estava no sangue da sua família, e Bryda foi uma tutora quase hostil. Era mais uma responsabilidade, uma obrigação, do que um presente. Além disso, ela deixou belas penas para o corvo, agradecendo-o pela bênção.

— A senhora precisa saber que a minha experiência com vampiros é breve. O meu povo pouco sofreu com os sanguessugas.

— O que corre aqui… — Florea agarra a mão dela, virando o braço e apontando para as veias. — É antigo e puro. Bryda nos socorreu em muitos momentos de agonia, demonstrando o seu profundo conhecimento e a força incomparável. Você é a continuação natural dela. É o seu legado. É quem você é.

Nora termina a bebida e sai da cabana simples para assistir o céu se por. A ideia de ser como Bryda a enche de calafrios.

— Minha irmã, — Nik grita. Nora o vê a metros de distância e inclina a cabeça. Ele traz consigo uma bolsa feita de algodão cru. O tecido já gasto pelo tempo está sujo de sangue. Nora não se surpreende quando Nik derruba a cabeça à sua frente. — é verdade! É verdade, Eleonora! — Ele puxa os lábios do defunto para mostrar as presas pendentes na gengiva. Os dentes ainda estão sujos de sangue. Nora firma o maxilar. — O lugar está cheio de sanguessugas. Para cada nascimento, o demônio transforma mais dois. Se continuar assim, em breve também estaremos cravando as presas por aí.

1545

— Nik, eu…

Nora engasga com a própria saliva e é arrancada das lembranças pela tosse alta. As lágrimas salgadas molham os lábios ressecados, e Nora move-se devagar. Os braços estão unidos, presos pela corrente encantada com runas e suspensos com o auxílio de mais uma corrente, que é acoplada no teto por um gancho. Os pés por sua vez estão tensionados com a ajuda de correntes e um gancho que estava escondido pelo tapete imundo. A disposição dos ganchos prova que não é a primeira vez que o padre Lucien interroga alguém.

— O que é isso? — A voz envelhecida de Lucien retira Nora dos sonhos. Sonhos, não! Lembranças sorrateiras. Ela tenta se encolher conforme percebe a ausência de Nik, mas as correntes não permitem. O corpo está esticado e tensionado há horas. — Lágrimas. — Ele esfrega a pele dela com a mão áspera. — São lágrimas, sim!

Nora encara o homem com desprezo.

— Não se preocupe. Elas não são por você.

— Por mim? Tenho certeza que não são. Quem é Nik? — Nora desvia os olhos. — Eu te fiz uma pergunta, demônio.

Apesar dos hematomas extensos, dos cortes que o chicote causou, do nariz quebrado, todas as unhas retiradas e dois dentes perdidos, Nora ri. Não é uma risada, é mais um suspiro alto e debochado pelo nariz.

— Demônios, demônios, demônios.

— Quem é Nik?

Nora se recusa a respondê-lo. Não compartilhará nada sobre o seu irmão. Então, como castigo, como Lucien aprendeu a chamar, ele aproxima-se das correntes que mantém os braços erguidos e as encurta ainda mais. Os pés estão presos próximos ao chão, e o corpo é esticado em excesso.

Nora morde o lábio com força quando sente todas as articulações dos ombros e mãos arderem. O sangue escorre pelo corpo nu. A respiração se encurta, e o gemido é contido na garganta. Lucien encurta mais a corrente. Nora respira forte e rápido. O suor escorre, causando um cheiro insuportável ao encontrar o sangue. Ela geme, respira e morde o lábio.

— Eu te fiz uma pergunta, bruxa.

Ela prefere unir o resto das forças para cuspir o sangue no rosto do padre. Ele limpa o rosto com nojo e esmurra o estômago dela como resposta. Nora não vê as coisas com a devida clareza. Por isso, não sabe se o sangue na madeira é dos lábios ou de dentro do corpo.

— Vejo que está pronta para outra sessão.

Nora geme, e Lucien afasta-se para alcançar o livro. As palavras do exorcismo ecoam em latim por todo o cômodo. Nora decorou todas e não as suporta mais. Lucien interpreta a sua reação como se o exorcismo estivesse prestes a funcionar e aumenta o tom de voz ao exigir que o demônio abandone o corpo de Madalena enquanto a salpica com a água benta.

— Seu bastardo imundo. — Ela amaldiçoa. — Cale a maldita boca.

Lucien finaliza o exorcismo antes de aproximar-se. Não há mais unhas para arrancar, e os punhos do homem estão machucados devido aos excessos. Nora pode sobreviver a outra surra sem muita dificuldade. É, inclusive, um tanto quanto ousado da parte dele supor que em 380 anos de vida Nora nunca enfrentou algo mais forte que um idoso. A dor também é passageira. Muito real também.

— Eu ordeno que deixe esse corpo em nome do Senhor Jesus Cristo!

Ela fecha os olhos e inclina a cabeça, respirando devagar. Os ombros estão tensionados e ardem o tempo todo. A dor na perna é indescritível desde que o osso trincou. A magia antiga que flui da alma da Nora resiste mais do que o esperado. Enquanto mantém os olhos fechados, Nora tenta se lembrar de todas as características do irmão. O tempo apagou muitas, e ela não consegue se perdoar por esquecê-lo. As lágrimas que surgem, portanto, pouco se devem à insistência em Lucien.

Nora pensa em Nikita. A vida dele foi extensa e completa. Nikita teve a chance de casar-se quando retornaram para casa. E em pouco tempo gerou os filhos. Nora não era mais a mesma após Cárpatos. A percepção de que não envelheceria, nem morreria, estava sendo fomentada. Ela encontrou um pouco de alívio na família; tanto os pais, quanto o irmão, a cunhada e os sobrinhos. Havia esperança para o seu povo.

Então, os cavaleiros chegaram.

O ódio a encoraja.

— Eu sou o mais próximo de Jesus que você conhecerá. — A blasfêmia irrita mais o homem. Nora divaga no próprio sofrimento. — E esse é o meu calvário. Eu não ressuscitarei ao terceiro dia porque não padecerei como o Cristo Crucificado.

— Alma imunda. Língua imunda! — Lucien grita. — O seu sofrimento será eterno. E eu trarei um pouco dele a você!

— Lucien, — Nora murmura antes que ele encurte mais a corrente e desloque os seus membros. — nem por um momento lhe ocorre que o que me fere é ocasional e temporário? Acha que tendões rompidos, ossos quebrados e todo esse sangue é a pior coisa que pode acontecer? Acha que morrer é a pior coisa que pode acontecer a alguém? — Ele franze o cenho. — Experimente permanecer quando todos se vão.

O encurtamento das correntes é feito lentamente. Nora morde o lábio para conter o gemido. O suor escorre pela testa e nuca, pingando no tronco nu. Os pulsos estalam primeiro. Ela suspira quando sente a dor se espalhar. O tremor surge. Lucien insiste na reza enquanto estica o corpo de Madalena. Nora pende a cabeça para trás, encarando o teto do cômodo. Os pés são os primeiros a se deslocarem, e ela grita alto. O ombro esquerdo desloca. Nora urra.

Mas não chora. Não por Lucien, nem pelo corpo desfeito de Madalena.

1188

A extensa sala de jantar está iluminada por tochas mergulhadas na gordura animal para mantê-las acesas. A mesa ocupa boa parte do cômodo. Há uma lareira diante à mesa. Lustres pesados pendem no teto, mas não possuem velas. O cheiro de cordeiro assado é tão forte quanto enjoativo. Há taças, pratos e talheres finos dispostos na mesa, assim como o acompanhamento para o cordeiro. As janelas estão fechadas, mantendo o ambiente aquecido. Devido a alta altitude do castelo, as noites são excessivamente frias.

Nora aproxima-se da mesa e toca a taça decorada com ouro. Embora cheire forte, o cordeiro não lhe apetece. O vinho também foi posto na mesa como um convite. Ela olha ao redor e se certifica que não há nenhum servo no ambiente. Todavia, viu duas ou três pessoas enfeitiçadas pelo vampiro anteriormente. Além de servirem nos afazeres, são alimentos frescos para o nosferatu.

A presença forte do nosferatu a atinge antes que ele adentre o cômodo. Por isso, Nora olha para a porta com curiosidade. A coisa é alta e lânguida, e os passos são severos. Os ombros estão cobertos por um casaco de couro e pelo animal, que não parece adequado para o começo do verão. Uma coisa morta-viva não é capaz de sentir frio, porém. A pele é clara. A coisa tem aparência consideravelmente jovem e saudável, o que não é difícil quando alimenta-se de todo o vilarejo.

— Feiticeira.

Os olhos são escuros, e as maçãs do rosto são altas e pontudas. Há um bigode espesso, combinando com o cabelo castanho-claro. Até então a aparência é suspeita, mas não sombria. Nora percebe os extensos dedos decorados com unhas tão longas que seriam capazes de atravessar carne humana. Unhas, não. São mais como garras. Há anéis nos dedos que remetem à nobreza que o imundo pertencia. O movimento da boca mostra os dentes afiados e pontudos. A maioria dos vampiros têm apenas as presas, os dentes caninos, maiores. Aquela coisa tem os dentes serrilhados como de piranha.

— Sinto-me grato por ter aceitado o meu convite. — A coisa murmura. A voz é pesada como se correntes se arrastassem. Nora segura o ar dentro do pulmão quando ele aproxima-se, arrastando os pés, e puxa uma cadeira. — Sente-se, por favor. O jantar foi feito para a senhorita. — Nora não se move. — Não desfaça do esforço dos servos, eu imploro.

A cordialidade do vampiro denuncia a sua posição nobre quando vivo. Nora resiste por um momento e cede, sentando-se. Ele empurra levemente a cadeira e alcança a jarra com vinho, também pintada com ouro, e serve o líquido escuro em uma taça.

— Não chamo o que fez de convite. — Nora murmura quando a coisa se afasta. Ele ocupa a cadeira na cabeceira da mesa. — Arrancar crianças inocentes dos pais é algo mais sádico.

Ele sorri de canto, exibindo a combinação nojenta de dentes.

— Só assim consegui a sua atenção, feiticeira.

Nora solta o ar pelo nariz.

— Não sou uma feiticeira.

— Oh, sim. Perdoe-me a indelicadeza. — Ele quase se encurva em seu pedido de desculpas. — Esqueço-me que o seu povo vê diferença entre esses seres.

— Porque há.

O sorriso continua lá.

— A senhorita está certa. Eu ouso dizer que a diferença é… — Ele gesticula com os dedos lânguidos e pontudos. — Quase palpável. — Nora finge não ver o olhar da coisa para o seu pescoço. — Ainda assim, permita-me dizer que esperava que a velha Florea convocasse Bryda, a sua ascendente. Esperava até mesmo pela vinda de Kalina. — Nora estremece ao ouvir o nome da mãe. — Mas não por você. Não por uma bruxa tão jovem. A força, de fato, senhorita, reside na jovialidade. E a imaturidade também.

Nora tenta ignorar todas as provocações. As mãos suam, e o estômago estremece.

— Vejo que o senhor esperava por isso.

Ele pende a cabeça.

— É claro que sim. Na ausência da divindade que os tolos cultuam, as sacerdotisas são rápidas em solicitar ajuda.

— Não acha que a Eris existe?

Ele ri, rouco.

— Minha adorável senhorita, — Ele é debochado. — tenho certeza que Eris existe. Perceba que a nossa relação pouco amigável é, considerando que ela julga a minha existência abominável. — Nora sorri. — Vejo que a senhorita concorda.

— E o senhor não?

— Sugiro que seja mais gentil com o seu anfitrião.

Ela firma a mordida e reconsidera a rota.

— E, apesar de conhecer Eris, julga o seu povo tolo. Posso perguntar por quê?

A coisa arrasta a cadeira.

— A senhorita é uma companhia agradável, reconheço. E um pouco mordaz. — Nora nunca dirá, mas sente-se orgulhosa por isso. Mordaz é uma palavra interessante. — Que tipo de pessoas continuam queimando incenso para um deus que os deixou? Não só incenso, mas as primazias. Apenas os tolos.

— O senhor não teme nenhum deus?

— Por que temeria? Não são coisas tão diferentes. — Nora arqueia as sobrancelhas, surpresa. — Quão adorável a senhorita é. Os deuses ainda lhe são temíveis. Deixe-me dizer, Eleonora, temer deuses é o que os tolos fazem. Deuses são existências que se arrastam a mais tempo que nós. — Ele pondera. — Que vocês, mortais. Nada mais. Nada menos. — Nora balança a cabeça quando percebe que está se deixando levar pela conversa. — Posso ouvir a sua cabeça funcionando. Percebo que é sedenta por conhecimento.

— Sou uma árdua estudante. Todos os mistérios me encantam.

— Me alegra ouvi-la. — Nora evita olhá-lo porque é desconfortável todos os dentes. — Mas também me entristece. As bruxas foram abençoadas pelos deuses, e a vida delas é mais extensa que a da raça humana. E eu não acho que seja o suficiente. O quanto vocês são capazes de viver? Cem? Cento e cinquenta anos? A senhorita acha que é o suficiente para conhecer todos os mistérios?

— Nenhum tempo será o suficiente para conhecer todos os mistérios do mundo, meu senhor.

— E mesmo assim, a ideia de imortalidade não lhe diz nada?

Nora estremece.

— Imortalidade? — Ela deixa o ar escapar pelo nariz. — Como o senhor?

— Não tenho dúvidas que Bryda tenha lhe passado todo o conhecimento que adquiriu. Ainda mais que Kalina, apesar do sangue forte que possui, pouco interesse demonstrou em aprender. Portanto, à Bryda restou a senhorita. O conhecimento de sua ancestral, contudo, não é tão extenso quanto parece.

— Minha avó sabe bastante.

— Não discordo.

— O que o senhor está tentando me dizer?

— Estou, na verdade, tentando propor. — Nora estreita os olhos. — A proposta permanece a mesma. Ofereci a sua avó, mas o severo temperamento dela a impediu de considerar. Kalina nunca foi uma possibilidade, embora posso imaginar que excelente mãe foi. — Ele exibe outro sorriso desconfortável. — E agora aqui está a senhorita. O sangue da sua família corre em suas veias. É tão forte que posso senti-lo. Anos e mais anos de magia antiga, passada de mãe para filha. Desconfio, minha querida, que a sua família seja descendência da deusa Circe. — Nora franze o cenho. — Percebo que a senhorita não aprendeu sobre Circe. Como pode o povo desconhecer a própria história?

— A sua boca é cheia de palavras, meu bom senhor. São tantas palavras que me confundem.

— Peço que me perdoe.

— Peço que seja claro. — Nora olha para a janela. — A noite corre rápido em sua presença. Porém, sei que o senhor se ausenta ao cantar do galo.

— Não desejo que me responda neste momento. Ao cantar do galo, a senhorita está livre para partir. Sei que a sua ligação com a sua metade é tão forte que é capaz de morrer na ausência dele. Não seja tão intransigente como a sua família. Imploro para que vislumbre as possibilidades, minha querida. Afinal, que vida pode ter em seu povo? Hospitaleiro, sem dúvidas. Mas severo e ausente de grandes riquezas.

— Não é importante para nós.

— Como pode julgar se é importante se pouca ou nenhuma experiência tem com a riqueza? — Ele alcança a taça. — Não me surpreenderá se essa for a primeira vez que toca em algo tão bem feito quanto esse objeto. Olhe ao redor, não acredito que adentrou outro castelo como esse antes. — Nora abaixa o olhar, envergonhada. — Ainda assim, veja quão bela a senhorita é. O seu sangue lhe faz mais nobre que qualquer aristocrata que hoje existe.

— Meu senhor, vejo que o preço é o meu sangue.

— Uma taça do seu sangue seria o suficiente para me sustentar por décadas. Não seria exagero dizer que com duas taças do seu sangue eu seria sustentado por centenas de anos.

— E o que o senhor faria com todo o meu sangue, não é?

Ele exibe as presas.

— Eu jamais drenaria o seu sangue por completo, minha cara. Se essa fosse a minha intenção, o que me impediria de tê-lo agora? — Nora é incapaz de responder. — Se eu pudesse tomá-lo à força, já não teria feito quando Bryda era uma visita constante? Pelo contrário, não sou o tipo de homem que toma sem nada oferecer em troca. Ao menos não para seres tão especiais quanto a senhorita. As bruxas sempre me encantaram. Devia saber que casei-me quando jovem com uma. Perdê-la foi minha maior tragédia. Sou amaldiçoado desde então.

— Vejo que o senhor era um marido devoto.

— O mais devoto de todos. Eu me consolo em pensar que um dia, em algum momento, a minha amada retornará. — Nora o analisa. — Não me deixe fazer deste o nosso assunto. Eu não preciso de tantas taças do seu sangue de forma tão abrupta. Muito pelo contrário, enquanto a senhorita adquire todo o conhecimento que lhe é possível, ficarei satisfeito com pequenos goles. Sou capaz de lhe conceder uma existência tão extensa quanto a minha, se assim lhe agradar. Com a vida longa será capaz de descobrir muitos mistérios. Não apenas os mistérios que rondam o seu povo e muitos povos. Mas os mistérios dos deuses. — Nora pisca, absorvendo. — Sou capaz, minha querida, até mesmo de estender a minha cordialidade ao seu irmão porque sei que é incapaz de viver sem ele. Então, ficarei satisfeito com uma taça uma a cada primavera. Não te parece justo? — Nora mexe-se na cadeira, desconfortável. — Além disso, pouparei esse povo tolo da minha presença. Como disse: tendo o seu sangue permanecerei alimentado por décadas. Nenhum outro sangue será necessário. A sua bondade poupará muitos. — Nora mordisca o lábio. — Veja só, a senhorita está considerando. Que alegria me traz, senhorita, a sua presença. Por favor, não se apresse em me responder. Vá para casa e descanse. Daqui sete luas encontrarei a senhorita. — Ela arrasta a cadeira para se levantar. — Senhorita? — Nora interrompe a caminhada e o olha. — Devo te lembrar que se a sua vinda acontece com a intenção de poupar o povo da minha presença, a oferta que lhe ofereço é a melhor. Afinal, o que uma bruxinha pode fazer?

Notas finais
Bom, o Conde Drácula entrou em domínio público e eu jamais perderia a chance de adaptá-lo aqui rsrs, mesmo que breve. Optei por mesclar esse tempo difícil da Nora com momentos do passado porque eles serão importantes pra compreender situações do futuro. E eu odeio utilizar muito o recurso de contar. Prefiro mostrar a vocês. Espero que seja divertido!