Tempo da Bruxa
41 Sombras
O barulho ritmado do aço atravessando a terra estranhamente úmida ocupa todo o silêncio constrangedor. O suor escorre da testa deles, misturando-se às lágrimas salgadas. Estas, por sua vez, são diferentes sentimentos brigando para dominá-los. Nenhum deles imaginou que perderia um filho tão cedo e por uma causa tão anti-natural. Talvez não se sentissem tão mal se Selena tivesse morrido por qualquer doença que assola os mortais.
Nora usa os pés de Vincenzo para auxiliar a pá a adentrar mais na terra muito nova. A cada nova pá de terra retirada, o cheiro de podridão, terra úmida e suor os enoja. Às vezes Adrian desvia o rosto e luta contra o vômito. Nora o encara com desdém. A fraqueza demonstrada é inaceitável. O cheiro repugnante é a consequência das escolhas que traçaram.
Da parte da Nora, errou ao se ausentar para atender Sylvia, que pouco fez por ela enquanto eram companheiras. Sylvia, na verdade, nunca fez nada. Nem por Eleonora, nem por Dante e muito menos por Selena. Se houvesse alguma consideração da feiticeira, algum respeito… Nora para de cavar e afasta os pensamentos. Os braços estão trêmulos, assim como as pernas. O corpo de Vincenzo suporta pouquíssimo naquela altura.
Da parte de Adrian, o erro é mais questionável. Que tipo de pai envia a filha de oito anos para longe?
— Eu nunca vou te perdoar. — Nora dispara. — Ainda que eu saiba que você não poderia prever.
Adrian sai do buraco de três palmos para inspirar o ar menos rançoso.
— O seu perdão é insignificante para mim. — Eles se encaram. — Porque ainda que você fosse capaz de me perdoar, eu nunca me perdoaria. Nunca.
Deveria ser o suficiente.
— A minha filha…
— Nossa filha. — Adrian corrige. — Suportarei em silêncio todas as ofensas que for capaz de dizer porque autorizei a viagem de Selena. Eu fui estúpido ao não cogitar os absurdos que Ginevra seria capaz. Eu fui tolo ao pensar que era possível poupar Selena da própria natureza. Eu pensei que a vida em Florença era mais perigosa que a vida junto aos seres-humanos. Mas não vou aceitar que tire isso de mim, que a tire de mim. O sofrimento também me pertence. Eu também a amo. Eu também perdi uma filha.
Nora volta a cavar, rangendo os dentes.
— Não como eu.
Adrian inclina a cabeça, franzindo o cenho.
— Não é uma disputa, Eleonora.
— Não, não é mesmo. — Nora finca a pá na terra. Embora o sol tenha se posto há quatro horas, a brisa quente e sufocante ainda permeia o cemitério da igreja. O risco de serem vistos e interrompidos é alto demais, ainda que a cova de Selena seja a mais distante de todas. Até mesmo nesse detalhe encontraram uma forma de humilhá-la. Por fim, Nora não se importa. Se forem interrompidos, lidará com quem quer que seja. Sente-se como se sentia depois que perdeu todos os parentes próximos: nada mais importa. — Veja, Adrian… — Adrian range os dentes. — Você é um homem jovem e saudável. É casado com a mulher adequada. Nada te impede de ter outros filhos. Eu até diria que se o problema for as preferências de Madalena, você tem todas as justificativas necessárias para se separar diante da igreja e encontrar uma nova mulher. Você pode ter quantos filhos quiser; com quantas mulheres conseguir. Selena um dia será lembrada como a filha que não vingou entre todos os herdeiros. — Adrian fecha as mãos em punhos. — E quanto a mim? Selena era o meu milagre. O meu milagre. Ela era minha!
— A sua mágoa é compreensível, mas como pode sugerir que Selena é substituível?
— Porque ela é. Para você é. Você não a gerou por noves meses. — Nora ergue a voz. — Você não lutou para trazê-la ao mundo! Você não a alimentou com o próprio corpo! — Ela encara a cova e pensa na realidade em que Selena ainda está. Ao menos, espera que esteja. — Você é homem. Você é o pai. Independente do quanto amor tenha.
— Gostaria de me sentir como você sugere.
Adrian volta a desenterrar a filha. Em silêncio cavam mais dois palmos. Sete palmos são comuns para as covas. Porém, Nora sabe que a cova de Selena é mais profunda. Adrian encontrou a sepultura enquanto lobo e muito provavelmente a cavou. Talvez tenha até mesmo visto o corpo. A bagunça da cova aberta e corpo exposto com certeza assustou muito os responsáveis pelo cemitério, que não pouparam esforços para enterrá-la novamente. São todas as suposições que passam na cabeça de Nora enquanto as mãos largas e nem tão fortes de Vincenzo trabalham.
Adrian precisa de outra pausa quando o cheiro que arde as narinas aumenta; é uma mistura de carne apodrecida, algo muito azedo e simplesmente a morte. Ele salta da cova, vomita e coça o nariz até ficar vermelho. O corpo de Vincenzo também exige uma pausa, e Nora cede, saindo da cova.
Enquanto Adrian se recupera, como se todos os cheiros fossem muito piores para ele, Nora encara a lua nova. Não tem clareza de quanto tempo transcorreu desde que partiu de Florença. Pensa em Dante, e os olhos ardem imediatamente. Pensa em Lucien, provavelmente morto naquela altura. Pensa, sem muita preocupação, em Madalena.
— Agora Dante tem idade para transmutar. — Nora dispara. Adrian ergue as sobrancelhas. — Acredito que ele já tenha completado quatorze anos.
— Sim, mas ele não vai transmutar. — Adrian estreita os olhos. — Dante está com o anel. — Nora assente. Adrian abre e fecha a boca várias vezes. Nora sabe qual assunto ele deseja abordar, porém não o antecipa. A decisão foi tomada assim que ouviu a proposta de Tahmon, embora tenha julgado necessário conversar com Eris. No fundo, enquanto o pacto não é firmado, Nora inutilmente deseja uma solução mágica que não a obrigasse a entrar em um conflito por uma vida que não se lembra, ainda que se compadeça da história, ainda que seja capaz de entender a revolta e as motivações de Tahmon. Nur, e até mesmo Circe, são existências tão distantes e impassíveis. Às vezes não acredita que são a mesma alma. Nora pensa em Revna. Adrian cria coragem: — O que Tahmon pediu?
Ela esfrega o espaço entre os olhos cansados de Vincenzo.
— Não importa. O preço não é seu.
Adrian revira os olhos.
— Ele é o meu filho. Tenho direito… — Adrian para de falar. — Dante cedeu a alma por você. Dante…
— Eu entendo o sacríficio que o meu filho fez. — Nora interrompe. — Acredite, eu entendo. — Adrian recua meio passo. — Eu não gostaria que Dante tivesse feito, mas não sou tola de negar o quanto foi movido por amor. — Nora encara a cova meio aberta. — O preço de Tahmon cabe só a mim, embora fosse justo dividí-lo com você. Mas não é possível. — Ela suspira triste e cansada. — Não é possível.
Adrian volta a cavar, pensativo. A conversa paira no ar, entre os olhares e suspiros. “Dante vai morrer?”. “Não. Ele terá uma vida longa”.
— Eu tenho uma dívida com você. — Adrian a encara. — Pelo que fez por Dante. Por salvá-lo.
Nora o olha com atenção pela primeira vez. Adrian não parece tão jovem. Os olhos são fundos, rodeados por olheiras escuras e inchadas. As rugas ao redor dos olhos e boca estão proeminentes. A pele escura está manchada pelo sol. O cabelo cresceu muito nas semanas que esteve longe, assim como a barba. O corpo também está fragilizado, provavelmente perdeu muitos quilos durante a longa viagem.
— Adrian, — A voz rouca de Vincenzo falha. Nora estranha ouvir as próprias palavras naquele tom. Adrian a encara com olhos tristes e marejados. Nora enche os pulmões cansados de ar. — Eu sinto muito. Eu sei que… — Nora gesticula. — Sei que você nunca permitiria a viagem de Selena se soubesse o que aconteceria. Eu sei disso. Sei que você não sabia. Sei que você a amava. — As lágrimas escorrem. — Sei que era a sua filha também. — Nora esfrega o rosto com as mãos sujas. — Mas eu… — Ela inclina a cabeça. — Por quê? Por que você pensou que seria melhor mandá-la para Ginevra?
Adrian encara a cova abaixo dos pés por muito tempo.
— Eu tive medo de ser pior. Tive medo que a vida comigo, naquela casa, fosse pior. — Ele apoia a pá na terra. — Sou mais parecido com Marco do que suporto admitir, Eleonora. E eu tive medo de… Eu fui egoísta. — Adrian volta a cavar. — Porque depois que você morreu, foi fácil ficar pior. Eu… — Adrian engasga. — Me permiti ser ruim porque não seria confrontado por ninguém. Porque parecia não ter motivos para ser melhor. Eu só pensava que havia perdido tudo desde muito antes de me entender como pessoa. Parecia que eu… — Adrian gesticula e gesticula. — Estava fadado a maldição. Quando minha mãe morreu, a vida piorou substancialmente. E demorou tanto para que houvesse coisas boas. Dante surgiu como uma real possibilidade de ter uma vida diferente. Então, a mãe dele faleceu em seguida. A vida encontrou formas estranhas até você aparecer. E eu… você era o motivo. Era a minha esperança também. Eu vi em você a possibilidade de ter uma vida que Marco jurou que eu não teria. — A voz dele falha. — A verdade é que você me forçou a ser melhor do que eu realmente era. Tudo ruiu quando você morreu. Nem mesmo o seu corpo eu tive para sepultar. Aliás, demorou muito para que eu acreditasse que você estava morta. Encontrei na sua morte a justificativa perfeita para… — Adrian molha os lábios. — Eu nunca acreditei que merecesse viver. E te perder, depois de já ter perdido tudo a vida toda, era a confirmação disso. Mandei Selena para longe porque… — Adrian exibe um sorriso muito triste. — acho que ela me obrigava a ser alguém melhor também. E eu não queria ter a obrigação de ser alguém decente, de ser melhor do que Marco. Eu abandonei as crianças porque… — Adrian olha a cova. — eu não pretendia mais viver. — Nora enxuga as lágrimas, e Adrian volta a cavar. — Não espero que me perdoe. Eu nunca me perdoarei também. Só não pense que fui covarde e infeliz por falta de apreço por Dante e Selena. Eles foram a melhor coisa que eu tive. Eu só… não conseguia sentir mais nada.
Nora entra na cova e empurra Adrian.
— Você é um imprestável, egoísta e infeliz. Um bêbado inútil. — Nora xinga enquanto o empurra — Você sente tanta pena de si mesmo. A vida toda. Se encolhendo pelos cantos, chorando pelo que Marco fez. Chorando por ser quem é. Brigando e afastando todos, até mesmo os filhos. Você… — As lágrimas escorrem. — é um maldito covarde que não consegue acreditar que é amado! — Nora o empurra com mais força. Adrian tropeça e cai. Ela agacha, segurando o colarinho da camisa dele. — Eu não suporto imaginar como é crescer sabendo que não há ninguém pra você no mundo, Adrian. E eu sinto muito que tenha passado por tanta coisa sozinho. — A voz dela falha. — Eu sinto muito. — Nora o sacode. Adrian arregala os olhos. — Mas isso acabou quando Marco morreu. E principalmente quando Dante nasceu. Então, eu não sei como, mas você vai se recompor, vai voltar a ser o homem que conheci, vai superar toda essa merda do Marco e vai me ajudar a consertar tudo com os nossos filhos. Porque eles vão ter uma vida melhor do que a nossa, independente do quanto custe. E você vai estar lá até o último dia. Até o último maldito dia. — Nora o solta, e Adrian cai na terra úmida. — Entendeu?
Adrian pisca várias vezes e a única coisa que é capaz de elaborar é:
— Nossos filhos?
Nora volta a cavar.
— Vamos trazer Selena de volta. — Adrian abre a boca, incrédulo. — Eu voltei dos mortos. O que quer dizer que qualquer um pode voltar.
Adrian se ergue, todo sujo de terra de cemitério, e volta a cavar em silêncio. Os olhos estão bem abertos e os ombros levemente encolhidos. Nora quase é capaz de ouvir os pensamentos dele. Todavia, antes que Adrian possa elaborar qualquer resposta apropriada, a pá de Nora bate na madeira do caixão. Ela encara Adrian, que termina de retirar a faixa de terra, revelando um caixão muito grande para uma criança. Eles se encaram, franzindo o cenho. Nora recua meio passo, e Adrian quebra a fechadura do caixão com uma pá.
O cheiro forte é uma mistura de enxofre, terra úmida, mofo e sangue fresco. Nora e Adrian arregalam os olhos ao reconhecerem o corpo longo, esguio e um tanto quanto fresco. O cabelo escuro repousa ao redor do corpo inanimado, misturado na terra e com o sangue da testa. Nora cai sentada e recua.
Na testa do corpo, do corpo de Eleonora, foi escrito com uma lâmina afiada:
— Venha até mim, bruxa. — Adrian lê. Com dificuldade, ele movimenta o corpo que ainda não está rígido. — Que merda é essa? — Nora se arrasta para encarar o próprio corpo. — O demônio não estava aqui?! E cadê a Selena?!
Nora abre e fecha a boca tentando elaborar a resposta que não tem certeza. A tentativa é interrompida pela nova presença, densa e fresca como a floresta. Nora não precisa vê-lo para reconhecer.
— Moros. — Revna comenta. Eles o encaram. A entidade aproxima-se, tocando a testa do corpo. Revna fecha os olhos e se concentra. A energia ao redor torna-se densa. — Tahmon está morto.
— O quê?! — Nora esbraveja. — Ele…
Revna suspira.
— Consigo sentir o rastro da morte.
— Ele morreu dentro do meu corpo?!
Revna não a responde e fica quieto enquanto procura por algo. Adrian está tão pálido quanto o corpo. Nora não para de pensar em Selena. Após movimentar o corpo várias vezes, a ferida é encontrada nas costas.
— É necessário uma lâmina específica para matar demônios. — Revna murmura. — Veja, bem aqui. Moros é covarde.
— O quê…? Como?!
Revna dá de ombros e retira o corpo de Eleonora como se fosse uma pena da cova.
— Provavelmente Moros descobriu o que Tahmon planejava. — Revna a encara. — Agiu antes, preparando essa surpresa. Moros com certeza roubou o corpo de Selena.
— E quanto a alma?!
Revna pondera.
— Está segura.
— Eu preciso… — Nora levanta-se, de repente. — Me leve! Agora! Eu preciso…
— Não! — Revna rebate. — A alma de Selena está segura. É óbvio que Moros pretende encontrá-la, mas é improvável que saiba onde procurar.
Nora nega.
— Improvável não é impossível. A alma…
— Eleonora, essa é a sua chance de voltar para o seu corpo. — Revna interfere. — Ainda está fresco, mas o processo de decomposição começa assim que a alma se desvincula do corpo. Se a decomposição avançar, é impossível que retome o corpo. — Nora nega, incrédula. — E o que você pode fazer por qualquer um sem um corpo?! Sabe muito bem que nenhum corpo emprestado aguenta a sua alma por muito tempo! Pense bem!
(…)
A clareira é a mesma da noite anterior, na qual foram abordados por Tahmon. As folhas verdes, diversos galhos e diferentes pedaços de madeira sustentam a fogueira. O ar está parado, denso e rançoso como se as ponteiras do relógio estivessem travadas às dez e vinte da noite. O pequeno balde roubado dos fundos da igreja está cheio da água do rio. Pedaços de roupa se transformaram em panos para limpeza. O corpo de Vincenzo, ainda possuído por Nora, está ajoelhado diante do corpo original de Eleonora.
Os movimentos dela são firmes, limpando o próprio corpo com uma frieza indescritível. Adrian segue as recomendações de Revna à risca, amassando as ervas e salpicando nos membros de Eleonora depois de serem limpos. Diferente dela, Adrian teme tanto que os dentes batem. A vergonha o consome lentamente. A roupa está suja de terra úmida e suco natural de decomposição, do momento em que Nora o derrubou no chão e decidiu sobre o futuro com tanta facilidade que Adrian poderia chorar, se tivesse tempo.
As palavras dela ecoam. Uma vida melhor. Para ambos os filhos. Selena de volta.
A parte de Adrian que insiste em se agarrar ao mundo humano duvida.
Selena está morta.
Eleonora também estava. Estava morta por anos.
E agora está conversando com Eleonora enquanto prepara o corpo que definitivamente não foi carcomido pela terra. A suposição é compreensível e até mesmo convincente. Se Eleonora voltou, Selena também pode.
— Por que agora? — Eleonora pergunta, interrompendo o silêncio. — Por que Moros matou Tahmon agora? Por que não matou antes?
Revna para de desenhar os diversos símbolos no chão, encara a lua e pondera.
— Não era conveniente. — Revna sussurra. Adrian tem a impressão que a voz dele é feita do farfalhar das folhas. — Estou supondo. Acredito que até muito recentemente Tahmon fingia indiferença aos assuntos familiares. Era descontente, óbvio. Mas quem não seria? Quem gostaria de ser castigado e viver na pior parte que existe no mundo? Quem gostaria de rastejar através de trapaças e pactos para existir? A revolta dele era compreensível. Talvez até mesmo insignificante para Moros. — Revna encara a fogueira. — A decisão vem de Madora. Não era conveniente matar Tahmon antes porque infringiria a promessa de impessoalidade. A morte dele também causaria consequências que pouco compensariam. Os outros demônios ficariam desconfortáveis e inseguros. A balança pouco equilibrada iria ruir rapidamente.
— Tahmon está morto.
— Agora as consequências compensam. A morte de Tahmon é menos perigosa que a vida. — Eles se olham. Adrian tenta ler as entrelinhas e falha. — Suponho que Madora descobriu junto conosco que Tahmon a traiu e arquitetou um plano perigoso.
Novamente há mais entrelinhas.
— Você mentiu para mim. — Eleonora, ocupando o corpo de Vincenzo, volta a limpar o corpo original com cuidado, penteando o imenso cabelo preto. Revna também retoma a atividade sobrenatural. — Por quê?
— Os riscos não compensavam os benefícios. — Revna soa etéreo. — Eu também não sabia que Tahmon estava envolvido no seu retorno. Não tinha sentido em contar tudo. O que faria com tantas informações?
Vincenzo franze o cenho. Adrian salpica mais ervas específicas, percebendo que não sabe o que realmente está acontecendo. Eleonora retorna ao assunto minutos depois, mais pesarosa que antes:
— Você lamenta?
Revna a olha.
— Tudo. Muito. O tempo todo.
Lamenta o quê?, Adrian se pergunta.
Eleonora termina de limpar o corpo completamente e levanta-se, esticando as costas de Vincenzo. Adrian não tem senso de humor no momento, mas espera rir posteriormente. Muitas desconfianças o rondavam; duvidava, principalmente, que a alma de Eleonora estivesse no corpo de Vincenzo. E se estava seria capaz de reconhecê-la? Como foi tolo. O corpo é largo, comum aos homens. As mãos são grandes, assim como os ombros. A barba de Vincenzo está emaranhada e sem forma. A voz é rouca e grossa. Ainda assim, os movimentos são suaves como pinceladas. As sobrancelhas franzem de um jeito muito específico, criando rugas na testa. E os olhos castanhos, naturalmente pequenos e apáticos, estão vivos e curiosos.
Revna termina antes de Adrian, limpa as mãos na roupa e aproxima-se do corpo de Vincenzo. A movimentação da entidade também é diferente; os movimentos graciosos são costumeiros à coisa de aparência longa, forte e um tanto quanto borrada, mas não o alvo da graciosidade.
— Não pense nessas coisas agora. — Revna solicita enquanto segura o rosto de Vincenzo. Os polegares de Revna massageiam as bochechas de Vincenzo com movimentos suaves e circulares. Adrian sente o gosto azedo surgir na boca, misturando-se ao odor pútrido que está preso na noite. — Não pense em nada que não pertença a essa vida. — Eleonora fecha os olhos de Vincenzo e segura os pulsos de Revna. — Pense na sua vida até aqui. Pense nos seus pais. Pense em Nikita. Até mesmo em Bryda. — Nora solta um arquejo breve. — Pense na terra em que cresceu. Em como eram as manhãs. Em como a noite chegava. Preciso que fique tranquila e conectada com essa alma. — Eleonora abre os olhos. — Preciso que deite.
Eleonora deita o corpo de Vincenzo ao lado do próprio corpo. Revna atiça o fogo e encara Adrian:
— Preciso que fique do outro lado do círculo. — Adrian encara o desenho na terra. — Não pode haver interferências nesse processo. Pode cuidar disso?
O gosto azedo ainda está na boca de Adrian quando obedece Revna.
O corpo de Vincenzo e o corpo de Eleonora estão lado a lado. O corpo de Vincenzo está pálido, machucado e cansado. Contudo, o peito sobe e desce no ritmo natural da respiração. As bochechas, há pouco acariciadas por Revna, estão coloridas com o rosado típico dos vivos. Por outro lado, o corpo de Eleonora está pálido em um tom acinzentado. O peito não se movimenta. E os membros se enrijeceram consideravelmente nas últimas duas horas. A boca antes rosada está arroxeada, assim como as maçãs do rosto.
Adrian resiste ao pensamento. É inquietante e o faz andar em círculos como um cachorro procurando a melhor posição para defecar. Ainda que seja obscuro, ele percebe que está tendo uma breve e infeliz experiência de como seria velar a esposa.
A lâmina da pequena adaga reflete o brilho da fogueira. Revna ergue o punhal acima da cabeça, na direção da lua. As palavras ditas por Revna são incompreensíveis para Adrian. A repetição aumenta a cadência das frases, e a “reza” atiça a fogueira. O ar rançoso se torna sufocante. As narinas de Adrian queimam. Ele pende a cabeça para trás, encarando o céu como se pudesse respirar melhor, e nota o movimento anormal.
As nuvens que estão espalhadas como um véu longo, fino e cinzento que permitem que a luminosidade da lua atravesse o céu se tornam, pouco a pouco, densas, grandes e negras. A combinação brilhante de estrelas da região torna-se opaca como uma vela prestes a apagar. As frases de Revna tornam-se mais extensas e intensas, e o céu obedece se tornando negro como um corvo.
De repente, a lua nova desaparece. A lâmina da adaga geme ao receber o brilho esplêndido da noite. O brilho é tão forte, tão cristalino e tão ofuscante que Adrian precisa desviar os olhos momentaneamente. Dentro do círculo, Nora está quieta, encarando Revna.
A lâmina, que porta a noite naquele momento, corta a carne da entidade. Revna não demonstra desconforto quando o sangue preto escorre. A terra geme ao receber o sangue escuro nos símbolos desenhados.
O ar rançoso é substituído pelo cheiro metálico de sangue, terra úmida e algo que Adrian seria incapaz de descrever mesmo se tivesse toda a sabedoria do mundo. Aquela mistura de cheiros, contudo, atrai as aves comumente atribuídas ao azar e à moléstia.
As aves são maiores que o comum. E as asas cheias de penas negras movimentam o ar e apagam a fogueira pouco a pouco. Adrian se esforça para manter os olhos abertos, mesmo que arda demais. Também tenta não perder de vista a silhueta dos corpos. Os grasnidos emitidos pelos corvos formam um louvor ritmado e insuportável.
Adrian cai de joelhos e usa as mãos para proteger os ouvidos. A fogueira luta contra o voo das aves. A reza de Revna se perde entre o canto tenebroso que os corvos emitem.
A escuridão se arrasta ao redor. É visível as camadas negras crescendo, construindo e engolindo o mundo aos poucos; o chão é o que some primeiro e faz Adrian pensar que está, naquela altura, alucinando. Depois, as pedras, os arbustos e pequenos animais, como as formigas, que atravessam o mundo com inocência. A escuridão é tão densa, tão forte, que Adrian sente como se estivesse sendo esmagado por mãos imensas e extremamente fortes.
Os troncos das árvores são consumidos em seguida. Os galhos resistem um pouco mais do que as folhas. A escuridão sobe, decidida, forte e insuportável. A última chama da fogueira se apaga. Adrian foca os olhos no céu, tentando enxergar através dos corvos. O brilho opaco das estrelas o mantém por pouquíssimo.
A escuridão engole tudo.
E o silêncio domina.
Porém, a entidade é mais negra que a própria escuridão. Ainda que não haja mais luz em todo o mundo — essa é a impressão de Adrian — ainda que todos estejam perdidos e sem esperança; ainda que o ar sufocante finalize tudo, é possível visualizar a silhueta negra, formada de sombras mais densas, mais firmes e mais escuras que toda a noite, movendo-se dentro do círculo.
Revna se ajoelha entre os corpos. Os lábios se movem, e as palavras ecoam dentro da cabeça de Adrian, que é incapaz de traduzi-las. Então, as sombras mais curvilíneas da entidade tocam a testa do corpo original de Eleonora. Mais falas intraduzíveis. Em seguida, a entidade toca a testa de Vincenzo. Adrian não vê propriamente, mas entende que Eleonora fecha os olhos de Vincenzo.
As curvas dos dedos escorrem da testa de Vincenzo para o queixo, seguindo para o pescoço e parando entre os pulmões. O corpo de Vincenzo não é transpassado pela entidade; as sombras são simplesmente absorvidas como a fumaça que escapa da boca durante o inverno.
Eternidades inteiras se passam até que a mão de Revna saia do peito de Vincenzo. O brilho forte escapa pelas sombras iluminando não apenas a clareira, mas toda a floresta com tons carmesins. Adrian cai em quatro apoios quando o ar denso o sufoca, causando vômitos.
A alma é admirada pelos dedos das duas mãos da entidade. Revna fecha as duas mãos ao redor, mas o brilho vermelho insiste em atravessar todas as camadas de sombra. Por meio segundo, Adrian tem a impressão de pensar que o nome de Eleonora faz juz. No instante seguinte, Revna aproxima-se do corpo de Eleonora. As sombras atravessam a morte com facilidade, e o brilho vermelho diminui aos poucos até desaparecer quando adentra completamente o corpo.
O farfalhar das asas negras intensifica. As vozes roucas dos corvos cantam outra música. A escuridão densa permanece por pouco, desfazendo-se lentamente do céu ao chão. O ar pesado e desconfortável é substituído pela brisa salgada. As copas das árvores reaparecem. Adrian nota, incrédulo, que a fogueira não se apagou; a escuridão era tão densa que escondeu as chamas. Ele olha para o céu e nota que a lua voltou ao céu. Ao mesmo tempo, a lâmina trinca e esfarela. Revna arremessa o cabo de madeira na fogueira. Incerto, Adrian aproxima-se sem invadir o círculo protegido com diversos símbolos. Poucos segundos são necessários para perceber que os dois corpos deitados no chão estão respirando. Por fim, os corvos somem.
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