Tempo da Bruxa
42 Eleonora Wolf
Notas iniciais
O farfalhar das asas some lentamente. Eleonora está com os olhos bem abertos e só enxerga a densa escuridão, que cheira à terra úmida, seiva e frutas caídas, adocicadas e fermentadas. Há uma pressão ao redor da existência dela. Não é sufocante, nem angustiante. É como um abraço muito bem ajustado, como a cama mais confortável de todo o mundo. Ela tenta encher os pulmões de ar, mas percebe que não tem pulmões. O corpo físico não existe. No âmago da escuridão, a existência é um borrão vermelho escuro que reluz como o único farol na orla durante a forte tempestade.
Os movimentos de Nora são como velas sendo transportadas enquanto o vento forte invade o cômodo; severas tentativas de queimar, de continuar, de iluminar. A escuridão, que até então estava petrificada, também se move, a cercando com mais veemência. O abraço antes confortável se torna pesado e angustiante. E embora não respire de verdade, Nora sente que falta oxigênio. A reação natural é resistir, movimentar-se e utilizar as pseudo mãos para afastar o aperto. Mais força. Mais desconforto. Mais raiva. Mais recusa.
— Não me esmague desse jeito. — A voz retumba na escuridão. — Não me sufoque! Quem você pensa que é?! — A risada rouca ecoa, e Nora o reconhece. O aperto cede ao mesmo tempo que ela para de resistir. — Onde estou? Isso… — A conversa não acontece com palavras de verdade. É como se Nora pensasse, e Revna a ouvisse. — Eu morri?
Outra risada breve e rouca.
— Acho que você é o ser mais ansioso para morrer em toda a história.
A provocação não acerta no lugar que deveria. Eleonora repete as palavras. Ansiosa para morrer. Definitivamente é uma forma de descrevê-la. Desde que Eris a encontrou e a transformou, Nora pensou em todas as formas de morrer. Não apenas pensou, em diversos momentos ativamente Nora tentou morrer. Situações extremamente prejudiciais, comportamentos perigosos e tentativas elaboradas de encerrar a existência.
Adrian, Dante e Selena eram justificativas para permanecer; uma promessa nunca dita. Mas a verdade é que até nos melhores momentos Nora pensava em como a vida seria depois que todos eventualmente morressem. Mais três sepulturas para cavar. E mais tentativas de partir também.
Tentativas essas, que apesar da insistência, Nora posteriormente cogitou se gostaria que funcionassem.
Ela gostaria de morrer, de fato? Muito recentemente teve a insignificante experiência de morte. A suspensão da alma dela, diante das movimentações ocultas de Tahmon, não trouxe descanso, compreensão, muito menos aceitação do fim. Quando Nora abriu os olhos pela primeira vez em oito anos, ocupando o corpo frágil de Madalena, foi invadida pelo desejo de nunca mais fechá-los.
— Eu deveria? — Revna torna-se muito quieto. — Eu deveria, não é? — A escuridão se movimenta, desconfortável. — O meu corpo está, enfim, pronto para ser velado. Com a morte de Tahmon, a alma de Dante está livre do pacto. Não há ninguém para cobrá-lo. Pode garantir isso? — Revna não confirma. Nora sabe a resposta. — E Selena… Como está Selena?
— A alma de Selena está suspensa. Da mesma forma que a sua alma ficou suspensa quando estava morta.
Nora lembra da última conversa que teve com Selena, quando a explicou sobre o sono profundo e imperceptível. Não tinha certeza do que prometeu à filha até, nesse exato momento, notar que também atravessou um sono profundo por anos. Oito anos. E foi como uma longa noite de descanso. Não houve sonhos, nem medos ou lembranças. Por oito anos Nora não existiu.
— Ela… — Nora organiza a pergunta. — Como isso aconteceu? Selena não acordou no dia seguinte?
— Acordou, sim. Animada para te ver, para correr pelo quintal, para brincar com os cachorros. — Nora sente a densidade da escuridão se movimentar. — Mas você a preparou bem. Ela aceitou quando expliquei que você se ausentou para cuidar de Dante. — Se tivesse um corpo físico, Nora derramaria lágrimas. — Posso te mostrar, se quiser. São as minhas lembranças. Ou seja, impossível alterar qualquer coisa.
Ela não formaliza a autorização. De repente, a escuridão se esvai, e Nora está dentro da choupana que passou os últimos dias com Selena. O dia está claro, morno e o cheiro de ovos cozidos preenche o espaço. Revna enxerga o mundo de um ângulo muito mais alto. Ela gostaria de olhar para as mãos dele, mas Revna não fez isso.
Selena está sentada no banco reto diante da mesa de madeira áspera e cheia de farpas. Os três cachorros estão deitados aos pés da garotinha, que parece ainda menor do que Nora se lembra. Revna se aproxima e se agacha ao lado dela. Selena inclina a cabeça, estreita os olhos e o analisa.
— Você realmente é amigo da minha mãe?
Revna sorri.
— Eu realmente sou. Você é muito pequena para ser tão desconfiada…
Selena para de comer. Nora sabe que os ovos foram feitos por Revna.
— Eu sou pequena agora, mas vou ser grande que nem minha mãe.
— Tenho certeza que sim.
Selena volta a comer. Revna mantém-se agachado.
— Você também conhece o meu pai? — A entidade balança a cabeça, confirmando. — Vocês também são amigos?
— Mais ou menos. Sou mais amigo da sua mãe.
Ela estreita os pequenos olhos castanhos, mastiga e pondera.
— Minha mãe vai mesmo voltar?
Revna senta-se ao lado da garota e encara os ovos por muito tempo. Nora gostaria de olhar para a filha, de absorver mais detalhes do rosto dela, mas não foi o que Revna fez.
— Por que ela não voltaria?
Eles se olham, enfim. E dura pouco. Revna volta a olhar para os ovos.
— Eu não sei. — Selena sussurra. — Ela ficou fora um tempão.
— Ela não teve escolhas.
Selena soa incerta:
— Eu sei. Mas eu… — Revna a olha. — Eu não quero… — A garotinha coça os olhos quando a voz torna-se frágil e chorosa. Revna a toca no ombro, sutil e cuidadoso. — Não quero ficar sem ela de novo. — As lágrimas escorrem. Nora tenta acolher a filha, acariciar o longo cabelo sedoso. E não pode. São lembranças! Imutáveis por natureza. — Eu posso ir pra casa? Se você é amigo da minha mãe, pode me levar para casa. Não pode? — O choro aumenta. — Não quero mais ficar com a tia Ginevra. Eu quero ir pra minha casa.
Nora luta para abraçá-la.
Memórias.
Imutáveis por natureza.
Memórias.
— Ei. — A voz de Revna soa mais gentil do que o normal. — Olhe para mim. — Selena demora, mas obedece. — Você precisou passar um breve tempo com a tia Ginevra para que o seu pai pudesse organizar as coisas em casa. Mas esse tempo já passou. Você nunca mais vai precisar ir pra casa da Ginevra. Nunca mais. — Revna seca as lágrimas dela com dois dedos. — E é claro que você voltará para casa. A mamãe teve que ir antes porque o seu irmão, Dante, precisava de ajuda. Não foi isso que conversaram? — Selena franze o cenho, pensa e assente. — Que a mamãe ficaria um tempo longe?
— Quanto tempo?
— Um pouco de tempo, mas não importa. Ela nunca vai te esquecer.
Selena seca as lágrimas e inclina o corpo até encostar a cabeça em Revna. Ele cede e a abraça. Selena enfia o nariz no peito dele e funga como um cachorro. Revna ri.
— Você tem um cheiro engraçado. — Selena funga. — Parece… Mato molhado. E árvore velha.
Revna ri.
— O seu nariz tá nervoso igual ao dos cachorros.
Selena ri e fica ofendida ao mesmo tempo.
— Eu gosto deles.
— Eu sei que sim. — Revna se afasta para olhá-la. — É assustador, eu entendo. E muito diferente. Mas não precisa ter tanto medo porque os seus pais te amam. E você sente isso, não é? — Selena balança a cabeça. — Então se agarre a isso. Porque eles fariam tudo por você. Infelizmente o momento não é adequado para que volte para casa. Por isso, você precisa ter paciência. A mamãe…
— Me pediu para dormir. — Selena interrompe e franze o cenho. — Eu vou acordar depois?
— Sim. Você acordará em casa.
— Sério? — Revna assente. Selena franze o cenho. — Mas eu não quero dormir agora. Acabei de acordar. E, olha, ainda é dia.
Revna concorda.
— À noite, então.
Selena concorda e franze o cenho ao mesmo tempo.
— Não quero ficar sozinha. — Ela choraminga. Revna inclina a cabeça. — Brinca comigo? — Revna pondera, incerto. Selena faz bico. — Se você for mesmo amigo da minha mãe, vai brincar comigo!
O último dia de Selena na choupana segue a rotina comum. Após o desjejum, a garotinha exige um breve descanso antes de enfrentar o resto da manhã. A soneca com os borzois é breve, e Revna mexe em todas as prateleiras, sorrindo ao encontrar livros conhecidos. Depois, Selena pede para passear na floresta porque deseja colher ingredientes para criar tintas. Nos últimos dias o trabalho de criar tintas foi mais interessante de que, de fato, pintar.
Revna acompanha Selena, ignorando que o sol domina o exterior. Nora quase interrompe as memórias para questioná-lo, mas lembra-se de que a realidade é feita pela própria entidade e não segue as regras do mundo real. Revna ensina novas formas de fazer tinta para Selena, como esfregar as pedras para criar poeira e misturá-la em ovos. A garotinha odeia a textura dos ovos, e Revna ri e a repreende falsamente. É estranho vê-lo perdido em um dia tão comum aos mortais.
Eles também visitam o lago, e Selena passa muito tempo procurando os cascalhos mais bonitos. A garotinha fala sobre os projetos artísticos, e Revna a escuta com atenção. Os borzois acompanham a criança. Por um tempo, a entidade permanece próxima à orla do lago, encarando o horizonte inóspito. A realidade está cada vez mais estática.
Revna pende a cabeça para trás e expõe o máximo de pele possível aos raios solares. Muito tempo é dedicado à atividade de tomar sol. Nora é incapaz de presumir os sentimentos dele; as memórias são como a leitura indevida do diário mais íntimo.
Selena e Revna sentam-se na grama alta para assistir o sol se pôr. A garotinha não para de falar sobre as cores rosadas do céu, sobre as nuvens, as futuras estrelas que surgirão, a grama pinicando, os cachorros brincando. A entidade é uma excelente ouvinte. Provavelmente treinou durante todos os milênios ouvindo as preces infinitas dos fiéis.
Selena está sonolenta quando retornam. A choupana está iluminada e quente como se tivesse uma serva cuidado dos menores detalhes. A realidade é tecida conforme os desejos de Revna muito facilmente, e o jantar está posto na mesa. Cordeiro e alguns legumes que não são típicos da região. Selena lava-se antes de sentar-se à mesa. A reza ensinada por Ginevra não é feita naquela noite. Revna saboreia o cordeiro, surpreso com a própria criação. Enquanto Selena fala e divide o jantar com os três cachorros, a entidade a observa por um tempo considerável, exibindo o sorriso terno.
— Você é igualzinha a sua mãe.
Selena ergue as sobrancelhas bem alto.
— Eu sou?
— Por fora você parece o seu pai. Por dentro você é como a sua mãe.
O sorriso da garota é sapeca e orgulhoso na mesma proporção. Revna a imita.
— Há quanto tempo conhece a mamãe?
— Há um tempão.
Ela gesticula enquanto fala:
— Desde antes de eu nascer?
— Desde muito antes.
Selena estreita os olhos.
— Então por que eu não te conhecia antes? — Ela pondera. — Por que eu pareço com a mamãe?
— Você é curiosa como ela. — Selena saboreia o elogio. — E atrevida.
— Eu não sou atrevida, não!
— É sim, senhora.
— Não sou, não. — Selena mostra a língua e cruza os braços. — Você é legal às vezes. E muito chato também. — Ela franze o nariz. — Acho que todos os adultos são assim. Você tem filhos?
— Tenho, sim.
— Eles são mais ou menos do meu tamanho… — Ela demonstra com a mão. — Ou são mais do tamanho do Dante?
— Eles são maiores que o Dante.
— Não são, não.
Revna ri.
— São, sim. Por que eu mentiria?
— Mas você não é tão velho assim.
Revna ri e diz ao se levantar:
— Mas você não sabe a minha idade.
— E qual é? — Ela mostra sete dedos. — Eu tenho oito.
Ele escolhe o cascalho mais bonito da coleção de Selena.
— Oito? — Revna também mostra sete dedos. Selena confirma. Ele sorri, acaricia o cabelo dela e retira a mesa. — Está na hora de dormir.
Selena faz uma careta.
— Eu não quero. — Revna a ignora, a pega no colo e a coloca na cama. Selena resiste até que os cachorros a acompanhem. Ele ajeita os travesseiros e as cobertas de uma forma muito parecida com a que a Nora fazia. Revna toca e analisa o filtro dos sonhos por um tempo. — Eu preciso mesmo?
— Sabe que sim.
— Posso esperar acordada. — O sorriso dele é mínimo. — Mas e se doer?
Revna a olha dentro dos olhos.
— Não vai doer, Selena. Eu prometo para você. — A garota mordisca o lábio inferior. — Será uma noite de sono. Você não perceberá o tempo passar. Nem terá vontade de acordar até que seja a hora. E quando acordar, a sua família estará presente para recebê-la.
Selena se enrola na coberta e encara um dos borzoi por um tempo. Ela mordisca os lábios, aperta as beiradas da cortina e suspira repetidas vezes. Revna a tranquiliza com um carinho suave no cabelo, e Nora se surpreende por ele ter gravado com tanta nitidez a textura do cabelo da criança. Talvez ele tenha feito tudo com tanto cuidado porque sabia que Nora gostaria de ver as memórias, como se estivesse presente para se despedir.
— Eu posso sonhar?
— Com o que você gostaria de sonhar?
Selena pensa por um tempo.
— Quero sonhar que estou andando à cavalo. — Revna arqueia as sobrancelhas. — Mas quero ser boa nisso. Tão boa quanto o papai e o Dante. E quero que eles também estejam andando à cavalo comigo. — Selena sorri. — E o dia vai estar, assim, muito bonito. O céu muito azul mesmo. E vai ter frutinhas na árvore do papai. E o Dante vai me levar no lago. E vai me mostrar como jogar a pedrinha longe. E o papai vai dizer que ama muito a gente. E… — Selena pensa. — A mamãe não estava lá de verdade. No meu sonho ela pode estar?
— É claro que sim.
— Então quero que a mamãe esteja lá. E que ela encontre eu e o Dante junto com o papai. E que nos abrace. E que diga que nos ama muito também. E aí a gente vai voltar para casa todos juntos, andando de cavalo. E o Dante desenhará tudo isso depois e vai me dar de presente. Pode ser?
Revna ri e assente ao mesmo tempo.
— Você é bem exigente.
— É o meu sonho. Então posso ter tudo!
— Você tem toda razão. — Revna ajeita a coberta a última vez. — Você vai ter um sonho lindo.
Selena sorri, convencida. E Revna garante que será apenas uma noite de sono, que Selena não sentirá o tempo passar, nem se preocupará sobre nada. Também jura que os pais vão recebê-la muito em breve em casa, e a vida voltará a ser como antes, mas muito melhor. Selena relaxa conforme o sono ganha a disputa. Antes de dormir completamente, ela agarra a mão da entidade e a faz prometer de novo que não vai doer.
Revna promete todas as vezes sem hesitar. Depois a conduz para o sono profundo, que também pode ser chamado de suspensão da alma. A alma de Selena é lilás como as tulipas na Holanda. Brilha muito forte e aquece a palma da mão de Revna. O cascalho mais bonito da coleção é transparente. Conforme a alma de Selena é guardada na gema, a coloração do cascalho fica violeta. Contudo, Revna não guarda a pedra na beira do lago, como Nora pretendia.
— Onde você guardou? — Nora pergunta quando as memórias acabam.
A escuridão os engole aos poucos.
— Posso te mostrar. — Revna pausa. — Caso decida ficar.
— Eu deveria?
— Não cabe a mim, Eleonora. As alegrias e as dores da existência são muito individuais. Apenas você pode decidir.
O turbilhão de pensamentos a domina. Revna espera como se não estivessem sujeitos ao tempo, no meio de uma transação de alma e corpos. A decisão deveria ser mais fácil. Ficar significa lidar com tudo que descobriu nas últimas semanas; desde as atitudes questionáveis de Adrian, ao casamento com Madalena, até as decisões estúpidas e complicações muito mais graves que Nora não participou diretamente; pacto de Dante, morte de Tahmon, Eris, a vida como Circe e como Nur. Todas as consequências a assombrarão.
Antes podia enganar-se. Podia acreditar que a vida era especialmente azeda porque nasceu na época em que os seres sobrenaturais estavam sendo massacrados. Podia encarar a imortalidade que Eris lhe deu como uma maldição injustificável, como se a deusa tivesse a eternizado para usá-la como ferramenta na tentativa de corrigir os desequilíbrios da magia e do mundo sobrenatural.
Antes assim fosse. Seria mais fácil para Nora se ausentar emocionalmente da disputa; seria extremamente fácil fugir. Todavia, todas as complicações, as entrelinhas não discutidas, as conversas sussurradas são sobre Nora. Sobre Nur. Sobre Circe.
Nora é incapaz de pensar nas diferentes vidas sem se magoar pelas injustiças ou desentendimentos anteriores. Permanecer é escolher brigar. Permanecer é ainda pior, na verdade: todos os véus de ilusões cairão definitivamente. E Nora não sabe se gostará de quem foi e do que fez. Não sabe o quanto será transformada pelo passado: pode aceitar as decisões de Nur e Circe, além das incontáveis vidas insignificantes; ou existir em miséria sentindo-se culpada por, em outra vida, ter dado luz aos vampiros e aos demônios.
Mãe de todo mal, Nora percebe. Mãe dos feios, dos esquisitos e desgraçados. Trouxe ao mundo a maior escuridão possível, diferente das mães que construíram a história, como a Santa Maria, mãe de Deus.
Morrer, por outro lado, é aceitar a maldição que Madora impôs.
— Não tenho verdadeira liberdade.
Revna farfalha.
— Alguém tem?
— Você.
— Sou escravo dos desejos e paixões, Eleonora. E também das consequências. Todos somos.
— É assim que vê toda nossa tragédia? Desejos e paixões?
— O que mais seria?
— Erros.
— Por quê?
— Porque nada do que fizemos foi bom.
— Bom. — Revna debocha. — O que é bom? Deixe-me supor. Tudo que é bom é cristalino e brilhante como uma nascente de água. — A voz se altera quando acrescenta: — Você sabe do que sou feito. Não é da luz. Bom e bem são conceitos que podemos discutir.
— Você é cruel.
— Eu sou?
— Você… Não há nenhuma culpa?
— Não sou o único a pecar. Não fui o único a criar coisas questionáveis. — A tensão da escuridão aumenta, voltando a pressioná-la. — Todos esses anos de existência e você ainda discute o bem e o mal como uma mortal. Pior ainda: como um cristão. O mundo é nosso para dobrarmos conforme quisermos. Nós decidimos o que é bom e o que é ruim. — A pausa é muito breve. — Depois de tudo o que fez para sobreviver, ainda se desgasta tentando provar que a sua alma é pura? A verdade é tão perturbadora? E o que, verdadeiramente, é puro?
— Você…
— Não pode me julgar. — Revna interrompe. — Nem mesmo enquanto Eleonora, muito menos como Circe ou Nur. Ainda nessa vida, Eleonora, você fez muitas escolhas questionáveis porque sempre acreditou que o seu bem-estar era mais valioso do que todo o resto. Quantos matou? Incontáveis! Até mesmo o bebê de Madalena.
— Para salvar os meus filhos!
— Exato! Eu entendo. Eu faria o mesmo. Mas é moral? É o certo? — Nora recua. — Você matou até mesmo para evitar que Adrian transmutasse, algo que até então era natural e esperado. — Ela se encolhe. — Não finja que sou pior por seguir os meus desejos quando faz o mesmo. Somos feitos da mesma coisa. — As sombras que formam Revna se aproximam. O cheiro de orvalho e madeira torna-se mais forte. — A escolha te pertence. Se a sua recém conquistada moral muito se inquietar por quem somos, pode encerrar essa vida e aceitar a maldição de Madora. Pode até mesmo entender a maldição de Madora como a chance de absolver a sua alma dos incontáveis pecados.
— E-eu… Tenho medo do que posso ser.
— É impossível se tornar o que não é. Nossa natureza é fiel. — A voz dele é firme. E tudo soa muito sedutor e perigoso. — Duas opções nos restam: ou podemos negá-la ou podemos aceitá-la e melhorá-la durante a vida. O bem e o mal… São conceitos que atravessam a existência com diferentes conotações. Sempre seremos bons e maus ao mesmo tempo para diferentes pessoas. — Revna suspira. — E até as coisas menos agradáveis também devem existir. Além disso, é agradável para quem? — Nora é incapaz de responder. — O tempo está acabando. Preciso te colocar no corpo.
— Eu ainda não decidi.
— Eu sei. Retornar para o corpo e assumi-lo exige muito mais do que o meu manuseio. Você deve desejar. Deve se conectar ao corpo. Caso opte por não se conectar, deve realizar a passagem o quanto antes para evitar que prenda-se muito às questões terrenas. Posso cuidar para que Selena faça a passagem também. Mas lembre-se: cada alma seguirá o próprio caminho no pós-vida. E você com certeza reencarnará imediatamente.
— E se eu decidir ficar?
— Acredito que nos encontraremos de novo.
(...)
Os cavalos reduzem a marcha até parar totalmente. A bifurcação da estrada, que leva a dois destinos completamente diferentes, está a menos de 150 metros. Adrian arranca o chapéu da cabeça, e o suor escorre pelas laterais do rosto. Com as costas da mão limpa todo o excesso. Os cavalos relincham, arrastam os cascos no chão e aguardam mais instruções. Em cima da carroça, na área do banco, Vincenzo dorme profundamente.
Yusra e Adrian se encaram. Ela desce do terceiro cavalo, que não está preso à carroça, e o prepara. Antes de acordar Vincenzo, Adrian confere o corpo de Eleonora escondido debaixo da palha e de dois lençóis. O corpo está pálido, mas não tomado pelo azul típico dos mortos. A respiração é quase imperceptível. O corpo não está tão quente quanto todos os vivos que andam pelo mundo. E também não está gelado como todos os mortos debaixo da terra. Revna garantiu que o processo de transferência da alma foi feito corretamente e que acordar dependia exclusivamente de Eleonora.
— Você acha mesmo que ela vai voltar? — Yusra pergunta ao se aproximar. Eles encaram a face relaxada de Eleonora. As mãos pálidas estão unidas em cima do peito. As mechas longas estão alinhadas ao redor do corpo. Adrian arrepia e recua porque pensa que é a aparência correta para o velório. — Já se passaram dias.
— Revna garantiu que tudo estava certo.
— E você acreditou mesmo?
A convivência de Adrian e Yusra não se tornou melhor nos últimos dias. A mulher o encontrou no cemitério duas horas depois do nascer do sol. Estava com a carroça e dois cavalos preparados para a viagem. Adrian não tentou afastá-la novamente. Os olhos estavam empoeirados, e a cabeça latejava. Além disso, Vincenzo estava no banquinho da carroça simples em um sono profundo que o preocupou.
Ele não sabe até onde Yusra o acompanhará, nem gasta tempo pensando nisso quando tantos outros problemas crescem ao redor. Revna sumiu desde a noite que transferiu a alma de Eleonora. O corpo de Selena não estava na cova, e Adrian nem sabe onde pode estar. Se é que o corpo dela ainda existe. Dante e Madalena aparentemente permanecem em Florença. Na última estalagem, na noite anterior, Adrian escreveu uma carta para o filho garantindo que estava retornando para casa com Eleonora e pedindo para que não se preocupasse mais sobre Tahmon. Esperar por resposta é tolice considerando que estão se movimentando sem parar, com exceção das pausas e descansos necessários para todos.
— Não tenho outra escolha.
— Ela parece… — Yusra estala a língua. — Quase morta.
Adrian ignora a mulher e cobre o corpo de Eleonora. Ele se encolhe quando nota que a trata como definitivamente morta. Tenta confrontar a impressão com a última conversa que tiveram. Nora foi bruta ao agarrá-lo pelo colarinho e o sacudir até convencê-lo de ser decente até o fim pelos filhos. Até o fim. Pelos filhos. O pacto foi feito sem que Adrian pudesse opinar. Então, após o discurso severo, Nora aceitaria a morte com tanta facilidade poucas horas depois?
Vincenzo demora muito para acordar. Naquele momento, a maioria dos ferimentos feitos há dias, durante o confronto com Adrian, estão cicatrizados. As bolsas roxas e inchadas ao redor dos pequenos olhos castanhos permanecem, assim como a aparência ressecada e cansada do rosto. O cabelo castanho, cheio de cachos, está completamente embolado. As roupas estão sujas. E todos definitivamente fedem muito, mas Vincenzo está pior em todos os ângulos.
— Me acompanhe até em casa. — Adrian pede e ordena ao mesmo tempo. — Se recupere antes de partir.
Vincenzo treme ao saltar da carroça.
— Isso é… gentileza? — Adrian revira os olhos. Ele ri e tosse muito. — Estou quase convencido que está realmente preocupado comigo.
Adrian range os dentes. Yusra solta o ar pelo nariz.
— Eu estou. — A confissão faz Vincenzo arregalar os olhos. Adrian encara o chão quando completa: — Você fez muito por mim. Por nós.
— Eu não tive escolha de verdade.
— Teria feito diferente se tivesse escolha?
— Gostaria de ter feito. — Vincenzo fala baixinho, cansado demais. — Mas eu não seria capaz.
— Venha para minha casa. — Adrian insiste. — Você terá acesso aos melhores tratamentos disponíveis. E com certeza entrarei em contato com a sua família. Cuidarei deles como se fosse a minha família.
Os lábios de Vincenzo tremulam em um sorriso frágil.
— Eu não posso. — Adrian estreita os olhos. — Estou fora por muitas semanas. Nessa altura todos devem pensar que estou morto. Não posso, por outro lado, recusar a sua ajuda caso seja financeira. Sou incapaz de tanto orgulho.
— As coisas serão diferentes agora. — Vincenzo aproxima-se do cavalo preparado. — Conversaremos sobre isso em breve.
As tentativas de Vincenzo em montar o cavalo são inúteis e vergonhosas. Adrian insiste que o primo não tem condições de seguir viagem sozinho e que uma carta de punho próprio será o suficiente para acalmar os nervos de Abigail e Valentina. O homem é muito mais teimoso do que Adrian poderia imaginar; determinado a retornar para casa, mesmo que chegue em condições deploráveis. Adrian está cogitando levá-lo em casa antes de retornar para Florença quando Yusra murmura:
— Vou acompanhá-lo, sr. Baccari. É claramente incapaz de prosseguir sozinho.
— Não quero criar mais desvios em seu caminho.
— Nenhuma necessidade é um desvio, meu senhor.
Yusra ajuda Vincenzo a montar o cavalo com facilidade observável. Adrian atribui a força dela à natureza licantropa. O pensamento causa desconforto. Menos de cinco luas o separam de uma nova transmutação. Pretende chegar em Florença antes que esteja sob quatro patas, mas não sabe como enfrentará a mudança em casa. São anos desde a última experiência natural. A verdade é que a presença de Yusra lhe dava um pouco de tranquilidade. Agora resta torcer para que não faça muito estrago.
— Yusra tem razão. — Adrian comenta. — É incapaz de continuar sozinho. Aceite a companhia.
Vincenzo aceita. Os preparativos para seguir a viagem são breves e silenciosos. Yusra aceita muito bem a possibilidade de andar incontáveis quilômetros até a casa de Vincenzo, mas Adrian dá as últimas moedas de prata para que consigam uma nova montaria, o que o fará viajar em jejum absoluto até Florença a menos que tenha sucesso capturando coelhos e pardais.
— Adrian, — Vincenzo para o cavalo, e ele se aproxima para conferir. — Não foi sacrifício. — Adrian franze o cenho. — Nada do que fiz desde o dia que o meu corpo foi tomado até agora foi sacrifício. Não duvide de mim quando digo que quero a paz entre nós, diferente dos nossos pais. Também não questione quando repito que sou feliz por vê-lo feliz com a sua família. Nada disso é falso. Mas não fiz por bondade. Não deixei a minha família, o meu filho pequeno, por ser bom.
— Por que, então?
Vincenzo desvia os olhos para o horizonte e pensa.
— Eu tinha uma dívida com Nora. — Adrian arqueia bem as sobrancelhas. — E eu sabia que ela iria cobrar quando necessário. Espero que agora esteja pago. E que exista um futuro realmente diferente para nós.
Adrian assente, incapaz de elaborar qualquer reação melhor. Vincenzo permite que o cavalo siga a viagem, e a mulher o acompanha em silêncio. Adrian percebe, então, que também será cobrado por Yusra. Torce para que demore o bastante. Talvez para que nem aconteça.
(...)
A palha é um pouco áspera contra a pele. Os lençóis fedem ao mofo ao mesmo tempo que embrulham confortavelmente o corpo. Os pés e as mãos formigam. O céu é azul clarinho, e o sol é morno como o beijo da mãe ao amanhecer. Os lábios se repuxam, mas não formam um sorriso completo. Por um tempo considerável, Nora observa as nuvens se movimentarem e tenta enxergar diferentes formas. Com dificuldade, ela ergue levemente o braço esquerdo para sentir a brisa e perde muito tempo impressionada com as cicatrizes que conquistou durante os trezentos anos de existência.
Trezentos anos.
Enquanto estava no recente sono profundo, Nora tentou convencer-se que trezentos anos foram o suficiente. A vida não foi essencialmente boa ou ruim. Houve grandes momentos de alegria e excelência; momentos esses que foram tão intensos e profundos que provavelmente compensaram todas as tragédias que se seguiram. E Nora tentou acreditar que a vida de todos é assim, ainda que a própria vida tenha tido particularidades esquisitas.
E o final da vida não foi agradável, mas necessário. Todos partem com assuntos pendentes, afinal. A aceitação foi facilitada diante da promessa de Revna de ajudar Selena com a passagem. Diferente dela, a filha não estava amaldiçoada a reencarnar sem fim e muito provavelmente o descanso eterno ou a próxima vida de Selena seria muito melhor.
Adrian cuidaria de Dante. E Dante, eventualmente, cuidaria de Adrian também.
Ciente da ausência de descanso, Nora se convenceu que a próxima encarnação teria sorte se nascesse como um ser-humano comum. A vida seria repleta de pequenas tragédias humanas insignificantes. A nova reencarnação nunca teria chance de acompanhar as esculturas mais belas sendo feitas, nem mesmo ver os quadros mais famosos da época. A ópera nunca seria ouvida, e o intenso trabalho ocuparia toda a rotina até morrer, provavelmente de peste negra ou fome.
A nova reencarnação talvez encontrasse alegria nos filhos porque dificilmente encontraria amor no matrimônio. Talvez fosse capaz de enxergar beleza nas corriqueiras situações diárias, como o nascer da vida na primavera; os animais da roça que se tornam queridos companheiros; as poucas boas refeições; as memórias da primeira infância e todas as outras coisas que seres comuns se contentam mesmo quando a existência é abominável. Ainda assim, toda a miséria seria melhor do que saber de todas as existências anteriores, de viver com a ameaça constante dos deuses e com as dívidas impagáveis. Se tivesse sorte, nem mesmo acreditaria que os seres sobrenaturais existem porque estaria ocupada com as missas e todas as indulgências da vida cristã.
Então, Nora esperou pela passagem, imaginando que era uma porta tão brilhante que ofusca a visão. E que se sentiria compelida a atravessar. E que haveria paz absoluta, sem nenhuma percepção ou preocupação do que estava pendente na vida anterior. Cogitou até que a passagem seria imediata e tão natural quanto respirar quando aceitasse a morte.
Mas a passagem não surgiu. E Nora inicialmente culpou Eris por tê-la amaldiçoado e abençoado, prendendo a alma naquela existência. Depois culpou Revna, porque provavelmente estava presa ao corpo por algo errado que ele fez no processo. Teve tempo para culpar Tahmon, que impregnou o corpo com o cheiro insuportável de enxofre e muitos questionamentos e revoltas sobre a ordem natural da vida. Por fim, pensou que até mesmo todo o barulho exterior — as conversas entre Adrian, Vincenzo e Yusra, a carroça que não parava de ranger, os cavalos que acertavam pedras propositalmente e relinchavam sem parar — estava a impedindo de encontrar a passagem.
A verdade foi sussurrada nas entranhas: você não quer partir. Pare de fingir. Levante-se logo! Tem muita coisa a ser feita.
Nora lutou contra até que dormir dentro do corpo imóvel se tornasse desconfortável demais.
Incapaz de morrer, incapaz de morrer, incapaz de morrer.
Não quero morrer!
Eu não vou morrer!
Eu não sou feita para morrer!
Nunca mais.
Jamais.
Os pensamentos se transformaram em magia. E em destino.
Nora agarra as laterais da carroça para sentar-se. O corpo todo dói e arde muito. O sol antes morno se torna muito forte e causa dor de cabeça. O cheiro de enxofre, terra de cemitério e sangue a enoja. A tosse é rouca, e o vômito é improdutivo porque não há nada no estômago para ser repelido.
Com dificuldade para enxergar, Nora entende que a carroça está parada próximo de arbustos. A poucos metros os cavalos estão pastando e bebendo água no pequeno riacho. O cheiro de carne queimada desperta fome, desejo esse que nos outros corpos nunca sentiu completamente. Nora encara novamente as próprias mãos e braços, reconhecendo cada ranhura e detalhe na pele. O sorriso surge aos poucos, queimando a pele ao redor dos lábios. Os pulmões parecem, enfim, funcionarem de verdade. E precisa muito fazer xixi.
A movimentação na carroça chama a atenção. Também próximo do pequeno riacho, Adrian olha ao redor. Provavelmente teme estar sendo roubado. A pequena adaga, que estava sendo usada para limpar a carne de coelho, é empunhada como uma verdadeira arma. Nora assiste a aproximação até que ele a enxergue. A adaga cai no mato, e Adrian abre bem os olhos.
— Eleonora! — Ele corre até a carroça. — Você… — Adrian agarra o rosto dela e enche de beijos. — Deuses! — Mais beijos, abraços fedorentos e reconhecimento. Nora o aperta com toda a força que tem. — Eu pensei que… — A voz dele se torna embargada. Nora esconde o rosto no pescoço dele. Adrian a afasta levemente para encará-la. — Meu Deus… — Os dedos sujos de terra e gordura esfregam as bochechas. As primeiras lágrimas escorrem. — É você.
— Sou eu.
— Você voltou.
Eles se abraçam.
— Eu voltei. — Nora sussurra. — Eu precisava voltar.
Adrian a ajuda a sair da carroça. Nora pisa na grama com os próprios pés pela primeira vez em oito anos e chora. Adrian agarra o rosto dela novamente, secando as lágrimas com beijos alegres. Depois, esfrega as bochechas e franze o cenho.
— O que foi?
O grasnido os interrompe. Nora encara a ave na árvore mais próxima. O corvo cacareja três vezes como um lembrete antes de alçar voo e sumir. Ela estreita os olhos e encara Adrian.
— O que foi? — Nora repete, franzindo o cenho. — Tem algo errado? Por que tá me encarando assim?
Adrian segura o rosto dela de novo.
— Você está aqui. É tudo o que realmente importa.
— Mas…?
— Os seus olhos… — Adrian pausa, escolhendo as melhores palavras: — Estão pretos. Completamente pretos.
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