Tempo da Bruxa
31 Selena
Notas iniciais
Nora não adicionou terra santa no creme que aplica na pele. Não tinha humor para santificar nenhum punhado de terra, muito menos buscar em uma igreja, instituição essa que pretende manter ainda mais distância. O creme é composto por barbatimão, calêndula e um pouco de arruda. Todas as ervas foram amassadas até formarem uma mistura pastosa e que pouco apetece.
O hematoma surgiu no dia posterior à visita de Eris e Revna. Iniciou dolorido, com as bordas amarelas irregulares e o centro azul-escuro como o céu noturno límpido. A dor que surgia ao tocá-lo atravessava a barreira física e incomodava a alma que não aparenta mais estar tão bem assentada no corpo, apesar dos esforços intensos de Revna.
Nora foi incapaz de cuidar do machucado nos dois dias anteriores; estava exausta, atravessada por uma sonolência febril. E os poucos lapsos de discernimento estavam preenchidos por dores quase incapacitantes, por uma preocupação inquietante e angústia indescritível; a sensação de não caber mais a sufocando pouco a pouco.
Pelo reflexo do espelho, ela observa a pasta escura espalhada por todo o tórax. A parte mais escura do hematoma está nos seios. As bordas amarelas, por outro lado, alcançam até o umbigo de Madalena. Com cuidado, Nora toca o centro do machucado, exatamente onde a mão de Eris adentrou com severidade. Nenhuma cicatriz será deixada no corpo, que já foi exposto ao ridículo muito mais do que deveria. Por outro lado, a dor que atormenta a alma é tão forte que a indispõe fisicamente. Ela se questiona se a alma de Madalena ainda está dentro do corpo. E se está, também sentiu a invasão? Sente-se tão desconfortável quanto Nora? Tão frágil, pequena e exposta?
Nora veste-se com dificuldade. Os braços e ombros também estão doloridos. Quanto pronta, encara o reflexo de Madalena e suspira. O corpo transformou-se. O peso perdido foi tão significativo que Madalena parece doente. As tentativas de desembaraçar o cabelo foram extensas e culminaram na redução do tamanho dos fios, que eram sedosos e louros como o trigo. Apesar dos cuidados de Revna, os olhos são fundos e os lábios rachados. Nora não se assusta. O próprio corpo foi submetido a situações mais infelizes.
Mas este não é o seu corpo.
Ela toca novamente o machucado. Embora tenha vivenciado a invasão severa de Eris, Nora ainda desacredita que aquele ponto é o acesso da alma. É romântico demais para ser real. É exposto demais.
Durante toda a existência humana muitas possibilidades foram cogitadas para explicar a alma. Alguns acreditam que a alma é intrínseca ao corpo e desfaz-se junto com a carne, como se a alma fosse um conceito para a consciência que o cérebro físico produz. Outros acreditam que a alma é uma existência a parte do corpo físico e que pode ser separada. Neste sentido muitas pressuposições surgiram. A alma é um ser a parte, que diverge do corpo? A alma completa o corpo? Onde a alma é posicionada dentro do corpo?
Anteriormente Nora estava inclinada ao pensamento racional. Mesmo tendo certeza que a alma e o corpo são coisas separadas, e que a alma existe fora do corpo, estava disposta a posicioná-la na cabeça, próxima ao cérebro.
A posição da alma, porém, não é a parte que mais a perturba. Antes de perder a consciência, escutou Revna queixando-se que a sua alma não cabia dentro do corpo de Madalena. Aos trezentos anos, Nora não tem imaginação para supor o que isso significa além do literal. Almas têm diferentes tamanhos e pesos; ideia que se assemelha com a pesagem de corações e almas feita por Anúbis. Inclusive, dentro dessa perspectiva é o coração quem porta todas as más e boas ações feitas durante a vida.
A alma é o coração?
Incapaz de avançar, Nora resmunga baixo. Eris e Revna são capazes de sanar todas as dúvidas que a visita há duas noites causou, principalmente o fato de que eles são pai e filha. Porém, os dois estão quietos e distantes como nunca.
Durante o dia é inútil solicitar a presença de Revna. Eris soa como a opção mais acessível. Contudo, Nora lembra-se de que Eris ignorava a própria sacerdotisa, que preparava fartas oferendas e sacrifícios diversos. Ciente do que precisa para chamar a atenção da deusa, Nora arrasta o corpo frágil e cansado de Madalena para fora do quarto pela primeira vez em dois dias.
A farta mesa de desjejum ainda está posta, embora apenas Madalena e Dante estejam em casa. A ausência de Adrian foi justificada para os servos como uma viagem urgente para auxiliar o primo em mais um momento de extrema dificuldade. A possibilidade foi bem aceita, considerando o estado deplorável da família Baccari quando partiram há semanas. A partida bruta da Ginevra e da srta. Rossi, antiga dama de companhia de Madalena, teve justificativa similar, mas não foi tão convincente porque os servos discutem nos corredores as possibilidades.
Sentada à mesa, Nora finge apreciar o suco de laranja que é servido. A mesa está composta por uvas, mexericas, nozes e castanhas, além de pães, queijos e carne de porco assada. Tudo é excessivo, inclusive a ausência do senhor da casa. A cadeira que Adrian usava é como um túmulo, e o silêncio da mesa é como o cortejo fúnebre.
— Dante já comeu?
A governanta arqueia as sobrancelhas.
— O sr. Palucci acordou cedo, minha senhora.
Nora observa Francisca parada do outro lado da mesa. A feição da governanta é séria, quase fúnebre.
— Senhor Palucci… — Nora enfatiza. — É uma criança, Francisca.
— Não na ausência do pai. Não há muito tempo. — Elas se olham. — O tempo transforma tudo.
Nora range os dentes. Não tem disposição para questionar as entrelinhas de Francisca. Porém, sempre soube que a senhora era astuta e ambígua. Quando era Nora, e quando Nora era a senhora da casa, fazia-se de outra para a maioria dos servos. Nunca para Francisca, que criou Adrian desde menino e que dedicava fidelidade extrema à antiga senhora da casa, Anna.
— E onde Dante está?
— O sr. Palucci foi à missa.
— Missa?!
— Hoje é domingo, minha senhora. — Francisca sorri discretamente. — Nas últimas semanas a saúde da senhora está mais deplorável que o comum, o que causa muita preocupação em todos nós. Ainda assim, eu não acreditava que a senhora estava tão debilitada ao ponto de ausentar-se das missas por tanto tempo. Acredito que o sr. Palucci, instruído pela senhora, está buscando apoio no Nosso Senhor para suportar as aflições.
— Instruído por mim?!
Francisca assente.
— Durante o jantar, minha senhora. — Nora pisca várias vezes seguidas. — Não está lembrada?
— Que jantar?!
— Ontem à noite.
— Eu não… — Nora empurra a cadeira para longe da mesa, mas não se levanta. — Eu não jantei ontem.
— Por favor, minha senhora, não diga isso! Porque eu mesma servi a senhora e ao sr. Palucci. Com esses olhos — Francisca aponta para os próprios olhos. — eu vi a senhora. E com esses ouvidos te ouvi. E agora a senhora me diz que não jantou! Por Deus! Ou a senhora está pior do que imaginamos ou…
— Ou o quê, Francisca?
— Ou tenho mais de uma senhora. Mas isso é impossível, não é?
Os batimentos cardíacos ecoam nos ouvidos de Nora. A mão sua conforme as possibilidades se costuram na realidade. A percepção de tempo é desfeita por completo. Duas noites, ela contou. Duas noites doente desde que Eris a invadiu. O tempo de Nora não parece o certo e nem o mesmo. E as ausências que justificou como noites febris e extremo cansaço se tornam incertas.
Madalena voltou?
Por quanto tempo?
Com as mãos trêmulas, Nora junta os alimentos mais bonitos e nobres que estão dispostos na mesa. A governanta não ousa reclamar quando exige o melhor vinho da adega de Adrian. Munida dos itens necessários, Nora esconde-se no cômodo que funciona como um antro para magia.
O altar é feito com rapidez e pouco cuidado. As velas escolhidas não são adequadas, mas o que Nora possuí após anos fora. As poucas ervas que sobraram são acrescentadas à mesa. Os alimentos nobres, incluindo o vinho, são dispostos na mesa. Por fim, Nora dedica o altar a Eris com genuína esperança de ser ouvida.
Contudo, Eris não a responde. Muito menos Revna, à luz do dia.
(...)
— Pensei que havia me esquecido. — Lucien debocha. — Ou pior: se cansado de mim.
Nora mantém os olhos baixos, focados na última página que escreveu em seu grimório antes de viajar para atender o pedido de Sylvia. A anotação se diferencia completamente das anteriores: foi escrita em três idiomas diferentes. Não é um passo a passo comum, nem mesmo os ingredientes para um feitiço. As frases são extensas e compõem uma narrativa que Nora não se recorda. Em alguns momentos, ela identifica elementos utilizados em uma possível magia. Nada é claro porque os idiomas e até mesmo a caligrafia se confundem.
Rasurado no canto da página, ela nota a palavra SANGUE rabiscada.
— Não é difícil se cansar de você.
O homem solta um suspiro frágil. Nora o analisa. A solidão o deixou mais deplorável. A barriga que tinha se desfez, evidenciando as costelas contra a pele suja e machucada. As junções dos membros estão inchadas devido ao estiramento. A barba que era aparada com cuidado se assemelha a um ninho de pássaros. O cheiro é mais insuportável do que um estábulo.
— Me deixou para morrer. — Eles se olham. — Por que voltou agora? — Lucien fecha os olhos, erguendo a cabeça para cima. — Eu estava em paz.
Nora fecha o grimório, confere às horas no relógio de bolso e sorri para disfarçar o nervosismo. A missa da manhã acabou há horas, mas Dante não retornou para casa. Considerando o tempo que ausentou-se, Nora supõe que ele se acostumou a cuidar de si mesmo. Ainda assim…
— Você não tem direito a paz.
— E você tem?
Nora nega.
— Eu não procuro paz. — Nora o analisa. Todos os excessos físicos que a sua mente foi capaz de pensar foram executados com excelência. Neste sentido, o homem está desfeito de toda a sua glória. Porém, o que o sustenta é algo diferente e que enoja Nora. Lucien vê em seu sofrimento dignidade. Ele cria uma correlação entre o seu castigo e o calvário do seu Deus. — Você pensa que morrerá como um santo.
— Eu não sou santo.
— Nem mártir. — Ele solta o ar pelas narinas, debochado. — Se o que eu faço te torna mártir; o que você me tornou?
Lucien arregala os olhos e a encara. Nora levanta-se e aproxima-se.
— Eu te purifiquei. — O homem molha os lábios machucados. — Por um breve instante, que seja. Eu te purifiquei. E quão sortuda a sua alma seria se tivesse partido naquele momento porque descansaria aos pés de Deus.
A raiva surge como bolhas nas mãos, que sobem para os ombros e se expandem por todo o tronco. Nora fecha os punhos, range os dentes e ri, falsa.
— Qual deus?
— Há apenas um Deus Verdadeiro, demônio.
— E o senhor descansará no Deus Verdadeiro, não é?
— Essa é a minha única certeza. — Lucien olha ao redor. — Tudo o que faz me fere. Não serei soberbo de negar a dor que me inflige ao me manter acorrentado e machucado. Minha dignidade e meu ego se desfizeram. Minha força agora de nada vale…
— Mas a sua alma está sendo purificada, sei. — Nora analisa o orgulho crescer. — O senhor acredita em demônios?
Lucien ri.
— Como não acreditaria? Você está na minha frente.
— Sou o seu pior demônio?
— Não pelo que faz comigo. Fui preparado para isso a vida toda. Mas pelo que fez com a coitada da Madalena. — Ele franze o cenho. — O que fez com o bebê…
— Oh… — Nora posiciona as mãos em cima da barriga. — O bebê… Padre, eu preciso confessar… — O sorriso dela aumenta. — Eu pequei. Em uma noite de lua cheia, eu arranquei o bebê. Eu o matei. E o ofereci à noite. Do sangue dele eu bebi. — Lucien se agita. — Sylvia disse que eu me arrependeria. — As correntes balançam mais quando Nora se aproxima. — E eu pensei que não suportaria a culpa. Mas quer ouvir a verdade, padre? — Ele nega e fecha a expressão. Nora segura o rosto dele. — Eu nem me lembro disso.
— Demônio! Piores legiões de demônios!
Lucien reza em latim. Nora pega a adaga conjurada e risca a pele do homem. O filete de sangue escorrega. Com o sangue, Nora desenha a cruz invertida na testa dele. Lucien se debate, eufórico.
— O senhor tem razão. Não há dor neste mundo que o machuque de verdade. — Nora molha o dedo com mais sangue e escreve 666 em ambos os braços do homem. — Todos os meus esforços físicos são perda de tempo. E eu estou tão ocupada. — Ela sorri ao finalizar o hexagrama invertido no abdome dele. Lucien percebe quais símbolos estão sendo feitos. — Porém, como percebo que é de grande interesse do senhor, permita-me apresentar um… colega.
— O que está fazendo? — Ele grita. — Bruxa imunda, o que está fazendo? — As correntes fazem muito barulho com a movimentação intensa do Lucien. Nora assiste o suor escorrer na testa do homem, pingando no peito e misturando-se com o sangue. — Pai Nosso que estás no céu…
— Lembra do que eu disse que aconteceria quando me cansasse de você?
As primeiras lágrimas escorrem.
— Você não tem poder sobre a minha alma!
— Então por que está tão assustado?
Lucien desvia os olhos arregalados. Nora afasta-se para buscar os outros itens necessários para a invocar o demônio. Enquanto desenha todos os símbolos necessários, inclusive o que manterá o demônio dentro do cômodo, Nora nota as mãos extremamente trêmulas.
Não é a primeira vez que solicita a presença de um demônio e também não os considera tão ruins quanto a imaginação humana desenha. São seres perigosos, rastejantes e com interesses escusos exatamente como a maioria dos seres vivos, principalmente os sobrenaturais. Apesar disso, as mãos tremem e o suor se acumula na testa e no pescoço. A formigação surge no estômago, e Nora se sente como a primeira vez que faz uma magia há séculos. A visão embaça, e ela apoia-se na cadeira para não cair. Os pensamentos se tornam barulhentos e confusos. De repente, Nora escuta:
ME DEIXE SAIR.
ME DEIXE SAIR!
Por cima do ombro, Nora observa Lucien se debatendo nas correntes. A angústia é intensa e silenciosa. Além disso, a voz é feminina. Nora encara as próprias mãos e se recusa a cogitar a possibilidade. A mão direita, associada a ação, a força e ao racional, move-se sem permissão de Nora. Aos poucos, a visão direita também foge do controle.
— Madalena. — Nora repreende, severa. — Eu preciso que você… — Nora usa a mão esquerda para apertar a cabeça, tentando driblar a dor de cabeça severa. — Fique quieta.
O que está acontecendo? Me deixe sair!
Nora apoia a mão no peito e faz pressão como se pudesse empurrar a alma de Madalena para o fundo.
— Fique quieta! — Nora grita. — Não agora! — Exige. E suspira. — Eu… Por favor. Me deixe terminar.
Madalena, então, volta ao silêncio.
— Demônio! — O padre Lucien grita. — É o pior demônio que conheci! Está mesmo aprisionando a alma de Madalena.
Nora esfrega o local que Eris a atravessou. A queimação se transforma em dor novamente. Nora ignora o padre, concentrando-se na invocação. Apesar da suspeita confirmada, Madalena é gentil e espera em um silêncio apreensivo; Nora sente a angústia dela tensionar os membros. Com dificuldade, ela desenha todos os símbolos, coleta mais sangue do Lucien, acende as velas necessárias e convoca o ser.
Enquanto inquire a visita do ser, Lucien se debate nas correntes. Os gritos são abafados pelas paredes grossas. Porém, são tão cansativos quanto angustiantes para Madalena. O homem sua, chora e sangra ao mesmo tempo. As falas são desconexas e dividem-se entre o medo e a ofensa.
Em algum momento, Nora não tem completa percepção de tempo, a energia transmuta. O ar torna-se denso e pesado. As chamas balançam mesmo com a ausência de corrente de ar. E o cheiro de lírios preenche o cômodo. Nora revira os olhos antes de vê-lo.
— Mon cher! — A presença cumprimenta. — Eu tinha certeza que estava morta!
— Eu estava.
A presença que se forma é de um homem relativamente alto; de pele branca e cabelo loiro ondulado na altura dos ombros. As feições são delicadas e agradáveis: olhos redondos e azuis-escuros; lábios cheios e rosados, assim como as maçãs do rosto. Os dentes são perfeitos e brancos.
— Mas aqui está você. — Ele confere o ambiente e faz uma careta. — Que deprimente. — Lucien mantém a reza alta enquanto chora e sua excessivamente. — Mon cher, se fosse eu que tivesse voltado da morte, não estaria gastando minha segunda vida nesse buraco! — O homem aponta para Lucien. — Quem é esse?
— Importa?
— Depende. Serei envolvido? — Nora assente. — Então importa.
— É um homem mal.
— Todos são.
— É um homem de deus. — Nora acrescenta. — É um padre.
O sorriso que surge é sutil. À medida que o demônio se aproxima, Lucien se agita como se pudesse fugir. O rosto do padre torna-se vermelho, misturando as lágrimas e suor. O demônio agarra o queixo de Lucien e avalia.
— Vejamos… — Nora percebe que os olhos azuis são substituídos por escuridão. A feição humana desfaz-se um pouco. E esse pouco é o suficiente para arrancar um choro intenso de Lucien. — É mais do que um padre. É um homem de fé! — O rosto humano retorna. — Mon cher! Que belo prêmio tem aqui! O que esse coitado fez para merecer isso?
— Importa?
A presença que ocupa o corpo belo e atraente se aproxima. Nora sente o cheiro de lírios, vindo do perfume caro que o demônio borrifou no corpo que ocupa. No fundo, contudo, ainda há o rastro do cheiro de enxofre.
— Não importa, Nora. — O demônio segura o seu queixo, e Nora sente a pequena quantidade de magia sendo extraída pelo toque. Com voracidade, ela afasta a mão. — Ainda arredia.
— Não me toque. Nunca me toque. — Nora enfatiza. — Você me cansa, Ludwig.
— Oh, não. Não, não! — O homem movimenta as mãos de forma feminina e nobre. — Esse não é mais o meu nome. Eu entendo, coitadinha. Esteve fora por todo esse tempo. Agora eu sou Henry, como o rei.
Nora franze o cenho.
— O rei é o Francis.
— Por enquanto. Morrerá no próximo ano. Henry herdará o trono. Inclusive, Henry se casou com uma florentina. — Nora estreita os olhos, sem entender. — Chama-se Catarina. A conhece?
— Por que eu…? — Nora balança as mãos. — Essas questões mundanas não me interessam, Ludwig. — O ser revira os olhos. — Digo, Henry.
— É claro que não interessam. As suas lutas são sempre tão espirituais, não? — Henry encara Lucien. Nora cruza os braços. — Bom, o que deseja?
Nora analisa Lucien também. O choro terminou, assim como as rezas. O padre encara Henry, o demônio em forma humana, com curiosidade e muito espantamento. Henry sorri, de repente.
— Gosta do que vê, velho? — Lucien se retrai. Henry aproxima-se, agarra o queixo do padre e aperta. — Aposto que está surpreso. Sempre te contaram sobre coisas como eu. Imaginava algo diferente?
Lucien aperta os olhos. Lágrimas não caem. Henry, por outro lado, percorre o corpo do Lucien com a mão curiosa. Quando Henry agarra o pênis, Lucien volta a rezar alto em latim. O rosto do padre torna-se vermelho quando a fisiologia responde ao estímulo. Nora revira os olhos, e o padre tenta iniciar uma oração de exorcismo.
— Cale-se. — Henry exige. — Você não tem forças contra mim. É perda de tempo. E energia.
Nora não discorda. Uma criatura antiga e debochada como Henry não será afastada tão facilmente. Apesar disso, rezas cristãs são sempre um incômodo para os demônios.
— Está me oferecendo uma alma. Por quê?
— Minha alma pertence ao Senhor Único e Verdadeiro… — Lucien interrompe.
— O que você deseja?
Nora analisa Lucien em outra crise católica.
— Quero que o desfaça. Em particular. — Henry revira os olhos. — E quero que traga o meu corpo de volta. Sem nenhum demônio dentro.
Henry ri.
— Isso é difícil.
Nora força o sorriso.
— Tenho certeza que consegue.
— Eu consigo, claro. Mas saiba que pode demorar um pouco…
Nora dá de ombros.
— Desde que não demore muito… — Ela observa Lucien. — Tentarei mantê-lo vivo, mas sabe o que acontece se ele morrer.
Henry analisa Lucien e resmunga baixinho.
— Três dias. — Henry ergue três dedos. — E trago o seu corpo de volta.
— Sem nenhum demônio dentro.
Henry faz uma careta.
— Não, não. Trarei o seu corpo até aqui. — Henry mostra as correntes. — E você cuidará do resto. — Nora cruza os braços, infeliz. — Não seja tola. Eu nem deveria aceitar esse pacto. Estou indo contra os meus irmãos. Sou um traidor.
Nora ri.
— Vocês não são irmãos. E todos os demônios são sujos.
— Não posso expulsar o meu irmão de um corpo. — Henry justifica. — O chefe… — Henry aponta para o chão. — não aceitaria.
Nora encara Lucien enquanto considera a contraproposta.
— Dois dias.
— Três dias.
Henry aperta o queixo de Lucien e o sela com um beijo nos lábios antes de desaparecer. Lucien se desespera, cuspindo e esfregando a boca contra o ombro. Nora o analisa.
— Não se preocupe, padre. O seu novo senhor é divertido.
— Nenhum demônio possuirá minha alma! — Lucien esbraveja. — Pode possuir meu corpo. Pode usá-lo, desfazê-lo e refazê-lo. Mas minha alma pertence ao Senhor.
— Bom, — Nora exibe o seu melhor sorriso. — o que posso dizer para confortá-lo? — Lucien a olha. — O senhor tem três dias para orar por sua alma. Talvez seja poupada. — Nora pausa. — Três dias. O senhor concorda comigo que é uma ironia, não?
O rosto de Lucien transforma-se muito rápido. A tristeza se esvai, e a raiva cresce e pinta a pele de vermelha. Os olhos se apertam e a voz é esganiçada:
— Você é um demônio.
— Não, eu não sou.
— É um dos piores demônios que existem! Demônio, demônio! — Lucien se debate, causando barulho das correntes. — Quer ouvir uma coisa, demônio? Quer ouvir uma coisa?!
— Se acha que deve dizer.
— Nada me trará mais prazer do que isso. — Lucien debocha. — Porque eu devo te agradecer! Tive uma vida longa e próspera. Mas havia um arrependimento. Um pecado. Um pecado que tirava o meu sono, que me levava a questionar a minha fé e se o que eu fiz durante a vida era certo! Apenas um.
Nora arqueia as sobrancelhas.
— Devo dizer que admiro a paz que o senhor encontra consigo mesmo…
— Sabe qual o meu pecado?
Nora cruza os braços.
— Eu matei uma criança. — Nora estreita os olhos e firma a mordida. — Há uns meses. Eu não a matei de propósito. Eu não queria matá-la. — As mãos dela voltam a tremer. — Eu queria purificá-la porque sei que todas as almas podem ser salvas, principalmente as almas das crianças! — Nora apoia-se na cadeira ao sentir a visão escurecer. — O reino dos céus pertence às crianças. Ainda assim, ela era muito forte e teimosa para a idade. Era poderosa, sim. E eu tive medo. Eu me excedi. — Lucien sorri. — Me excedi porque pensei que a levaria ao verdadeiro arrependimento. Não percebi que era uma criança tão jovem e frágil. — Os pulmões lutam para encontrar ar. — Até hoje eu carreguei essa culpa. Esse pecado. Até agora, na verdade. Eu até mesmo, nesses dias que fiquei aqui sozinho, pensei que era o causador de tamanha tragédia e infelicidade. — As pernas formigam. — Pensei que indiretamente era o culpado por você ser assim. Mas agora eu vejo com clareza o demônio que você é. E tenho certeza que a sua filha não seria diferente. Seria, na verdade, algo ainda pior. Uma mistura nojenta de bruxa com licantropo. Por isso, hoje eu encontrei paz. Hoje Deus me perdoou.
Nora recua até as costas baterem na parede de pedra. As lágrimas estão presas nos olhos. As mãos estão trêmulas, assim como as pernas. Nora pisca várias vezes, tentando recuperar a visão completa. Desta vez, não escuta Madalena lutando para ocupar o corpo. Há, na verdade, o silêncio interior que mistura-se ao riso debochado de Lucien. Nora abre e fecha a boca.
— Você…
— Acha que é mentira? — Lucien inclina a cabeça e sorri. — E quer saber de uma coisa? Ela chorou muito mais do que você. Selena. — Ele murmura. — Esse era o nome, não? Selena. Ela gritou até o fim.
Nora nega com a cabeça. As lágrimas embaçam a visão completamente. As pernas trêmulas ficam imóveis por um minuto completo. Os ouvidos, de repente, são preenchidos por um zumbido alto que causa dor em toda a face. O peito sobe e desce com violência.
Não há uma reação verdadeira. Ao menos, Nora não sente que está reagindo como deveria. As pernas, de repente, a levam para fora da cela de Lucien. As escadas são descidas com dificuldade, apoiando-se nas paredes. Nora percebe o corpo se movimentar e não possui mais o domínio das ações. Ao menos, acredita que não possui. Dentro de sua cabeça, ecoa repetidamente: eu sinto muito, eu sinto muito, eu sinto muito. E tudo escurece novamente.
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