Tempo da Bruxa
32 Criação
Notas iniciais
Encostada na parede, Madalena não reconhece o local úmido e fétido. Abaixo há escadas com degraus sujos de lodo e lama, incontáveis e que causam vertigem devido à distância do solo. Acima há um corredor estreito e uma porta escancarada.
O líquido viscoso com forte cheiro metálico em suas mãos a enoja tanto que causa vômito. Sem perceber que está no primeiro degrau, Madalena tenta recuar e caí sentada. As mãos são esfregadas na parede úmida na tentativa de limpar o sangue. Aos poucos a respiração ofegante se regula, e Madalena supõe que está no último andar da propriedade, que foi construído para oprimir e violentar qualquer indivíduo que desrespeitasse o senhor vigente.
As memórias não são claras. Presa dentro do próprio corpo, Madalena não assistia tudo o que acontecia o tempo todo. Na verdade, até poucos dias não tinha percebido que estava afastada do corpo. Ela sonhava. Ou vivia outra realidade muito mais agradável.
Ela leva a mão ensanguentada ao peito, puxando levemente a pele. Os olhos ardem quando supõe que estava sonhando o tempo todo. Madalena afunda as mãos ainda sujas, agora uma mistura de sangue, terra e lodo, no cabelo, arrancando mechas. As lágrimas não escorrem. As mãos caem no rosto, arranhando com força a pele maltratada.
Os gemidos persistem. São resmungos temperados com choro baixinho, como apenas uma criança sofrendo faria. Madalena treme ao se levantar e se arrasta até a primeira cela do corredor, apoiando-se nas paredes. A cena é tenebrosa, e o cheiro causa outro vômito intenso.
Lucien está pendurado em correntes pesadas. A imagem não é totalmente nova. Há poucos momentos assistiu algo muito similar através dos olhos que Nora dominava. Nora. A possibilidade a assombra e é rapidamente afastada. Madalena teme perder o poderio sobre o corpo muito rápido, embora Nora esteja silenciosa e desfeita como um túmulo.
Túmulo.
Há uma pequena mesa e cadeira disposta no corredor da cela. Em cima da mesa há velas, facas, folhas rabiscadas e copos sujos. O ambiente cheira a sangue, urina, fezes e mofo. Lucien está desfeito; os membros estão inchados e a pele está tomada por cicatrizes, roxos e símbolos horripilantes que causam assombro em Madalena. A obra, de fato, não pertence a ela. Não seria capaz de machucar ninguém a tal ponto, nem mesmo teria coragem de ofender Deus daquela forma.
Lucien a nota, contém o choro e exibe o que restou de um sorriso maldoso. Madalena recua meio passo. Não estava completamente ausente quando Lucien confessou o crime. Não está completamente ausente desde que algo atravessou o corpo tomado por Nora. Algo tão forte que a arrancou dos seus sonhos, a arrancou da simples choupana perdida na floresta densa, a arrancou da companhia que a embriagava gentilmente o tempo todo. Depois, a sobriedade foi dividida com Nora, que é forte demais para Madalena lutar por tanto tempo. Houve poucos momentos que dominou o corpo, e Madalena assustou-se ao perceber como tudo está completamente mudado e desfeito em níveis irreparáveis.
Tudo o que construiu. As glórias obtidas e os muitos erros repetidos. Após o tempo da bruxa, nada mais parece real. Os anos que esteve na propriedade, comandando-a como senhora são lembranças distantes. Não é apenas a propriedade física que está diferente. Há algo no ar, uma tensão extensa e dolorosa para os ombros, algo que cansa os pulmões e cultiva lágrimas pesadas.
— Voltou rápido. Precisa de mais detalhes?
Madalena recua e bate a cintura na mesa. Ela abraça o próprio corpo e desvia o olhar. Não suporta mais enxergar Lucien exposto em seu máximo. A ardência nos olhos retorna quando lembra-se de como Nora descobriu sobre a morte de Selena; as palavras maldosas, bruscas e sangrentas. O pecado que condenará a sua alma eternamente. Havia um pouco de paz, ainda que falsa, em pensar que, ao menos, a bruxa seria poupada do luto. Madalena repetiu isso tantas vezes que esqueceu-se de Adrian e Dante; esqueceu-se que em algum momento todos saberiam do que aconteceu na propriedade ao norte da Itália, sob o comando de um homem santo, forjado para guiar todos no caminho do Senhor Jesus.
Como Madalena permitiu?
Ela agarra o peito quando a respiração é insuficiente. Os joelhos falham, e Madalena se vê no chão imundo tão desfeita quanto Lucien. Os dedos beliscam e arranham toda a pele exposta, como se a breve dor pudesse redimir a sua alma. Quão sortuda seria se pudesse atravessar o calvário de Jesus em seu lugar. Assim, talvez, seria capaz de desfazer-se dos seus pecados terríveis.
— Nem mesmo Deus é capaz de me perdoar. — Madalena murmura, trêmula. — Eu… — Madalena agarra o vestido, puxando-o para longe como se o tecido a impedisse de respirar. — Nem mesmo Jesus em sua cruz. O que eu fiz, padre? O que eu fiz?
Lucien arregala os olhos ao reconhecê-la.
— Madalena?
— Era uma criança.
— Não era. Você sabe disso.
Madalena franze o cenho. E as lágrimas ainda não caem.
— Eu… Eu condenei Selena ao enviá-la para a casa da minha irmã.
— Você a salvou.
Madalena arranca tufos de cabelo. E a dor não a absolve como deveria.
— Ela está morta.
— Ela está salva.
— Ela… — O ar falta. As palavras morrem. — Está morta.
Lucien não a responde. Madalena arrasta-se para fora da cela e desce as escadas com pressa. Há urgência em chegar no quarto e punir-se na tentativa de absolver a sua alma. Não do pecado, esse a acompanhará até o fim. Madalena deve diminuir a culpa, ao menos. A dor. O arrependimento. Contudo, o percurso é interrompido.
Há uma figura no meio do corredor que dá acesso aos quartos. A pele da mulher é escura como a noite; ainda mais escura que a pele de Adrian. O cabelo é longo, cacheado e dourado como o ouro. Os olhos são amendoados e reluzem mais do que é natural em um tom de mel. A presença se mexe, e o som das muitas jóias que a adornam ecoa pelo corredor. Madalena recua proporcionalmente até não haver mais corredor, e a presença a alcança. Um breve toque na testa é o bastante para que ela afirme:
— Madalena. — Ela estreita os olhos dourados como o sol. — É esse o seu nome. — Madalena se encolhe, trêmula. — Mas não foi você quem me chamou.
Madalena é incapaz de responder. A mulher agarra o seu rosto com força, apertando o seu queixo até que os seus lábios formem um bico. Os olhos ardem novamente, mas as lágrimas não caem. Não ainda.
— Por favor, eu…
— Eu sei. Não é quem eu procuro. — A mulher a solta. E a pele de Madalena torna-se morna e borbulhante. Ela esfrega o local. — Por que está aqui? Oh, certo. Isso provavelmente é minha culpa. Não devia ter mexido tanto.
A mulher estala os lábios e se afasta. Madalena respira devagar, tentando controlar o tremor que domina todos os membros. Embora os lábios estejam secos, e a boca quase colada, esforça-se para perguntar:
— Quem é você? — A figura anda em círculos. — O que é você?
— Há quanto tempo está aí? — A mulher a cerca novamente, examinando. — Não há muito tempo, é claro. Você é incapaz de me invocar com tanto cuidado… Deixe-me…
Os movimentos da coisa são fluídos e leves. Madalena aproveita-se do ímpeto de horror e desvia-se do toque por poucos segundos. O segundo impulso é afastar-se com pressa e passos perigosos. Não é totalmente capaz de correr, mas aumenta o espaço entre elas. A aparição move-se sem pressa. Madalena desce as escadas pulando degraus e chega à sala.
— Não fuja de mim. — A coisa alerta parada no topo da escada. — Não pode ir tão longe assim.
Madalena treme.
— O que é você?!
A mulher apoia-se no corrimão para descer os primeiros degraus. O barulho que todas as joias fazem quando aquilo se movimenta é similar as correntes do inferno sendo arrastadas. Temerosa, Madalena atravessa a sala enquanto grita por ajuda. Porém, enquanto o sol se esconde do lado de fora, aparentemente todos os servos também ausentam-se.
Embora as pernas frágeis não suportam correr mais, Madalena atravessa os corredores antes que a coisa a cerque novamente. Os gritos ecoam pelos cômodos e dentro da sua cabeça. Por um momento, Madalena considera que talvez seja esse o castigo por ter desfeito Selena. Então, choca-se com a serva que transporta as roupas de cama recém passadas. O baque alto delas caindo no chão conquista a atenção de outros servos, que preenchem o corredor rapidamente.
— Minha senhora…
Madalena agarra os pulsos da serva que oferece apoio para levantar-se.
— Tem algo atrás de mim! — Madalena esbraveja. — Está me perseguindo! — Ela aponta para a sala. E nenhum servo vê nada. Os murmúrios surgem rapidamente, acompanhados de risadinhas. — Por que estão rindo?! Não estão vendo?
— Não há nada, minha senhora. Não há ninguém. — A serva garante apertando os braços dela. — Apenas a senhora está em casa. — Madalena nega. — Vossa Graça está viajando para atender os pedidos da tia doente, a lady Abigail. Não se lembra? — Ela balança a cabeça em negação e ri. — Lorde Dante ausentou-se também. — Madalena ri, incrédula. A serva franze o cenho e teme: — Está doente novamente? Deve-se deitar. E eu chamarei…
Madalena recua. Alguns servos saem do corredor. E os que ficam a olham com uma mistura de confusão, deboche e pena. Os comentários são sussurrados e óbvios. Todos duvidam de sua sanidade.
— Eu não sou louca! — Madalena esbraveja. — Eu não estou louca! — Ela aponta para os servos. — Todos vocês… Quem vocês pensam que são? Eu sou… — Madalena utiliza o indicador para apontar para si mesma. — eu sou a senhora desta casa! E eu irei… — Mais servos se ausentam. A serva que a levantou nega com a cabeça. Madalena segura a própria cabeça, puxando as mechas do cabelo. — Todos vocês irão se arrepender.
— Por favor… A senhora…
Com a angústia pesada no peito, e o temor de não respirar direito dentro do palácio, Madalena escapa antes que a serva conclua o raciocínio. Do lado de fora, o céu está tingido de tons rosados enquanto o sol se põe totalmente. A brisa suave está cheia de pólen, e Madalena nota que muitas semanas, meses, se passaram.
Então, enfim, as lágrimas pesam tanto que caem. E o choro é interrompido pela aproximação ainda mais sombria e desfeita que a anterior. A forma é composta por sombras que lutam para manter alguma coerência estética que quase lembra uma figura humana. Madalena pensa em fugir, embora as pernas estejam trêmulas. A abordagem, desta vez, é mais astuta e a arrasta para dentro da escuridão.
Quando a luz retorna, poucos segundos depois, Madalena está no covil que pertencia a Nora. Embora o cômodo esteja dentro do palácio, se distingue totalmente da estética exterior. As paredes não são em tons claros com arabescos dourados, comum nos corredores e ambientes menos pessoais; a cor predominante é verde-escuro. As paredes são preenchidas com estantes de madeira longas e volumosas. As estantes, por sua vez, possuem incontáveis coisas como potes de diferentes tamanhos; ervas ressecadas e desfeitas, excessivos livros, cumbucas variadas, cristais, pedras, adagas, pequenas esculturas, crânios de alguns animais e caldeirões. Tudo está organizado e limpo, que comprova a presença recente da bruxa. O chão de madeira é decorado com tapetes persas. A lareira ocupa o centro da parede, e a mesa de madeira maciça, longa e pesada preenche o meio do cômodo.
Por um breve momento, antes de lidar com as figuras presentes, Madalena imagina tudo o que era feito naquele covil. O temor escorre nas costas e sempre foi o responsável por mantê-la muito distante do ambiente.
— Não é ela. — A mulher resmunga.
— Eu sei.
— Pensei que tinha feito direito.
— Eu tentei. — A coisa inicialmente composta por sombras altera-se, formando uma figura masculina quase humana. A pele deste é clara, embora corada pelo sol. O cabelo é loiro como o da mulher. E os olhos são verdes tão profundos quanto a copa das árvores mais densas do jardim. O rosto é longo e anguloso, com lábios bem definidos. O nariz é reto e arrebitado. Olhos grandes e expressivos. A mulher tem o rosto arredondado com bochechas volumosas e bem posicionadas, olhos médios e amendoados, nariz largo e lábios muito delicados. Ambos são altos com corpos bem definidos. E olhando com mais atenção, Madalena impressiona-se com o quão bonita ela é. O pensamento a envergonha. Nesse ponto era bom estar presa dentro de si própria. Não era necessário se preocupar tanto. Naquele mundo pessoal o pecado não existia. E Madalena foi feliz, feliz de verdade, pela primeira vez. — Pensei que seguraria por algum tempo.
— Voltou muito rápido.
— Penso diferente. — A voz dele é suave e o tom constante. — Esse corpo suporta duas almas. E tem suportado por muito tempo. É impressionante.
Madalena toca o próprio peito por mero instinto.
— Duas almas?
A mulher inclina a cabeça.
— Como pode ser tão estranho? — A mulher aproxima-se, agarrando o queixo de Madalena. — Digo, o corpo é o mesmo. E é tão óbvio que são almas diferentes. Nem mesmo o olhar… — A voz dela ganha um tom de curiosidade e admiração. — Nem a voz é a mesma. Como isso é possível?
— Eris, — O homem esfrega o rosto. Eris. Madalena franze o cenho. — Não é a minha prioridade nesse momento.
— É claro que não. — Eris responde suave e falsa. — Mas quer ouvir uma coisa, papai? É cansativo. Apesar de todos esses anos… — Ela ri, de repente. — Não são anos. São séculos. São eras. E nada nunca muda para você.
Madalena tosse porque é sufocada pela presença do homem. E encolhe-se ao sentir-se pequena e insignificante demais, embora ele nada faça além de tocá-la de uma forma muito mais gentil e breve que Eris.
— Eu atravessei os mesmos séculos, caso não se lembre.
Os olhos verdes escurecem levemente. E Madalena não o escuta nos ouvidos, mas dentro da cabeça. “Por que está acordada tão cedo?”. É muito fácil deixar-se guiar pela presença morna e refrescante que invade o cômodo.
— O mesmo tempo que passou para você. — Eris prossegue. — Às vezes penso que a sua memória não é tão acurada quanto se gaba. Ou talvez não seja a memória. Talvez seja simplesmente o interesse. E você é tão bom, tão bom, em demonstrar o seu desinteresse por mim. Ou por todos nós. O seu desprendimento, papai! — Ela aumenta o tom da voz. — É tão complacente. Tão doce. E você quase se esquiva.
A energia muda sutilmente. A proximidade do homem torna-se desconfortável como quando era menina e corria pelo campo com as saias levantadas. As arestas da grama raspando contra a pele e incomodando, irritando e coçando até que se torne insuportável. Madalena, porém, é incapaz de desviar os olhos dele.
“Ainda é muito cedo. Ainda há tempo para descansar”, ele afirma com sutileza, a envolvendo na ideia. “E o seu descanso será repleto de bons sonhos. Sonhos de uma vida distante. Da vida que você deseja”.
Madalena vê a sala da choupana. Os móveis estão na mesma posição que se lembra. E são poucos e bruscos. A lareira está apagada porque a noite é morna. A panela está tampada, e o cheiro do guisado preenche o minúsculo cômodo. Madalena respira fundo e a nota no fundo da choupana. Ela cantarola baixo, e não tem a cabeça coberta como costuma fazer desde que o fogo queimou metade do seu corpo. Ela está em casa. E está segura e quieta.
“É aqui que você tem descansado?”, ele pergunta. Madalena percebe que o seu corpo físico está dentro da choupana, acompanhada pelo homem. “Por quanto tempo?”
Madalena balança os ombros.
“Não sei”.
Ele toca o seu ombro.
“Tente se lembrar. Assim eu posso te ajudar a voltar”.
Madalena olha ao redor buscando mais detalhes daquele ambiente. Sylvia mantém-se distraída e não a percebe. Mas Sylvia sempre a notou.
“Ela não me vê. Por que ela não me vê?”
— Às vezes eu a entendo. — Eris interrompe. — Como não se envenenar com tamanho desprezo? Olha pra nós como se fôssemos insignificantes! Como se a nossa companhia não fosse o bastante para entretê-lo.
“Porque não está aqui. Ainda não.”
“Eu… Eu posso voltar?”
Madalena assiste Sylvia atravessar a choupana e servir-se com o guisado. Desfeita do capuz, a pele queimada brilha à luz das velas, demonstrando a perda da mão esquerda.
“Ela fez isso”, Madalena reclama, de repente. “Nora é tão…” Ela suspira alto, e o ambiente muda. Não está mais na choupana pequena e tosca no meio de um vilarejo ao norte. Está na floresta densa e abafada. “Por um tempo, eu a entendi”, Madalena ri, “Não, eu não a entendi. Eu nem mesmo a conheci. Ela era só… Uma vez.” Madalena ergue um dedo para o homem. “Eu a vi uma vez enquanto viva. Não foi cruel como Ginevra prometeu que seria. Era… distante. E eu era insignificante. E isso foi tudo que eu tive dela. E depois, por anos, anos, eu fui perseguida pelo fantasma de uma pessoa que eu nem mesmo conheci. Na visão dele, do meu marido, que deveria ser o meu marido, essa mulher era insubstituível. Dante concordou. E eu acreditei. E isso… Ela se arrastou atrás de mim por anos, me assombrando”. Madalena para de falar, de repente. O homem, porém, a olha com atenção e até curiosidade. “Eu fiz o que pude. Pelas crianças. Eu…”
— E ela era… — Eris suspira alto, e Madalena quase retorna ao covil de Nora. — Era uma camponesa qualquer. — Eris ri. — Era uma…
“Continue, por favor”. A criatura pede de uma forma tão doce e cordial que a emociona.
“Eu lamentei a morte prematura dessa mulher porque os filhos ficaram aqui. Inconsoláveis. Depois, tudo isso que eu não entendo aconteceu”. Madalena olha para a choupana do lado de fora. “E eu conheci outra versão da Nora. Por outro olhar. E eu a detestei. Eu a detesto. É insuportável saber que ela está aqui, dentro de mim, em algum lugar. Mal posso respirar”. Madalena sente os pulmões queimarem. “Mas em algum momento…” As frases são desconexas, de repente. “Toda a dor. Todo o desespero. Era insuportável. Senti-la era insuportável”, Madalena treme. “Selena. Selena. Selena. Era tudo que havia. O tempo todo. E eu…”.
— Era uma mulher qualquer. — Eris enfatiza. — Em uma vida comum. Insignificante. — A risada de Eris transforma novamente o ambiente ao redor de Madalena. Eles não estão mais próximos à choupana que Sylvia vive após o incêndio. Estão, ainda, em uma floresta. O ar, porém, é ocre. E tudo é mais antigo. Há uma construção muito diferente do que Madalena conhece. Velha, pobre e frágil. — O homem era detestável, assim como todos são. Mas era tudo tão… comum.
Eles se aproximam da casa feita de juncos, argila e tijolos de barro. As janelas não possuem vidro e são decoradas com tecidos pesados, que estão entreabertos porque a noite está especialmente quente.
— Não era apenas comum. Eu diria que era… — Eris procura a melhor palavra. E o ser parece sofrer quando ouve. — Insignificante. Era isso, papai. Era insignificante. E olha onde estamos…
A suave brisa se transforma muito rápido. E o vento forte, que antecede severas tempestades, balança os tecidos das janelas. Balança tão forte que Madalena consegue ver o interior da casa por poucos segundos. O movimento na janela chama a atenção de uma mulher, que aproxima-se e analisa o céu noturno. Ela diz algo em uma língua incompreensível. Madalena nota que não há nuvens no céu. A ventania não se desfaz, porém.
“Continue”, ele exige.
“O quê?”
A mulher permanece na janela, mas não os nota. Madalena entende que são memórias.
“Por que acordou?”
“Eu…”
— Olha a desgraça que nos sobreveio. Estamos feridos, desfeitos e seremos esquecidos em breve. E tudo isso por capricho. Tudo isso por um capricho seu, Revna.
— Capricho. — Revna debocha. De repente, eles retornam ao cômodo dentro do palácio. Madalena erra os passos e precisa se sentar. A figura do homem se afasta e parece menos convincente. — Capricho. — Ele repete e algumas sombras escapam do corpo físico. — E quem você é para me falar de capricho, Eris? Atravessou séculos brincando com seres ainda mais insignificantes. E para quê? E por quê?
— Eu não estava brincando com eles.
Revna gargalha e soa como árvores na floresta se debatendo durante a forte ventania.
— E o que fazia, então? Exigindo tanto de seres tão insignificantes? — Revna aproxima-se da mulher. — Exigindo as primazias de tudo que existia. Para quê?! Veja, minha querida filha, — ele agarra o rosto dela sem cuidado. — não há em mim intenção de julgar as suas preferências. Entendo a glória de tudo isso. O vinho. A carne. O ouro. As jóias. — A mulher tenta se afastar. Aos poucos as figuras humanas se desfazem. — Mas você poderia conseguir sozinha. Não, — A voz dele se transforma. — nunca foi sobre deter as belezas da terra. Era algo mais pervertido, algo mais prepotente. Você queria dominá-los. Todos os povos que aceitou. Você almejava ser celebrada. Temida. E adorada.
— E eu não deveria ser?! Olhe para mim, papai! Olhe para o que fez! A fome, a doença e o tempo nunca serão grandes contra mim. Eu atravessei séculos. Gerações. Eras inteiras. — Revna solta Eris. — Não há grande segredo para mim no mundo, nem nenhuma história que eu não conheça. O que os homens hoje descobrem para mim é certo desde o dia que nasci. Minha força não se esgota tão fácil, e o meu poder assombrou coisas pervertidas que se arrastam nessa Terra. Então, papai, por que eu não deveria ser adorada?!
— Por essa raça insignificante?! — Revna esbraveja. — Por esses seres que padecem muito antes de viverem? Eles são incapazes de conhecerem a si mesmos porque logo estão mortos, seja por fome, praga ou guerra! São incapazes de reconhecerem uns aos outros. São cruéis, desprezíveis e infelizes quase que o tempo todo. Por que esses seres tão insignificantes, assim como você os descreve, são, para você, importantes?! Por que lhe é interessante a adoração deles? — Madalena se encolhe conforme a forma sombria cresce no cômodo. — É apenas um capricho, Eris. Tão insignificante quanto os caprichos da sua mãe. Não pense que devo algo a você. Não pense, muito menos, que porque a sua mãe e os seus irmãos te desprezam que eu devo lhe dar alguma coisa. Você existe, assim como todo o resto, porque foi um capricho meu. Tudo o que você conhece, tudo o que você se gaba de ter, é um capricho meu. É assim porque me agradou que fosse! Então, ajoelhe-se. — A figura de Eris diminui, voltando à forma humana. — Ajoelhe-se! — Eris recua, tremendo. — Porque se você é a deusa deles, eu sou o seu deus.
— Papai, eu…
— Nunca mais. — Revna define. — Se o meu capricho pouco te entretém, sinta-se, por favor, livre para partir. Do contrário, não quero ouvir os seus resmungos inadequados.
Eris recua, se encolhe e desfaz-se aos poucos. Madalena a acha muito parecida com uma criança quando repreendida pelo pai. Ela, por sua vez, sente algo ainda pior.
— Selena está morta. — Madalena sussurra antes que Revna a questione novamente. — E Nora sabe disso agora. — Ela leva a mão ao peito, massageando o local. — Lucien contou para Nora. Penso… — Madalena abraça o próprio corpo. — Ela não suportou a revelação. Desfez-se. Aqui. — Ela toca o peito. — A sinto encolhida aqui.
— E você sabia.
Não é uma pergunta. Sem coragem de encará-los, Madalena confessa:
— Há meses.
— E o pai?
Madalena nega.
— Eu não… Adrian não sabe.
Revna suspira alto. Eris se senta, afundando o rosto na mão.
— Nora não vai… — Eris se interrompe. — É a segunda vez.
Revna anda pelo cômodo.
— Onde?
Madalena desvia os olhos.
— Não tenho certeza. Provavelmente… — Madalena pensa. — Há uma igreja próxima à propriedade da minha família. É uma terra consagrada. Acredito que tenha sido enterrada lá.
Eris aproxima-se, cercando Revna.
— Nora não pode voltar. — Eris exige, esquecendo-se da recente tensão. — Não quando Selena está morta. — Revna esfrega o rosto e apoia-se na mesa. — Ela não suportou antes. Lembre-se do que aconteceu! E o que acontecerá agora? São trezentos anos de magia ancestral acumulados. — Eris sorri desconfortável. — Trezentos anos caso a alma dela realmente tenha adormecido enquanto morta. Nós não sabemos o que ela acessou do outro lado. Além de todas as encarnações! São séculos de reencarnações! Mesmo que ela ainda não se lembre, a alma está marcada e atravessada por todas essas experiências.
Revna ri. Eris arregala os olhos.
— A sua preocupação me impressiona. Há pouco se gabou sobre o conhecimento que detém.
— É diferente.
— É uma alma insignificante, Eris. Você definiu assim. Por que está tão preocupada?
— É diferente, pai.
— Não entendo.
Eris quase rosna.
— Circe sozinha não me perturba. Ainda seria necessário muitas eras de existência. — Eris pausa. — Mas aqui está você. Disposto, novamente, a facilitar tudo.
— É o meu capricho.
— Pode ser o nosso fim.
— Talvez seja a hora, Eris. — Ela recua, incrédula. — Estou cansado de todos vocês. Talvez tenha sido um erro. Vocês.
Eris ri e nega.
— Você não seria capaz. Somos os seus iguais! — Revna não a responde. Eris percebe: — Madora tinha razão. Minha mãe tinha razão. Somos… — Eris perde as palavras. — Para você somos caprichos. Nos fez por mero capricho! E agora está entediado!
— Eu gostaria que fosse tédio, Eris. Porque se fosse tédio, eu poderia apenas parar de prestar atenção. É algo pior, veja bem. Vocês são o meu incômodo. Vocês são o meu arrependimento. Vocês são uma ferida que nunca se torna cicatriz. Eu fiz vocês e vocês me traíram! Vocês se ergueram contra mim! Todos vocês. — Revna ergue-se novamente, engrossando a voz. — Até mesmo você! A quem ensinei tudo! A quem ninei nos meus braços! Nesses braços! — Revna demonstra. — Você era a minha favorita. Feita da mesma coisa que eu! Éramos iguais! E mesmo assim… Tão carente e arrogante. Incapaz de ver beleza no que eu criei! — Ele berra. — Eu fiz tudo o que eu fiz porque era bom. E era belo! E o que você fez, junto com os seus irmãos? — Revna debocha. — Subjugou todos! Tudo! O tempo todo! Apertou essas criaturas insignificantes até que fosse insuportável sobreviver! Até que o reino da morte fosse mais agradável que a existência com os deuses! — A criatura faz uma breve pausa, se recompondo. — Então, antes fosse apenas tédio. É algo pior, que me atravessa durante as eras. Que não consigo fugir porque está em todos os lugares. Eu não encontro refúgio, não encontro paz, na minha própria criação! Por causa de vocês. Então, se essa bruxa insignificante e jovem for o fim de vocês, que seja. Erga-se com os seus e venham até mim. Mas, desta vez, não estarei desatento. — Eris parte antes que a ameaça se conclua. Madalena, para a própria infelicidade, torna-se alvo do terrível ser. — Se arraste de volta para o buraco que estava e fique quieta. Do contrário eu arrancarei a sua alma desse corpo e você vagará pelo mundo até o final dos dias.
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