Tempo da Bruxa
33 Duas covas
Embora as velas estejam acumuladas nos cantos do cômodo, Nora tem dificuldade para enxergar. O ar é rançoso; uma mistura da umidade que advém da floresta e o forte cheiro metálico. O vento forte bate as janelas, balança as cortinas e luta contra as velas. Conforme movimenta-se, o chão de madeira range. E Nora lembra-se que deve chamar o carpinteiro o quanto antes. Ela esfrega as mãos no vestido e sente a protuberância no abdômen. Sorri e acaricia a barriga. Poucas semanas a separam do bebê que gera com tanto cuidado e carinho.
As janelas são fechadas, e as chamas das velas aumentam. Nora visualiza o quarto que montou nos últimos meses. Os móveis foram feitos sob medida, assim como o extenso tapete de lã que atravessou o mar mediterrâneo para completar a decoração. Ela aproxima-se da cômoda que guarda as primeiras roupinhas que o bebê usará e toca os cavalos que fez com couro, tecido e palha para enchimento. O simples brinquedo a atravessa, a lembrando da própria infância, das brigas tolas com Nikita pelos cavalos coloridos que a mãe tecia com tanto talento e cuidado e das infinitas repreensões de Bryda sobre o temperamento familiar da filha.
A dedicação de Kalina aos filhos sempre foi exagerada para Bryda, embora a matriarca aceitasse que Eleonora fosse tão bem quista. Nikita nunca teve o mesmo carinho da antecessora. Para Bryda o nascimento de um bebê menino era uma ofensa, um desperdício de recursos e tempo. Incapazes de herdar a magia da família, muitos bebês meninos foram sacrificados para fortalecer a linhagem mágica. Bryda nunca questionou a tradição, desfazendo-se de muitos filhos.
Nora nunca a entendeu. Não haveria mundo sem Nikita. E não há mundo sem Dante. Nenhuma magia, nenhuma ascendência, potencial ou possibilidade a faria sacrificar o próprio filho, ainda que significasse o seu fim. Não é tão diferente da mãe. E para poupá-la, aceitou cumprir os desejos de Bryda com tanto vigor.
Contudo, aos trezentos anos, está pronta para desfazer-se de tudo para manter os filhos.
De tudo.
Nora deixa o cavalo e aproxima-se do berço. Os dedos circulam a cabeceira esculpida. Depois, toca o guardião dos sonhos que construiu com gravetos encantados por fadas, turmalina negra e penas de corvos. Os corvos são mal vistos para a maioria das pessoas, sempre associados à maldição, carniça e azar. Nora os conhece por outro ângulo. Portadores da sabedoria, cura e capaz de atravessar o fino véu que separa o mundo natural do sobrenatural. Além disso, pareceu certo tê-lo nos detalhes, como uma prece por seus cuidados.
O cheiro metálico preenche o quarto novamente. Nora recua um passo e percebe que está descalça. Outro passo e o pé esbarra em um líquido denso e quente. Primeiro, ela toca a barriga, temendo que a bolsa tenha se rompido cedo demais. Porém a barriga não existe mais. E o líquido quente em seus pés é sangue.
Ela tropeça e cai. O tapete também está sujo de sangue. É uma grande quantidade, muito maior do que qualquer ser vivo pode portar. As batidas cardíacas ecoam em seus ouvidos, as mãos suam e a respiração é pesada e insuficiente. Nora se arrasta até sair da poça de sangue. Apoiando-se nas paredes, se levanta. Agora as chamas das velas estão tão altas como costumam ser em um ritual. Não há nenhum canto do quarto escuro. E com mais clareza do que suporta, Nora vê a roupa de cama do berço pingar o sangue.
As lágrimas a entorpecem. Sem capacidade de resistir, os pés a levam para próximo do berço. Nenhum bebê o ocupa. Porém, o sangue é vivo, fresco e quente. Nora cerra os olhos, range os dentes e nega.
Isso não é verdade. É um sonho. É apenas um sonho ruim. A repetição torna-se uma reza e não muda a realidade. O sangue ainda é palpável.
— Mamãe…
Nora salta e procura a voz suave e infantil que a requisita. A imagem forma-se no centro do espelho redondo que decora a parede, e Nora se recusa a se aproximar porque a garotinha está consumida pelos vermes que se alimentam da tragédia.
— Olhe pra mim, mamãe.
Nora fecha os olhos e vira o rosto. É arrastada por uma força inexplicável até o espelho, e o rosto é virado contra a vontade. Encará-la é inevitável. A pele antes marrom, como a de Adrian, está azulada. Apenas um dos olhos castanhos restou; o outro foi consumido pelos vermes, tendo apenas a cavidade no crânio. O cabelo escuro, que tornou-se ondulado durante o desenvolvimento, agora é apenas tufos pendentes na cabeça. Parte da pele da cabeça foi consumida, expondo o crânio infantil trincado.
Selena toca o espelho, e a mãozinha infantil está carcomida. Nora chora, berra e implora.
— Aqui é tão frio. — Selena choraminga, e a sua voz é suave como Nora sempre imaginou. — Tão frio, mamãe. — A voz torna-se embargada. — Quanto tempo eu tenho que ficar aqui? Eu quero ir pra casa. Por favor, por favor, por favor. — Selena esfrega o olho. — Eu prometo que vou ser uma boa menina. Eu prometo, por favor. Vou ser boazinha como a tia Ginevra quer. Vou ser como minhas primas, eu prometo. — O choro aumenta. — Por favor, me deixe ir pra casa!
O som da lenha queimando é a primeira coisa que percebe. Os olhos lutam contra a claridade e o despertar. O choro baixinho e doloroso está à esquerda de sua cabeça. Os dedos das mãos se movimentam, destacando a retomada da consciência. A primeira respiração queima o peito, e Nora encara o teto da sala adornado com belas pinturas. As mãos trêmulas apertam a cabeça, tentando cessar a dor. Com dificuldade, Nora senta-se no sofá e olha ao redor.
Revna está parado próximo das janelas enquanto Dante está sentado à lareira, do lado de Eleonora. Ela imediatamente nota o rosto inchado, as lágrimas e os olhos vermelhos. Dante tenta disfarçar, esfregando os olhos como Selena fez há pouco. E por um minuto completo, Nora não respira.
O corpo de Madalena é tensionado para frente, apertando o peito contra os joelhos, e Nora puxa o cabelo dourado conforme a percepção a atravessa. O choro que se inicia nunca será o suficiente, e Nora nunca deixará de derramá-lo. A dor que aparece no peito esquerdo se espalha muito rápido por todo o corpo. Por um tempo inenarrável, Nora desfaz-se.
— Eleonora… — Revna chama, tocando o ombro. Ela não se move. — Está me ouvindo?
Nora luta para olhá-lo. Os olhos dele estão apertados e tingidos de verde escuro. As sobrancelhas estão caídas e os lábios repuxados. O choro alto retorna quando a confirmação acontece sem palavras. Nora se encurva e chora tanto que vomita. Revna esfrega as costas, na tola tentativa de confortá-lá. Todo o corpo treme, e Nora engasga com a saliva.
— Eu sinto muito. — Revna repete incontáveis vezes. — Eu sinto tanto, meu amor. Eu sinto muito.
Nora puxa o cabelo até arrancar algumas mechas. A cabeça é escondida entre os joelhos, e ela deseja tão forte voltar à terra.
— A minha menina… — Nora chora. — A minha menininha…
Dante afasta-se, choroso. E Revna senta-se ao lado dela, a envolvendo em um abraço gentil. Nora afunda o rosto no peito da entidade como se a escuridão dele pudesse desfazê-la da vida.
— A vida toda… — Nora se esforça para dizer. — Eu perdi tudo. — Ela agarra a camisa dele. — Tudo. Eu perdi tudo. — Nora engasga. — Eu perdi a minha vida. Tudo, tudo, tudo.
— Eu sinto muito.
Nora tenta enxergá-lo através das lágrimas e nega com a cabeça copiosamente.
— Por quê? — Revna se encolhe. — Por que eu? Por que a minha vida foi amaldiçoada desta forma? — Nora bate no próprio peito. — Arrancaram tudo de mim. Tudo o que eu amei. Tudo o que eu tinha. E por quê? — Ela sussurra. — O que eu fiz de errado? Qual foi o meu grande pecado? — Ela fecha o punho e bate contra o corpo. — E por que eu não sou castigada por isso? — Nora bate mais forte, e Revna segura o punho dela. — Por que eu não sofro a punição no meu corpo?! Por que eu preciso ver todos os que amo morrer?!
Em um rompante, Nora escapa do abrigo de Revna. A espaçosa sala torna-se pequena para as movimentações confusas e sem propósito. Dante está próximo da porta e incapaz de se mover. Às vezes ela abraça o próprio corpo enquanto atravessa a sala sem rumo. E às vezes ela se bate com fúria na tentativa de remover a dor.
— Eleonora, — Revna aproxima-se, segurando-a pelos ombros. A voz é suave e séria: — eu sinto muito.
Nora o olha em busca de uma resolução para o sofrimento.
— Não, — Ela tenta se afastar. — não. — O riso escapa, mordaz. — Como você pode sentir muito?! — A raiva queima o peito. — Como? — Nora agarra os ombros dele com dificuldade devido a diferença de altura. — Como você sente muito? Você é uma coisa que atravessa os séculos! É uma existência sem propósito! É uma maldição! — Nora resmunga. — É uma maldição. — Ela se debate para escapar dele, mas Revna é firme. — Isso é a sua culpa! — Nora grita. — É a sua culpa! Sua culpa! — Ela desfere murros no peito da entidade como se pudesse, de fato, machucá-lo. Quando não funciona, o choro volta e as pernas falham. Revna a segura. — Isso tudo é a minha culpa. Tudo, tudo, tudo. Eu não devia…
— Nada disso é a sua culpa.
— É sim! — Nora se afasta para olhá-lo. — Eu não devia ter me ausentado. Eu não devia ter os deixado! Eu não… — Ela agarra o rosto. — Por quê? Por que eu…
— Você não sabia. — Revna interrompe. — Não tinha como saber.
As lágrimas escorrem em silêncio. Revna continua a mantendo em pé, acariciando as costas. Nora, às vezes, tenta fugir e desiste quando percebe que não há nenhum lugar no mundo que possa escondê-la.
— Revna, — Nora chora. — você pode fazer isso. Então, faça. — Revna franze o cenho. Nora nega com a cabeça. — Me deixe ir. Acabe com isso, por favor. Acabe comigo. Me deixe morrer. Por favor, — Nora o agarra pela camisa. — Acabe com isso! — Ela o sacode. — Faça isso por mim. — Nora agarra o rosto dele, apertando com força. — Me deixe descansar!
Revna a segura pelos pulsos.
— Nunca.
Nora se solta, perturbada.
— De todos, você é o meu maior algoz. — Ele nega. — É o meu maior algoz! — Nora grita. — Tem me assistido sofrer por todo esse tempo e diverte-se com isso.
— Não me divirto.
— Você se diverte. — Nora esbraveja. — Do contrário, me pouparia de tanta angústia! Do contrário, me permitiria descansar, enfim. — Ela o agarra novamente. — Se há em você, Revna, algum pequeno e insignificante apreço por mim, uma migalha de afeto ou consideração, faça isso! — Nora o solta e se ajoelha diante da entidade. — Por favor. — Ela agarra as pernas dele. — Me deixe ir, por favor. — Nora afunda o rosto na coxa dele. — Me tire dessa miséria.
Revna se desfaz em sombras, e Nora cai de quatro no chão. Ele retorna do outro lado do cômodo, próximo de Dante.
— Covarde! — Nora grita. — Você me arrasta nessa existência insignificante porque não a suporta sozinho!
— Sou incapaz de mensurar a dor e o sofrimento que te aflige nesse momento, Eleonora. Assim como sou incapaz de entender tudo o que perdeu em todos esses anos. — Revna soa etéreo. — Se para você é compaixão matá-la, entenda-me bem, nunca sentirei compaixão por você. Por minhas mãos não morrerá. — Nora se encolhe até encostar a testa no chão e chora. — Levante-se agora. — Ela finge não ouvir. Revna aproxima-se e a levanta do chão. — Você não é a única a sofrer. Não há comparação com a sua tristeza porque perdeu uma filha. Mas você ainda é mãe. Como cogita abandoná-lo novamente?
Revna a leva para o sofá, e Nora observa Dante encolhido próximo a porta.
— Meu filho, eu não… — As palavras se perdem. — Me perdoe. — Nora chora. — Meu garotinho, venha cá. — Dante reluta, mas senta-se ao lado dela. Nora o acolhe ao mesmo tempo que torce para que Dante suporte a sua dor porque é incapaz de ajudá-lo. — me perdoe.
— Me desculpa, mamãe. — Dante implora entre lágrimas. O choro dele é tão intenso que mistura-se a soluços fortes. — É a minha culpa. É minha culpa. Isso tudo…
Nora o acolhe no peito, o embalando como fazia quando era apenas uma criança. Dante não resiste. As lágrimas atravessam o tecido do vestido e umedece a pele que Nora habita. Do outro lado da sala, Revna os assiste. Nora apoia o queixo em cima da cabeça do Dante e repete várias vezes, enquanto chora, que nada disso é culpa dele. Minutos depois, Nora forma a pergunta:
— Você sabia?
E Revna é honesto como uma criança:
— Não.
— E Adrian? — Revna nega novamente. Nora desvia os olhos. Dante sai do abraço e seca as lágrimas, embora ainda lute para não chorar mais. — Eu a vi. — Revna aproxima-se, e Nora chora de novo. — Eu a vi, Revna. Minha garotinha… — Dante segura a mão dela. Nora desvia o olhar, mordisca os nós dos dedos e testa as palavras várias vezes até conseguir formar a frase: — Não era um sonho. Eu a vi. Minha filha amada. Eu a desejei tanto, por tanto tempo. — Nora nega. — A alma dela não encontrou descanso. Está presa no corpo ainda. — Ela franze o cenho. — No corpo apodrecido. — Nora balança o próprio corpo numa tentativa de se acalmar. — Ela me pediu… — O choro a interrompe muitas vezes. — Ela disse… “Mamãe”, — Nora luta para controlar a respiração. — Ela me chamou de mamãe. Foi a primeira vez. — Revna aperta o ombro dela com cuidado. — Foi a primeira vez que ouvi a minha filha me chamar de mãe. — Nora seca as lágrimas. — Ela me pediu para vir pra casa.
Revna ajoelha-se diante Nora, alcançando as mãos dela com cuidado. Nora percebe o quanto está tremendo. Dante chora novamente.
— Se eu pudesse, te pouparia de toda dor. E se eu pudesse, sofreria por você. Mas sei que, ainda que fosse possível, você não me permitiria. — Nora chora e concorda. — Uma morte trágica é capaz de aprisionar uma alma jovem. É capaz de aprisionar até mesmo almas antigas.
— Eu preciso buscá-la. — Revna concorda. Nora esconde o rosto nas mãos. — Deuses, eu preciso buscá-la. — Dante se encolhe. — Eu mandei Adrian atrás dela. E ele não voltou. — Ela nega. — Eu tenho… Não posso perdê-lo também, Revna. Eu não posso!
— Eu sei.
Nora abraça Dante e suspira. Por muitos minutos, ela observa o fogo consumir a madeira lentamente. Revna permanece próximo e constrangido a prestar luto por uma criança que nunca conheceu, assim como Nora. O pensamento arranca mais lágrimas, e Revna lamenta como se lesse pensamentos.
— Precisa me levar até lá. — Revna pisca, confuso. — É uma viagem de dias à cavalo.
— O percurso é longo e inevitável agora.
— Eu não tenho tempo.
— Eleonora… — Revna balança a cabeça. — Alguns dias serão necessários…
— E ela já está morta mesmo… — Nora debocha. Revna se encolhe. — Eu sei. Faz sentido. Selena está morta. — Dante chora, e Nora precisa se acalmar para prosseguir: — Eu sei que ela pode esperar mais alguns dias, mas o Adrian não. Adrian não tem esse tempo. Olhe para o céu, Revna! — Nora exige. Revna afasta-se. Nora o persegue. — A lua está quase cheia.
— Ele vai voltar.
— Ele não voltou! — Nora esbraveja. — E eu não sei se ele consegue voltar sozinho. — A confissão a enfraquece. — Já faz muito tempo.
— Você fez isso. Eu avisei! — Revna rebate severo. — Transformá-lo fora da lunação foi uma decisão precipitada. Insensata até!
— E agora está feito.
— E agora está feito, sim.
— Deixá-lo atravessar a lunação transformado… É um risco ainda maior.
— Ele pode voltar.
— Você não sabe disso.
— Não, Eleonora. Eu não sei. — Revna a encara. — Eu nem mesmo sei se é possível trazê-lo de volta. — Nora recua. — Não sabemos se resta humanidade nele.
— Mas você pode encontrá-lo. — Revna não nega. — É possível que você até mesmo saiba onde ele está.
— Mesmo que eu saiba… E depois?
— Me leve até ele.
Revna se afasta e ri.
— Simples assim.
— Ainda que eu montasse em um cavalo agora… — Nora resmunga. — É impossível alcançá-lo antes da lua cheia. — Revna balança os ombros. — Mas você escorre entre as sombras… Me leve com você.
— Não.
— Revna, eu não…
— Não! — Revna ergue a voz e olha para Dante, negando. — Você nem mesmo entende o que me pede. Se fosse tão simples assim, se fosse tão viável, não acha que teria feito antes?!
— Você entende que se não me ajudar, talvez eu precise cavar dois buracos?
— Eu abro a cova dele. Mas não a sua.
— A cova dele será a minha.
Revna solta o ar pelo nariz.
— Não seja ridícula. Não é simples, Eleonora! Você está presa em um corpo mortal! Há duas almas dentro desse corpo lutando para dominá-lo. E uma dessas almas existe há trezentos anos. Você é capaz de mensurar a densidade disso?! O peso? É capaz de mensurar o quão difícil é atravessar a realidade? Desfazer a sua existência aqui e transmutá-la para outro lugar?!
— Você faz isso o tempo todo!
Revna ri.
— Não assim! — Ele puxa a pele dos próprios braços. — Não nesta forma. Eu não atravesso a realidade com um corpo físico.
Nora anda pelo cômodo enquanto mordisca os nós dos dedos. Dante a chama algumas vezes e não é respondido. Revna observa as horas no relógio, pensativo.
— Eu o transformei sem saber que não havia uma filha para buscar. — Nora retorna o argumento e a voz embarga. — Ele me implorou para não fazer. A vida toda… Esse foi o maior sofrimento dele, Revna. Forçado a ser desfeito de sua humanidade e transformado em um animal que é incapaz de controlar. Você entende o que eu fiz? Eu o aprisionei dentro de si mesmo. E ele não consegue voltar sozinho. Se fosse capaz, teria feito. A fera o dominou.
— Você sabia que era um risco.
Nora não nega.
— A lua cheia tem a magia necessária para transmutar vários seres. E deixá-lo atravessar a lua como lobo… Pode condená-lo. Será mais difícil intervir depois. Será impossível. Você sabe disso tanto quanto eu.
— O que me pede é impossível também.
— Como eu olharei para o meu filho sabendo que condenei o pai dele? — Revna dá de ombros. — E como eu viverei depois de enterrar a minha filha e perder o meu companheiro? — Nora é ignorada. Ela aproxima-se dele e o agarra pelas mãos. — Revna, se esse corpo físico é incapaz de atravessar a realidade, leve a minha alma. A minha alma suportará.
Revna ergue a sobrancelha.
— E o que a sua alma fará sem um corpo?
— Mais do que eu farei com um corpo preso aqui. — Revna nega. — Me coloque em outro corpo.
— Outro corpo não suporta a sua alma. Lembra-se do que fez para tornar esse corpo habitável?
— Um corpo humano não suporta.
Revna franze o cenho.
— Está sugerindo que a coloque em outro ser sobrenatural? — Nora balança os ombros. Revna ri, segura o espaço entre os olhos e nega. — Quem?!
— Qualquer ser! — Nora gesticula. — Eu só preciso que ele esteja próximo! — Revna massageia a testa. — Não me importo se será uma bruxa, feiticeira, demônio, vampiro ou lobisomem! Qualquer corpo que suporte essa alma por enquanto! Pode fazer isso por mim?
Revna nega com a cabeça, olha para Dante e pondera.
— Vai deixá-lo aqui?
Nora olha para o garoto e se arrepende.
— Mãe, — Dante aproxima-se antes que ela conclua o pensamento. — precisa fazer isso. — Nora ergue as sobrancelhas. — Ficar sozinho aqui é a última coisa que quero agora. — O garoto se abraça. — Mas o meu pai precisa voltar. Ele precisa voltar.
Nora assente, incapaz de questionar. Mais tarde perceberá que cometeu um erro. Naquele momento, Revna diz:
— Ainda não é a melhor ideia. — Revna lamenta. — Não depois de hoje. — Nora pensa em Selena e suspira. — Não quando você está assim. Como pode lidar com o Adrian?
Nora recua, senta-se e segura o rosto entre as mãos. A imagem de Selena desfeita e implorando para voltar para casa a assombra. E a assombrará pelo resto da existência.
— Eu não sei. — Nora é sincera. — Nem mesmo sei se suporto. Se eu pudesse, ainda hoje desceria à cova com a Selena. — Dante arregala os olhos. — Se eu pudesse romper a realidade, me impediria de ter saído de casa para atender Floare. Ou… — As lágrimas escorrem. — Por um breve momento, por um pequeno período, eu tive o que eu sempre desejei. Eu quis ser uma bruxa. — Se o sorriso de fato surge, é tão miserável quanto as lágrimas. — E eu também quis uma família. E eu…
Dante lamenta, e Revna toca o ombro dela.
— Você ainda tem uma família. — Nora seca as lágrimas. — E mesmo que agora seja o fim, não é para sempre. — Nora não acredita, mas Revna a impede de retrucar. — Se quer mesmo fazer isso, precisa ser agora. Falta pouco para o dia nascer.
Nora agarra Dante em um abraço apertado. Entre todas as promessas feitas, Nora garante que retornarão para casa. Dante chora, funga e a aperta. E promete que vai esperar. Outra vez, ela deveria ter desconfiado da facilidade com que o garoto aceitou a solidão indeterminada. Contudo, entre as lágrimas e o luto por Selena, Nora entrega a alma com grande facilidade a Revna.
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