Tempo da Bruxa
34 Clareira
A batida ritmada contra o vidro a desperta antes do sol nascer completamente. De olhos abertos, Nora é incapaz de organizar os pensamentos. As cortinas estão fechadas, e a escuridão a convida a adormecer novamente. As costas doem, e Nora tem muita dificuldade de virar o corpo para encontrar uma posição mais agradável. Quando finalmente faz, os membros mais pesados que o normal, estranha a posição e a silhueta dos móveis ao redor. Os olhos pesam, porém, e a consciência falha.
Acorde!
Acorde agora!
A voz ecoa na mente. Em rompante, Nora senta-se na cama, olhando ao redor. Nada é familiar. Para esvaziar-se do sono, ela esfrega o rosto e arregala os olhos ao perceber a barba densa. As mãos exploram com rapidez o rosto desconhecido. Cambaleante salta da cama e se arrasta com dificuldade até as cortinas, clareando o quarto completamente estranho.
Sem espelho próximo, Nora encara as mãos grossas, calejadas e com muito mais pelo do que mãos femininas. O corpo veste o traje adequado para dormir. Embora inadequado, Nora confere a genitália do corpo e se assombra com a conclusão muito mais do que deveria. Ela olha ao redor em busca de qualquer pista sobre o corpo que ocupa.
O quarto é espaçoso. As janelas são pequenas, mas muitas. A vista não lhe conta muito porque a neblina densa ainda ocupa o mundo. Porém, há uma árvore frondosa e extensa que os galhos batem na janela. O corvo cacareja, a apressando. Ela esfrega o peito masculino, muito diferente do que teve a vida toda, na tentativa de desfazer a tensão na região e dá os primeiros passos sem direção.
Coordenar o corpo é muito difícil. Além da genitália e ausência de seios, os membros são muito mais pesados e densos do que estava acostumada após meses no corpo de Madalena. O ângulo de visão também é diferente; Madalena tem pouca estatura, e Nora não se lembra mais de como via o mundo no corpo de 1,80m. Precisa, então, apoiar-se nos móveis até alcançar a escrivaninha.
Livros empilhados, cadernos e muitas cartas ocupam o móvel de madeira maciça. Todos os itens estão organizados por tamanho, e Nora impressiona-se com a organização do homem. As cartas são a primeira tentativa de ter mais informações, mas Nora percebe ser incapaz de lê-las porque as letras estão todas borradas e misturadas. Não encontra nenhuma lupa para auxiliar e desiste quando o corvo volta a bater no vidro.
As roupas usadas no dia anterior estão dobradas em cima do recamier ao lado do biombo. Nora veste o corpo rapidamente, acopla a espada ao cinto e procura por moedas nas gavetas da escrivaninha. Sem sucesso com o dinheiro, escapa do quarto com a maior delicadeza que consegue coordenar o corpo.
Neste momento, os corredores da casa já estão iluminados pelo sol. Tudo ainda é silencioso. Nora atravessa o corredor com cuidado, evitando esbarrar em qualquer móvel ou enfeite. Observando o tamanho da propriedade, os móveis e as obras de arte penduradas na parede, entende que o homem é nobre. Ao mesmo tempo, a madeira do chão range mais do que deveria e algumas paredes têm manchas de mofo, indicando infiltração severa, e rachaduras. O teto do corredor está quase todo descascado, e as escadas rangem quando ela desce. No canto dos degraus há uma areia granulada muito comum quando a madeira está infestada por cupim.
A lareira da sala está acesa. Sussurros ecoam, e Nora os segue com passos cuidadosos, apoiando-se nas paredes até aprender a equilibrar o corpo totalmente. Duas mulheres estão na cozinha, conversando baixinho. O fogão à lenha está aceso e as panelas de pedra fervem o alimento, soltando todo o vapor e empesteando o ambiente com o cheiro de leite fervido e mingau.
As mulheres desconhecidas estão de costa para a entrada. São de idades e estaturas diferentes. A primeira é jovem, franzida, alta e balança algo nos braços. A outra é mais velha, corpulenta e tem um coque alto cheio de cabelos brancos. As vestes são simples, surradas e com as barras sujas de barro, esterco e capim. Por dois minutos completos, Nora observa a dinâmica em silêncio.
— Santo Deus! — A senhora grita, levando a mão ao peito. — Está nos vigiando?!
Nora recua, e o corpo esbarra no banquinho. A mulher mais jovem se vira também, exibindo um bebê de poucos meses com bochechas rosadas e gordinhas, assim como as pernas. O sorriso é inevitável, e a mulher recua meio passo, desconfortável.
— Sr. Baccari, ele estava muito agitado hoje. — A jovem se justifica, mantendo os olhos baixos. — Por isso atendi primeiro, mas não demorarei para atender o jovem senhorzinho. — Nora franze o cenho. — Francesco teve outra noite difícil. Só dormiu uma hora antes de amanhecer.
Nora procura por qualquer superfície que reflita. A grande panela em cima da mesa, areada com devoção e muito brilhante, confirma a suspeita. Vincenzo está pior do que quando enterrou a irmã. O rosto está seco, com olhos fundos e olheiras escuras. A barba não é aparada há um tempo. O cabelo cacheado está preso e muito mal cuidado.
— Maldito Revna. — Nora pragueja mais alto do que pretendia, assustando as servas. Ela estranha a voz grossa que escapa da boca e pigarreia. — Digo…
— O senhor também não parece ter dormido bem. — A senhora comenta. — O senhor já decidiu o que fazer?
Nora olha as mãos calejadas de Vincenzo e suspira alto. A nobreza da família Baccari não aparenta ser mais do que o título.
— O que eu deveria fazer?
A jovem ama arqueia as sobrancelhas e desvia os olhos. Nora senta-se à mesa. O dia será longo, e o corpo deve ser alimentado para suportar as adversidades que encontrarão. Por isso, ela aceita o copo de leite fervido, o mingau e o pão duro e velho.
A ideia de ocupar mais um corpo não soou bem para ninguém. Mais uma vez, Nora foi impedida de escolher. A vida tem sido um amontoado de decisões que precisavam ser feitas. Decisões, obrigações. Poucas vezes ela cumpriu o desejo. Alguém, na verdade, teve a sorte de cumprir apenas o desejo? Quando foi condenada por Eris e precisava encontrar algum consolo, Nora acreditava, após a breve convivência com o nosferatu, que a vida se desenharia conforme os seus sonhos. A eternidade serviria para isso.
Não deve ser injusta. Não deve olhar para trás dessa forma. Às vezes viveu o que desejava e como desejava. Atravessou todo o continente europeu; conheceu todo o tipo de pessoa, diferentes costumes, teceu observações de vida que nunca seriam possíveis se fosse apenas uma bruxa. A imortalidade lhe tirou o medo que aterroriza os seres humanos e principalmente as mulheres. Estava desprendida de todas as obrigações que o sexo lhe determinou, estava livre do medo e do domínio.
A família que construiu ao lado de Adrian talvez tenha sido o seu maior desejo. Apesar do conhecimento, da cultura, da arte, do ouro e das belezas das paixões. Tudo isso desejou e conquistou. Mas não há nada como pertencer. Após tantos anos, o significado se desprende. E é necessário um porto à vista. E para além do pertencimento, Adrian lhe deu algo inimaginável.
Filhos.
Nora nunca pensou que seria capaz de gerar após a maldição de Eris. E Dante chegou de forma curiosa, medrosa e completa. Nele Nora encontrou o filho amado, desejado e esperado. E quando soube de Selena… Até então algo impossível. Impossível talvez não seja o adjetivo correto; não quando Nora nunca tentou de verdade. Embora tenha se envolvido com outros homens, foram breves e insignificantes encontros. E nenhum ser-humano teria a semente tão forte. E mesmo se tivesse, como Nora o convenceria da eternidade que carrega? Dos seres sobrenaturais; vampiros e demônios são incapazes e nunca seriam considerados. A relação dela com os licantropos era hostil demais para se considerar, principalmente quando eles prezam tanto pela pureza da linhagem. E os feiticeiros, por fim, são cada vez mais raros.
Adrian foi uma exceção e um presente. Uma ironia e também uma diversão. Embora licantropo, Nora sabia que o relacionamento deles seria breve e incerto porque enquanto homem Adrian era nobre demais para ser acompanhado por uma bruxa centenária. E o tempo era um inimigo óbvio. Todavia, os encontros breves se transformaram em companhias e conversas mais longas, em discussões filosóficas e artísticas; se transformou em jantares, em idas à ópera.
Nora sabia que devia partir. E ela tentou diversas vezes, mas era difícil se despedir de Dante e enfrentar incontáveis anos de solidão e breves encontros. Então, em menos de dois anos, descobriu que estava gerando um bebê. E Adrian foi tão rápido em se aproveitar dessa grávidez para convencê-la a assumir uma identidade humana e casar-se.
Casar-se.
Nora passou os meses seguintes argumentando que Adrian aproveitou-se de sua fragilidade. Mas, deuses, ela ficou tão feliz quando ele a escolheu. Tão feliz, tão feliz! E quando a Selena nasceu… Nora esqueceu-se de tudo. Ela esqueceu que havia nascido em 1168. Esqueceu da dureza com que Bryda a tratava e da indiferença que Nikita recebia. Esqueceu do difícil desenvolvimento enquanto bruxa, dos conflitos familiares, da incerteza do futuro do seu povo diante da inquisição. Até mesmo perdoou Eris por tê-la transformado em um ser imortal porque esqueceu-se que foi obrigada a enterrar toda a família. Perdoou Sylvia por tê-la deixado e destruído tudo o que conquistou durante as eras.
E Nora se esqueceu de quem era. E o que devia. Ela acreditou na mentira que construíram juntos; acreditou que era uma mulher, um ser-humano, comum; uma lady desconhecida que conquistou a afeição do duque e mudou de vida. Pensou que a única preocupação seria cuidar dos filhos e, com sorte e benção dos deuses, gerar incontáveis herdeiros.
Nora ri e chora ao mesmo tempo. Quão tola foi.
— Meu senhor… — A serva murmura. Nora nota as lágrimas e seca rapidamente. — Há algo que possamos fazer para diminuir a sua angústia?
Caso o corpo do Vincenzo seja severamente atingido, será a alma da Nora a partir? Revna é capaz de curar o corpo e devolver a Vincenzo? Ao Vincenzo destinaria uma boa quantia, para tirá-lo da miséria que herdou do pai viciado, por ter emprestado o corpo, ainda que sem permissão. Pediria, é claro, que visitasse Adrian e Dante eventualmente. As lágrimas solitárias formam um choro intenso, cheio de soluços. Nora esconde o rosto do homem como se pudesse poupá-lo. A serva mais velha, contudo, o acolhe com verdadeiro cuidado, acariciando as costas e o cabelo dele como uma mãe. Talvez ela seja mais mãe que Abigail. Nora não resiste.
Quando o choro diminui, a decisão é tomada. Não há mais nada para ela naquela vida. A sua existência apenas atraí sofrimento e desgraça para todos. Não devia ter retornado dos mortos; não para desenterrar a filha e preparar o corpo para libertar a alma da pequena. Não é justo, não é certo e muito menos natural. A sua vida é uma maldição que se arrasta entre os séculos com breves momentos de beleza.
— Eu devo… — A voz de Vincenzo trêmula. Morrer, Nora completa. — Irei ao centro.
A ama de leite concorda e sai da cozinha, provavelmente para verificar Francesco. Se Nora se sentisse menos miserável, iria ver o bebê e Valentina antes de colocar o corpo de Vincenzo na pior experiência. Porém, só é capaz de arrastar o corpo pesado para fora da casa e preparar o cavalo mais saudável. Na porta do celeiro, o corvo a espera. Ele cacareja, e Nora o segue para encontrar Adrian antes que a lua cheia surja no céu.
(...)
O sol está no quadrante oeste e descendo ao horizonte quando Nora salta do cavalo exausto. Ela deixou a propriedade Baccari, que está situada na região de Módena, antes das sete da manhã. Escolheu o cavalo mais saudável e manteve a marcha lenta ciente que a montaria não aguentaria o trote ou corrida por períodos tão longos. A pausa foi feita por volta das onze da manhã, na estalagem da estrada principal. Por um breve momento, agradeceu o Revna por ter escolhido um corpo masculino, embora ainda não entenda como ou porquê seja o Vincenzo. Uma mulher nunca atravessaria um percurso tão longo sem ser interrompida, questionada e até mesmo estuprada.
Na taberna comeu usando as moedas de prata que achou na bolsa presa à sela — provavelmente Vincenzo esqueceu de retirar no dia anterior — e permitiu ao cavalo uma hora de descanso, água e comida. Além da bolsa com poucas moedas de prata, Nora encontrou um cantil e o encheu de água antes de retornar ao percurso. A espada de Vincenzo foi acoplada ao cinto assim que se vestiu de manhã. Porém, Nora não tem muita destreza com a arma. Sempre preferiu adagas com lâmina média e o fio bem feito. Ou arcos. Mas não encontraria um arco nas coisas do homem.
O cavalo reclama, cansado. E Nora o prende no único tronco disponível. O corvo permanece no galho da próxima árvore, cacarejando e indicando a floresta. Eles estão próximos de Parma, em uma região chamada Fogliano. Foram quase quarenta quilômetros entre Módena e o vilarejo. Este, por sua vez, está a mais de cento e cinquenta quilômetros de Vicenza, local onde rastreou Adrian pela última vez. O percurso que a fera optou por fazer é incompreensível, considerando que a residência da família Conti está em Génova.
Nora aproxima-se da árvore que a ave está e pondera. Levar o cavalo para dentro da densa floresta é mais um risco do que um benefício. Cavalos são seres medrosos por natureza, e esse não parece gostar tanto de Vincenzo. Além disso, Nora sabe que encontrará uma fera, não um homem. É uma fera ainda pior que os lobos naturais, nascidos assim. Esses têm o temperamento conhecido por evitarem seres humanos e os ataques acontecem por disputas de território e sobrevivência; não agressividade sem propósito.
Por um instante, ela trava. A última vez que lidou com licantropos transformados foi tão aterrorizante quanto poderia. São seres grandes, pesados e muito fortes. Mesmo que o homem tenha certo domínio da fera, ainda é um lobo de proporções avantajadas. Nora, na época, tinha o corpo quase imortal e abençoado por duzentos anos de magia pura. Era muito mais forte que um homem comum, ágil e suportava grandes ferimentos.
Vincenzo não é um homem de grande estatura, embora tenha o corpo forte. As habilidades que ele pode ter são insignificantes, já que é Nora quem controla muito mal o corpo. Além disso, ela não quer usar magia para dominar o lobo porque tem medo do corpo de Vincenzo não suportar. E ela precisa da magia para transmutar a fera antes que a lua chegue ao céu.
O corvo cacareja. O cavalo bufa. E o sol escorre muito rápido em direção ao horizonte. Nora ajeita a espada, se recusa a pensar em Selena e adentra a floresta depois de pedir licença. Os primeiros trinta minutos de caminhada são casuais. A floresta está morna como é comum na primavera; o chão é úmido e o único animal que não para de cantar é a cigarra. Nora segue o corvo sem perceber nenhum sinal de lobo, nem mesmo pegadas. Às vezes, ela para, seca o suor e duvida. O corvo, por sua vez, a ronda com o grasnado alto e assustador para muitos.
De repente, a cigarra se aquieta. Nora olha para trás e não vê as próprias pegadas, embora a terra esteja úmida. Ela procura pelo corvo, que se desfez da realidade. O céu não é fácil de se avistar porque as copas das árvores são densas e altas. Ela anda mais alguns metros, e o angustiante silêncio desfaz graças ao canto muito distante da cigarra. Nora estranha porque há menos de três minutos a cigarra parecia estar em cima da sua cabeça de tão alto que cantava. Ela olha ao redor, nota a ausência de rastro e engole seco. O som da brisa batendo nas folhas das árvores que antes era suave aumenta gradativamente. Nora para um momento, concentra-se e parece ouvir o barulho da água correndo. Então, ela prepara-se para andar, mas não o faz. E neste momento, ela escuta o estalar de um galho.
A mão repousa no cabo da espada. O suor escorre pela nuca, impregnando as costas. A respiração fica tão alta que Nora para de ouvir todo o resto. Ela para, olha ao redor e teme prosseguir. O pensamento lhe arranca um suspiro alto. Mesmo que quisesse voltar, o rastro se perdeu e o corvo a deixou. Teme, então, que a floresta seja mágica. Nora retorna o percurso, atravessa pequenos troncos caídos e se vê em uma clareira. O céu azulado, com poucas manchas roxas, é visível. Nora enche os pulmões de oxigênio. O som de outro graveto sendo pisado ecoa. Ela tira a espada da bainha antes de vê-lo por trás dos arbustos.
Os olhos amarelos brilham. Nora recua um passo. O animal atravessa o arbusto. Nora recua mais um passo quando nota que o animal cresceu no tempo que esteve fora. Ele mantém a cabeça baixa, as orelhas eretas e o rabo baixo. Ela guarda a espada devagar e levanta as mãos.
— Adrian… — Nora fala o mais baixo que consegue. — Sou eu, Eleonora. — O lobo aproxima-se, e ela não recua mais. — Não é o meu corpo, é claro. Mas aqui dentro sou eu. Assim como você nesse momento.
Estão a menos de um metro de distância. O animal mantém a postura desconfiada enquanto fareja. Nora umedece os lábios, analisa o ambiente ao redor e as possibilidades. Enchendo o pulmão de ar fresco, ela prossegue:
— Eu vim te buscar. — O lobo inclina a cabeça. Nora dobra o corpo levemente para se aproximar da altura do animal e estende a mão com receio. — Está na hora de voltar.
O animal recua um passo, ergue a cabeça e fareja o ar, percebendo algo mais interessante. Prestes a se afastar, Nora atravessa o limite invisível e toca o animal nas costas. A aproximação causa uma reação rápida e feroz, e a mão de Vincenzo escapa por mero reflexo. O lobo franze o nariz e mostra os dentes caninos como aviso. O pelo das costas eriça. Lê-lo é como ver um cachorro pouco sociável que avisa o seu temperamento antes de atacar. Se Nora pudesse, recuaria. Porém, ela atravessou quilômetros, roubou mais um corpo e exauriu um cavalo ao máximo para encontrá-lo. Por isso, ciente da reação agressiva, Nora agarra o lobo pelo cangote e tenta prendê-lo entre as pernas para alcançar o pescoço. A melhor opção é quebrar o pescoço do animal, ciente que isso não o matará, para desmaiá-lo. Desmaiado, Nora o prenderá em um círculo mágico e executará a magia.
O animal reage muito rápido, mordendo a mão direita de Vincenzo. Nora grune e chuta as pernas dele para se soltar da mordida. O sangue esguicha. Nora pressiona a ferida, recua meio passo e retira a espada da bainha. O lobo rosna. A pelagem escura está eriçada. Ele se aproxima, ameaçador, cabeça baixa, dentes à mostra e os olhos amarelos brilhantes. Nora sustenta a espada com a mão esquerda com pouquíssima destreza.
— Pare de rosnar para mim! — Nora exige em meio a dor e o sangue. — Sou eu!
O lobo a rodeia, tentando descobrir o melhor lugar para atacar. A primeira tentativa é bloqueada pelo manejo correto da espada. A lâmina causa uma ferida no ombro esquerdo dele. Nora avança, e o animal é sagaz para evitá-la. Ele tenta morder a mão ferida. Nora defende-se com a espada e desfere golpes, dos quais três acertam os ombros, o rosto, próximo dos olhos, e o pescoço. O animal uiva. O sangue dele pinga. Nora tenta aproximar-se de forma mais incisiva, buscando dominá-lo pelas costas. O animal rosna, mordisca seus membros e ataca. A dominação é mais difícil do que apenas machucá-lo. As feridas, porém, por si só não produzem feitos além da morte.
Nora defende-se dos ataques com a espada. Todavia, a agressividade do animal a obriga a recuar muito. Ela tropeça em uma pedra escondida pela vegetação. A espada cai, e o lobo avança com pouquíssima consideração.
Em cima do corpo de Vincenzo, o animal tenta alcançar o rosto. Ela utiliza ambos os braços para se defender. O sangue jorra no rosto e pinta a grama verde. Nora agarra a boca do animal e tenta deslocá-la pela excessiva abertura. Porém, a força da mordida dele é muito forte. Ele escapa, e Nora se ergue para alcançar a espada sem sucesso.
O animal é raivoso, forte e imparável. Opta por atacar os membros inferiores. Nora geme alto quando sente que o osso da perna foi esmagado na mordida. Ela cai no chão, sangrando muito e sem nenhuma arma funcional. A evidente desvantagem é desconsiderada por Adrian, que não só a domina, como também a humilha.
Desta vez, ele agarra Vincenzo pelo ombro e o arrasta por alguns metros até a carne se soltar do corpo. Nora urra muito alto, ecoando na clareira, chora e geme. Mas o céu, daquele ângulo, nunca foi tão azul. E por um momento, Nora considera parar de lutar. Morrer naquele céu será belo e mais honroso que a morte anterior, da qual pouco se lembra. É miserável morrer pelas mãos de seu amante ao mesmo tempo que é muito justo considerando toda a dor que causou. Talvez esse seja o castigo necessário para libertar a sua alma. E desta vez, ela fecha os olhos e implora, pretende ficar morta.
O animal agarra o outro ombro de Vincenzo. O corpo é arrastado por mais três metros, e Nora assiste as nuvens se moverem. De repente, enxerga um coelho e sorri. Quando Dante era criança, e Selena tinha poucos meses, Nora adorava levá-los ao jardim bem cuidado da propriedade. Depois de estender o lençol, prendia as laterais com pedras. Geralmente escolhia se esconder embaixo da árvore de tangerina. O cheiro era agradável e protegia do sol. Quando a árvore estava cheia, ela colhia tangerinas tão saborosas quanto o fruto de Adão e Eva. Era bem assim que se sentia: no paraíso antes do pecado. E pensava no quão sortudos os filhos eram por experimentar aquela vida lenta, morna e muito afável.
As lágrimas caem. A dor em todo o corpo é pungente, e o sangramento causa uma mancha vermelha na vegetação por alguns metros. Nora desiste de lutar porque é impossível vencê-lo, assim pensa. Ou talvez simplesmente não queira. Revna foi covarde demais para libertá-la, mas Adrian não é.
Adrian não é.
Nora fecha os olhos, aceita o destino e é capaz de sussurrar um breve agradecimento. Ela tenta não pensar na alma de Selena que não encontrou paz, nem em Dante que perderá ambos os pais e ficará aos cuidados de Madalena e família. Imaginar o Adrian eternamente preso em um lobo cruel também é evitado.
Nora não pode salvar todos. Ela não foi capaz de salvar a própria filha.
De repente, o lobo para de arrastá-la. As mordidas nos ombros ardem muito. Nora abre os olhos, vê o céu límpido e escuta o farfalhar das asas do corvo. Ela vira a cabeça e contempla a imagem: a ave negra ataca o animal nos olhos, no focinho e na testa. As bicadas são severas e arrancam sangue. O cacarejo do corvo é alto, exigente. Nora chora, geme e repete que não aguenta mais. O lobo tenta mordiscar a ave, exibindo toda a dentição suja de sangue, mas não tem sucesso porque a ave é esguia e rápida.
Em um esforço sobrenatural, a sua magia sustentando o corpo desfeito, Nora senta-se. A espada está longe demais, e ela é incapaz de ficar de pé. Não há nada ao redor, senão pedras de pouco mais de dez centímetros. A ave berra muito alto, e o lobo torna-se cada vez irritado.
Ela escolhe a pedra menos pesada e acerta a cabeça do animal, entre as orelhas, com toda a força que resta no corpo. A força aparenta ser muita porque o lobo cambaleia por míseros instantes. Nora o ataca com mais ferocidade, acertando repetidas vezes a cabeça do animal. No quinto golpe a ferida grande se abre.
Toda a clareira antes verde está tingida em tons rubros. O corvo mantém os ataques nos olhos e focinho. Nora arrasta o corpo ferido de Vincenzo e o coloca de pé sob um único apoio; a perna que não foi atacada. As costas estão encurvadas, os membros trêmulos e a visão turva devido ao sangue e suor. No último ímpeto de força, Nora agarra o pescoço do animal pelas costas, erguendo as patas dianteiras do chão. O lobo pesado se debate muito. Nora cambaleia. Por fim, agarra o focinho dele e gira o pescoço. O estalo ecoa. O corpo do animal cai no chão. Nora cambaleia, limpando o suor. O corvo pousa em cima do lobo. Os cacarejos não cessam.
— O que foi?
O corvo salta, cacareja e mira o bico para o céu. O azul límpido é rapidamente substituído por tons rosados. Nora olha ao redor, procurando uma parte da grama que não esteja suja. Enquanto arrasta o corpo pesado do animal, o corvo utiliza o bico para formar um círculo. Nora posiciona Adrian no centro do pequeno círculo. De joelhos, incapaz de se sustentar por muito tempo, ela arranca um punhado de pelo e uma unha do animal. Não sabe quando terá outra chance. Um pouco do abundante sangue e duas pernas de corvo místico são usados para conduzir o feitiço antes que a lua suba ao céu.
Nora murmura as palavras do encantamento com toda força que resiste em Vincenzo. Os olhos escorrem; uma mistura de suor, sangue da testa e lágrimas. Ela nota que estava prestes a morrer e abandonar os filhos. Aceitou a possibilidade tão fácil, com tanta alegria, que sente vergonha. Os pensamentos são afastados.
A magia esgota o resto da força do corpo aos poucos. Nora concentra em pronunciar as palavras com a intenção bem clara. Seria menos difícil conduzir a magia se tivesse apoio dos objetos mágicos corretos, principalmente se fossem os objetos usados anteriormente. Por fim, o sangue consagrado queima. E antes de desmaiar, Nora escuta os primeiros ossos do lobo se quebrarem, retornando à forma humana.
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