Tempo da Bruxa
35 Quadro da sala
Naquela noite de lua cheia o céu não é estrelado. O crepitar da madeira soa mais distante do que realmente é. Ele tenta, mas não tem sucesso ao movimentar os membros do corpo, que são mais pesados e longos do que se lembra. A saliva, porém, causa um engasgo inevitável. E a tosse severa preenche o silêncio da noite. Sem opção, ele senta-se e tosse até que o sangue escorra. Duas escarradas são necessárias para limpar o pulmão. Por mero reflexo, Adrian usa as costas da mão para livrar-se da saliva misturada com sangue. Então, encara a mão sem reconhecê-la por completo.
Os dedos são obedientes aos comandos invisíveis. Ainda assim, a mão de cinco dedos, com o polegar opositor, não é familiar como deveria. Adrian abre e fecha os dedos várias vezes. Depois utiliza as mãos para apalpar os braços, os ombros, o rosto, o cabelo e, por fim, os dentes. Os traços lupinos se desfizeram por completo.
Adrian não consegue se levantar de imediato. Precisa ajoelhar-se para erguer o corpo bípede. O equilíbrio se desfaz. E é muito estranho ver o mundo daquele ângulo. Os primeiros passos são falhos, e Adrian não é capaz de segurar a manta nos ombros, expondo o corpo humano nu. A brisa noturna atormenta, e Adrian cai na tentativa de recuperar a manta. O mundo gira, e a tosse retorna. Mais algumas escarradas são necessárias para esvaziar o desconforto no estômago. O vômito amarga o paladar. A dor de cabeça que surge por trás dos olhos se torna insuportável aos poucos. E ele demora muito para notar que não está mais sozinho.
A fogueira improvisada dissipa o frio noturno comum às florestas e afasta coisas como animais selvagens. Coisas como ele. Adrian encara as mãos novamente, surpreso por ver o formato humano e a ausência das unhas longas que serviam como defesa há poucas horas. Mais tosse, mais enjoo e vômito. Adrian apoia-se sob quatro apoios na tentativa de se acalmar, mas não é certo. Simplesmente não é certo.
— Não seja tão dramático. — A voz soa como farfalhar de árvores. — Você está de volta.
Por um momento, Adrian teme que esteja cego. O mundo ao redor é um grande borrão, muito diferente da visão aguçada do lobo. Ele estreita os olhos. Muito devagar, o cérebro processa a nova forma de enxergar. E as outras duas figuras masculinas se constroem.
O homem agachado é totalmente desconhecido. Após esfregar uma pasta acinzentada no segundo homem, ele se levanta e limpa as mãos nas calças. A figura é bem alta e proporcional. O cabelo é louro-escuro; os olhos são verdes e o rosto é longo com as maçãs bem definidas, assim como as linhas de mandíbula, maxilar e queixo. Adrian pensa na aristocracia russa pela forma como o homem se movimenta; tão gracioso, delgado e completamente ciente das medidas que porta. Tão confortável na própria pele.
Por fim, Adrian nota que o segundo homem é Vincenzo Baccari. Ao menos, era Vincenzo Baccari. A aparência do primo está comprometida devido às feridas viscerais: o rosto está marcado por arranhões profundos que deixarão cicatriz; ambos os ombros estão enfaixados com um tecido grosso que antes era branco e agora está carmesim devido ao sangramento; ambos os braços também apresentam vergões de diferentes níveis de profundidade; porém, o mais perturbador é a perna que está imobilizada com cascas de árvore e bandagem suja de sangue.
Adrian avalia o próprio estado. A dor de cabeça não é um mero desconforto; é uma ferida de tamanho considerável que pinga sangue, sujando o corpo. Incontáveis machucados permeiam as pernas e os braços, assim como o tronco. O estado de cicatrização das feridas é muito diferente; algumas formam casquinhas que serão arrancadas em breve; outras são cicatrizes brancas bem secas. E há feridas recentes que sangram e doem. Parte dos hematomas têm a coloração amarelada, indicando o tempo que existem. A maioria, contudo, são roxos e azuis bem vivos. Por sorte, o processamento do cérebro em relação às feridas é lento devido à adrenalina do lobo que ainda corre nas veias. O dia seguinte é sempre pior.
— Sente-se. — O homem ordena.
Adrian nota que ainda está sob quatro apoios.
— Quem é você?
— Importa?
Adrian exibe um sorriso irônico. O homem revira os olhos.
— Você me conhece. — Ele gesticula. Adrian estreita os olhos. — Eu era menor quando nos vimos. E fedia a cachorro. — O sorriso dele é sagaz. — Uma ironia, não acha? Os licantropos aceitam a natureza que lhes foi dada com verdadeira alegria e orgulho. Nunca vão admitir, é claro. Mas o cheiro de cachorro molhado… — Revna tampa o nariz. — Não sai da pele.
— O que está fazendo aqui? — Adrian rosna. Revna aproxima-se. — O que está acontecendo?
— Se não me deixar cuidar dessa ferida…
Adrian agarra o pulso de Revna, impedindo-o de tocá-lo.
— Vai cicatrizar, eu garanto.
— É uma ferida profunda. Levará dias.
— Não me importo.
Revna solta o ar pelo nariz e deixa a pequena vasilha cair, misturando o creme cinza com pedacinhos de barro.
— Se é o que deseja…
Adrian encara a lua cheia e suspira. As memórias retornam devagar. A transformação foi violentamente forçada por Eleonora com a exigência de que retornasse antes da lunação. Ele olha ao redor, sem reconhecer nada. O cheiro, ainda que distante, não é familiar também. Adrian franze o cenho. O olfato apurado é uma característica comum entre os licantropos. Porém, nos anos em que foi apenas homem esqueceu-se completamente desse instinto. Agora todos os sentidos aflorados o perturbam.
— O que aconteceu? — Adrian repete. — Ele… — A ausência de iluminação impede que Adrian confira se o homem respira. — Está morto?
Revna exibe um largo sorriso. Adrian o detesta muito rápido. Vê-lo o imitando entre as sombras foi extremamente provocador. Todavia, vê-lo no que parece ser a sua verdadeira aparência causa náuseas fortíssimas. Baixinho, Adrian comenta: “é claro que é branco” e revira os olhos. Revna ri.
— Você gostaria que estivesse? — Revna inclina a cabeça. — Gostaria de saber que você o matou com as próprias patas?
Adrian encara as mãos humanas.
— Eu não…
— Você, sim! — Revna assobia. — Era esse o seu desejo, não? Eu ouço o seu coração, embora seja incapaz de entender porquê o despreza.
— Eu não queria matá-lo!
— Você queria, sim! Em vez de procurar a filha, atravessou o território para massacrar o seu rival.
Adrian afunda as mãos trêmulas no cabelo.
— Eu não… — A voz embarga. — Ele não…
Revna gargalha.
— Contarei sobre as suas lágrimas quando Vincenzo acordar!
Adrian pisca.
— Maldito fantasma! — Adrian tenta agarrar o homem. Revna se desfaz em sombras. A risada ecoa por toda a clareira. — Eu vou…
— Vai o quê? — Revna forma a aparência masculina próximo à fogueira improvisada. — Me matar? — O sorriso ultrapassa o sarcasmo. — Embora o seu potencial de destruição seja comovente, não pode me alcançar. Não seria novidade, é claro, que a criação se voltasse contra o criador.
Adrian nega.
— Não me canse com tantas insignificâncias. Diga apenas o que me interessa. — Revna estreita os olhos. — O que aconteceu? Por que Vincenzo está aqui? Onde estamos? Quanto tempo passou?
— O tempo determinado pela bruxa. Dez luas.
— Onde Eleonora está?
Revna exibe um largo sorriso.
— Não fui capaz de encontrar um hospedeiro melhor em tão pouco tempo… — Revna aproxima-se de Vincenzo. Adrian estreita os olhos. — Mas devo confessar que escolhê-lo me proporcionou prazer. O seu amor por ela é tão forte ao ponto de superar essa aparência?
Adrian franze o cenho conforme compreende.
— Por quê?
— Era a melhor opção. Era a única opção. Um ser-humano comum não suportaria.
Adrian aproxima-se do corpo de Vincenzo.
— Um ser-humano comum?
— Oh! — Revna finge surpresa. — Você não sabia… — A entidade ri. — É claro que não sabia. Mal suportava conversar com o seu primo. — Adrian range os dentes. Revna diverte-se. — A magia da família permanece nele.
— Magia? Do que está falando?
— Incrível, não? — Revna suspira. — Ficarei feliz em justificar a minha escolha. Porém, prefiro contar a história apenas uma vez. Voltaremos nesse assunto quando todos os interessados estiverem presentes. Posso adiantar que Vincenzo foi escolhido devido a proximidade e a capacidade de sustentar a alma de Eleonora durante o ritual que foi necessário para trazê-lo de volta. Admito que estou impressionado. Pensei que fosse impossível trazê-lo de volta. Não seríamos tão sortudos, não é?
Adrian agacha-se diante do corpo de Vincenzo. Daquele ângulo as feridas são piores do que aparentam. O cheiro de suor, sangue e terra causa náuseas. Com cuidado, Adrian chama por Eleonora diversas vezes. As pálpebras e a cabeça se movimentam. O primeiro sinal de consciência apresenta-se no movimento da perna ferida. Contudo, antes mesmo que os olhos se abram, Adrian sabe que não é Eleonora quem fala:
— O quê…?
Desta vez, Adrian avança mais rápido do que Revna se desfaz. O colarinho da camisa cede conforme Adrian o sacode.
— Mentiroso desgraçado! — Adrian o sacode mais. — Me conte a verdade!
Revna não se exalta quando ergue Adrian do chão pelo pescoço. Adrian, que além de tudo continua nu, se debate procurando apoio para os pés e tosse, agarrando o punho do homem. Revna o joga no chão como se lidasse com uma boneca de palha.
— Não me toque novamente. — A voz não é humana. — O único motivo de poupá-lo é a certeza de nunca ser perdoado por Eleonora. — Adrian tosse e massageia o pescoço. — Ao nascer do sol, quando saírem da floresta, haverá dois cavalos presos ao tronco mais próximo. Como homem, é o seu dever cuidar de quem cedeu o corpo para que fosse possível trazê-lo de volta. E como pai, deve buscar a sua filha.
— Adrian?! — Vincenzo exaspera.
Revna o observa e suspira.
— A alma dela está adormecida. — Adrian encara o primo. — Não sou capaz de despertá-la. — Eles se olham. — E ela não suportaria, de qualquer forma. Deixe que descanse por enquanto. O percurso de vocês é longo e cruel. — Revna encara o horizonte sem propósito. — Eu me ausento quando o sol nasce. E estarei de volta quando o sol se pôr. — Adrian ergue a cabeça quando a figura para diante dele. — Não seja tolo em acreditar que pode se esconder da escuridão. — Por mero reflexo, Adrian concorda com a cabeça. Revna debocha antes de desfazer-se em sombras: — Encontrarei vestes adequadas para você. É uma ofensa vê-lo em seu estado natural.
(...)
As árvores estão quietas, assim como todos os seres que habitam a floresta. O sol se prepara para adormecer em poucas horas, embora o tempo não passe de verdade. O mundo é uma bela pintura decorando a sala. Por isso, Nora também não se move. Sentada na grama curta, observa todos os detalhes da arte.
Diferente da região de Florença, os pinheiros são muitos e despojados de grande beleza. Adaptados às baixas temperaturas. A grama baixa constrói pouquíssima diversidade. Ainda assim, Nora é capaz de enxergar a beleza homogênea nos pinheiros, cedros e bétalas. E na permanência.
Incapaz de mensurar o tempo que está sentada, Nora levanta-se e caminha entre as árvores de troncos grandes, grossos e que produzem madeira para sustentar um país. As árvores de cedro são as favoritas; o aroma típico se destaca da monotonia comum no extremo norte. As unhas sujas de terra, como se tivesse trabalhado na roça durante dias, arrancam cascas do cedro. É uma mania que atravessou os séculos de existência. Não há, na opinião dela, cascas melhores para feitiços.
Nora caminha por tempo indeterminado, e o sol não produz efeitos; não há calor, frio ou suor. Se não tivesse experiência em florestas boreais, apostaria que perdeu-se entre às paisagens idênticas. Os pés seguem um caminho que mentalmente Nora desconhece. A familiaridade que arde nos membros a guia até a planície. E a umidade indica a existência de água em abundância. Mais alguns minutos e Nora encontra o rio de largura média e cumprimento incalculável. A correnteza é fraca, e os cascalhos são vistos nas bordas. Atravessá-lo não apresenta perigo. Nora opta por não fazê-lo, permanecendo nas bordas.
As mãos, os braços e o rosto são lavados com água gelada. O reflexo demora a surgir, e Nora surpreende-se ao ver a própria aparência. O rosto é oval com maçãs bem altas e definidas. Os olhos são expressivos, azuis acinzentados e pouco amendoados. Um tanto quanto retangulares, embora essa descrição não seja realista. Era assim que as crianças a caçoavam. A testa é um pouco maior que o queixo. Os lábios médios são proporcionais, assim como o nariz reto. As sobrancelhas são um pouco caídas, lhe dando um olhar eternamente melancólico. A pele combina bem com a região fria, clara como se estivesse morta. O cabelo é preto e cresceu através dos séculos.
Nora penteia as mechas com os dedos e não refaz o coque. É capaz de imaginar o quão assombrosa se torna, embora a água não a reflita por completo. O vestido é mais uma túnica branca sem corte. O cabelo longo, na altura dos joelhos, é o único ponto de cor.
Ela analisa novamente a correnteza fraca do rio, que difere-se da quietude antes observada na floresta. Nora arranca os sapatos simples e entra no rio até que a água molhe os joelhos e as pontas do cabelo. Quando sai, sente a brisa suave pela primeira vez. O mundo mantém-se silencioso. Se a floresta é uma pintura eternizada no cômodo da casa, Nora é a assombração.
(...)
— Precisa me contar o que está acontecendo…
Adrian pisca e balança a cabeça. É um tempo vergonhoso até notar que Vincenzo, de fato, está falando. A aparência do homem está mais deplorável. Os hematomas surgem em excesso já que a pele cor de defunto não esconde nada. Adrian não entende qual o problema dele em tomar sol. Ele revira os olhos, afasta o pensamento e bufa.
— O que você quer ouvir?
Vincenzo para o cavalo, de repente. Adrian anda mais de dois metros antes de virar a montaria em direção ao primo.
— Isso te diverte. — Vincenzo reclama. — Não é?
— Eu pareço me divertindo?
— Mais do que eu, garanto que sim. — Adrian franze a testa. — O seu desprezo por mim é mais do que conhecido. Tenha, portanto, o mínimo de hombridade para me contar porque estou em cima desse cavalo em uma estrada desconhecida. E porque você está aqui também.
— Você deveria ter a hombridade de chorar menos. — Vincenzo repuxa os lábios e o rosto roxo pelos machucados se torna vermelho. — É uma longa história. E depende do quão disposto está para acreditar.
Vincenzo inspira.
— Eu acredito em tudo. — Adrian ergue a sobrancelha. — Bem mais do que você.
Adrian volta a cavalgar. Vincenzo o acompanha.
— Você sabe?
— Depende. — Eles se olham. — Sobre quem você é? Sempre soube. Sobre Nora? Também. Imagino que isso tenha me trazido até aqui de alguma forma.
— Você… — Adrian ri. — E nunca… Como?!
Vincenzo balança os ombros e geme alto.
— Me lembro da sua mãe.
Desta vez, é Adrian quem interrompe a cavalgada. Vincenzo para em seguida.
— Como você…?
— Embora se sinta o centro do mundo; o começo e o fim… Eu ainda sou mais velho. Seis anos.
— Minha mãe…
— Agora somos parentes distantes. Antes, por uma década, moramos na mesma propriedade. Não se lembra? — Adrian se nega a responder. — Você só tinha quatro anos quando nos mudamos. Não deve se lembrar de muito.
— Não me lembro de nada. — Adrian retoma a cavalgada. — De você, um pouco.
Vincenzo pondera por um tempo antes de confessar:
— Em algum momento aprendi o que Anna era.
Muitas perguntas surgem. Adrian, contudo, recusa-se a depender de Vincenzo para entender a própria vida. Ainda mais quando o primo sustenta um ar tão aristocrático, o lembrando de sua existência miserável enquanto licantropo.
— Então não se surpreenderá ao saber que, de alguma forma, faz parte disso.
— Me surpreendo mais do que gostaria.
— Eu não sei tudo. — Adrian confessa, desviando o olhar. — Eu sei pouco, na verdade. Minha última memória como… homem — Ele amarga, de repente. — é infeliz. Nora me transformou naquilo. Sem permissão, sem direito. Não é como se ela precisasse.
— Por quê?
Adrian desvia o olhar.
— Selena. — Adrian engole a seco. — Eu deveria buscá-la. Era o que Nora queria. Eu deveria buscá-la antes da lua cheia. — Vincenzo o olha, franzindo o cenho. — É dispensável dizer que Selena não está em casa. Se estivesse, não estaríamos indo em direção à propriedade Conti. Não sei o que aconteceu. — Adrian esfrega a têmpora e a ferida na cabeça sangra. — As memórias não são lineares. Não há muito. Não há nada. Só… o cheiro. Não sou tão útil para sanar a sua curiosidade.
— Onde Nora está? — Adrian encara Vincenzo. Ele ergue as sobrancelhas enquanto compreende. — Aquele maldito a colocou aí dentro. Acredite que isso me agrada pouquíssimo. — Vincenzo ri. Adrian demora a aceitar que ele acha graça de algo. — Me conte a graça.
— Nenhuma. — Mas Vincenzo continua rindo. — Nenhuma, de fato.
Adrian aproxima-se e rouba as rédeas dele. Vincenzo para de rir.
— Não faça ser mais insuportável aguentá-lo.
Vincenzo, porém, não é mais um adolescente franzido e recupera as rédeas com ferocidade.
— Posso dizer o mesmo. — Vincenzo soa como o prenúncio de uma tempestade. — Suporto o seu temperamento, muitas vezes, porque estou em sua propriedade. Mas acredito que estamos bem longe de casa.
Adrian ri.
— É uma ameaça?
— A interpretação te pertence.
— Soberbo. — Adrian cospe. — Ainda mais quando consideramos que veio até mim em busca de apoio financeiro. Mais uma vez.
— O arrependimento que carrego por isso é indescritível, acredite. Farei o possível para compensá-lo.
Adrian solta a risada nasalada com deboche.
— Não canse o seu espírito com isso. Pouco interesse tenho em abóboras e ovelhas, que é tudo que você tem.
O rosto de Vincenzo fica vermelho.
— Você morde como o seu cavalo. — Adrian arqueia as sobrancelhas. — Pior ainda. Morde como o seu pai. Pouco entendo como Nora te suportou por tantos anos antes de, finalmente, se livrar de você.
Adrian salta do cavalo com muita facilidade e derruba Vincenzo da montaria. Ele urra quando a perna quebrada bate no chão e se arrasta. Adrian o alcança e senta-se sob ele.
— Vamos. — Adrian o puxa pelo colarinho. — Repita.
Vincenzo cerra os dentes e determina:
— Você pensa que é como a Anna, mas é um Palucci como o seu pai.
Os dois primeiros socos abrem uma ferida acima das sobrancelhas. Antes que Adrian o acerte pela terceira vez, Vincenzo inverte as posições com dificuldade e devolve a agressão. Adrian rosna raivoso e agarra o pescoço dele. Vincenzo o imita. E ambos lutam contra a falta de ar até que o grasnado da ave preta os interrompa. O corvo os bica com severidade. Vincenzo rola para o lado. A ave cacareja, os arranha e reclama muito.
— Você não é tão diferente de Abigail quanto pensa.
Vincenzo cospe o sangue no chão e senta-se. Adrian levanta-se. O corvo pousa em cima do cavalo, os vigiando.
— Não, eu não sou. Ainda somos filhos de quem somos.
Adrian se dispõe a levantá-lo. Vincenzo não se move. A ave cacareja.
— Confesse. — Adrian revira os olhos. Vincenzo repete: — Tenha o mínimo de dignidade e diga que precisa de ajuda.
— Não tenho dúvidas que preciso de ajuda, mas não a sua. — Adrian o ergue do chão e o ajuda a montar no cavalo. A ave grasna. — Você é um peso que preciso suportar porque esse maldito — Adrian se refere a ave. — colocou a minha mulher dentro do seu corpo.
E Vincenzo ri de novo.
(...)
Os uivos são o primeiro sinal de vida na floresta. Nora para de limpar as unhas com a pequena faca que encontrou dentro da casa e olha ao redor. O céu está rosado, indicando o crepúsculo em breve. A passagem do tempo naquela região, porém, é muito mais lenta do que está acostumada. Ela ri do próprio pensamento e franze o cenho, encarando as mãos pálidas. Os trezentos anos de vida construíram uma sintonia singular com o mundo. Ela larga a faca, franze o cenho e fecha os olhos.
Ela tenta pensar nos dias anteriores e se assusta quando pouquíssimo surge na mente. Consegue narrar os fatos mais importantes de sua vida em ordem cronológica: a infância; o aprendizado da bruxaria; a ida aos Cárpatos que a eternizou; a morte dos entes; os séculos vividos… Mas nada foi feito ontem.
Nora encara a cabana pequena feita com a melhor madeira da região. Não se lembra de quando foi construída, mas o interior está repleto de coisas familiares, como os grimórios, os livros favoritos, as peças de argila e os bordados que fez no tempo livre. A posição dos móveis a agradou, como se tivesse escolhido tudo. E o tapete persa no centro da cabana com certeza atravessou o meditarraneo e todo o Velho Mundo para agradá-la. Nada disso é impossível. Porém, como não se lembra de nada sobre o processo que com certeza levou anos? E por que saiu do coração da nova era e migrou para o extremo de novo?
Os uivos retornam e não pertencem aos lobos. Nora carrega a faca quando adentra a floresta novamente. O som da vida cresce aos poucos. As folhas da árvore fazem barulho ao serem tocadas pela brisa. Inicialmente, Nora não vê nada, mas sente a presença de pássaros e insetos variados.
A caminhada até a origem dos uivos é moderada. Antes de encontrar os seres que interrompem o silêncio sepulcral, Nora sente o cheiro de água de novo. Por isso, não se surpreende ao ver os três galgos russos alternando para beberem água.
Nora recua meio passo. Galgos russos são cachorros para a caça de lobos da nobreza russa. Ela ostenta a faca e verifica o perímetro várias vezes até se convencer que os animais estão sozinhos. A aproximação é facilitada pelo temperamento amável dos animais. Nora coça a cabeça da única cadela e ri quando ela franze o longo nariz.
— O que você faz aqui, querida? — Nora pergunta enquanto acaricia a cadela. — Vocês estão perdidos?
A cadela tem a pelagem completamente branca. Os companheiros apresentam manchas amarelas, comum à raça. Nora sorri ao observá-los e franze o cenho. É provável que esteja próxima de propriedades russas, e os cachorros pertençam a um nobre abastado. Porém, a coincidência de ter tudo o que adora, com tanta qualidade e facilidade, ao mesmo tempo é intrigante.
— É hora de irem para casa.
Nora despede-se e refaz o caminho para a cabana. Poucos minutos são necessários até que se convença que os cachorros estão a acompanhando sem nenhum convite. Nora para de andar e os encara.
— Vão para casa. — Ordena, séria. — Para a casa de vocês.
Os cachorros a encaram. Ela franze o cenho e os afasta com movimentos bruscos e falsos xingos. Eles desaparecem entre as árvores e os arbustos. Nora aproxima-se da cabana e nota duas coisas perturbadoras: a lareira e as velas foram acesas; os três borzois estão esperando na porta.
— Que merda é essa? — Nora sussurra e alcança a faca, ostentando-a enquanto se aproxima da casa. Os cachorros abanam os rabos, demonstrando familiaridade outra vez. Nora os empurra de lado e abre a porta, munida de uma pequena faca e muita desconfiança. — Revna?!
Revna está agachado perto da lareira, adicionando mais madeira ressecada para manter o fogo acesso. A panela de tamanho médio está suspensa sob o fogo, e o cheiro de mingau enche o ambiente. Nora não abaixa a faca. Revna levanta-se ao mesmo tempo em que a menina aproxima-se. O baque da faca assusta a criança, que recua meio passo. Nora também se afasta, incrédula. Variadas e excessivas perguntas surgem, e Nora não sabe porquê, mas tem certeza que não devia vê-la.
— Selena?!
A menina supera o medo e corre para Nora, abraçando-a pela cintura.
— Mamãe!
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